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Glória
Ben al Betif, digno chefe dos dervís, disse-lhes um dia: “Meus irmãos, muito conveniente é que useis com toda freqüência esta fórmula sagrada do nosso Alcorão: Em nome de Deus mui misericordioso, pois Deus usa de misericórdia e vós aprendereis a praticá-la com repetir freqüentemente os termos que recomendam uma virtude sem a qual poucos homens restariam sobre a terra. Mas, meus irmãos, abstende-vos de imitar esses temerários que a todo transe se jactam de trabalhar pela glória de Deus. Se um jovem imbecil sustenta uma tese sobre as categorias, tese presidida por um ignorante encasacado, não deixa de escrever em grossos caracteres no cabeçalho de sua tese: Ek Allah abron doxa: ad majorem Dei gloriam. Um bom muçulmano fez pintar o seu salão gravando em sua porta essa tolice; um saca carrega água para maior glória de Deus. É um costume ímpio, piedosamente posto em uso. Que diríeis de um pequeno tchauch que ao limpar a privada do nosso ilustre sultão gritasse: “Para maior glória do nosso invencível monarca”? Há certamente maior distância do sultão a Deus que do sultão ao pequeno tchauch.
“Que tendes de comum, vermes miseráveis da terra chamados homens, com a glória do Ser Infinito? Pode ele amar a glória? Pode recebê-la de vós? Pode saboreá-la? Até quando, bípedes implumes, fareis Deus. à vossa imagem? Como!. Por serdes vãos, porque amais a glória, pretendeis que Deus a ame também Se existissem vários deuses, cada um deles, é possível, poderia desejar obter o sufrágio dos seus semelhantes. Seria essa a glória de Deus. Se se pudesse comparar a grandeza infinita com a extrema baixeza, esse Deus seria como o rei Alexandre ou Scander, que não desejava entrar em lide senão com reis. Mas vós, pobres diabos, que glória poderíeis dar a Deus? Cessai de profanar o seu nome sagrado. Um imperador chamado Otávio Augusto proibiu que o louvassem nas escolas de Roma por temer que seu nome fosse envilecido. Mas vós não podeis nem envilecer o ente supremo nem honrá-lo. Humilhai-vos, adorai e calai-vos”.
Assim falou Ben al Betif; e os dervis exclamaram: “Glória a Deus! Ben al Betif bem falou”.
Graça
Consultores sagrados da Roma moderna, ilustres e infalíveis teólogos, ninguém mais do que eu respeita vossas divinas decisões; mas se Paulo Emílio, Cípião, Catão, Cícero, César, Tito, Trajano, Marco Aurélio tornassem a essa Roma a que dedicavam outrora certo crédito, havíeis de dizer-me que ficariam um tanto admirados de vossas decisões sobre as graças. Que diriam eles se ouvissem falar da graça de saúde segundo Sto. Tomás e da graça medicinal segundo Cajetan; da graça exterior e interior, da graça gratuita, da santificante, da atual, da habitual, da cooperante; da eficaz, que algumas vezes não surte efeito; da suficiente, que às vezes não basta; da versátil e da côngrua? Em boa fé, compreenderiam eles mais do que eu e vós?
Que necessidade teriam esses pobres homens de vossas instruções sublimes? Parece-me ouvi-los dizer:
Meus reverendos padres, sois uns gênios terríveis; pensávamos tolamente que o Ser Eterno não se guia jamais pelas leis particulares como os vís humanos, mas sim por suas leis gerais, eternas como eles. Nenhum de nós jamais imaginou que Deus se assemelhasse a um suserano insensato que concede um pecúlio a um escravo e recusa alimentação a outro; que ordena ao maneta amassar-lhe a farinha, a um mudo que lhe leia o jornal, a um perneta que lhe sirva de mensageiro.
Tudo é graça da parte de Deus. Fez, ao globo que habitamos, a graça de formá-lo; às árvores, a graça de fazê-las crescer; aos animais a de os nutrir. Mas, – dir-se-á – no caso de um lobo encontrar no seu caminho um cordeiro para seu almoço, enquanto outro lobo morre de fome, terá feito Deus a esse primeiro lobo uma graça particular? Ter-se-á ocupado, por uma graça obsequiosa, em fazer nascer um carvalho de preferência a outro carvalho ao qual faltou seiva? Se em toda a natureza todos os seres estão sujeitos às leis gerais, por que motivo uma única espécie constituiria exceção? Por que deveria o senhor absoluto de tudo ocupar-se mais em dirigir o interior de um único homem do que conduzir o resto da natureza inteira? Por que extravagância mudaria ele alguma coisa no coração de um curlandês ou biscainho, enquanto nada modifica das leis que impôs a todos os astros?
Que miséria o supor que ele faz, desfaz, refaz continuamente nossos sentimentos! E que audácia o nos julgarmos à parte de todos os seres! Ainda não é senão para aqueles que confessam serem todas essas mudanças imaginadas. Um savoiano, um bergamásio, terá na segunda feira a graça de mandar dizer uma missa por doze soldos; na terça irá à tasca, e a graça lhe faltará; na quarta terá uma graça cooperante que o conduzirá à confissão, mas não terá a graça eficaz da contrição perfeita; na quinta feira haverá uma graça suficiente que não lhe bastará, como já dissemos. Deus trabalhará continuamente no cérebro desse bergamásio, ora com energia, ora debilmente, e o resto da terra nada será para ele! Não se dignará imiscuir-se no interior dos hindus e dos chineses! Se ainda vos sobrar uma partícula de razão, meus reverendos padres, não achais esse sistema prodigiosamente ridículo?
Desgraçados, vede esse carvalho que alevanta a fronde às nuvens e esse caniço que rasteja a seus pés! Não direis que a graça eficaz foi dada ao carvalho e faltou ao caniço. Elevai os olhos ao céu, vede o eterno demiurgo criando milhões de mundos que gravitam todos entre si mercê de leis gerais e eternas. Vede a mesma luz refletir-se do Sol a Saturno e de Saturno a nós; e, nesse acordo de tantos astros arrastados por uma rápida corrente, nessa obediência geral de toda a natureza, ousai crer, se o puderdes, que Deus se ocupa em conceder uma graça versátil a sóror Teresa e uma graça concomitante a sóror Inês.
Átomo, a quem um tolo átomo disse que o Eterno tem leis particulares para alguns átomos de tua vizinhança; que ele concede sua graça àquele e nega-a a este; que aquele que não possuía graça ontem te-la-á amanhã, – não repitas essa tolice. Deus fez o universo e não criará ventos novos para remover alguns gravetos de palha num canto desse universo. Os teólogos são como os combatentes de Homero, que acreditavam que seus deuses ora se armavam contra eles, ora a seu favor. Se Homero não fosse considerado como poeta, se-lo-ia como blasfemador.
É Marco Aurélio quem fala e não eu: porque Deus, que vos inspira, me concede a graça de acreditar em tudo o que dizeis, tudo o que tendes dito, tudo o que disserdes.
Guerra
A miséria, a peste e a guerra são os três ingredientes mais famosos deste mundo vil. Podem-se colocar na classe da miséria todas as más alimentações a que a penúria nos força a recorrer para abreviar nossa vida na esperança de a suster.
Compreendem-se na peste todas as doenças contagiosas, que são em número de, dois ou três mil. Esses dois presentes nos vêm da Providência, A guerra, porém, que reúne todos esses dons, nos vem da imaginação de trezentas ou quatrocentas pessoas disseminadas pela superfície do globo sob o nome de príncipes ou ministros; é provavelmente por essa razão que em várias dedicatórias se chamam imagens vivas da Divindade [31] .
O mais determinado adulador convirá sem esforço em que a guerra acarreta sempre a peste e a miséria, por pouco que tenha visto os hospitais dos exércitos da Alemanha [32] , ou que tenha passado em aldeias onde se fez algum grande movimento militar.
É sem dúvida uma bela arte a de desolar os campos, destruir as casas e fazer morrer, anualmente, quarenta mil homens sobre cem mil. A principio essa invenção foi cultivada por nações reunidas para o bem comum; por exemplo, a dieta dos gregos declarou à dieta da Frígia e dos povos vizinhos que ia partir num milheiro de barcos de pesca a fim de os exterminar, se o pudesse.
O povo romano reunido julgou ser de seu interesse ir combater antes da colheita contra o povo dos véios ou contra os volscos. E, alguns anos antes, todos os romanos, estando encolerizados contra todos os cartagineses, bateram-se longo tempo em mar e em terra. Não sucede o mesmo hoje em dia.
Um genealogista prova a um príncipe que este descende em linha reta de um conde cujos pais tinham feito um pacto de família, há trezentos ou quatrocentos anos, com uma casa de que nem sequer existe memória. Essa casa tinha vastas pretensões sobre uma província cujo último possessor morreu de apoplexia: o príncipe e seu conselho concluem sem dificuldade que essa província lhe pertence por direito divino. Essa província, que está situada a algumas centenas de léguas, perde seu tempo em protestar que não o conhece, que não tem nenhum desejo de vir a ser governada por ele; que, para dar leis à gente, é preciso ao menos ter o seu consentimento: tais discursos chegam aos ouvidos do príncipe, cujo direito é incontestável. Este encontra imediatamente um grande número de homens que nada têm que fazer nem que perder; veste-os com um grosso pano azul a cento e dez soldos cada um, borda seus chapéus com fio branco ordinário, fá-los manobrar um pouco e marcha para a glória.
Os outros príncipes que ouvem falar desse exército tomam parte nele, cada um segundo seu poder, e cobrem uma pequena planície do país de tantos matadores mercenário como Gengis Cã, Tamerlão, Bajazés jamais tiveram em seu séquito.
Povos bastante afastados ouvem dizer que vai haver guerra e que há cinco ou seis soldos diários a ganhar se quiserem participar da coisa: dividem-se dentro em pouco em dois bandos, como ceifeiros, e vão vender seus serviços a quem os queira empregar.
Então essas multidões se atiram umas contra outras, não só sem ter interesse algum no processo, mas sem mesmo saber do que se trata. São seis potências beligerantes ao mesmo tempo, ora três contra três, ora duas contra quatro, ora uma contra cinco, detestando-se todas igualmente entre si, unindo-se e atacando turno a turno; todas de acordo num único ponto, o de fazer todo o mal possível.
O maravilhoso dessa empresa infernal é que cada chefe dos matadores faz benzer suas bandeiras e invoca solenemente a Deus antes de ir exterminar o próximo.
Se um chefe não teve a felicidade de fazer degolar senão dois ou três mil homens, não agradece a Deus; mas assim alcance um ativo de uns dez mil exterminados pelo fogo e pelo ferro, e por cúmulo de graça alguma cidade seja totalmente destruída, então canta-se aos quatro ventos uma longa canção, composta numa língua desconhecida de todos os que combateram e repleta de barbarismos. A mesma canção serve tanto para os casamentos ou nascimentos como para as mortes: o que é imperdoável, sobretudo na nação mais famosa por suas novas canções.
Paga-se por toda parte um certo número de arengadores a fim de celebrar essas jornadas mortíferas; uns vestem-se com longos gibões pretos, encimados por uma capa curta; outros usam uma camisa por cima da roupa; outros levam um tirante matizado por cima da camisa. Todos falam muito; citam o que se fez outrora na Palestina, a propósito de um combate em Veterávia.
O resto do ano esses indivíduos declamam contra os vícios. Provam em três pontos e por antíteses que as damas que espalham ligeiramente um pouco de carmim nas bochechas serão objeto de eternas vinganças do Eterno; que Polieuto e Atália são obras demoníacas; que um homem que manda pôr sobre sua mesa duzentos escudos de peixe fresco num dia de quaresma beneficia sua saúde, e que um pobre homem que come dois soldos de carneiro irá para sempre a todos os diabos.
De cinco ou seis mil declamações dessa espécie, apenas existem três ou quatro, compostas por um gaulês chamado Massilão, que um homem honesto pode ler sem desgosto; mas em todos esses discursos não há um só orador que ouse insurgir-se contra esse flagelo e esse crime da guerra, que contém todos os flagelos e todos os crimes. Os desgraçados arengadores falam sem cessar contra o amor, que é a única consolação do gênero humano e a única maneira de o reparar; nada dizem dos esforços abomináveis que fazemos para destruí-lo.
Fizestes um péssimo sermão sobre a impureza, ó Bourdaloue! mas nenhum sobre essas mortes variadas em tantos lugares, sobre essas rapinas, sobre esses banditismos, sobre essa raiva universal que desola o mundo. Todos os vícios reunidos de todas as idades e de todos os lugares jamais igualarão os males produzidos por uma única campanha.
Miserável módico de almas, gritais durante cinco quartos de hora por causa de algumas picadas de espinho e nada dizeis sobre a enfermidade que nos estraçalha em mil pedaços! Filósofos moralistas, queimai todos os vossos livros, Enquanto o capricho de alguns homens fizer lealmente degolar milhares de nossos confrades, a parte do gênero humano consagrada ao heroísmo será o que de mais afrontoso existe em toda a natureza.
Que são, que me importam a humanidade, a beneficência, a modéstia, a temperança, a doçura, a sabedoria, a piedade, quando meia libra de chumbo atirada de seiscentos passos me inutiliza o corpo e morro aos vinte anos entre padecimentos inexprimíveis, no meio de cinco ou seis mil agonizantes, enquanto meus olhos que se abrem pela última vez vêem a cidade em que nasci destruída pelo fogo e pelas chamas, e os derradeiros sons que meu ouvido percebe são gritos de mulheres e de crianças que expiram sob as ruínas, tudo pelos pretensos interesses de um homem que não conhecemos?
E o que é pior, a guerra é um flagelo inevitável, Se observarmos bem, todos os homens adoraram o deus Marte. Sabaote, entre os judeus, significa o deus das armas; mas Minerva, em Homero, considera Marte um deus furioso, insensato e infernal.