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História dos Reis Judeus e Paralipômenos
Todos os povos escreveram sua história, desde que o puderam fazer. Os judeus também escreveram a sua. Antes que tivessem reis viviam sob o regime teocrítico; eram julgados e governados pelo próprio Deus.
Quando os judeus desejaram um rei como os povos seus vizinhos, o profeta Samuel declarou-lhes da parte de Deus que eles rejeitavam o próprio Deus: assim findou a teocracia entre os judeus quando teve princípio a monarquia.
Poder-se-ia, pois, dizer sem blasfemar que a história dos reis judeus foi escrita como a dos outros povos, e que Deus não se deu ao trabalho de contar, ele mesmo, a história de um povo que já não governava.
É com extrema desconfiança que se aventa essa opinião. O que a poderia confirmar é que os Paralipômenos contradizem freqüentemente o Livro dos Reis na cronologia e nos fatos, assim como os nossos historiadores profanos se contradizem algumas vezes. Demais, se Deus sempre escreveu a história dos judeus, será preciso crer, portanto, que continua a escrevê-la, porque os judeus continuam a ser o seu povo querido. Eles dever-se-ão converter um dia e parece que então estarão também no direito de considerar a história de sua dispersão como sagrada, assim como têm direito de dizer que Deus escreveu a história dos seus reis.
Pode-se ainda fazer uma reflexão: é que, tendo sido Deus o seu úico rei durante longo tempo e em seguida seu historiador, deveremos ter para com todos os judeus o mais profundo respeito. Não há algibebe judeu que não esteja infinitamente acima de César e Alexandre. Como evitar prosternar-se diante de um adelo que vos prova que sua história foi escrita peia própria Divindade, enquanto as histórias gregas e romanas não nos foram transmitidas senão por profanos?
Se o estilo da História dos Reis e dos Paralipômenos é divino, as ações relatadas nessas histórias nada têm de divino. Davi assassina Urias; Isbosete e Mifibosete são assassinados; Absalão assassina Amão; Joabe assassina Absalão; Salomão assassina Adonias, seu irmão; Baasa assassina Nadabe; Zambri assassina Ela; Amri assassina Zambri; Acabe assassina Nabote; Jeú assassina Acabe e Jorâm; os habitantes de Jerusalém assassinam Amazias, filho de Joas; Selum, filho de Jabes, assassina Zacarias, filho de Jeroboão; Manaêm assassina Selum, filho de Jabes; Faceu, filho de Romélio, assassina Facéia, filho de Manaêm; Ozeu, filho de Ela, assassina Faceu, filho de Romélio. Silenciamos outros cardápios de assassínios. É preciso compreender que se o Espírito Santo escreveu essa história, não escolheu um assunto muito edificante.