§ 20
[20] Atena é a inteligência de Zeus, sendo a mesma coisa que a sua providência[223], motivo por que são fundados templos de Atena Pronoia. Diz-se que nasceu da cabeça de Zeus[224], talvez porque os antigos entendiam que a autoridade das nossas almas[225] está lá – como outros depois dessas coisas pensaram, mas talvez porque a cabeça é a parte mais alta do homem, o éter, do mundo, onde a dominante dele é a substância da sabedoria. Segundo Eurípides, "O pico dos deuses é o éter brilhante em redor da terra"[226]. [Atena é sem mãe, porque a gênese da virtude é diferente, e não do tipo de nascidos a partir da união de duas coisas.] Então Zeus deu-a à luz, engolindo Métis[227], uma vez que é conselheira[228] e inteligente, o seu pensamento tem origem em nenhum outro lugar que no seu próprio conselho. É difícil apresentar uma etimologia para o nome Atena, por causa da antiguidade[229]. Vem disso contemplar tudo, como dizendo que ela era Atrena, porque, apesar de Atena ser feminina, ela participa menos na feminilidade e fraqueza. [Já outros, pelo facto de que a virtude não se apresenta a ser atacada e a subsistir.] E talvez, se “Ateneia”, como os antigos[230] diziam Atena, é moradora do éter. A sua virgindade é símbolo de pureza e de ser impoluta [; de facto, é isso a virtude]. É representada armada, e a história é que ela nasceu assim[231], o que sugere que a sabedoria está suficientemente preparada para as maiores e mais difíceis ações. Com efeito, os serviços de guerra são os que se julgam maiores. Por essa razão, atribuem-lhe ter muita masculinidade e um olhar de feroz, do tipo da aparência cinza[232]. Com efeito, os mais fortes dos animais selvagens, tais como leopardos e leões, têm olhos cinzentos, brilho difícil de ver a partir dos olhos. Porém, alguns afirmam que é apresentada assim porque o éter é cinza. É muito apropriado que participe da égide[233] de Zeus, não sendo outra coisa, pela qual Zeus parece aguentar tudo e superar. A cabeça de Górgona está no meio do peito da deusa[234], a língua estando projetada para fora, a razão é a coisa mais visível na organização do universo. Serpentes e a coruja[235] estão associadas a ela, porque têm semelhança dos olhos, são cinza. De facto, a serpente tem um olhar terrível, tem vigilância e falta de sono, e parece não ser fácil de apanhar [; e “um homem conselheiro não deve dormir a noite toda”[236]]. Diz-se Atrítone, como se não estivesse desgastada por nenhum trabalho ou visto que o éter é infatigável; e Tritogénia, porque ela é quem gerou o temer e temer pelos males – ora, declarou guerra contra o mal –, e outros dizem que por isso sugere os três tipos de reflexões em investigação filosófica; mas a maneira de entender isso é muito artificial para representar a perspetiva antiga. Ela é chamada de “Despertadora”[237], porque ativa os povos em batalhas [, é apelidada “Distribuidora do espólio”, pelo espólio,] ou melhor, porque ela é a salvação dos povos que a consultam. E de facto a inteligência deveria fazer a guarda da cidade, do lar e de toda a vida. Por isso, ela também é denominada “Defensora da cidade” e “Protetora da cidade”, como Zeus, “Guardião da cidade”: na realidade, ambos são supervisores de cidades. Diz-se Palas, por causa da sua juventude na mitologia e pelo que rapazes e raparigas são tratados; de facto, a juventude é leviana e instável. E constrói-se para ela principalmente nas acrópoles, pretendendo mostrar que é difícil de subjugar e difícil de sitiar, ou que olhe de cima para os que fogem para ela, ou sugerindo a elevação daquilo em virtude do qual Atena é uma parte da natureza. Os poetas chamam-na “Protetora”[238] e “Rebanho”[239], uma de repelir os que vão – de facto, é capaz de proteger e auxiliar, e a partir disso que ela também é designada “Vitória” –, outra por ela guiar os povos ou por ser indomável, como o gado comum, que lhe é especialmente sacrificado. Diz-se que inventou os aulos[240], assim como das outras sutilezas das artes, pelo que é patrona da fiação. Atirou fora, uma vez que as músicas passadas através deles emasculam as almas, e parecem ser as menos viris e guerreiras. A oliveira é um presente para ela, porque se desenvolve, e porque tem algo cinza. De igual modo, o azeite não é facilmente adulterado através de outro fluído, mas permanece sempre sem mistura, como parece ser congruente com a virgem. E designou-se “General”, porque se ocupa com a estratégia e a organização das guerras e a luta da justiça. De facto, é astuta em todas as coisas e a soma de todas as virtudes [; e chamam-na “Equestre”, “Domadora de cavalos”, “Lançadora de arpões” e muitas outras coisas. Montaram outrossim troféus a partir de madeira de oliveira, e, especialmente, a Vitória é feita para compartilhar o seu trono, a qual faz subjugar a um, quem prevalecer, tradicionalmente alado, porque as linhas de batalha se transformam rapidamente e são fáceis de mudar]. Transmite a tradição que Atena venceu a batalha contra os gigantes, e foi nomeada “Matadora de gigantes” por esse tipo de razão. Com efeito, é razoável pensar que os primeiros homens que nasceram da terra eram violentos e irascíveis uns com os outros, porque ainda não conseguiam chegar a decisões ou abanar a fonte de comunidade que estava neles. Mas os deuses, como se estivessem a estimulá-los e a lembrá-los de seus conceitos, prevaleceram. A capacidade permitida pela razão, em particular, combateu-os e colocou em ordem, de modo que parece que eles foram alterados e destruídos e não pareciam mais ser assim. Outros surgiram da mudança, e os que nasceram deles viveram juntos nas cidades sob Atena Guardiã da Cidade.