§ 16
[16] Transmite a tradição Hermes como seu líder, mostrando que favorecer deve ser razoável[157] e não aleatoriamente, mas para os que são dignos. De facto, o que foi tratado com ingratidão torna-se mais relutante em fazer o bem no futuro. Acontece que Hermes, sendo a razão, os deuses enviam-no do céu para nós, fazendo o homem sozinho de entre os animais na terra racional. Apelida-se por inventar o falar, por assim dizer, ou de ser o nosso baluarte e fortaleza. Mas então, primeiramente, é chamado “mensageiro”[158], seja por ser penetrante e distinto, ou por conduzir os nossos pensamentos para as almas dos que estão perto. E é, por conseguinte, que lhe dedicam línguas. Em seguida, é chamado de propício, de ser uma grande ajuda e por aqueles que o usam ultrapassarem em força, começando por ser salvador de lares [ou, segundo alguns, forte][159], e dizem-no gracioso, significando algo assim. De facto, a razão não é para o mal[160] e prejudicar, mas principalmente para salvar, e é por isso que puseram a Saúde a viver com ele. É matador de Argos, como argifanta[161], porque ilumina tudo brilhantemente e esclarece – com efeito, os antigos chamavam “argos” brilhante – ou por causa da rapidez do som – de facto, diz-se que “argos” também é rápido –, e “da Vara de Ouro”[162], porque é muito honroso ser atingido por ele, pois as advertências muito oportunas são de valor e também o arrependimento dos que as têm. Diz-se de ele ser o arauto dos deuses[163], e dizia-se que anunciava os seus feitos aos homens. E é um arauto, porque tem voz alta, para o significado racional para os ouvintes, e é um mensageiro[164], porque sabemos a vontade dos deuses a partir das considerações[165] incutidas em nós através da razão. Usa sandálias aladas[166] e é transportado pelo ar[167], é consistente com a ideia de “palavras aladas”[168], como tem sido chamado. De facto, é também por causa disto que designam Íris mensageira “ligeira como o vento”[169] e “redemoinho de vento”[170], também levados pelo nome. E a mitologia representa Hermes como o “transportador de almas”[171], associando a sua tarefa própria, transportar almas. Pelo menos por isso colocam na sua mão uma vara "com a qual encanta os olhos dos homens", certamente os da mente, “que deseje, mas novamente desperta os adormecidos”[172]. Ora, é capaz de estimular facilmente os fracos e organizar os estimulados. Por conseguinte, pensou-se que também envia os sonhos[173] e é profeta[174] [desta maneira], direcionando as coisas que se apresentam como quer: “e os sonhos também são mensageiros dos deuses.”[175] E as serpentes[176] que preenchem à volta da referida vara da forma da de um arauto são um símbolo de que as bestas também são enfeitiçadas e encantadas por ele, libertando-se das suas diferenças e ligadas elas juntas com ligação indissociável. Ora, por causa disso, a [vara] do arauto parece ser pacificadora. [De qualquer forma, os que vão à procura da paz também de ramos nas mãos lembram que a terra deseja ser cultivada e poupando plantas jovens e frutíferas.]. Disseram que Hermes nasceu de Maia para Zeus[177], novamente sugerindo através disso que a razão é nascida da contemplação e investigação. De facto, as que auxiliam as mulheres no parto são, por conseguinte, ditas parteiras porque, como no caso da investigação, trazem para a luz os fetos. Hermes é moldado sem mãos e pés e tem formato quadrado. Quadrado, por ter algo firme e seguro, que até as modificações dele são pedestais. Não tem mãos e pés, pois não são precisas mãos nem pés para lograr o que lhe é exposto. Os antigos fizeram os genitais dos Hermes mais antigos e barbudos direitos, mas os dos mais jovens lisos e flácidos, descrevendo que a razão produtiva está completa nos de idade avançada, [que atinge as metas que estabelece,] mas nos imaturos é infértil e imperfeita. Está sentado em estradas[178] e diz-se “das encruzilhadas” e “guia”, pois é necessário usá-lo como guia em todas as ações, e sendo assim, leva-nos, nas pretensões, para o caminho que precisamos seguir e talvez também por necessitar de solidão para o seu vigor e tratamento. Porque ele[179] é comum[180] e ele [está] em todos os homens e nos deuses, quando alguém encontra algo, a ir no caminho, habitualmente dizem que “Hermes é comum” [, que sabedor juntamente, sendo descobridor da encruzilhada], mostrando que consideram que é também “o encontrado”, por conseguinte os objetos encontrados são chamados “de Hermes”[181]. E amontoam pedras para os Hermes, cada qual adicionando uma, seja por isto ser algo público útil feito por cada indivíduo, através de limpar a estrada, quando invoca Hermes como testemunha, ou porque é honra para ele, se não tem mais nada para trazer para ele, ou porque torna o templo mais visível para os transeuntes; ou porque um símbolo que proferiu fala é composto de pequenos elementos. Também é, adequadamente, [o primeiro] a ser dito “da ágora”[182]. Com efeito, é superintendente de oradores públicos. E da “ágora”, também se estende àqueles que negociam e vendem algo, pois tudo deve ser feito de acordo com a razão. Portanto foi pensado como o superintendente dos mercados e foi nomeado “de negócios”[183] e “de lucro”[184], uma vez que é a única causa do lucro verdadeira para os homens. É inventor da lira[185], a partir da harmonia e consistência com que os vivos são felizes, quando se trata de ter uma disposição adequada. Estabeleceram o poder dele e através de imagens dispuseram que ele era um ladrão, e alguns fundaram o altar de Hermes Traidor[186]. De facto, furtivamente apaga as opiniões anteriores aos homens, e há momentos em que, pela persuasão, rouba a verdade, quando dizem que alguns usam “palavras ladras”. E, de facto, usar sofismas é pertença de indivíduos que usam a razão. Diz-se “de lei”[187], por que razão é a retificação prescritiva das coisas que, na comunidade, são para se fazer, e proibitiva de coisas que não são para se fazer. É graças à homonímia que ele foi apropriado para o cuidado de pastagens[188] também. Ele é outrossim honrado nas lutas junto de Héracles, porque é preciso usar de força junto com raciocínio. De facto, para alguém confiando apenas no poder do corpo, mas negligenciando a razão, que também trouxe as artes para a vida, poderia dizer-se adequadamente: "Divino, a tua força destruir-te-á."[189]