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Categorias

Aristóteles · Categorias. Primeira parte. Aforismos.

Categorias. Primeira parte. Aforismos.

[1] [1a1] Equívocos dizem-se os que têm somente o nome comum; mas a razão desse nome diferente (1).

[2] [1a6] Unívocos porém dizem-se os que não somente têm o nome comum; mas também a razão desse nome idêntica (2).

[3] [1a12] E cognominados dizem-se os que tendo a terminação diferente, têm contudo as atribuições, que esse nome designa, idênticas (3).

[4] [1a16] Das Locuções, umas exprimem-se ligadas: outras desligadas (4).

[5] [1a20] Das Coisas, umas dizem-se de algum objeto;{(a)} mas não estão em nenhum objeto (5).

[6] [1a22] Mas outras sim estão em algum objeto; mas não se dizem de nenhum objeto. ⟨[ed1]⟩

[7] [1a29] E outras não só se dizem de algum objeto; mas também estão em algum objeto (7).

[8] [1b3] Outras enfim nem estão em nenhum objeto; nem se dizem de nenhum objeto (8).

[9] [1b6] Em geral: Tudo o que é indivisível, e um em número não se diz de nenhum objeto; mas nada obsta a que algumas coisas tais possam estar em algum objeto (9).

[10] [1b10] Quando se diz de um objeto: que ele é compreendido em alguma Categoria; tudo o que se diz da Categoria, se há de também dizer do objeto (10).

[11] [1b16] As coisas que são heterogêneas entre si, e umas não são espécies das outras; também têm diferenças específicas heterogêneas entre si (11).

[12] [1b20] Mas naqueles gêneros, que são subordinados uns aos outros, nada obsta a que tenham as mesmas diferenças (12).

[13] [1b22] Assim, que quantas forem as diferenças da Categoria, tantas serão as do objeto.

[14] [1b25] As Locuções desligadas ou designam essência; ou quantidade; ou qualidade; ou relação; ou lugar; ou tempo; ou estado; ou ação permanente; ou ação transeunte; ou paixão (13).

[15] [2a4] Cada Locução de per si não exprime nem afirmação, nem negação. Porém, mediante a ligação de umas com as outras, resulta afirmação ou negação; porque toda a afirmação ou negação é julgada verdadeira ou falsa. Mas das locuções desligadas nenhuma é verdadeira, nem falsa. ⟨(14)⟩

[16] [2a11] Primitiva e principalmente chama-se essência primária aquela, que nem se diz de nenhum objeto, nem está em nenhum objeto {(14)} ⟨(15)⟩.

[17] [2a14] E chamam-se essências secundárias, tanto as espécies, a que pertencem as essências primárias, como os gêneros dessas mesmas espécies {(15)} ⟨(16)⟩.

[18] [2a19] Do que fica dito se segue, que tudo o que se diz de um objeto, é necessariamente categoria dele; não só quanto ao nome; mas também quanto à razão do nome {16} ⟨(17)⟩.

[19] [2a27] Mas as coisas, que estão em algum objeto, pela maior parte não são categorias do objeto; nem quanto ao nome, nem quanto à razão do nome.

[20] [2a29] Porém algumas podem-⟨n⟩o talvez ser quanto ao nome; posto que jamais o podem ser quanto à razão do nome {(17)} ⟨(18)⟩.

[21] [2a34] Todas as outras coisas ou se dizem das essências primárias, como de outros tantos objetos; ou estão {neles} ⟨nelas⟩, como em outros tantos objetos {(18)} ⟨(19)⟩.

[22] [2b6] De modo que não existindo as essências primárias, seria impossível existir nenhuma das outras.

[23] [2b7] Ora das essências secundárias a espécie é mais essência do que o gênero {19} ⟨(20)⟩.

[24] [2b17] O que as essências primárias são a respeito de todas as outras coisas; isso mesmo é cada espécie a respeito do gênero {(20)} ⟨(21)⟩.

[25] [2b22] De duas espécies, das quais nenhuma é gênero da outra; também nenhuma é mais essência do que a outra {(21)} ⟨(22)⟩.

[26] [2b26] O mesmo é das essências primárias, que nenhuma delas é mais essência do que outra. {(22)} ⟨(23)⟩

[27] [2b29] Com razão pois entre todas as coisas, que não são as essências primárias, somente os gêneros, e as espécies se denominam essências secundárias {(23)} ⟨(24)⟩.

[28] [3a1] O que as essências primárias são a respeito de todas as outras coisas: isso mesmo são a respeito de tudo o mais os gêneros e as espécies, a que as mesmas essências primárias pertencem {(24)} ⟨(25)⟩.

[29] [3a7] É comum a todas as {espécies} ⟨essências⟩ o não estarem em nenhum objeto {(25)} ⟨(26)⟩.

[30] [3a17] Ora as essências secundárias são categorias do objeto; não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome {(26)} ⟨(27)⟩.

[31] [3a21] Mas isto não é particular às essências; porque também as diferenças[t3] são do número das coisas, que não estão em nenhum objeto {(27)} ⟨(28)⟩.

[32] [3a25] E as diferenças são categorias do objeto a que se referem: até mesmo quanto à razão do nome {(28)} ⟨(29)⟩.

[33] [3a29] Nem nos faça confusão o estarem as partes das essências nos todos a que pertencem: de modo que nos julguemos obrigados a dizer, que elas não são essências. Porquanto nós não dissemos que as coisas, que estão em algum objeto, existem em algum, como partes dele.

[34] [3a33] Verifica-se pois tanto nas essências, como nas diferenças, que todas as outras coisas derivam delas os seus nomes de uma maneira unívoca {(29)} ⟨(30)⟩.

[35] [3b10] Toda a essência parece significar o que alguma coisa é: E quanto às essências primárias é verdade indubitável, que significam o que alguma coisa é {(30)} ⟨(31)⟩. [3b13] Quanto às essências secundárias sim parece pela forma do seu enunciado, que também significam o que alguma coisa é {(31)} ⟨(32)⟩: [3b15] mas isto é mera aparência; porque tais expressões denotam antes qual seja a coisa a que se referem; nem se aplicam a um só objeto, como as essências primárias {(32)} ⟨(33)⟩. [3b18] Contudo não denotam uma simples qualidade {(33)} ⟨(34)⟩.

[36] [3b19] Assim que, tanto a espécie, como o gênero, determinam as qualidades das essências; porque determinam de uma dada essência qual ela seja.

[37] [3b21] Mas esta determinação é mais ampla no gênero do que na espécie {(34)} ⟨(35)⟩.

[38] [3b24] Também se verifica nas essências o não terem nada que lhes seja contrário {(35)} ⟨(36)⟩.

[39] [3b27] Mas isto não é particular às essências; mas também se verifica em muitas outras coisas, como nas quantidades {(36)} ⟨(37)⟩.

[40] [3b33] Parece outrossim que as essências não são suscetíveis de mais nem de menos {(37)} ⟨(38)⟩.

[41] [4a10] Porém o que principalmente parece ser particular às essências, é, que um e o mesmo indivíduo é suscetível de ser em um tempo o contrário do que era em outro tempo {(38)} ⟨(39)⟩.

[42] [4b17] De modo que é próprio das essências o admitirem estados contrários, vindo elas mesmas a mudarem {(39)}. Mas o que fica dito bastará a respeito das essências.

[43] [4b20] Das quantidades umas são discretas, outras são contínuas: umas constam de partes que têm certa situação entre si: e outras, cujas partes não são suscetíveis de situação entre si.

[44] [4b22] É quantidade discreta qualquer número, qualquer discurso: e continua a linha, a superfície, o corpo: e além destas, o lugar, e o tempo (40).

[45] [5a38] Absolutamente falando só estas que temos nomeado, é que são quantidades: todas as outras só o são acidentalmente (41).

[46] [5b11] Além disso à quantidade nada é contrário (42).

[47] [6a19] Nem tampouco a quantidade determinada é suscetível de mais nem de menos (43).

[48] [6a26] O que é principalmente particular às quantidades, é o dizerem-se iguais ou desiguais (44).

[49] [6a36] Chamam-se relativas aquelas coisas, que o que são, são- ⟨n⟩o de outras coisas, ou por outro algum modo o são relativamente a outras coisas (45).

[50] [6b15] Os relativos são suscetíveis de contrário (46).

[51] [6b17] Mas nem todos os relativos são suscetíveis de contrário (47).

[52] [6b19] Também parece serem os relativos suscetíveis de mais, e de menos {(49)} ⟨(48)⟩.

[53] {43} ⟨53⟩ [6b24] Mas nem todos os relativos são suscetíveis de mais, nem de menos (49).

[54] [6b28] Todos os relativos são recíprocos daqueles de quem se dizem (50).

[55] [6b36] Contudo às vezes pode parecer, que não existe esta reciprocidade; a saber, quando o correlato se não exprime em termos próprios: e isto à proporção que o nome do relativo se afastar do seu correlato (51).

[56] [7b15] Igualmente parece ser da natureza dos correlatos o existir um, sempre que existe o outro. E com efeito assim se verifica pela maior parte (52).

[57] [7b22] Mas não é da natureza de todos os correlatos o deverem sempre coexistir (53).

[58] [8a13] Pode entrar em dúvida, se há alguma essência, que seja do número das coisas relativas; como com efeito parece não a haver: ou se isto só acontece com algumas das essências secundárias; porque quanto às primárias é certo ser assim (54).

[59] [8b25] Eu chamo qualidade a aquilo por onde se designa, quais sejam certos e determinados objetos.

[60] [8b25] Mas a qualidade é do número daquelas palavras, que admitem muitos sentidos. Porquanto há primeiramente uma espécie de qualidades, que é a dos hábitos e das afeições (55).

[61] [9a14] E há uma segunda espécie, que é aquela pela qual dizemos de alguém, que ele é fraco ou que é forte no pugilado, ou na carreira, ou na saúde: ou pela qual em geral afirmamos alguma coisa sobre a força ou a fraqueza própria da natureza de qualquer objeto (56).

[62] [9a28] Há outra terceira espécie de qualidades, que são as qualidades passivas ou as paixões (57).

[63] [10a11] E há enfim uma quarta espécie de qualidades, que são a figura e as modificações de cada figura (58).

[64] [10a27] Eis aqui as que se chamam qualidades: e chamam-se {quais} ⟨tais⟩ os objetos que por cognominação se dizem a respeito delas, ou por algum outro modo trazem delas o nome, pelo qual os designamos.

[65] [10a29] Da maior parte e de quase todas elas se derivam por cognominação aqueles nomes (59).

[66] [10a32] Mas em algumas não pode ter lugar a cognominação; porque não existe nome para a respectiva qualidade (60).

[67] [10b5] Em outros porém, posto que a qualidade tenha nome, o do objeto a que ela se refere, não se deriva dele por cognominação (61).

[68] [10b12] As qualidades são suscetíveis de contrário (62).

[69] [10b15] Mas isto não acontece a todas as qualidades (63).

[70] [10b17] Além disso, todas as vezes que um de dois contrários é qualidade, também o outro o é necessariamente (64).

[71] [10b26] Também admitem as qualidades mais e menos (65).

[72] [10b29] Mas não todas, porém sim a maior parte (66).

[73] [11a15] Contudo nenhuma das sobreditas propriedades é particular às qualidades. O que lhes é particular é a semelhança ou a dessemelhança (67).

[74] [11a20] Nem nos cause confusão, se alguém nos observar, que tratando-se aqui das qualidades, enumeramos muitas coisas que pertencem aos relativos (68). [11a22] Porquanto é de notar, que de quase todas essas coisas são os gêneros os que pertencem aos relativos; e os indivíduos às qualidades (69). [11a37] Porém quando acontecesse encontrar-se uma mesma coisa entre os relativos e entre as qualidades, não haveria nisso absurdo algum, porque pode muito bem uma mesma coisa pertencer a dois gêneros diferentes.

[75] [11b1] Tanto a ação, como a paixão são suscetíveis, não só de contrário, mas também de mais e de menos (70).

[76] [11b17] Passando a tratar dos opostos, e de quantos modos as coisas costumam ser opostas entre si; é de saber, que há quatro modos de oposição; que vêm a ser: ou como relativos, ou como contrários, ou como privação e efetividade, ou como afirmação e negação (71).

[77] [11b24] As coisas que são opostas como relativas, isso que são, ou o são dos seus opostos, ou deles se afirmam por alguma outra maneira (72).

[78] [11b32] E as que o são como contrárias, não se podem de nenhum modo afirmar umas das outras: mas sim que umas são contrárias das outras (73).

[79] [12a1] Aqueles contrários, de que se verifica que necessariamente há de existir um deles nos objetos a que eles por natureza pertencem, ou de que eles são categorias, não admitem nenhum termo médio: bem como aqueles, dos quais não é forçoso que exista um deles, pode-se-lhes sempre assignar um termo médio (74).

[80] [12a20] Algumas vezes este termo médio tem um nome (75): [12a21] mas outras vezes não é fácil o designá-lo com um nome particular; e então determina-se pela negativa de um dos extremos (76).

[81] [12a26] Tanto a privação, como a efetividade referem-se sempre a um mesmo e determinado objeto (77).

[82] [12a29] Quando se diz de alguma coisa, que ela está privada de qualquer efetividade, é nos casos, em que nela não existe o que nela por sua natureza devia existir, ao menos no momento de que se trata (78).

[83] [12a35] Mas estar privado, e ter a efetividade, não é o mesmo que a privação, e a efetividade (79).

[84] [12b2] Quanto à oposição entre o estar privado e o ter efetividade, parece ser a mesma que entre a privação e a efetividade; por isso que o modo da oposição é idêntico (80).

[85] [12b5] Pela mesma razão as coisas sobre que recai a afirmação ou a negação, não são afirmação nem negação (81).

[86] [12b16] Que a privação e a efetividade não são entre si opostos como relativos, é evidente; pois que de nenhuma delas se diz que o que ela é, o é da sua oposta (82).

[87] [12b26] Do que fica dito se vê também, que a privação e efetividade não são entre si opostas como os contrários; (83). [13a6] Seguindo-se de quanto fica dito, que nem podem pertencer aos contrários que admitem termo médio, nem àqueles que o não admitem (84).

[88] [13a37] As coisas que são entre si opostas, como afirmação e negação, é evidente que o não podem ser por nenhum dos referidos modos; porque nelas somente se verifica que de necessidade uma há de ser verdadeira, e a outra falsa: entretanto que nem nos contrários, nem nos relativos, nem da privação e efetividade se verifica, que dos opostos um haja de ser necessariamente verdadeiro e o outro falso (85).

[89] [13b36] Ao bem é necessariamente contrário o mal (86). [14a1] Porém ao mal umas vezes é contrário o bem, outras vezes é-o outro mal (87). [14a4] Contudo este último caso em poucos se verifica: pela maior parte o contrário do mal é o bem.

[90] [14a6] É de notar, que de dois contrários não é necessário que existindo um, deva existir o outro (88).

[91] [14a15] É fácil de compreender que os objetos de dois contrários, devem ser idênticos, tanto em gênero, como em espécie (89).

[92] [14a19] E portanto é de necessidade, que dois contrários ou se compreendam em um mesmo gênero, ou em gêneros contrários; ou que eles sejam gêneros por si mesmos (90).

[93] [14a26] Quatro são os modos, por que uma coisa se diz ser primeira do que outra: o primeiro e {o} principal é em razão do tempo (91): [14a29] o segundo é quando, devendo-se concluir da existência desta a daquela, não se pode concluir reciprocamente (92): [14a35] o terceiro é quando se diz primeiro em razão de alguma determinada ordem (93): [14b3] e além destes, que ficam ditos, parece ser primeiro por natureza, o que é melhor e mais estimado {(97)} ⟨(94)⟩.

[94] [14b10] Poderia lembrar, que além dos quatro referidos ainda existe outro quinto modo de prioridade; porque de duas coisas, das quais, dada a existência de uma se conclui a da outra: e reciprocamente; aquela de entre ambas, que de algum modo é causa da existência da outra, com razão se poderia chamar primeira por sua natureza (95). [14b22] E neste sentido poder-se-ia dizer, que são cinco os modos, por que uma coisa se pode denominar primeira do que outra.

[95] [14b24] Chamam-se conexas as coisas, no sentido mais amplo, e principalmente, quando a sua formação é acontecida no mesmo tempo; de modo que uma não é anterior, nem a outra posterior: E chama-se-lhes simultâneas, ou conjuntas em tempo.

[96] [14b27] Chamam-se porém conexas por natureza aquelas, cuja dependência é tal, que dada a existência de qualquer delas, se pode seguramente concluir a da outra: sem que contudo uma seja causa da existência da outra (96).

[97] [15a13] As espécies, que há de movimentos são seis; a saber: formação, destruição, aumento, diminuição, transformação, e mudança de lugar (97).

[98] [15b17] Também são muitos os sentidos da palavra ter; por que se diz de qualquer efetividade ou disposição, ou em geral, de qualquer outra qualidade (98). [15b19] Diz-se das quantidades (99). [15b21] Diz-se dos acidentes externos ao corpo todo (100), [15b22] ou a uma parte dele (101). [15b23] Diz-se das partes do corpo (102). [15b24] Diz-se das vasilhas (103). [15b26] Diz-se do que se possui (104). [15b30] Talvez se poderiam ainda achar outros sentidos da palavra ter; mas os que se costumam usar, são pouco mais ou menos, os que ficam enumerados.