§ 19
[19] De facto, muitos atribuem-nas[215] a Atena e Hefesto. Atena, visto que parece ser própria da inteligência e esperteza. E Hefesto, porque a maioria das artes usa o fogo para produzir os seus trabalhos. De facto, Zeus é éter, brilhante e puro fogo. Hefesto, o [fogo] misturado com o ar que se usa, nomeado por ter sido aceso. Por isso, dizem que ele nasceu de Zeus e de Hera, mas uns, só de Hera[216]. Com efeito, as chamas são um pouco mais densas, como se existissem apenas devido ao ar que está a ser queimado[217]. Transmite a tradição que é coxo, talvez porque faz um andar torpe através da lama similar aos que mancam; mas talvez seja de não conseguir prosseguir sem algo de madeira, que fosse um bastão. Porém, uns afirmaram que ele coxeava, [pelo movimento] acima e abaixo provoca desigualdade e irregularidade, este último sendo mais lento. Diz-se que ele foi atirado do céu para a terra por Zeus, porque os primeiros [indivíduos] usaram de igual maneira o fogo começado a partir de um trovão, dado que nunca poderiam ter obtido a ideia por pensamento de coisas flamejantes. Disseram que a mulher dele era Afrodite[218], pela razão de que ela é uma das Graças[219]. Com efeito, assim como dizemos que as obras de arte são agradáveis, então dizemos que um certo prazer é difundido por elas, a menos que isso tenha sido inventado para mostrar que o impulso para o sexo é muito ardente. Diz o mito que Hefesto apanhou Ares a cometer adultério[220] com a esposa [; de fato, o mito pertence ao poeta[221], sendo muito antigo], porquanto ferro e bronze se dominam pelo poder do fogo. O [facto] do adultério mostra que o que é bélico e fantástico não se compagina de todo com o que é alegre e gentil, nem é a lei da natureza que delineia a relação. No entanto, de alguma forma, riposta, e o produto completado do relacionamento é belo e nobre, a harmonia derivada de ambos[222]. Diz-se que Hefesto foi parteiro de Zeus, quando ele deu à luz Atena, e cortando-lhe a cabeça, fê-la saltar para fora. De facto, o fogo que as artes usam ajuda a demonstrar a ingenuidade natural dos homens, como se a conduzissem para a luz quando ela estava escondida antes, e dizemos que aqueles, procurando descobrir algo, “concebem-no” e “trazem-no à luz”.