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Aristóteles · Advertência

Advertência

Uma das partes mais essenciais do Curso de Preleções Filosóficas, que estou atualmente publicando, é a Exposição e Análise das Obras escolhidas dos principais Filósofos, Oradores e Poetas; tanto antigos, como modernos, sagrados e profanos, segundo anunciei no Programa que precedeu à publicação das mesmas Preleções.

Ninguém, que com reflexão tenha lido os Filósofos dos antigos e modernos tempos, poderá negar a Aristóteles a primazia sobre todos eles. E portanto as suas Obras deviam ser naturalmente as primeiras, que figurassem nesta como Biblioteca de Filosofia, que tenho empreendido.

Mas não se precisa de justificação a homenagem que assim atribuo às Obras de Aristóteles; precisa-o tanto mais a novidade da forma, em que aparecem na presente tradução: novidade, que deve parecer à primeira vista, um total transtorno do texto do Autor. Porém este transtorno, que é na verdade grande quanto à ordem da escrita, em nada altera, nem a ordem das ideias, nem a da leitura. Porquanto se começando nós a ler o texto na Primeira Parte pela primeira palavra Equívocos (que é também a primeira no Original), passarmos da palavra diferente à explicação Nº 1, na Segunda Parte: e lida ela, voltarmos ao segundo § da Primeira Parte: Unívocos porém &c.: e assim continuarmos, passando alternativamente do Texto às Explicações, que os números, ou asteriscos indicam: e destas ao Texto; ninguém que com os olhos no Original grego nos escutasse, poderia suspeitar que nele houvesse feito a menor alteração.

Consiste pois esta unicamente em separar, à maneira de Notas, toda aquela parte do texto original, que não acrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar, ou aclarar por qualquer outro modo, o que precede: sem que este novo arranjo violente a ligação de uma e outra coisa: nem que eu tenha para isso omitido, acrescentado, ou substituído palavra alguma, do Original, pois antes as conservei na ordem da Sintaxe, que cada uma delas ali ocupa.

Duas são as vantagens, que me parecia, seguirem-se desta disposição: primeira, tornarem-se mais sensíveis e perceptíveis as doutrinas do Autor: Segunda, convidar mais a lerem-se, e facilitar o consultarem-se Obras, que se por algum tempo jazeram[t1] em uma espécie de injusto esquecimento: e por não lidas experimentaram um tanto mais injusto desprezo; isso derivou em grande parte do fastio que causava aquela multiplicidade de explicações, que interrompem a cada passo o fio das ideias.

Quisera eu que o texto grego aparecesse em frente desta tradução: tanto para excitar a Mocidade ao estudo da Língua Grega, que no meu conceito constitui o mais glorioso monumento da perfeição do Espírito humano, {mas} ⟨como⟩ também porque devendo esta tradução abundar em defeitos inevitáveis pelo pouco tempo em que sou obrigado a fazê-la e publicá-la; conviria muito, que a facilidade de a cotejarem com o texto oferecesse aos inteligentes o meio de corrigirem as faltas, que nela não pode deixar de haver em grande número, e muitas vezes de grande nota.

Por maior, porém, que fosse este meu desejo, não me foi possível satisfazê-lo; já porque neste nascente Estado faltam os meios para se fazer uma correta edição de um texto grego; logo que exceda a certos e muito acanhados limites: já porque a carestia excessiva dos materiais e da mão-de-obra tornaria{m} inútil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho é dirigido, uma obra, que tendo unicamente em vista a instrução da Mocidade, deve estar ao alcance até daqueles mesmos que não gozam de avultados bens da cultura.

Talvez se ofereça mais favorável conjuntura que me permita fazer ao Público, serviço menos imperfeito neste mesmo gênero: E certamente a saberei aproveitar, se os meus Amigos, e em geral todos aqueles, a quem estes ensaios para o incitamento dos bons estudos interessam, me ajudarem com as suas observações e conselhos.

Resta-me advertir que para esta tradução me servi da edição das Obras de Aristóteles dada por Isaac Casaubono, e impressa em Lião na oficina de Jacob Bubon no ano de mil quinhentos e noventa: em dois volumes in-folio.

Rio de Janeiro, aos 31 de Dezembro de 1813.