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Epítome de tradições teológicas gregas

Pseudo-Cornutus · § 14

§ 14

[14] Diz-se que Zeus gerou as Musas a partir de Mnemósine[113], uma vez que ele era o autor das lições para criança, que através de cuidado e retenção em memória apresentou assumir como as coisas mais necessárias para uma boa vida[114]. Chamam-se Musas[115] por procurar, ou seja, investigar, conforme se diz "Ó desgraçado! Não procures o suave, não segures o firme!"[116] E são nove, porque, como refere alguém, tornam os que lhes pertencem perfeitos[117] e extraordinários[118]. Com efeito, são em número nove[119], constituído pelo número que parece ser o primeiro depois da unidade a participar de alguma perfeição, gerando a partir de si mesmo[120]. Porém dizem alguns que existem apenas duas; para uns, três; para uns, quatro; para uns, sete. Três, por causa da perfeição da tríade, que foi mencionada; ou porque existem três tipos de investigação que compõem o cálculo filosófico[121] das coisas. Duas, por nos caber contemplar e fazer o que deve ser feito, e nessas coisas assenta a educação. Quatro e sete, talvez porque os instrumentos musicais da antiguidade tivessem tantos sons. Foram apresentadas como mulheres [os nomes para as virtudes e a educação são por acaso femininos], pelo símbolo de que a aprendizagem vem de ficar em casa e da estabilidade. Juntam-se e dançam entre si, para mostrar que as virtudes das coisas são inseparáveis e indivisíveis[122]. Passam um tempo em particular a cantar hinos[123] e a servir os deuses, pois é um elemento fundamental da educação olhar para o divino, e os que o fazem modelo de vida deveriam falar disso. De outra forma, Clio[124] é uma das musas por que os educados obtêm renome, e dão a eles mesmos e a outros o celebrar. Euterpe[125], por a associação a elas, é agradável e atraente. Tália, porque a vida delas floresce, ou porque elas também têm a virtude de convivência auspiciosamente, e versadas em artes, conduzem-se nas festas. Melpómene, pelo canto[126] doce, que resulta da melodia com voz – na realidade, os bons são cantados por todos, e eles mesmos cantam os deuses e os nascidos deles. Terpsícore[127], porque elas se divertem e se alegram a maior parte da vida, ou porque ao vê[-las] dão prazer àqueles que se aproximam delas. Neste caso, a parte final no nome é excedente[128], mas talvez depois que os antigos tenham instituído as danças para os deuses[129], dos mais sábios entre eles compuseram-lhes músicas. E Érato[130] ou enverga o seu nome do amor, preocupando-se com todo o tipo de filosofia, ou ela supervisiona a capacidade de perguntar e responder, uma vez que os de excelência estão na dialética. Polímnia[131] é virtude muito afamada da música, ou melhor, canta muitos[132] e quanto se canta sobre os antigos, pesquisa a partir de poemas e de outros escritos. Urânia[133] é conhecimento sobre os corpos celestes e a natureza do todo[134]– com efeito, os antigos chamavam todo o mundo céu[135]. Calíope, de bela voz e bonita de palavra, é retórica[136]; por causa dela, governam as cidades e falam aos povos, levando-os pela persuasão e não pela força, ao que decidiram[137]. Por causa dela diz-se[138] sobretudo “acompanha reis honrados”[139]. Atribuem-se-lhes vários instrumentos, cada um mostrando que a vida dos bons é bem estruturada, harmoniosa com ela mesma e coordenada. Apolo[140] dança com elas por causa da familiaridade das artes. De facto, transmite a tradição que ele toca cítara, por uma razão que saberás daqui a pouco[141]. Dizem que elas dançam nas montanhas, uma vez que têm necessidade de ficar sozinhas e continuamente ir para o deserto, "sem o qual nada santo é descoberto"[142], segundo o cómico. Por causa disso, diz-se que Zeus, durante nove noites, tendo-se relacionado com Mnemósine, gerou-as. Com efeito, a pesquisa noturna é necessária para a educação[143]. Por isso então os poetas chamavam a noite de 'tempo agradável'[144], e Epicarmo, então, diz: "se alguém procura sabedoria, considere de noite, e todas as respostas encontram-se melhor à noite”[145]. [Alguns[146] supuseram que elas nasceram de Úrano e de Gaia, pois convém acreditar que o relato deles é o mais antigo.] São coroadas com palmeiras[147], como alguns pensam, devido à homonímia, por julgarem que a escrita foi uma invenção dos Fenícios. Mas é mais razoável sustentar que é porque é uma planta delicada, vigorosa, perene, difícil de escalar, e doce de fruta.