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Dicionário Filosófico

Voltaire · F

F

Fábulas

Não são as mais antigas fábulas visivelmente alegóricas? A primeira que conhecemos dentro de nossa maneira de calcular o tempo não é aquela que vem no nono capítulo do livro dos Juizes? Tratava-se de escolher um rei entre as árvores; a oliveira não queria abandonar o cuidado do seu azeite, nem a figueira o de seus figos, nem a vinha o de seu vinho, nem as outras árvores o de seus frutos; o espinheiro, que nada tinha de bom, tornou-se rei, porque tinha espinhos e podia praticar o mal

A antiga fábula de Vênus, tal como a relata Hesíodo, não é uma alegoria de toda a natureza? As partes da geração caíram do éter às costas do mar; Vênus nasce dessa escuma preciosa; seu primeiro nome é o de amante da geração: existirá imagem mais sensível Vênus é a deusa da beleza; a beleza deixa de ser amada se caminhar sem as graças; a beleza faz nascer o amor; o amor tem qualidades que trespassam os corações; leva uma venda que esconde os defeitos do objeto amado.

A sabedoria é concebida no cérebro do senhor dos deuses sob o nome de Minerva; a alma do homem é um fogo divino que Minerva mostra a Prometeu, que se serve desse fogo divino para animar o homem.

É impossível deixar de reconhecer nessas fábulas uma pintura viva de toda a natureza. A maioria das outras fábulas são ou corrupções de histórias antigas ou caprichos da imaginação. Sucede com as antigas fábulas o mesmo que com os nossos contos modernos: há as morais que são encantadoras; outras são insípidas.

Falsidade das Virtudes Humanas

Quando o duque de La Rochefoucaud escreveu os seus pensamentos sobre o amor próprio, pondo a descoberto esse impulso do homem, um senhor Espírito, do Oratório, escreveu um livro capcioso intitulado: Da falsidade das virtudes humanas. Diz esse Espírito que a virtude não existe; mas, por graça termina cada capítulo reconsiderando a caridade cristã. Assim, segundo o senhor Espírito, nem Catão, nem Aristides, nem Marco Aurélio, nem Epicteto foram pessoas de bem; estas apenas podem ser encontradas entre os cristãos. Entre os cristãos, apenas os católicos são virtuosos ; entre os católicos seria ainda necessário excetuar os jesuítas, inimigos dos oratorianos; portanto a virtude não se acha senão entre os inimigos dos jesuítas.

Esse senhor Espírito começa por dizer que a prudência não é uma virtude, e a razão é o ser freqüentemente enganada. É como se se dissesse que César não foi um grande capitão por ter sido derrotado em Dirráquio.

Se o senhor Espírito fosse um filósofo, não teria examinado a prudência como uma virtude e sim como um talento, como uma qualidade útil, feliz: pois um celerado pode ser prudente e eu conheci gente dessa espécie. Que infâmia pretender que ninguém pode ter virtude senão nós e nossos amigos! [30] .

Que é a virtude, meu amigo? É praticar o bem: pratiquemo-lo e será o suficiente. Então, nós te explicaremos o motivo. Como! Segundo teu modo de ver não existiria nenhuma diferença entre o presidente de Thou e Ravaillac, entre Cícero e esse Popílio ao qual ele salvou a vida e que lhe cortou a cabeça por dinheiro? E considerarás Epicteto e Porfírio libertinos por terem seguido os nossos dogmas? Tamanha insolência revolta. E não vou adiante para não perder as estribeiras.

Fanatismo

Fanatismo é para a superstição o que o delírio é para a febre, o que é a raiva para a cólera. Aquele que tem êxtases, visões, que considera os sonhos como realidades e as imaginações como profecias é um entusiasta; aquele que alimenta a sua loucura com a morte é um fanático. João Diaz, retirado em Nuremberg, firmemente convicto de que o papa é o Anticristo do Apocalipse e que tem o signo da besta, não era mais que um entusiasta; Bartolomeu Diaz, que partiu de Roma para ir assassinar santamente o seu irmão e que efetivamente o matou pelo amor de Deus, foi um dos mais abomináveis fanáticos que em todos os tempos pôde produzir a superstição.

Polieuto, que vai ao templo num dia de solenidade derrubar a destruir as estátuas e os ornamentos, é um fanático menos horrível do que Diaz, mas não menos tolo. Os assassinos do duque Francisco de Guise, de Guilherme, príncipe de Orange, do rei Henrique III, do rei Henrique IV e de tantos outros foram energúmenos enfermos da mesma raiva de Diaz

O mais detestável exemplo de fanatismo é aquele dos burgueses de Paris que correram a assassinar, degolar, atirar pelas janelas, despedaçar, na noite de São Bartolomeu, seus concidadãos que não iam à missa.

Há fanáticos de sangue frio: são os juizes que condenam à morte aqueles cujo único crime é não pensar como eles; e esses juizes são tanto mais culpados, tanto mais merecedores da execração do gênero humano, quanto, não estando tomados de um acesso de furor como os Clément, os Chatêl, os Ravaillac, os Gérard, os Damien, parece que poderiam ouvir a razão.

Quando uma vez o fanatismo gangrenou um cérebro a doença é quase incurável. Eu vi convulsionários que, falando dos milagres de S. Páris, sem querer se acaloravam cada vez mais; seus olhos encarniçavam-se, seus membros tremiam, o furor desfigurava seus rostos e teriam morto quem quer que os houvesse contrariado.

Não há outro remédio contra essa doença epidêmica senão o espírito filosófico que, progressivamente difundido, adoça enfim a índole dos homens, prevenindo os acessos do mal porque, desde que o mal fez alguns progressos, é preciso fugir e esperar que o ar seja purificado. As leis e a religião não bastam contra a peste das almas; a religião, longe de ser para elas um alimento salutar, transforma-se em veneno nos cérebros infeccionados. Esses miseráveis têm incessantemente presente no espírito o exemplo de Aode, que assassina o rei Eglão; de Judite, que corta a cabeça de Holoferne quando deitada com ele; de Samuel, que corta em pedaços o rei Agague. Eles não vêem que esses exemplos respeitáveis para a antigüidade são abomináveis na época atual; eles haurem seus furores da mesma religião que os condena.

As leis são ainda muito impotentes contra tais acessos de raiva; é como se lêsseis um aresto do Conselho a um frenético. Essa gente está persuadida de que o espírito santo que os penetra está acima das leis e que o seu entusiasmo é a única lei a que devem obedecer.

Que responder a um homem que vos diz que prefere obedecer a Deus a obedecer aos homens e que, consequentemente, está certo de merecer o céu se vos degolar?

De ordinário, são os velhacos que conduzem os fanáticos e que lhes põem o punhal nas mãos: assemelham-se a esse Velho da Montanha que fazia – segundo se diz – imbecis gozarem as alegrias do paraíso e que lhes prometia uma eternidade desses prazeres que lhes havia feito provar com a condição de assassinarem todos aqueles que ele lhes apontasse. Só houve uma religião no mundo que não foi abalada pelo fanatismo, é a dos letrados da China. As seitas dos filósofos estavam não somente isentas dessa peste como constituíam o remédio para ela: pois o efeito da filosofia é tornar a alma tranqüila e o fanatismo é incompatível com a tranqüilidade. Se a nossa santa religião tem sido freqüentemente corrompida por esse furor infernal, é à loucura humana que se deve culpar.

Assim, das asas que teve, Ícaro perverteu o uso; teve-as para seu bem e as empregou em seu dano . (Bertaud, bispo de Séez).

Fim, Causas Finais

Parece que seria preciso estar fora de si para negar que os estômagos sejam feitos para digerir, os olhos para ver e os ouvidos para ouvir. De outro lado, é preciso ter um estranho amor às causas finais para afirmar que a pedra foi feita para construir casas e que os bichos da seda nasceram na China para que tenhamos cetim na Europa.

Mas, objeta-se, se Deus fez visivelmente uma coisa preconcebida, fez portanto todas as outras com um desígnio. É ridículo admitir a Providência num caso e negá-la em outros. Tudo o que está feito foi previsto, coordenado. Nenhuma coordenação há sem objeto, nenhum efeito sem causa; portanto tudo é igualmente o resultado, o produto de uma causa final; portanto é tão verdadeiro dizer que os narizes foram feitos para levar lunetas e os dedos para ser ornados de diamantes quanto é verdade que os ouvidos foram feitos para ouvir os sons e os olhos para receber a luz.

Creio ser muito fácil esclarecer essa dificuldade. Quando os efeitos são invariáveis em todo lugar e em todos os tempos, quando esses efeitos uniformes são independentes dos seres a que pertencem, então existe uma causa final visível.

Todos os animais têm olhos, e enxergam; todos têm uma boca com a qual comem; um estômago ou coisa semelhante, pelo qual digerem; todos, um orifício que expele os excrementos, todos um órgão gerador: e esses dons da natureza operam neles sem auxílio de meios artificiais. Eis ai causas finais claramente estabelecidas, e seria perverter nossa faculdade de pensar pretender negar uma verdade tão universal. Porém as pedras, em toda parte e em todos os tempos, não fazem construções. Nem todos os narizes levam lunetas. Nem todos os dedos têm anel; nem todas as pernas são cobertas por uma meia de seda. Um bicho de seda, portanto, não foi criado para cobrir as pernas assim como a vossa boca foi feita para comer e vosso posterior para ir à secreta. Existem, pois, efeitos produzidos por causas finais e grande número de outros que não o são.

Porém tanto uns como outros figuram igualmente no plano da providência geral: nada sem dúvida pode ser feito mau grado seu, nem mesmo sem ela. Tudo que pertence à natureza é uniforme, imutável, é obra imediata do Senhor; foi ele quem criou leis pelas quais a Lua entra em três quartos nas causas do fluxo e do refluxo do oceano e o Sol no quarto; foi ele que deu movimento de rotação ao Sol, mediante o qual esse astro envia, em cinco minutos e meio, raios de luz aos olhos dos homens, dos crocodilos e dos gatos.

Mas se depois de tantos séculos nós nos lembramos de inventar tesouras e espetos, de tosquiar com umas a lã dos carneiros e de os cozer com os outros para comê-los, que outra coisa se pode inferir senão. que Deus nos fez de modo que um dia nos tornássemos necessariamente industriosos e carniceiros?

Naturalmente os cordeiros não foram feitos de forma alguma para ser cozidos e comidos, porquanto grande número de nações se abstêm dessa coisa horrorosa; os homens não foram criados essencialmente para se chacinarem, pois os brâmanes e os quakers não matam ninguém; mas a massa de que somos feitos produz morticínios freqüentes, assim como produz calúnias, vaidades, persecuções e impertinências. Não que a formação do homem seja precisamente a causa final de nossos furores e de nossas tolices: porque uma causa final é invariável em todos os tempos e lugares; porém os horrores e os absurdos da espécie humana não figuram menos na ordem eterna das coisas. Quando batemos o trigo, o batedor é a causa final da separação do grão. Mas se esse batedor, batendo o grão, esmaga também milhares de insetos, não é por nossa vontade determinada, nem tão pouco por acaso: é que esses insetos se encontraram nessa ocasião sob o nosso cacete e aí deviam estar.

É em virtude da natureza das coisas que um homem é ambicioso, que esse homem arregimenta algumas vezes outros homens, que seja vencedor ou que seja batido; mas jamais se poderá dizer: o homem foi criado por Deus para ser morto na guerra.

Os instrumentos que a natureza nos deu não podem ser sempre causas finais em movimento, que tenham efeito infalível. Os olhos, dados para ver, não estão sempre abertos; cada sentido tem seus momentos de repouso. Existem até sentidos que nunca usamos. Por exemplo, uma pobre imbecil, encerrada num convento aos catorze anos, fecha para si a porta de onde deveria sair uma nova geração, para sempre; mas a causa final não deixa de subsistir, ela agirá logo que seja livre.

Fraude

Se é preciso usar de fraudes piedosas com o povo.

O faquir Bambabefe encontrou um dia um dos discípulos de Cong-fu-tseu, que chamamos Confúcio, e esse discípulo chamava-se Uang; e Bambabefe sustinha que o povo tem necessidade de ser enganado, e Uang pretendia que jamais se deve enganar quem quer que seja; e eis em resumo a sua disputa. Bambabefe

É preciso imitar o Ente Supremo, que não nos mostra as coisas tais como são; ele nos faz ver o Sol sob um diâmetro de dois ou três pés, não obstante esse astro ser um milhão de vezes maior do que a Terra; ele nos faz ver a Lua e as estrelas deitadas sobre um mesmo fundo azul, enquanto na realidade estão a distâncias diferentes; quer que uma torre quadrada nos pareça redonda de longe; quer que o fogo nos pareça quente, apesar de não ser nem frio nem quente; enfim ele nos cerca de erros convenientes a nossa natureza. Uang

Isso a que chamais erro não o é absolutamente. O Sol, tal como está colocado a milhões de milhões de léguas além do nosso globo, não é o que vemos. Realmente, nós não percebemos, nem podia deixar de sê-lo, senão o Sol que se grava em nossa retina, sob um ângulo determinado. Nossos olhos não nos foram dados para conhecermos as grandezas e as distâncias; são precisos outros recursos e operações para conhecê-las.

Bambabefe ficou muito admirado dessas proposições. Uang, que era muito paciente, explicou-lhe a teoria da ótica; e Bambabefe, que tinha um certo tino, rendeu-se à evidência das demonstrações do discípulo de Cong-fu-tseu; em seguida reencetou a disputa nestes termos: Bambabefe

Se Deus não nos engana quanto aos nossos sentidos, como eu pensava, deveis convir ao menos em que os médicos enganam sempre as crianças para o seu próprio bem: dizem-lhes que lhes estão dando açúcar, e na realidade trata-se de ruibarbo. Portanto, meu caro faquir, posso muito bem enganar o povo, que é tão ignorante como as crianças. Uang

Tenho dois filhos e jamais os enganei; disse-lhes quando estiveram doentes: “Eis um remédio muito amargo, é preciso ter coragem para tomá-lo; se fosse doce vos faria mal”. Nunca admiti que suas amas e seus preceptores lhes metessem medo contando-lhes histórias de feitiçarias; é assim que os criei, como cidadãos corajosos e sábios. Bambabefe

O povo não nasceu tão feliz como vossa família. Uang

Todos os homens se parecem; nasceram com as mesmas disposições. Os faquires é que corrompem a natureza dos homens Bambabefe

Ensinamos-lhes muitos erros, reconheço-o; mas é para o seu próprio bem. Fazemo-lhes crer que se não comprarem nossos cravos bentos, se não expiarem seus pecados dando-nos dinheiro, tornar-se-ão, na outra vida, cavalos de posta, cães ou lagartos: isto os intimida, e então eles se tornam pessoas de bem. Uang

Mas não percebeis que dessa forma perverteis essa pobre gente? Existem entre o povo, mais do que se pensa, pessoas que raciocinam, que zombam de vossos cravos, de vossos milagres, de vossas superstições, que vêem muito bem que não se irão transformar nem em lagartos nem em cavalos de posta. Que acontece? Elas têm bastante bom senso para ver que vós lhes pregais uma religião impertinente, e não o têm, entretanto, suficiente para se elevar numa religião pura e isenta de superstições como é a nossa. Suas paixões lhes fazem pensar que não existe religião, uma vez que a única que lhes ensinam é ridícula; tornai-vos pois culpado de todos os vícios aos quais elas se atiram. Bambabefe

De forma alguma, porquanto nós apenas lhes ensinamos uma boa moral. Uang

Seríeis lapidado pelo povo se lhe ensinásseis uma moral impura. Os homens são feitos de forma tal que querem cometer o mal mas não admitem que lho preguemos. Seria simplesmente necessário não imiscuir uma sábia moral com fábulas absurdas, pois enfraqueceis com vossas imposturas, de que poderíeis vos abster, essa moral que sois forçados a ensinar. Bambabefe

Como! Julgais que se pode ensinar a verdade ao povo sem a sustentar pelas fábulas? Uang

Creio-o firmemente. Nossos letrados são da mesma massa que nossos alfaiates, tintureiros e camponeses. Adoram um Deus criador, remunerador e vingador Eles não contaminam o seu culto com sistemas absurdos nem cerimônias extravagantes; e há muito menos crimes entre os letrados que entre o povo. Por que não nos dignarmos instruir nossos operários como instruímos nossos letrados? Bambabefe

Cometeríeis uma grande tolice; é como se pretendêsseis que eles tivessem a mesma polidez, que fossem jurisconsultos: isso não é possível nem conveniente. É preciso que exista pão branco para os amos e pão negro para os domésticos. Uang

Reconheço que nem todos os homens devam ter os mesmos conhecimentos; mas há coisas necessárias a todos. É necessário que cada um seja justo, e a maneira mais segura de inspirar a justiça a todos os homens é inspirar-lhes a religião sem superstição. Bambabefe

É um belo projeto, mas impraticável. Julgais que seja suficiente aos homens acreditar num Deus que puna e recompense? Vós me dissestes acontecer freqüentemente que os mais avisados entre o povo se revoltam contra minhas fábulas; da mesma forma se revoltarão contra vossa verdade. Dirão: Quem me pode assegurar que um Deus pune a recompensa? Onde está a prova? Que missão tendes? Que milagre fizestes para que eu vos creia? Eles zombarão de vós muito mais do que de mim Uang

Eis o vosso erro. Imaginais que hão de sacudir o jugo de uma idéia honesta, verossímil, útil a toda gente, uma idéia que está em perfeito acordo com a razão humana, por que se rejeitam as coisas indecorosas, absurdas, inúteis, nocivas, que fazem fremir o bom senso.

O povo está sempre muito disposto a crer nos magistrados: quando seus magistrados não lhe propõem senão uma crença razoável, aceita-a de boa vontade; essa idéia é muito natural para ser combatida. Não é necessário dizer precisamente como é que Deus punirá e recompensará; basta que se creia em sua justiça. Asseguro vos que vi cidades inteiras que não tinham outro dogma, e são também aquelas onde mais encontrei a virtude. Bambabefe

Tomai tento; encontrareis nessas cidades filósofos que vos negarão tanto as penas como as recompenses. Uang

Deveríeis dizer que tais filósofos negariam ainda com maior vigor vossas invenções; assim nada lucrais nesse ponto. Quando mesmo existissem filósofos que não estivessem em acordo com meus princípios, não deixariam de ser pessoas de bem; não deixariam de cultivar a virtude, que deverá ser abraçada por amor, e não por medo. Mas afirmo-vos que filósofo algum jamais estará plenamente certo de que a Providência não reserve castigos aos maus e recompensas aos bons; porque se eles me perguntarem quem me disse que Deus pune, eu lhes perguntarei quem lhes disse que Deus não pune. Enfim, asseguro-vos que os filósofos me auxiliarão, longe de me contradizerem. Quereis ser filósofo? Bambabefe

Com todo gesto; não o digais porém aos faquires.

Fronteiras do Espírito Humano

Estão em toda parte, meu pobre doutor. Queres saber por que teus pés obedecem a tua vontade e teu fígado não? Desejas saber como se forma o pensamento em teu miserável entendimento e esta criança no útero desta mulher? Dou-te tempo para me responderes. Que é a matéria? Dez mil tratados escreveram teus colegas em torno do assunto. Encontraram algumas qualidades dessa substância: as crianças conhecem-nas tanto como tu. Mas afinal que é essa substância? E que vem a ser isso que batizaste de espírito, do vocábulo latino que quer dizer sopro, não lhe dando nome melhor por não teres a menor idéia do que seja?

Olha este grão de trigo que lanço à terra e dize-me como cresce para produzir uma haste apendoada de uma espiga. Explica-me como a mesma terra produz uma maçã no alto daquela arvore e naqueloutra uma castanha. Poderia desfiar-te um infólio de perguntas a que não deverias responder senão por estas palavras: Nada sei.

No entanto tu colaste grau, arreias chapéu alto e envergas nasóculos, e te chamam mestre.

E aquele outro impertinente, por ter comprado um cargo, presume haver comprado o direito de julgar e condenar o que não entendei

A divisa de Montaigne era: Que sei eu? A tua é: Que não sei eu?