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Categorias

Aristóteles

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Aristóteles
Tradutor
Silvestre Pinheiro Ferreira
Editor
José Leonardo Sousa Buzelli
Edição de base
Texto grego: edição de Isaac Casaubon (Lyon, 1590), que Ferreira declara ter seguido; a numeração de Bekker, pelo editor, segundo a edição de L. Minio-Paluello (Oxford, 1949; reimpr. 2008)
Idioma
por
Ano do original
séc. IV a.C.
URN
urn:cts:greekLit:tlg0086.tlg006.pa-por2
Licença
CC-BY-NC-ND-4.0
Fonte
Buzelli, José Leonardo Sousa. As Categorias de Aristóteles traduzidas por Silvestre Pinheiro Ferreira. Revista de Estudos Filosóficos e Históricos da Antiguidade, Campinas, n. 42, e025002, p. 1-58, 2025. ISSN 2177-5850. DOI 10.53000/cpa.v42i00.20111.
Identificador
aristoteles-categorias-pt-ferreira-buzelli-2025
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Portugues/Aristotelismo/Aristoteles/Categorias/Aristoteles_Categorias_pt_Ferreira_Buzelli_2025.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:greekLit:tlg0086.tlg006.pa-por2 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
ARISTÓTELES. Categorias. Tradução de Silvestre Pinheiro Ferreira. Edição de José Leonardo Sousa Buzelli. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:greekLit:tlg0086.tlg006.pa-por2. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/aristoteles-categorias-pt-ferreira-buzelli-2025.html. Acesso em: [data do acesso].
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As Categorias de Aristóteles traduzidas por Silvestre Pinheiro Ferreira

José Leonardo Sousa Buzelli[a]

Resumo: Este artigo apresenta, em edição semidiplomática, a tradução de Silvestre Pinheiro Ferreira das Categorias de Aristóteles, publicada originalmente no Rio de Janeiro em 1814.

Palavras-chave: As Categorias de Aristóteles. Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Filosofia grega. tradução para o português.

Aristotle’s Categories translated into Portuguese by Silvestre Pinheiro Ferreira

Abstract: This article presents in semi diplomatic edition Silvestre Pinheiro Ferreira’s translation into Portuguese of Aristotle’s Categories, originally publish in Rio de Janeiro in 1814.

Keywords: Aristotle’s Categories. Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846). Greek philosophy. translation into Portuguese.

Apresentação

Este artigo transcreve e edita a tradução que Silvestre Pinheiro Ferreira fez e mandou imprimir das Categorias de Aristóteles, no ano de 1814, para uso em suas prelações filosóficas, como ele próprio afirma na “advertência”. Foi essa, creio, a primeira tradução de obra aristotélica publicada na América portuguesa, onde, antes da chegada da família real em 1808, as oficinas de imprensa estavam proibidas.

Lisboeta, Ferreira (1769-1846) veio para o Rio de Janeiro em 1810 e aqui viveu até 1821, quando voltou para a Europa. Autor de uma obra extensa e variada, que abarca da mecânica ao direito, e da teologia à diplomacia, ele fizera publicar em 1813 suas Prelecções Filosóficas,[b] produto e material didático do curso de filosofia que ministrou no carioca Real Colégio de São Joaquim. A tradução das Categorias serviu declaradamente ao mesmo propósito pedagógico, que se percebe no arranjo mesmo do texto de Aristóteles.

Conforme já anuncia o subtítulo da publicação, as Categorias vêm “ordenadas conforme a um novo plano”: de fato, Ferreira decidiu rearranjar o texto aristotélico, dividindo-o em duas seções ou partes — “aforismos” (Primeira Parte) e “explicações” (Segunda Parte) — para, segundo afirma, separar as declarações de suas explicações. Diz ele que a “novidade que deve parecer à primeira vista um total transtorno do texto do autor... em nada altera nem a ordem das ideias, nem a da leitura” (p. iii), uma vez que “passando alternativamente do texto às explicações (que os números ou asteriscos indicam), e destas ao texto, ninguém que com os olhos no original grego nos escutasse poderia suspeitar que nele houvesse feito a menor alteração” (p. iv). Teria feito isso para tornar “mais sensíveis e perceptíveis as doutrinas do autor”, facilitando sua leitura e consulta e evitando o “fastio que causava aquela multiplicidade de explicações que interrompem a cada passo o fio das ideias” (pp. iv-v).

Fica claro que Ferreira se apega ao conceito de tradução literal ou palavra-por-palavra, buscando ser o mais fiel possível ao original, ainda que “transtornando” os aforismos e as explicações:

Consiste, pois, esta (sc. novidade) unicamente em separar, à maneira de notas, toda aquela parte do texto original que não acrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar ou aclarar por qualquer outro modo o que precede, sem que este novo arranjo violente a ligação de uma e outra coisa, nem que eu tenha para isso omitido, acrescentado ou substituído palavra alguma do original, pois antes as conservei na ordem da sintaxe que cada uma delas ali ocupa. (p. iv)

Ferreira dá também testemunho da precariedade editorial deste lado do Atlântico nas primeiras décadas do século xix, quando diz que desejava ter podido imprimir o texto grego ao lado de sua tradução, tanto para incentivar a mocidade a estudar a língua, quanto para facilitar aos que já a soubessem o cotejo com a tradução, podendo assim corrigir suas “faltas, que nela não pode deixar de haver em grande número, e muitas vezes de grande nota” (p. v).

Por maior, porém, que fosse este meu desejo, não me foi possível satisfazê-lo, já porque neste nascente estado faltam os meios para se fazer uma correta edição de um texto grego, logo que exceda a certos e muito acanhados limites, já porque a carestia excessiva dos materiais e da mão-de-obra tornaria inútil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho é dirigido, uma obra que, tendo unicamente em vista a instrução da mocidade, deve estar ao alcance até daqueles mesmos que não gozam de avultados bens da cultura. (p. v)

Procedimentos de edição

Transcrevi o texto a partir de fac-símile digital (Pdf) da edição de 1814, exemplar da Fundação Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro:

CATEGORIAS | DE | ARISTÓTELES ‖ TRADUZIDAS DO GREGO | E ORDENADAS CONFORME A UM NOVO PLANO | POR | SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA | para uso das Prelações Filosóficas do mesmo Tradutor ‖ RIO DE JANEIRO | NA IMPRESSÃO RÉGIA | ANO DE MDCCCXIV | Com Licença de S. A. R.

A edição do texto aqui apresentada é semidiplomática: respeito escrupulosamente o texto impresso, deixando inalterados a pontuação, o uso algo errático de maiúsculas e itálicos, a divisão em parágrafos e eventuais gralhas. Porém, (a) atualizo a grafia e (b) trago para o interior do texto as erratas impressas no final do volume de 1814, indicando as supressões com {chaves}, e os acréscimos com ⟨parênteses angulares⟩. As erratas também vêm transcritas.

O tradutor afirma ter se valido da edição em dois volumes de Isaac Casaubon (Lião, na oficina de Jacob Bubon, 1590), hoje um tesouro bibliográfico acessível a poucos. Assim, por não ter sido possível a mim cotejar a tradução com a edição em que se baseia, não faço nenhuma tentativa de corrigir eventuais “erros” tradutórios a partir de outras edições. Maria G. M. Augusto (p. 55, com n. 53) informa que Casaubon trazia também a tradução latina de Gourchy, no que deve estar correta, muito embora a estudiosa tenha na verdade compulsado a edição de 1596, essa sim disponível online.

Para facilitar a localização e a citação dos trechos, adicionei entre ⦅parênteses duplos⦆, ao início de cada passagem ou parágrafo, a numeração Bekker, valendo-me da edição de Lorenzo Minio-Paluello para a Tipografia Clarendoniana da Universidade de Oxônia.

Meu único propósito com o presente artigo é facilitar o acesso ao trabalho pioneiro e bastante meritório de Silvestre Pinheiro Ferreira.

Dedico este trabalho in memoriam ao Prof. Hector Benoit, que generosamente viu nele algum mérito e o acolheu, e que tanta falta faz aos Estudos do Pensamento Antigo no Brasil.

Referências bibliográficas

a. Sobre Silvestre Pinheiro Ferreira:

Augusto, Maria das Graças de Moraes. “Politeía Tropical: a Recepção dos Clássicos, a Tradição Política no Brasil do Século xix e a Tradução das Categorias Aristotélicas por Silvestre Pinheiro Ferreira”, in Maria de Fátima Sousa e Silva & Maria das Graças de Moraes Augusto (coord.). A Recepção dos Clássicos em Portugal e no Brasil. São Paulo: Annablume Editora; Coimbra: Imprensa da Universidade de Coimbra, 2015.

Cunha, Rodrigo Sobral. A Teoria Silvestrina da Harmonia do Universo: Homem, Mundo e Deus na Obra de Silvestre Pinheiro Ferreira, pref. J. E. Pereira. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 2008.

b. Sobre as Categorias e a filosofia aristotélica, uma edição e algumas traduções:

Minha formação filosófica limitada não me permite aventurar-me na interpretação das Categorias (o que, ademais, deixaria este artigo ainda mais longo); limito-me, por isso, a listar algumas traduções e estudos recentes da obra, e sugerir que o leitor interessado as consulte, bem como aos livros e artigos elencados em suas bibliografias.

Ackrill, J. Ll. (trad.). Aristotle’s Categories and De Interpretatione. Oxônia: Tipografia Clarendoniana, 1963.

Anton, J. P. “The Aristotelian Doctrine of Homonyma in the Categories and Its Platonic Antecedents”, in Journal of the History of Philosophy 6 (1968), pp. 315-326

Aristóteles. Categorias, trad. J. V. Teixeira da Mata, pref. Francis Wolff, edição bilíngue. São Paulo: Editora UNESP, 2019 (primeira edição, não bilíngue: Goiânia: Editora UFG; Alternativa, 2004).

Aristóteles. Categorias, trad. M. Ferreira dos Santos. São Paulo: Matese, 1965.

Aristóteles. Categorias, trad. Ricardo Santos. Porto: Porto Editora, 1995.

Aristotelis Categoriae et Liber de Interpretatione, recognouerunt breuique adnotatione critica instruxerunt L. Minio-Paluello. Oxônia: Tipografia Clarendoniana, 2008 (¹1949).

Oliveira, Th. S. Freitas, “Em defesa das Categorias de Aristóteles”, in Prometheus: Journal of Philosophy 30 (maio-agosto 2019), pp. 299-318.

Categorias de Aristóteles.

traduzidas do grego

e ordenadas conforme a um novo plano por

Silvestre Pinheiro Ferreira

Para uso das Prelações Filosóficas do mesmo Tradutor.

⦅brasão real⦆

Rio de Janeiro

na Impressão Régia

Ano de m dccc xiv.

Com Licença de s. a. r.

Advertência

Uma das partes mais essenciais do Curso de Preleções Filosóficas, que estou atualmente publicando, é a Exposição e Análise das Obras escolhidas dos principais Filósofos, Oradores e Poetas; tanto antigos, como modernos, sagrados e profanos, segundo anunciei no Programa que precedeu à publicação das mesmas Preleções.

Ninguém, que com reflexão tenha lido os Filósofos dos antigos e modernos tempos, poderá negar a Aristóteles a primazia sobre todos eles. E portanto as suas Obras deviam ser naturalmente as primeiras, que figurassem nesta como Biblioteca de Filosofia, que tenho empreendido.

Mas não se precisa de justificação a homenagem que assim atribuo às Obras de Aristóteles; precisa-o tanto mais a novidade da forma, em que aparecem na presente tradução: novidade, que deve parecer à primeira vista, um total transtorno do texto do Autor. Porém este transtorno, que é na verdade grande quanto à ordem da escrita, em nada altera, nem a ordem das ideias, nem a da leitura. Porquanto se começando nós a ler o texto na Primeira Parte pela primeira palavra Equívocos (que é também a primeira no Original), passarmos da palavra diferente à explicação Nº 1, na Segunda Parte: e lida ela, voltarmos ao segundo § da Primeira Parte: Unívocos porém &c.: e assim continuarmos, passando alternativamente do Texto às Explicações, que os números, ou asteriscos indicam: e destas ao Texto; ninguém que com os olhos no Original grego nos escutasse, poderia suspeitar que nele houvesse feito a menor alteração.

Consiste pois esta unicamente em separar, à maneira de Notas, toda aquela parte do texto original, que não acrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar, ou aclarar por qualquer outro modo, o que precede: sem que este novo arranjo violente a ligação de uma e outra coisa: nem que eu tenha para isso omitido, acrescentado, ou substituído palavra alguma, do Original, pois antes as conservei na ordem da Sintaxe, que cada uma delas ali ocupa.

Duas são as vantagens, que me parecia, seguirem-se desta disposição: primeira, tornarem-se mais sensíveis e perceptíveis as doutrinas do Autor: Segunda, convidar mais a lerem-se, e facilitar o consultarem-se Obras, que se por algum tempo jazeram[t1] em uma espécie de injusto esquecimento: e por não lidas experimentaram um tanto mais injusto desprezo; isso derivou em grande parte do fastio que causava aquela multiplicidade de explicações, que interrompem a cada passo o fio das ideias.

Quisera eu que o texto grego aparecesse em frente desta tradução: tanto para excitar a Mocidade ao estudo da Língua Grega, que no meu conceito constitui o mais glorioso monumento da perfeição do Espírito humano, {mas} ⟨como⟩ também porque devendo esta tradução abundar em defeitos inevitáveis pelo pouco tempo em que sou obrigado a fazê-la e publicá-la; conviria muito, que a facilidade de a cotejarem com o texto oferecesse aos inteligentes o meio de corrigirem as faltas, que nela não pode deixar de haver em grande número, e muitas vezes de grande nota.

Por maior, porém, que fosse este meu desejo, não me foi possível satisfazê-lo; já porque neste nascente Estado faltam os meios para se fazer uma correta edição de um texto grego; logo que exceda a certos e muito acanhados limites: já porque a carestia excessiva dos materiais e da mão-de-obra tornaria{m} inútil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho é dirigido, uma obra, que tendo unicamente em vista a instrução da Mocidade, deve estar ao alcance até daqueles mesmos que não gozam de avultados bens da cultura.

Talvez se ofereça mais favorável conjuntura que me permita fazer ao Público, serviço menos imperfeito neste mesmo gênero: E certamente a saberei aproveitar, se os meus Amigos, e em geral todos aqueles, a quem estes ensaios para o incitamento dos bons estudos interessam, me ajudarem com as suas observações e conselhos.

Resta-me advertir que para esta tradução me servi da edição das Obras de Aristóteles dada por Isaac Casaubono, e impressa em Lião na oficina de Jacob Bubon no ano de mil quinhentos e noventa: em dois volumes in-folio.

Rio de Janeiro, aos 31 de Dezembro de 1813.

Categorias. Primeira parte. Aforismos.

[1] [1a1] Equívocos dizem-se os que têm somente o nome comum; mas a razão desse nome diferente (1).

[2] [1a6] Unívocos porém dizem-se os que não somente têm o nome comum; mas também a razão desse nome idêntica (2).

[3] [1a12] E cognominados dizem-se os que tendo a terminação diferente, têm contudo as atribuições, que esse nome designa, idênticas (3).

[4] [1a16] Das Locuções, umas exprimem-se ligadas: outras desligadas (4).

[5] [1a20] Das Coisas, umas dizem-se de algum objeto;{(a)} mas não estão em nenhum objeto (5).

[6] [1a22] Mas outras sim estão em algum objeto; mas não se dizem de nenhum objeto. ⟨[ed1]⟩

[7] [1a29] E outras não só se dizem de algum objeto; mas também estão em algum objeto (7).

[8] [1b3] Outras enfim nem estão em nenhum objeto; nem se dizem de nenhum objeto (8).

[9] [1b6] Em geral: Tudo o que é indivisível, e um em número não se diz de nenhum objeto; mas nada obsta a que algumas coisas tais possam estar em algum objeto (9).

[10] [1b10] Quando se diz de um objeto: que ele é compreendido em alguma Categoria; tudo o que se diz da Categoria, se há de também dizer do objeto (10).

[11] [1b16] As coisas que são heterogêneas entre si, e umas não são espécies das outras; também têm diferenças específicas heterogêneas entre si (11).

[12] [1b20] Mas naqueles gêneros, que são subordinados uns aos outros, nada obsta a que tenham as mesmas diferenças (12).

[13] [1b22] Assim, que quantas forem as diferenças da Categoria, tantas serão as do objeto.

[14] [1b25] As Locuções desligadas ou designam essência; ou quantidade; ou qualidade; ou relação; ou lugar; ou tempo; ou estado; ou ação permanente; ou ação transeunte; ou paixão (13).

[15] [2a4] Cada Locução de per si não exprime nem afirmação, nem negação. Porém, mediante a ligação de umas com as outras, resulta afirmação ou negação; porque toda a afirmação ou negação é julgada verdadeira ou falsa. Mas das locuções desligadas nenhuma é verdadeira, nem falsa. ⟨(14)⟩

[16] [2a11] Primitiva e principalmente chama-se essência primária aquela, que nem se diz de nenhum objeto, nem está em nenhum objeto {(14)} ⟨(15)⟩.

[17] [2a14] E chamam-se essências secundárias, tanto as espécies, a que pertencem as essências primárias, como os gêneros dessas mesmas espécies {(15)} ⟨(16)⟩.

[18] [2a19] Do que fica dito se segue, que tudo o que se diz de um objeto, é necessariamente categoria dele; não só quanto ao nome; mas também quanto à razão do nome {16} ⟨(17)⟩.

[19] [2a27] Mas as coisas, que estão em algum objeto, pela maior parte não são categorias do objeto; nem quanto ao nome, nem quanto à razão do nome.

[20] [2a29] Porém algumas podem-⟨n⟩o talvez ser quanto ao nome; posto que jamais o podem ser quanto à razão do nome {(17)} ⟨(18)⟩.

[21] [2a34] Todas as outras coisas ou se dizem das essências primárias, como de outros tantos objetos; ou estão {neles} ⟨nelas⟩, como em outros tantos objetos {(18)} ⟨(19)⟩.

[22] [2b6] De modo que não existindo as essências primárias, seria impossível existir nenhuma das outras.

[23] [2b7] Ora das essências secundárias a espécie é mais essência do que o gênero {19} ⟨(20)⟩.

[24] [2b17] O que as essências primárias são a respeito de todas as outras coisas; isso mesmo é cada espécie a respeito do gênero {(20)} ⟨(21)⟩.

[25] [2b22] De duas espécies, das quais nenhuma é gênero da outra; também nenhuma é mais essência do que a outra {(21)} ⟨(22)⟩.

[26] [2b26] O mesmo é das essências primárias, que nenhuma delas é mais essência do que outra. {(22)} ⟨(23)⟩

[27] [2b29] Com razão pois entre todas as coisas, que não são as essências primárias, somente os gêneros, e as espécies se denominam essências secundárias {(23)} ⟨(24)⟩.

[28] [3a1] O que as essências primárias são a respeito de todas as outras coisas: isso mesmo são a respeito de tudo o mais os gêneros e as espécies, a que as mesmas essências primárias pertencem {(24)} ⟨(25)⟩.

[29] [3a7] É comum a todas as {espécies} ⟨essências⟩ o não estarem em nenhum objeto {(25)} ⟨(26)⟩.

[30] [3a17] Ora as essências secundárias são categorias do objeto; não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome {(26)} ⟨(27)⟩.

[31] [3a21] Mas isto não é particular às essências; porque também as diferenças[t3] são do número das coisas, que não estão em nenhum objeto {(27)} ⟨(28)⟩.

[32] [3a25] E as diferenças são categorias do objeto a que se referem: até mesmo quanto à razão do nome {(28)} ⟨(29)⟩.

[33] [3a29] Nem nos faça confusão o estarem as partes das essências nos todos a que pertencem: de modo que nos julguemos obrigados a dizer, que elas não são essências. Porquanto nós não dissemos que as coisas, que estão em algum objeto, existem em algum, como partes dele.

[34] [3a33] Verifica-se pois tanto nas essências, como nas diferenças, que todas as outras coisas derivam delas os seus nomes de uma maneira unívoca {(29)} ⟨(30)⟩.

[35] [3b10] Toda a essência parece significar o que alguma coisa é: E quanto às essências primárias é verdade indubitável, que significam o que alguma coisa é {(30)} ⟨(31)⟩. [3b13] Quanto às essências secundárias sim parece pela forma do seu enunciado, que também significam o que alguma coisa é {(31)} ⟨(32)⟩: [3b15] mas isto é mera aparência; porque tais expressões denotam antes qual seja a coisa a que se referem; nem se aplicam a um só objeto, como as essências primárias {(32)} ⟨(33)⟩. [3b18] Contudo não denotam uma simples qualidade {(33)} ⟨(34)⟩.

[36] [3b19] Assim que, tanto a espécie, como o gênero, determinam as qualidades das essências; porque determinam de uma dada essência qual ela seja.

[37] [3b21] Mas esta determinação é mais ampla no gênero do que na espécie {(34)} ⟨(35)⟩.

[38] [3b24] Também se verifica nas essências o não terem nada que lhes seja contrário {(35)} ⟨(36)⟩.

[39] [3b27] Mas isto não é particular às essências; mas também se verifica em muitas outras coisas, como nas quantidades {(36)} ⟨(37)⟩.

[40] [3b33] Parece outrossim que as essências não são suscetíveis de mais nem de menos {(37)} ⟨(38)⟩.

[41] [4a10] Porém o que principalmente parece ser particular às essências, é, que um e o mesmo indivíduo é suscetível de ser em um tempo o contrário do que era em outro tempo {(38)} ⟨(39)⟩.

[42] [4b17] De modo que é próprio das essências o admitirem estados contrários, vindo elas mesmas a mudarem {(39)}. Mas o que fica dito bastará a respeito das essências.

[43] [4b20] Das quantidades umas são discretas, outras são contínuas: umas constam de partes que têm certa situação entre si: e outras, cujas partes não são suscetíveis de situação entre si.

[44] [4b22] É quantidade discreta qualquer número, qualquer discurso: e continua a linha, a superfície, o corpo: e além destas, o lugar, e o tempo (40).

[45] [5a38] Absolutamente falando só estas que temos nomeado, é que são quantidades: todas as outras só o são acidentalmente (41).

[46] [5b11] Além disso à quantidade nada é contrário (42).

[47] [6a19] Nem tampouco a quantidade determinada é suscetível de mais nem de menos (43).

[48] [6a26] O que é principalmente particular às quantidades, é o dizerem-se iguais ou desiguais (44).

[49] [6a36] Chamam-se relativas aquelas coisas, que o que são, são- ⟨n⟩o de outras coisas, ou por outro algum modo o são relativamente a outras coisas (45).

[50] [6b15] Os relativos são suscetíveis de contrário (46).

[51] [6b17] Mas nem todos os relativos são suscetíveis de contrário (47).

[52] [6b19] Também parece serem os relativos suscetíveis de mais, e de menos {(49)} ⟨(48)⟩.

[53] {43} ⟨53⟩ [6b24] Mas nem todos os relativos são suscetíveis de mais, nem de menos (49).

[54] [6b28] Todos os relativos são recíprocos daqueles de quem se dizem (50).

[55] [6b36] Contudo às vezes pode parecer, que não existe esta reciprocidade; a saber, quando o correlato se não exprime em termos próprios: e isto à proporção que o nome do relativo se afastar do seu correlato (51).

[56] [7b15] Igualmente parece ser da natureza dos correlatos o existir um, sempre que existe o outro. E com efeito assim se verifica pela maior parte (52).

[57] [7b22] Mas não é da natureza de todos os correlatos o deverem sempre coexistir (53).

[58] [8a13] Pode entrar em dúvida, se há alguma essência, que seja do número das coisas relativas; como com efeito parece não a haver: ou se isto só acontece com algumas das essências secundárias; porque quanto às primárias é certo ser assim (54).

[59] [8b25] Eu chamo qualidade a aquilo por onde se designa, quais sejam certos e determinados objetos.

[60] [8b25] Mas a qualidade é do número daquelas palavras, que admitem muitos sentidos. Porquanto há primeiramente uma espécie de qualidades, que é a dos hábitos e das afeições (55).

[61] [9a14] E há uma segunda espécie, que é aquela pela qual dizemos de alguém, que ele é fraco ou que é forte no pugilado, ou na carreira, ou na saúde: ou pela qual em geral afirmamos alguma coisa sobre a força ou a fraqueza própria da natureza de qualquer objeto (56).

[62] [9a28] Há outra terceira espécie de qualidades, que são as qualidades passivas ou as paixões (57).

[63] [10a11] E há enfim uma quarta espécie de qualidades, que são a figura e as modificações de cada figura (58).

[64] [10a27] Eis aqui as que se chamam qualidades: e chamam-se {quais} ⟨tais⟩ os objetos que por cognominação se dizem a respeito delas, ou por algum outro modo trazem delas o nome, pelo qual os designamos.

[65] [10a29] Da maior parte e de quase todas elas se derivam por cognominação aqueles nomes (59).

[66] [10a32] Mas em algumas não pode ter lugar a cognominação; porque não existe nome para a respectiva qualidade (60).

[67] [10b5] Em outros porém, posto que a qualidade tenha nome, o do objeto a que ela se refere, não se deriva dele por cognominação (61).

[68] [10b12] As qualidades são suscetíveis de contrário (62).

[69] [10b15] Mas isto não acontece a todas as qualidades (63).

[70] [10b17] Além disso, todas as vezes que um de dois contrários é qualidade, também o outro o é necessariamente (64).

[71] [10b26] Também admitem as qualidades mais e menos (65).

[72] [10b29] Mas não todas, porém sim a maior parte (66).

[73] [11a15] Contudo nenhuma das sobreditas propriedades é particular às qualidades. O que lhes é particular é a semelhança ou a dessemelhança (67).

[74] [11a20] Nem nos cause confusão, se alguém nos observar, que tratando-se aqui das qualidades, enumeramos muitas coisas que pertencem aos relativos (68). [11a22] Porquanto é de notar, que de quase todas essas coisas são os gêneros os que pertencem aos relativos; e os indivíduos às qualidades (69). [11a37] Porém quando acontecesse encontrar-se uma mesma coisa entre os relativos e entre as qualidades, não haveria nisso absurdo algum, porque pode muito bem uma mesma coisa pertencer a dois gêneros diferentes.

[75] [11b1] Tanto a ação, como a paixão são suscetíveis, não só de contrário, mas também de mais e de menos (70).

[76] [11b17] Passando a tratar dos opostos, e de quantos modos as coisas costumam ser opostas entre si; é de saber, que há quatro modos de oposição; que vêm a ser: ou como relativos, ou como contrários, ou como privação e efetividade, ou como afirmação e negação (71).

[77] [11b24] As coisas que são opostas como relativas, isso que são, ou o são dos seus opostos, ou deles se afirmam por alguma outra maneira (72).

[78] [11b32] E as que o são como contrárias, não se podem de nenhum modo afirmar umas das outras: mas sim que umas são contrárias das outras (73).

[79] [12a1] Aqueles contrários, de que se verifica que necessariamente há de existir um deles nos objetos a que eles por natureza pertencem, ou de que eles são categorias, não admitem nenhum termo médio: bem como aqueles, dos quais não é forçoso que exista um deles, pode-se-lhes sempre assignar um termo médio (74).

[80] [12a20] Algumas vezes este termo médio tem um nome (75): [12a21] mas outras vezes não é fácil o designá-lo com um nome particular; e então determina-se pela negativa de um dos extremos (76).

[81] [12a26] Tanto a privação, como a efetividade referem-se sempre a um mesmo e determinado objeto (77).

[82] [12a29] Quando se diz de alguma coisa, que ela está privada de qualquer efetividade, é nos casos, em que nela não existe o que nela por sua natureza devia existir, ao menos no momento de que se trata (78).

[83] [12a35] Mas estar privado, e ter a efetividade, não é o mesmo que a privação, e a efetividade (79).

[84] [12b2] Quanto à oposição entre o estar privado e o ter efetividade, parece ser a mesma que entre a privação e a efetividade; por isso que o modo da oposição é idêntico (80).

[85] [12b5] Pela mesma razão as coisas sobre que recai a afirmação ou a negação, não são afirmação nem negação (81).

[86] [12b16] Que a privação e a efetividade não são entre si opostos como relativos, é evidente; pois que de nenhuma delas se diz que o que ela é, o é da sua oposta (82).

[87] [12b26] Do que fica dito se vê também, que a privação e efetividade não são entre si opostas como os contrários; (83). [13a6] Seguindo-se de quanto fica dito, que nem podem pertencer aos contrários que admitem termo médio, nem àqueles que o não admitem (84).

[88] [13a37] As coisas que são entre si opostas, como afirmação e negação, é evidente que o não podem ser por nenhum dos referidos modos; porque nelas somente se verifica que de necessidade uma há de ser verdadeira, e a outra falsa: entretanto que nem nos contrários, nem nos relativos, nem da privação e efetividade se verifica, que dos opostos um haja de ser necessariamente verdadeiro e o outro falso (85).

[89] [13b36] Ao bem é necessariamente contrário o mal (86). [14a1] Porém ao mal umas vezes é contrário o bem, outras vezes é-o outro mal (87). [14a4] Contudo este último caso em poucos se verifica: pela maior parte o contrário do mal é o bem.

[90] [14a6] É de notar, que de dois contrários não é necessário que existindo um, deva existir o outro (88).

[91] [14a15] É fácil de compreender que os objetos de dois contrários, devem ser idênticos, tanto em gênero, como em espécie (89).

[92] [14a19] E portanto é de necessidade, que dois contrários ou se compreendam em um mesmo gênero, ou em gêneros contrários; ou que eles sejam gêneros por si mesmos (90).

[93] [14a26] Quatro são os modos, por que uma coisa se diz ser primeira do que outra: o primeiro e {o} principal é em razão do tempo (91): [14a29] o segundo é quando, devendo-se concluir da existência desta a daquela, não se pode concluir reciprocamente (92): [14a35] o terceiro é quando se diz primeiro em razão de alguma determinada ordem (93): [14b3] e além destes, que ficam ditos, parece ser primeiro por natureza, o que é melhor e mais estimado {(97)} ⟨(94)⟩.

[94] [14b10] Poderia lembrar, que além dos quatro referidos ainda existe outro quinto modo de prioridade; porque de duas coisas, das quais, dada a existência de uma se conclui a da outra: e reciprocamente; aquela de entre ambas, que de algum modo é causa da existência da outra, com razão se poderia chamar primeira por sua natureza (95). [14b22] E neste sentido poder-se-ia dizer, que são cinco os modos, por que uma coisa se pode denominar primeira do que outra.

[95] [14b24] Chamam-se conexas as coisas, no sentido mais amplo, e principalmente, quando a sua formação é acontecida no mesmo tempo; de modo que uma não é anterior, nem a outra posterior: E chama-se-lhes simultâneas, ou conjuntas em tempo.

[96] [14b27] Chamam-se porém conexas por natureza aquelas, cuja dependência é tal, que dada a existência de qualquer delas, se pode seguramente concluir a da outra: sem que contudo uma seja causa da existência da outra (96).

[97] [15a13] As espécies, que há de movimentos são seis; a saber: formação, destruição, aumento, diminuição, transformação, e mudança de lugar (97).

[98] [15b17] Também são muitos os sentidos da palavra ter; por que se diz de qualquer efetividade ou disposição, ou em geral, de qualquer outra qualidade (98). [15b19] Diz-se das quantidades (99). [15b21] Diz-se dos acidentes externos ao corpo todo (100), [15b22] ou a uma parte dele (101). [15b23] Diz-se das partes do corpo (102). [15b24] Diz-se das vasilhas (103). [15b26] Diz-se do que se possui (104). [15b30] Talvez se poderiam ainda achar outros sentidos da palavra ter; mas os que se costumam usar, são pouco mais ou menos, os que ficam enumerados.

Categorias. Segunda parte. Explicações.

1. [1a1] Exemplo: Animal tanto o é o homem, como aquele nome escrito. Entretanto não têm de comum senão o nome; mas a razão desse nome é diferente para cada um deles. Porquanto se alguém houver de dar a razão de se aplicar o nome de animal a cada qual deles; para cada um há de dar uma razão particular.

2. [1a8] Exemplo: Animal tanto o é o homem, como o boi; porque ambos eles se designam pelo nome comum de animal. E até mesmo a razão desse nome é idêntica para ambos. Porquanto se alguém houver de dar a razão, por que qualquer deles é animal, deve dar uma e a mesma razão.

3. [1a14] Exemplo: de Gramática, Gramático; de Valor, Valoroso.

4. [1a17] Umas ligadas, como: o {boi} ⟨homem⟩ corre, o homem vence. Outras desligadas, como: Homem, Boi, corre, vence.

5. [1a21] Exemplo: Homem diz-se de algum objeto, isto é, de algum determinado homem; mas não está em nenhum objeto.

6. [1a25] Exemplo: A Ciência gramatical de alguém está em algum objeto, que é a alma; mas não se diz de nenhum objeto. A brancura de algum determinado corpo está em algum objeto, isto é, nesse mesmo corpo; mas não se diz de nenhum objeto.

7. [1b1] Exemplo: A Ciência está em algum objeto, que é a alma: e diz-se de algum objeto, como, por exemplo, da Gramática.

8. [1b4] Exemplo: Um determinado homem, um determinado cavalo; porque nenhum destes está em nenhum objeto, nem se diz de nenhum objeto.

9. [1b8] Porque a Ciência gramatical de alguém é daquelas coisas, que se acham em um objeto: e contudo não se diz de nenhum objeto.

10. [1b12] Exemplo: Na Categoria de Homem compreende-se um determinado homem. E na de Animal compreende-se o Homem. Logo um determinado homem compreende-se na Categoria de Animal; porque esse determinado homem é Homem e Animal.

11. [1b17] Exemplo: As de Animal e as de Ciências. Porque as diferenças de Animal são réptil, bípede, volátil, e aquátil. Ora as de Ciências não são estas; porque nenhuma Ciência difere de outra Ciência em ser bípede.

12. [1b22] Porque os gêneros principais são Categorias, que contêm as subalternas.

13. [1b27] Essência, para o dizer com exemplos, é como: Homem, Cavalo.

Quantidade. Exemplo: De dois côvados; de três côvados.

Qualidade. Exemplo: Branco, Gramático.

Relação. Exemplo: Dobrado, Metade, Maior.

Lugar. Exemplo: Na praça, No {rocio} ⟨Liceu⟩.

Tempo. Exemplo: Ontem, Anteontem.

Estar. Exemplo: Está recostado, Está sentado.

Ação permanente. Exemplo: Calçar-se, Armar-se.

Ação transeunte. Exemplo: Cortar, Queimar.

Paixão. Exemplo: Ser cortado, Ser queimado.

⟨14. [2a10] Exemplo: Homem, Branco; corre, vence.⟩

{14} ⟨15⟩. [2a13] Exemplo: Um determinado homem; um determinado cavalo.

{15} ⟨16⟩. [2a16] Exemplo: Um determinado homem é compreendido na espécie Homem: E o gênero desta espécie é Animal. São pois as essências secundárias tais, como Homem e Animal.

{16} ⟨17⟩. [2a21] Exemplo: Um determinado homem é um objeto, que se compreende na Categoria de Homem: primeiramente quanto ao nome; porque de qualquer determinado homem se diz ser Homem: e em segundo lugar a razão categórica de Homem é aplicável a qualquer determinado homem; porque qualquer determinado homem é Homem e Animal. ⟨E portanto é Categoria do objeto, não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome.⟩

{17} ⟨18⟩. [2a31] Exemplo: A brancura, que está em um objeto (que é o corpo) é Categoria em que se compreende o corpo; porquanto o corpo se diz branco: mas a razão Categórica da brancura não é aplicável ao corpo.

{18} ⟨19⟩. [2a35] Isto se faz manifesto da consideração de cada uma das coisas de per si; por exemplo: Homem contém-se na Categoria de Animal; e por conseguinte também qualquer determinado homem se conterá nessa mesma Categoria; porque, se algum determinado homem se não contém nela: então também se não compreenderá o Homem em geral. Do mesmo modo a cor existe no corpo: e logo também em qualquer determinado corpo; porque se não existe em algum corpo, então também não existe no corpo em geral. E portanto todas a outras coisas ou se dizem das essências primárias, como de outros muitos objetos: ou estão nelas, como em outros tantos objetos.

{19} ⟨20⟩. [2b8] Porque está mais próxima à essência primária. Porquanto querendo-se designar o que seja uma essência primária, se designará mais clara e propriamente apontando-se a sua espécie, do que o seu gênero. Por exemplo: querendo designar o que seja um determinado homem, se designará mais claramente, dizendo-se que é Homem, do que dizendo-se, que é Animal. Porque aquela primeira designação é mais própria desse determinado homem: entretanto que esta é mais comum. E querendo-se designar uma determinada árvore, se designará mais claramente, dizendo-se ser uma árvore, do que dizendo⟨-se⟩ ser um vegetal. [2b15] ⟨Além disso as essências primárias não se dizem principalmente essências, senão porque são objetos de todas as outras cousas: e todas as outras cousas, são Categorias em que elas se contêm.⟩

{20} ⟨21⟩. [2b19] Porque a espécie passa a ser objeto relativamente ao gênero; visto que a espécie se compreende na Categoria do gênero: e não inversamente o gênero na da espécie. E por isso também é a espécie mais essência do que o gênero.

{21} ⟨22⟩. [2b24] Por isso que querendo-se designar um determinado homem, não se denotará mais propriamente dizendo que é Homem, do que se querendo-se designar um determinado cavalo, se dissesse ser Cavalo.

{22} ⟨23⟩. [2b27] Porque um determinado homem não é mais essência, do que um determinado boi.

{23} ⟨24⟩. [2b30] Porque, de todas as Categorias, em que a essência primária se compreende, nenhuma a designa tão bem, como os gêneros e as espécies. Porquanto, se se quiser designar o que é um determinado homem, designar-se-á com propriedade denotando-se a sua espécie, ou o seu gênero, e designar-se-á mais claramente dizendo-se, que é Homem ou Animal. Mas se se apontasse qualquer outra coisa, designar-se-ia de um modo estranho; como se se dissesse ser branco ou que corre, ou outra alguma coisa semelhante. Por onde com razão, de entre todas as coisas, a elas sós se lhes tem dado o nome de essências. E mesmo as essências primárias não se chamam com especialidade essências, senão porque são objetos, que se compreendem em todas as outras coisas, como em outras tantas Categorias.

{24} ⟨25⟩. [3a3] Porque todas as outras coisas são outras tantas Categorias em que elas se contêm. Porquanto assim como de um determinado homem é que diremos ser gramático, assim também do que é homem, do que é animal é que diremos ser gramático. O mesmo acontece em tudo o mais.

{25} ⟨26⟩. [3a8] Porque as essências primárias nem estão em nenhum objeto, nem se dizem de nenhum. E quanto às secundárias também é claro, que nenhuma delas está em objeto algum. Pois homem sim se diz de algum objeto, que é qualquer determinado homem; mas não está em nenhum objeto; porque homem não está em nenhum determinado homem. Do mesmo modo animal sim se diz de algum objeto, que é qualquer determinado homem; mas animal não está em nenhum determinado homem. Além disso as coisas, que estão em algum objeto, nada obsta a que sejam Categorias dele quanto ao nome; mas quanto à razão do nome é impossível que o sejam.

{26} ⟨27⟩. [3a18] Porque a razão categórica[t4] de homem é aplicável a qualquer determinado homem: E do mesmo modo a razão categórica de animal. De tudo o que se segue, que nenhuma essência pode ser do número das coisas, que estão em algum objeto.

{27} ⟨28⟩. [3a22] Porque o ter pés, e o ser bípede, diz-se do homem, como objeto; mas não está em nenhum objeto; porquanto não está no homem o ter pés, nem o ser bípede.

{28} ⟨29⟩. [3a26] Exemplo: se se diz do homem o ter pés, é porque ao homem é aplicável a razão categórica desta expressão; pois que o homem é um animal dotado de pés.

{29} ⟨30⟩. [3a34] Porque todas as Categorias, que delas se derivam, ou compreendem indivíduos ou espécies, visto que das essências primárias se não deriva nenhuma Categoria, sendo assim que se não dizem de nenhum objeto. E quanto àquelas, que se derivam das essências secundárias, a espécie compreende os indivíduos: e o gênero compreende as espécies e os indivíduos. Do mesmo modo as diferenças fornecem outras tantas Categorias, em que se compreendem ⟨as⟩ espécies e os indivíduos. Além disso a razão categórica, tanto das espécies, como dos gêneros, é aplicável às essências primárias; porque tudo o que se diz do objeto, se há de também dizer das Categorias, em que ele se compreende. Semelhantemente a razão categórica das diferenças é aplicável às espécies, e aos indivíduos. Ora {sinônimos} ⟨unívocos⟩ eram os que tinham o mesmo nome, e a razão do nome idêntica. Logo todas as coisas, que se compreendem nas Categorias das essências e das diferenças, tiram delas os seus nomes de uma maneira unívoca.

{30} ⟨31⟩. [3b12] Porque cada uma delas significa um objeto indivisível, e um número.

{31} ⟨32⟩. [3b14] Como quando se diz Homem, Animal.

{32} ⟨33⟩. [3b17] Porquanto Homem, Animal dizem-se de muitos.

{33} ⟨34⟩. [3b18] Como Branco, que nada mais significa do que uma simples qualidade.

{34} ⟨35⟩. [3b22] Porquanto quem diz: Animal, abrange a mais, do que quem diz Homem.

{35} ⟨36⟩. [3b25] Porque quanto às essências primárias, que é o que lhes poderia ser contrário? Por exemplo: a um determinado homem? A um determinado animal? Sem dúvida, que nada lhes é contrário. Tampouco têm contrário Homem ou Animal.

{36} ⟨37.⟩ [3b29] Porque a ser de dois côvados ou a ser de três côvados nada é contrário: bem como nem a dez, nem a outra nenhuma coisa semelhante. ⟨Exceto se alguém disser, que muito é contrário a pouco, e grande a pequeno. Mas às quantidades determinadas nada é contrário.⟩

{37} ⟨38⟩. [3b34] Eu não digo, que não há uma essência mais ou menos essência do que outra; porque isso já fica ensinado afirmativamente. O que eu digo, é, que cada uma das essências, isso que é, não se pode dizer que o é mais, nem menos. Por exemplo se a essência de que se trata é um homem, não pode ser mais, nem menos homem de que ele mesmo: nem tampouco mais ou menos homem do que outro; pois um homem não é mais homem do que outro, do mesmo modo que uma coisa branca pode ser mais ou menos branca do que outra: ou uma coisa formosa, pode ser mais ou menos formosa do que outra: e até cada uma delas em si mesma mais ou menos; por exemplo um corpo que é branco diz-se agora mais ou menos branco do que antes: um que está quente, diz-se estar mais ou menos quente. Mas as essências não se dizem ser nem mais nem menos essências: porque se não diz que um homem seja agora mais ou menos homem do que antes: E assim todas as demais coisas que se chamam essências. Donde se segue, que nenhuma essência é suscetível de mais, nem de menos.

{38} ⟨39⟩. [4a12] Que é o que jamais se pode verificar em nenhuma outra coisa, que não for essência; porque apesar de ser uma em número, nem por isso é suscetível de contrário: por exemplo, uma determinada cor, apesar de ser uma em número, não pode ser branca e preta: uma e a mesma ação, apesar de ser uma em número, não pode ser boa e má: e assim em todas as demais coisas que não são essências. Porém as essências, sendo cada qual delas uma e a mesma em número, são suscetíveis de estados contrários. Por exemplo, um determinado homem, sendo um e o mesmo, ora é branco, ora denegrido: ora está quente, ora frio: ora é mau, ora é bom. Porém nada disso parece verificar-se em nenhuma das outras coisas. Exceto se alguém quisesse insistir dizendo, que o discurso e a opinião são suscetíveis de contrariedade; porque parece, que um mesmo e determinado discurso pode ser verdadeiro e falso. Por exemplo; se fosse verdade o dizer-se que alguém está sentado: logo que ele se levanta este dito passa a ser falso. E o mesmo é de qualquer opinião; porque se alguém julgasse com verdade que outrem estava sentado: logo que este se levantasse, julgaria erradamente formando a respeito dele o mesmo juízo. Porém ainda admitindo isso, há total indiferença quanto ao modo. Porque, quanto às essências, elas não são suscetíveis de estados contrários, senão quando mudam: como por exemplo, o que está frio, depois de ter estado quente, passou por uma mudança: o que está denegrido, depois de ter sido branco, varia: bem como o que é bom, depois de ter sido mau: E assim de todas as outras, que só admitem estados contrários, quando experimentam mudança. Mas o discurso, e a opinião ficam absolutamente imudáveis: e passam a ser{em} o contrário do que eram, quando muda o objeto, a que se referem: como o dito de que alguém está sentado fica sempre sendo o mesmo; e só pela mudança do sujeito é que ora é verdadeiro e depois falso. O mesmo se pode dizer da opinião. Donde se segue, que é particular às essências o admitirem pela sua própria mudança estados contrários.

{39.} [4b4] Mas é de advertir, que, quem admitisse, que o discurso e a opinião são suscetíveis de contrariedade, admitiria um erro; porque nem o discurso nem a opinião passam a ser{em} o contrário do que eram, porque lhes sobreviesse alguma coisa, mas porque se aplicam a outro caso: pela simples existência ou não existência do fato, é que o discurso que a ele se refere se diz ser verdadeiro ou falso: e não porque o mesmo discurso em si admitisse estado contrário ao que era antes; porque em nada absolutamente se acha ter mudado, nem o discurso, nem a opinião. Ora não tendo eles recebido mudança alguma em contrário, não se podem dizer suscetíveis de passarem a ser{em} o contrário do que eram. Ao contrário porém as essências, que por isso que recebem modificações contrárias, é que se dizem suscetíveis de estados contrários: como por exemplo; porque é suscetível de doença ou de saúde, de brancura ou de negridão; e assim do resto; é que se diz ser suscetível de contrariedade. Logo é particular às essências, que sendo cada qual delas uma e a mesma em número, pela sua própria mudança passam a ser{em} o contrário do que eram.

40. [4b25] Porque as partes do número não têm termo nenhum comum, em que as partes do mesmo número se encontrem. Por exemplo cinco considerado como parte de dez, não tem outro um termo comum em que se encontre com os outros cinco, mas são qualidades discretas. Do mesmo modo três e sete não se encontram em nenhum termo comum. E em geral é impossível assignar um termo comum, em que encontrem as partes de qualquer número; mas sempre são discretas. De modo que o número é uma das quantidades discretas. Do mesmo modo o discurso. Ser o discurso quantidade é evidente; porque se mede por sílabas longas e breves. Eu falo do discurso pronunciado. Mas não há termo nenhum comum, em que as partes do discurso concorram: pois que as sílabas não se encontram em nenhum termo comum, mas antes ficam discretos entre si.

[5a1] Porém a linha, essa é contínua: e pode-se tomar um termo comum, em que se vêm a encontrar as partes de que ela consta, que é o ponto: e da superfície é-o a linha; pois que as partes de um plano se encontram em algum termo comum. Do mesmo modo é sempre possível tomar em qualquer corpo um termo comum, em que as partes concorrem, que é a superfície ou a linha. Outro tanto acontece ao tempo e ao lugar; porquanto o tempo presente pega com o passado, e com o futuro. Por outra parte o lugar também é do número das quantidades contínuas; porque as partes de qualquer corpo ocupam algum lugar e elas concorrem em um termo comum, logo também as partes do lugar, que ocupam as do corpo, hão de concorrem em o mesmo termo comum, em que as partes do corpo concorrem. Do que se segue, que o lugar é uma quantidade contínua, por isso que as partes, de que ele se compõe, concorrem em um termo comum.

{41.} [5a15] ⟨Além disso há umas qualidades, que admitem situação: e outras, cujas partes não são suscetíveis dele.⟩ Exemplo: As partes da linha têm uma situação respectiva entre si; porque cada uma delas jaz em um lugar: e se pode achar e demonstrar aonde ela jaz no plano, e quais sejam de entre as outras partes, aquelas com que ela concorre no plano. Do mesmo modo as partes do plano têm uma determinada situação entre si; porque também se pode assignar aonde jaz cada uma delas, e quais das outras partes são aquelas, com que cada uma concorre. E o mesmo é a respeito dos sólidos, e do espaço.

[5a23] Mas quanto aos números, não é possível mostrar, que as partes, de que cada qual deles se compõe, tenham certa situação respectiva, nem quais sejam as que se encontram com esta ou com aquela. Outro tanto se pode dizer do tempo; por isso que nenhum das partes dele fica subsistindo: e como poderia admitir situação aquilo que não subsiste? Mais depressa se poderia dizer, que tem uma certa ordem; pois que um é primeiro em tempo, e outro é posterior. E o mesmo é dos números; porque também um se conta primeiro do que dois: e dois do que três. De modo que se pode dizer que tem uma certa ordem; mas não se pode admitir que tenham entre si nenhuma situação. Assim também com as palavras, de que nenhuma parte fica subsistindo; mas uma vez pronunciadas, se não podem tornar a tomar; por onde não são suscetíveis de situação, pela simples razão de não serem subsistentes. De tudo o que se segue, que umas coisas constam de partes que têm entre si uma certa situação: e outras, cujas partes não são suscetíveis de situação respectiva.

{42} ⟨41⟩. [5a39] Porque é em consideração às primeiras, que nós chamamos quantidades a todas as outras. Por exemplo, dizemos da brancura que é muita, atendendo a haver muita superfície branca. E de uma ação dizemos ser extensa, atendendo a ser muito o tempo que ela durou: E é deste modo que se diz ter sido o movimento muito.

[5b3] Porém nenhuma destas coisas é em si mesma uma certa quantidade; porque se alguém houver de dizer em que sentido atribui o quantitativo a uma ação, há de determiná-lo pelo tempo da sua duração, como de um ano, ou outra coisa semelhante. E falando da brancura, como quantidade, há de determiná-la pela superfície; porque quanto maior for a superfície, tanto maior é a brancura. Assim que absolutamente falando só são quantidades aquelas, que acabamos de enumerar: de todas as outras nenhuma o é por si mesma; mas só por acidente.

42. [5b11] Porque das quantidades determinadas é evidente que não têm contrário; pois nada o pode ser à qualidade de ter dois ou três côvados: ou a uma superfície: ou a qualquer outra coisa semelhante a estas. Exceto se por ventura alguém disser, que muito é contrário de pouco, e grande de pequeno. Porém estas expressões não designam quantidades, mas sim relações; porquanto nada é por si mesmo grande, nem pequeno, mas somente enquanto se refere a outra alguma coisa. É assim que um monte pode ser pequeno, e grande um grão de painço, por ser este maior que as outras coisas do mesmo gênero: e aquele, menor. Há pois nisto uma comparação; porque a não a haver, nunca um monte poderia ser pequeno, nem grande um grão de painço. Outro exemplo: é assim que dizemos haver muita gente em uma Aldeia: e pouca em Atenas; posto que o número desta exceda muitas vezes o daquela: dizemos haver em casa muita gente, e pouca no teatro; bem que neste haja muitas vezes mais gente que em casa.

[5b27] Além disso, ter dois ou três côvados, &c. são expressões de quantidades determinadas; mas ser grande ou pequeno não são expressões de quantidades determinadas, porém sim de relações. Porque grande e pequeno sempre se referem a alguma outra coisa: e logo é evidente que o que designam são relações. [5b30] Mas quer as ponham entre as quantidades, quer as não ponham, não se pode assignar nada que lhes seja contrário; porque como é que se pode assignar o contrário de uma coisa, que não se considera em si mesma, porém só com relação a outra? Além de que se grande e pequeno são contrários, acontecerá que uma mesma coisa admitirá ao mesmo tempo dois contrários: e será uma mesma coisa contrária a si mesma; pois que acontece que uma mesma coisa é ao mesmo tempo grande e pequena: grande a respeito de um objeto, e pequena a respeito de outro: e assim a mesma coisa é ao mesmo tempo grande e pequena; e portanto viria a admitir dois contrários. Mas nada pode admitir dois contrários; à exceção das essências, porque essas parece poderem admitir contrários. Porém ninguém pode estar ao mesmo tempo são e doente; ser ao mesmo tempo branco e preto: e assim de outras coisas, que nenhuma admite contrários. E aconteceria que uma coisa seria contrária a si mesma; porque se pequeno, é contrário ao grande: como uma mesma coisa pode ser ao mesmo tempo grande e pequena; viria a ser contrária a si mesma. Ora é do número dos impossíveis que uma coisa seja contrária a si mesma; logo pequeno não é contrário a grande; nem muito a pouco. De modo, que ainda quando alguém dissesse que estas expressões não pertencem às de relação, mas às de quantidade; nem por isso lhes poderia descobrir contrário.

[6a11] Mais depressa poderia parecer que o lugar considerado como quantidade, é suscetível de contrários, porque se chama superior o que é contrário ao inferior; referindo-se o inferior a um ponto médio: e determinando o ponto médio, por ser a sua distância aos pontos cardeais do Mundo maior que a dos extremos. E em geral chamam-se contrárias entre si as coisas, que sendo de um mesmo gênero, são entre as suas congêneres as que mais distam entre si.

43. [6a20] Por exemplo, o ter dois côvados, porquanto isto não admite mais nem menos. O mesmo sucede com os números, por exemplo: três não é mais cinco do que cinco, nem mais três do que cinco: e o mesmo é de cinco a respeito de três: nem um determinado tempo é mais tempo do que outro tempo. Em geral nenhuma das que dissemos serem quantidades, é suscetível de mais ou de menos. Logo as quantidades determinadas não são suscetíveis de mais ou de menos.

44. [6a27] Porque cada uma das coisas referidas se diz igual ou desigual: o mesmo é de um número ou de um determinado tempo; que também se dizem iguais ou desiguais: e assim também das outras coisas acima mencionadas; das quais todas se diz, que são iguais ou desiguais. De tudo o mais porém, que não é quantidade, não tem muito lugar o ser igual ou desigual: como por exemplo: uma afeção não se pode dizer com muito acerto, que é igual ou desigual; mas sim semelhante ou dessemelhante: nem de uma coisa branca se diria bem ser igual ou desigual em cor, mas antes semelhante ou dessemelhante. De modo que parece ser sobretudo próprio das quantidades o dizerem-se iguais ou desiguais.

45. [6a37] Exemplo: Maior sempre se diz relativamente a outro, em toda a extensão do significado; porque se diz maior do que alguma outra coisa. Do mesmo modo o que se diz ser duplo, também se diz relativamente a outra coisa, em toda a extensão dos eu significado, porque de alguma outra coisa se diz duplo: E assim de tudo o mais.

[6b2] Também pertencem aos relativos expressões tais como hábito, disposição, ciência, situação; porque todas elas, isso que são, são-no de outras coisas, ou por algum modo relativamente a outras coisas; e sem isso nada significam; porquanto hábito é hábito de alguma coisa; e ciência é ciência de alguma coisa: a posição é posição de alguma coisa: e assim do resto. Logo isso que são, são-no relativamente a alguma outra coisa aquelas, que se dizem serem de outras: ou de algum modo relativamente a outras; como por exemplo se diz de um monte, que é grande relativamente a outro; porque só relativamente a outro é que se diz grande. Assim também o que se diz semelhante, é semelhante a outro. E é deste modo, que todas as outras coisas se chamam relativas. O estado de jazer, de estar em pé, de estar sentado são certas situações; mas jazer, estar em pé, estar sentado são expressões que se derivam daquelas situações.

46. [6b15] Exemplo: A virtude é o contrário do vício: e cada uma{s} destas expressões é relativa. Do mesmo modo, a ciência é o contrário da ignorância.

47. [6b18] Porque a duplo não há nada que seja contrário; nem a triplo; nem a nenhuma outra destas coisas.

48. [6b20] Porque semelhante e dessemelhante dizem-se sê-lo mais ou menos. Igual e desigual também se dizem sê-lo mais ou menos: estas expressões são relativas; porque o semelhante, a alguma coisa é semelhante: o desigual, é-o a respeito de alguma coisa.

49. [6b25] Porque uma coisa dupla não se diz ser mais ou menos dupla: nem nenhuma das outras coisas semelhantes.

50. [6b28] Exemplo: O servo é servo de seu senhor; e o senhor é senhor do seu servo: o duplo é-o da sua metade; e a metade é metade do seu duplo: o que é maior, é-o do que é menor: e o que é menor é-o do que é maior: e assim das demais expressões semelhantes. Às vezes as expressões correlatas diferem na desinência; como por exemplo o conhecimento é-o do conhecido; e o conhecido é-o do conhecimento: a sensação é-o do sentido; e o sentido é-o da sensação.

51. [6b38] Exemplo: Se se diz que a asa é da ave; nem por isso se pode dizer reciprocamente que a ave é da asa. Porque não têm entre si analogia (gramatical) as duas expressões: asa da ave; porquanto não é por se dizer ave, que se diz ser dela a asa; mas porque se diz alada: sendo assim que há asas de muitas outras coisas, que não são aves. De modo que se se desse o nome analógico, então haveria reciprocidade; a saber: asa é asa de alado: e alado refere-se a asa.

[7a5] Mas às vezes seria necessário formar um nome analógico, quando o não há apropriado. Exemplo: Se se tratasse do leme de uma embarcação, não seria analógico o nome de leme; porque não é por ela se chamar embarcação, que ao leme se chama assim; pois que há embarcações, que não têm leme; e por isso não há reciprocidade entre aquelas duas expressões: nem se diz de uma embarcação que é embarcação de tal leme. Seria porém analógico o nome, se se dissesse ser o leme de um alemeado, ou outra expressão semelhante; mas não existe esta, nem outra alguma expressão cognominada; que se existisse, então haveria reciprocidade; porque se diria ser o alemeado do leme. O mesmo é de outras expressões, como por exemplo falando-se de cabeça seria mais analógico dizer cabeça de um capitado, do que dizendo-se cabeça de um animal; porque não é por ter cabeça, que é animal, pois há muitos animais que não têm cabeça.

[7a18] Assim acontecendo não ter uma coisa nome analógico com o do seu correlato, o mais fácil seria dar-lhe nome derivado deste com quem essa mesma coisa se acha em reciprocidade; como nos exemplos precedentes de asa ou ala, alado; de leme alemeado. De tudo o que se segue, que todos os correlatos se se enunciam com propriedade, são recíprocos entre si. Mas se cada um se nomeia ao acaso, e sem analogia com o seu correlato; não pode haver reciprocidade entre eles com propriedade.

[7a25] Digo pois, que mesmo daquelas coisas, que são recíprocas entre si, e que têm nomes cognominados, desparece a reciprocidade, se em vez de eu enunciar a qualidade correlata de uma delas para com a outra, enuncio qualquer outra ao acaso. Exemplo; se querendo-se nomear o correlato de servo; em vez de senhor, se disse homem ou bípede, ou outra coisa semelhante; não poderá haver reciprocidade; porque não se apontou a expressão apropriada. E portanto se deixando de parte tudo o que é acidental a um dos correlatos, se expressar somente o nome apropriado ao do outro correlato; sempre este se poderá afirmar daquele⟨.⟩ Por exemplo, tratando-se do servo relativamente a seu senhor, se deixando de parte tudo o que é acidental ao senhor (como o ser bípede, inteligente, homem) se chamar somente senhor; sempre se poderá afirmar deste que outro é seu servo; por isso que o servo é servo do seu senhor.

[7b1] E a razão é que se não enunciarmos só a qualidade apropriada do correlato, deixando de parte todas as outras; ninguém dirá que é correlato. Porque suponhamos que se diz o servo do homem, e a asa da ave, deixando-se de parte o dizer do home que é senhor; não se segue que se deva dizer o servo do homem; porque se ele não for senhor, também o outro não é seu servo. Do mesmo modo omitindo-se o dizer da ave que é alada, não se segue ser correlato de asa; porque, não se supondo o ser alado, não se lhe pode referir aquela expressão de asa. De tudo o que se segue, que convém nomear os correlatos de uma maneira analógica: o que é fácil quando ambos têm nomes entre si análogos; mas, quando os não têm análogos, cumpre muitas vezes criá-los. Ora dados eles é evidente que existe reciprocidade entre ambos os correlatos.

52. [7b16] Porque duplo e metade sempre andam juntos: e se há duplo, é porque há metade. Se há servo, é porque há senhor: e se há senhor, é porque há servo. E à semelhança destas, todas as demais coisas. Igualmente se verifica que tirado um dos correlatos, se tira também o outro; porque não havendo metade não pode haver o duplo; e não havendo duplo, não pode haver coisa a que se dê o nome de metade. O mesmo se pode dizer de todas as outras coisas a estas semelhantes.

53. [7b23] Porque parece que o objeto da ciência deve existir antes da ciência; sendo assim, que pela maior parte primeiro existem as coisas antes, que nós delas tenhamos conhecimento: E serão poucos, ou nenhuns os casos, em que se verifique, que os objetos começam a existir juntamente com o conhecimento deles. Além disso não existindo o objeto do conhecimento, também este não pode ter lugar; mas nem por isso que não existe conhecimento, deixa de existir o objeto dele. Por exemplo: da quadratura do círculo não existe a ciência, mas nem por isso deixa de existir o que sobre isto há a saber, se é que se pode saber. Por outro lado, não existindo nenhum animal, também não há ciência, entretanto que nem por isso deixam de existir os muitos objetos de conhecimento. O mesmo acontece com a sensação; pois parece que os objetos sensíveis são anteriores à sensação; visto que supondo-se não existir o objeto da sensação, também esta não pode existir; mas de não existir a ciência não se segue que não existem os objetos dela.

[7b38] Porquanto as sensações versam sobre os corpos, e nos corpos; e na suposição de não existir o objeto sensível, também não existem corpos (porque os corpos são do número das coisas sensíveis)⟨.⟩ Ora não existindo corpos, também não pode existir sensação. E por conseguinte não existindo o objeto sensível, não existe a sensação; de não existir a sensação, não se segue, que não exista o objeto sensível; porque supondo-se não existir nenhum animal, não existirá nenhuma sensação: e contudo existem objetos sensíveis, como: os corpos quentes, doces, amargos, e todos os outros quantos são objetos da sensação. Ora a sensação começa a existir com o ente que sente; porque a sensação começa a existir com o animal; e os objetos sensíveis são tão anteriores à sensação, como aos animais; porque o fogo, a água, e mais elementos, de que o animal se compõe, existiam antes de haver animais nem sensação. Donde com razão parece que os objetos da sensação são anteriores à mesma sensação.

⟨54⟩. [8a16] Porque as partes de qualquer essência primária nem singular, nem coletivamente, se podem considerar como coisas relativas; porquanto um certo homem não é certo homem de certo homem; nem um certo boi é certo boi de certo boi. O mesmo é de cada uma das partes; pois se não diz == certa mão de certo homem; porém a mão de certo homem: nem certa cabeça de certo homem; mas a cabeça de certo homem. Assim também acontece com as essências secundárias; quero dizer, pela maior parte; por exemplo: homem não se diz de certo homem: nem boi de certo boi: nem pão de certo pão: bem que qualquer destas coisas se possa chamar propriedade de alguém. Destas é pois claro que não são relativas. Mas há algumas outras essências secundárias, sobre as quais pode haver dúvida; como por exemplo: a cabeça diz-se cabeça de alguém: a mão diz-se mão de alguém: e assim de cada uma das outras coisas semelhantes: de modo que estas com razão podem parecer ser do número dos relativos. [8a28] Se pois a definição que se tem dado de relativo é acertada, é muito difícil, ou impossível o demonstrar, que nenhuma essência há do número dos relativos. Mas se aquela definição não é exata: e se são relativas aquelas coisas de que se verifica ser o mesmo existirem, que existirem de algum modo a respeito de outra alguma coisa; então poder-se-á talvez dizer que há coisas correlatas destas essências. A primeira daquelas definições sim se verifica em todos os relativos, mas não é o mesmo serem eles relativos, que serem de outra coisa, isso que eles são em si mesmos.

[8a35] De tudo o que fica manifesto, que se alguém conhecer definitivamente um relativo, também conhecerá definitivamente o seu correlato: e deduz-se claramente do que fica dito, porque se alguém conhece que uma determinada coisa é do número dos relativos: como ser relativo é ser de certo modo a respeito de outra alguma coisa; segue-se que ele também deve conhecer o objeto correlato a respeito de quem aquele relativo é desse modo; porque se ele não conhece o correlato a respeito do qual o relativo é desse modo, também não conhece que ele lhe é relativo. Isto mesmo se manifesta, discorrendo-se por casos particulares. Por exemplo; se alguém sabe que uma determinada coisa é dupla, também há de logo saber o de que é dupla; porque se não conhece nenhuma coisa determinada de que ela seja dupla; ignora absolutamente que ela seja dupla. Do mesmo modo: se alguém sabe que uma coisa é mais formosa que outra; também por isso mesmo deve logo saber determinadamente qual seja essa outra que é menos bela: nem é de uma maneira indeterminada, que ele saberá ser essa coisa mais bela do que a outra; pois que nesse caso, haveria suposição, e não ciência; porque ainda se não conhece exatamente se é mais formosa do que a outra: porquanto a ser assim, seguir-se-ia não haver coisa pior do que essa outra.

[8b13] De tudo o que fica manifesto, que se alguém conhece determinadamente um relativo, necessariamente conhece também de uma maneira determinada o seu correlato.

[8b15] Ora a cabeça, a mão, e outras semelhantes coisas que são essências, pode-se muito bem conhecer determinadamente o que elas são, sem contudo se seguir necessariamente, que devamos conhecer os objetos, a que se referem; porque não é consequência necessária, que conheçamos determinadamente de quem é a cabeça ou a mão. Logo nenhuma destas coisas é do número dos relativos: E se nenhuma delas é do número dos relativos; será verdade dizer que nenhuma essência é do número dos relativos. Mas talvez não é fácil o demonstrá-lo evidentemente, não se tendo assiduamente meditado. Não deixa contudo de ter utilidade o questionar sobre cada um destes objetos em particular.

55. [8b27] E difere o hábito da afeção em ser mais diuturno, e mais permanente. Tais são as ciências e as virtudes. Porque a ciência parece ser do número das coisas mais estáveis e menos mudáveis, por pouca que seja a ciência adquirida, uma vez que por doença, ou por outra alguma semelhante causa não tenha acontecido grande transtorno na pessoa. Do mesmo modo a virtude, como a Justiça, a Temprança ou qualquer outra semelhante não parecem ser coisas que mudem facilmente, ou que facilmente variem. Ora chamam-se afeções aquelas que mudam facilmente, e que variam com prontidão: tais como, o calor, o frio, a saúde, a doença, e outras semelhantes coisas. Porque o homem de algum modo está sujeito a elas: e com facilidade muda, passando de quente a frio, e do estado de saúde ao de doente: E o mesmo é dos outros casos. Contudo poderia alguém dizer que uma afeção que tendo durado muito tempo, se tem convertido em natureza, nem se pode destruir, merece o nome de hábito. [9a4] Mas nisto mesmo se mostra, que o que se quer entender por hábito, é o que é de maior duração e de mais difícil mudança. Porquanto falando nós daquelas pessoas que não possuem bastantemente alguma ciência, nunca dizemos que esta seja nelas um hábito; porque umas vezes estão em melhor, outras em pior estado relativamente à mesma ciência. Por onde difere a afeção do hábito em que a primeira é fácil de mudar: e a segunda é de mais duração e da mais dificultosa mudança⟨.⟩ Mas todos os hábitos são afeções, posto que nem todas as afeções sejam necessariamente hábitos. Porquanto aqueles que têm algum hábito, são em certo modo afetados por ele. Ora de quem está afetado não se pode dizer que tem um hábito.

56. [9a16] Porque de nenhuma destas coisas se diz, que alguém está afetado; mas sim que tem a força física ou a impotência de fazer alguma ação ou de não sofrerem alguma paixão. Por exemplo os que se dizem hábeis no pugilado, ou na carreira, não se dizem tais, porque se achem afetados de um certo modo, mas porque têm a força física de fazerem certas coisas facilmente. Os que se dizem sadios, dizem-se tais porque têm a força física de não sofrerem facilmente dos acasos que atacam a saúde: E enfermiços os que são dotados da impotência para resistirem a esses mesmos acasos. Semelhantemente a estas expressões se verifica com as de duro e brando; que se chama duro, porque tem a força de se não partir facilmente: e brando, porque é dotado de impotência para lhe acontecer outro tanto.

[9a29] Tais são por exemplo a doçura, o amargo, o travo, e outras coisas do mesmo gênero. E assim também o calor e o frio: a brancura, e a negridão. Serem todas estas coisas qualidades, é evidente; porque por elas é que se determina, de que qualidades são os objetos, que delas são suscetíveis. Por exemplo: o mel por isso que entra na sua natureza a doçura, é que se chama doce: e um determinado corpo por isso se diz branco, porque nele se verifica a brancura. O mesmo acontece com todas as outras expressões.

⟨57.⟩ [9a35] As qualidades dizem-se passivas, não porque os objetos, em que elas se verificam, padeçam alguma coisa; porque ao mel não se lhe chama doce, porque padece alguma coisa: e assim nos outros semelhantes: como também o calor e a frialdade se dizem qualidades passivas, não porque as substâncias, em que aquelas qualidades se encontram, padeçam alguma coisa: mas porque segundo as sensações que cada qual daquelas qualidades produz é causa de uma paixão. Pois que a doçura produz uma paixão no gosto: e a frialdade no tato: e assim das demais. [9b9] Quanto à brancura, à negridão, e às outras cores, sim se chamam também qualidades passivas, mas não pela mesma razão das de que acabamos de falar; mas porque derivam de uma paixão. Que há muitas mudanças de cor que derivam de alguma paixão, é coisa evidente; pois que o homem que se envergonha se torna vermelho: e amarelo, o que se toma de medo: e assim nos demais casos semelhantes. De maneira que todas as vezes que alguém houver experimentado alguma destas paixões, por ser isso próprio da sua natureza; também se pode concluir, com toda a probabilidade, que tomou aquela mesma cor. Porque é de notar, que a afeção há pouco observada no corpo por ocasião do pejo, também pode verificar-se por efeito da constituição física: e por isso pode também resultar a mesma cor, em consequência da natureza do objeto.

[9b19] Todos os sintomas pois que, assim como os mencionados, tiram a sua origem de alguma paixão durável ou menos sujeita a variar, chamam-se qualidades passivas, quer seja pela própria natureza das coisas (tal como a negridão) por isso que as coisas se dizem tais relativamente a elas; quer seja porque em consequência de uma longa enfermidade, ou por uma queimadura, sobreveio ao sujeito a palidez, ou negridão, de modo que ou não mudam facilmente, ou talvez duram por toda a vida; pois também nestes casos se chamam qualidades; por isso que também relativamente a elas se denominam tais objetos. [9b28] Mas os que derivam de paixões que facilmente desvanecem, e com prontidão se mudam; não se chamam qualidades, mas paixões; pois que nunca os objetos se dizem ser tais relativamente a elas. Assim do homem que por efeito de pejo se fez vermelho, não dizemos que é vermelho: nem daquele que se tornou pálido por medo, dizemos que é pálido; mas somente dizemos, que experimentaram certa paixão. E portanto são aquelas paixões, e não qualidade. [9b33] Semelhantemente no que respeita à alma, umas se chamam paixões e outras qualidades passivas. Porquanto aquelas que logo na sua origem se achar, terem derivado de paixões, que dificilmente variam; chamam-se qualidades; tais como a alienação mental: a cólera: e outras semelhantes; pois que relativamente a elas se dizem os homens coléricos, maníacos. E do mesmo modo nas demais desordens que se afastam da humana natureza, mas que de tal modo derivam de outros sintomas, que ou são mui difíceis de mudarem, ou são absolutamente inamovíveis; pois todas elas se chamam qualidades, por isso que conformemente a elas se dizem os homens tais. Aquelas porém que derivam de sintomas que fácil e brevemente mudam; chamam-se paixões: como quando alguém, exp’rimentando um dissabor, se encoleriza; porque em tal caso não se diz que ele é colérico por se ter encolerizado durante aquela paixão; mas antes se diz, que ele padeceu alguma coisa. Assim todas estas coisas se chamam paixões e não qualidades.

58. [10a12] Isto compreende as linhas e superfícies retas ou curvas, e tudo o que a essas formas se assemelha. Porque a todos e a cada um destes respeitos se dizem as coisas tais. Assim o ser triangular, ou quadrangular, é ser tal: E do mesmo modo o ser reto ou o ser curvo, cada um segundo a sua respectiva figura, se diz tal.

[10a16] Porventura parecerá que o denso, e o raro: o liso, e o áspero entram no número das qualidades. Mas a mim parece-me, que estas expressões designam coisas alheias de rubrica da qualidade; pois é manifesto que qualquer delas denota mais depressa uma certa disposição de partes. Porquanto denso denota que as partes estão conchegadas: raro, que estão distantes umas das outras: liso, que estão todas em um mesmo plano: e áspero, que umas estão mais altas, e outras mais baixas.

[10a25] Também parecerá talvez haver mais alguma outra espécie de qualidade. Mas as que ordinariamente assim se denominam, são estas.

59. [10a30] Por exemplo: de brancura, branco: de literatura, letra: de justiça, justo: e assim nos demais.

60. [10a34] Por exemplo: tratando-se de alguém, que possui a habilidade do pugilado ou da carreira; não existe qualidade nenhuma, donde ele derive competente nome, porque aquelas habilidades não têm nomes, conforme aos quais, o que as possui, se diga tal, do mesmo modo que se chama atlética a ciência do atleta e cursória a do corsador: e conforme àquelas denominações se chamam tais aos que possuem semelhantes ciências.

[10b3] Algumas vezes porém tendo nome a qualidade, nem por isso se denota cognominadamente o sujeito que a possui.

61. [10b7] Por exemplo: Garbo diz-se daqueles, que têm maneiras nobres e engraçadas; mas não há expressão cognominada para denotar o sujeito em quem se verifica semelhante qualidade. Mas isto acontece em mui poucos casos. Assim chamam-se tais todas as coisas, que por cognominação derivam seus nomes dos de alguma qualidade.

62. [10b12] Por exemplo: a justiça é contrária à injustiça: a brancura à negridão; e assim as demais. Bem como são contrárias entre si as coisas em que se verificam essas qualidades; por exemplo justo a respeito do injusto: e branco a respeito de preto.

63. [10b16] Porque o purpúreo, a amarelo, e a quaisquer cores como estas, nada é contrário.

64. [10b18] Isto se conhece claramente discorrendo-se por cada uma das outras categorias. Porque se a justiça é contrária à injustiça, e a justiça é qualidade; também será qualidade a injustiça. Porquanto nenhuma das outras categorias quadra à injustiça; a saber: nem quantidade, nem relação⟨,⟩ nem lugar, nem nenhuma outra, senão qualidade. O mesmo se verifica em todos os outros contrários relativamente às qualidades.

65. [10b27] Porque de duas coisas brancas se diz ser uma mais ou menos branca de que outra: de duas ações justas diz-se ser uma mais ou menos justa do que a outra. E até mesmo cada uma delas de per si é suscetível de aumento. Porque uma que é branca, pode vir a ser mais branca.

66⟨.⟩ [10b30] Porquanto não faltará quem duvide que se possa dizer que uma justiça o é mais ou menos do que outra; ou uma saúde maior ou menor do que outra. É verdade, que se diz, que um tem mais ou menos justiça, mais ou menos saúde do que outro: e semelhantemente de todas as demais afeções. Mas o que daqui se segue é, que indubitavelmente se pode aplicar o mais ou o menos às coisas que são suscetíveis daquelas qualidades: como se diz, que um é mais gramático, mais justo ou mais sadio de que outro. E assim nos demais casos semelhantes. Mas um triângulo ou um quadrilátero, ou qualquer outra figura não parece serem suscetíveis de mais nem de menos; porque todas as coisas, a que é aplicável o nome de triângulo ou a de círculo são igualmente triângulos ou círculos: bem como duas coisas, a que não é aplicável a mesma expressão, não se pode chamar uma mais do que a outra; porque um quadrilátero não é mais círculo do que um oval; por isso mesmo que a nenhum deles é aplicável a expressão de círculo. Em geral, todas a vezes que a nenhuma das duas coisas é aplicável uma expressão, nenhuma delas é mais do que a outra, o que essa expressão designa. Donde se segue, que nem todas as qualidades são suscetíveis de mais ou de menos.

67. [11a15] Porque ser semelhante ou dessemelhante a nada mais se refere do que àquilo mesmo, em que se verifica a qualidade de que se trata. Por onde o que viria a ser próprio das qualidades, seria a semelhança ou dessemelhança dos objetos relativamente a ela.

68. [11a22] Porque dissemos, que os hábitos, e as afeções pertenciam aos relativos.

⟨69⟩. [11a23] Porquanto a ciência tomada em geral, isso que é, é-o de alguma outra coisa; porque há de ser a ciência de alguma coisa. Mas tomada em particular, então isso que é, não o é de outra nenhuma coisa. Por exemplo: a Gramática tomada individualmente não se diz Gramática de alguma coisa; nem a Música, Música de alguma coisa. Tomadas porém genericamente, então pertencem também aos relativos; por exemplo: a Gramática diz-se nesse caso ciência de alguma coisa; mas não Gramática de alguma coisa: e a Música, ciência de alguma coisa; mas não Música de alguma coisa: e portanto individualmente não são relativas. E segundo cada uma delas em particular é que nós nos dizemos tais, por isso que só as possuímos em particular. Assim nos dizemos sábios, porque possuímos algumas das ciências em particular. E portanto elas só são qualidades tomadas em particular, e porque só conforme a elas tomadas em particular é que nós nos dizemos tais. Mas então não são relativas.

{69} ⟨70⟩. [11b2] Porque aquecer é contrário de resfriar: e ter calor é contrário de ter frio: E estar satisfeito é contrário de estar triste. Pelo que são suscetíveis de contrariedade. Quanto a serem suscetíveis de mais e de menos, se vê; porque tanto aquecer, como resfriar, como entristecer-se são suscetíveis de mais {mais} e de menos. Donde se segue, que tanto a ação, como a paixão, são suscetíveis de mais e de menos. E é o que bastará a este respeito. Quanto aos estados, fica dito, quando se tratou dos relativos, que eles derivam por cognominação das situações. E quanto à demais (isto é: ao tempo, ao lugar, e às ações permanentes) são pontos tão fáceis de si mesmos, que não diremos mais nada sobre elas, do que o que ao princípio fica exposto: que a ação permanente é como calçar-se, armar-se. O lugar é como: no Liceu, na Praça. E assim do mais que sobre cada uma delas fica dito. Pelo que bastará o que {te}temos observado sobre cada uma das espécies, que ficam mencionadas.

{70} ⟨71⟩. [11b19] Com exemplos explicaremos o como são estas oposições. Os relativos são opostos, como por exemplo: o duplo à sua metade. Os contrários opõem-se; como por exemplo: o mau ao bom. A efetividade à privação, como por exemplo: a cegueira e a vista. E quanto à afirmação e negação, como por exemplo: está sentado, não está sentado.

{71} ⟨72⟩. [11b26] Exemplo; o duplo de qualquer quantidade, que é metade dela, o que é, diz-se de outra; porque há de ser duplo de alguma outra coisa. E a ciência opõe-se ao sabido na maneira dos relativos; porque o que a ciência é, diz-se daquilo que pode ser sabido; e o que é sabido afirma-se, tal qual ele é, do seu contraposto, a ciência; porque o que é sabido, diz-se ser de alguma coisa; isto é: de alguma ciência. De modo que as coisas, que se contrapõem como relativos, isso que são, ou o são de seus contrapostos, ou se afirmam reciprocamente entre si em alguma maneira.

{72} ⟨73⟩. [11b35] Porque nem o que é bom se diz bom do que é mau; mas contrário a ele; nem o que ⟨é⟩ branco, se diz branco do que é preto; mas contrário a ele. De sorte que são diferentes as contraposições de umas e outras.

{73} ⟨74⟩. [12a4] Exemplo: a doença e a saúde são qualidades próprias do corpo animal: e é forçoso que uma delas exista no corpo animal; ou doença ou saúde. Par e ímpar são categorias de número: e é forçoso que o número seja par ou ímpar. Em nenhum destes exemplos há meio termo: nem entre doença: nem entre par e ímpar. Porém quanto àquelas, de que não é forçoso que exista uma delas, essas têm termo médio. Por exemplo: é próprio do corpo animal o ser preto ou branco; mas não é forçoso o ser uma ou outra destas duas coisas; porque nem todos os corpos são brancos ou pretos. Bom e mau dizem-se do homem, assim como de muitas outras coisas; mas não é forçoso, que uma daquelas duas qualidades exista; porque essas coisas, de que se dizem, nem todas são boas, ou más. E em todos estes casos há um termo médio; por exemplo: entre preto e branco há fusco, pálido, e todas as outras cores. Entre bom e mau, o que nem é bom, nem mau.

{74} ⟨75⟩. [12a21] Por exemplo: entre o preto e o branco é o fusco, o pálido, e todas as demais cores.

{75} ⟨76⟩. [12a24] Por exemplo: o que nem é bom, nem mau: o que não é justo nem injusto.

{76} ⟨77⟩. [12a26] Por exemplo: a vista e a cegueira referem-se ambas aos olhos. E em geral: do objeto, onde costuma verificar-se a efetividade, é que se pode afirmar ou esta ou a privação.

{77} ⟨78⟩. [12a31] Por exemplo: chamamos desdentado, não ao que não tem dentes: e cego, não ao que não vê; mas sim ao que costumando ter uma ou outra destas duas coisas, lhe falta no caso de que se trata. Porquanto há muitas coisas que por sua natureza não são dotadas de vista nem de dentes: e nem por isso se dizem cegas, nem desdentadas.

{78} ⟨79⟩. [12a36] Porque a vista é efetividade: a cegueira é privação. Mas o ter vista não é vista: nem o ser cego, cegueira. Porquanto a cegueira é uma privação: e o estar cego é estar privado, mas não é a privação. Porque se cegueira fosse o mesmo que ser cego, ambas estas expressões se poderiam usar indiferentemente em qualquer dado caso. Mas de um homem diz-se ser cego; e não se diz cegueira.

{79} ⟨80⟩. [12b3] Do mesmo modo que a cegueira se opõe à vista; desse mesmo ⟨modo⟩ o ser cego se opõe a ter vista.

{80} ⟨81⟩. [12b6] Porque a afirmação é um discurso afirmativo: e a negação é um discurso negativo. Mas aquilo sobre que recai a afirmação ou a negação, não é discurso, é um fato. Contudo diz-se que estes fatos se opõem entre si, assim como a afirmação e a negação; porque também aqui se verifica, que o modo da oposição é o mesmo. Assim como a afirmação se opõe à negação, por exemplo: estar sentado se opõe a não estar sentado: do mesmo modo se opõe o estar alguma determinada pessoa sentada a não estar sentada.

{81} ⟨82⟩. [12b18] Porque a vista não é vista de cegueira; nem dela se diz em alguma outra maneira. Do mesmo modo a cegueira não se diz cegueira da vista; mas privação da vista. Além disso os relativos são todos recíprocos entre si: de maneira que se a cegueira pertencesse aos relativos, seria recíproco daquilo a que se referisse: ora ela não é recíproca; porque se não diz da vista, que é vista de cegueira.

{82} ⟨83⟩. [12b27] Porque naqueles contrários, que não têm termo, é forçoso, que nos casos, em que eles se costumam verificar, exista um deles; pois dissemos que não há meio termo, quando é forçoso, que uma das duas coisas se verifique no objeto respectivo; como por exemplo: a saúde, e a doença: par e ímpar. Daquelas coisas porém que admitem meio termo, não é forçoso, que alguma delas se verifique em cada um dos casos, em que podem ter lugar. Por exemplo: não é forçoso que seja branco ou preto um objeto que pode admitir qualquer destas coisas: nem, que um corpo seja quente ou frio; porque nada obsta a que estas coisas tenham um meio termo. Por outra parte dissemos, que tem meio termo aquelas coisas, das quais não é forçoso que uma delas se verifique no caso em que podem ter lugar. Já se vê que se não fala aqui dos objetos que por sua natureza só admitem uma dessas coisas; como do fogo o ser quente: e da neve o ser branca; porque nesses objetos é forçoso que se verifique uma das duas coisas determinadamente: e não qualquer delas; pois nem o fogo pode ser frio, nem a neve preta. Por onde nestes casos não é forçoso que o objeto, em que uma das duas coisas de que se trata, pode ter lugar, tenha qualquer delas; mas somente aquela, de que por sua natureza é suscetível.

[13a3] Ora, na efetividade, bem como na privação, nada do que fica dito, se pode verificar; porque daquelas coisas, a que por natureza não compete o terem vista jamais se pode dizer que estão cegos, nem que tenham vista.

{83} ⟨84⟩. [13a8] Porque é forçoso que em todo o objeto suscetível tanto da efetividade, como da privação, se verifique uma delas. Por exemplo: competindo-lhe por natureza o ter vista; dir-se-ia dela que está cego, ou que vê: mas não determinadamente uma das duas coisas, porém qualquer delas; pois não é forçoso que veja, nem que esteja cego: sendo como é suscetível de qualquer das duas coisas. Ora dos contrários que admitem meio termo, já vimos não ser forçoso que um deles se verifique em todos os casos, em que podem ter lugar; mas somente em alguns: e nesses só e determinadamente um dos dois contrários; e não qualquer deles. Por onde é manifesto que por nenhum dos modos se opõe entre si, como os contrários, aquelas coisas que são opostas como efetividade e privação.

[13a17] Além disso é próprio dos contrários, que dado o sujeito, este é suscetível de mudar de um deles para o outro. Não se fala dos casos em que por sua natureza o sujeito e o contrário são uma e a mesma cousa; como o fogo ser quente. Mas nos demais casos bem se vê por exemplo, que quem está bom, pode adoecer: que o que é branco, pode passar a ser preto: que o que está frio, pode tornar-se quente: que o que é virtuoso se pode tornar vicioso: e vicioso o que é virtuoso. Porque o vicioso, uma vez que ele se aplique a melhores práticas e discursos, não pode deixar de fazer algum progresso, ainda que seja pouco, para se tornar melhor: e uma vez que ele avança, ainda que seja pouco, é evidente, que ou mudará completamente, ou virá a fazer grandes progressos; pois que se vai tornando cada vez mais disposto para a virtude, qualquer que seja o progresso que de princípio tiver feito; donde com razão se espera que os fará ainda maiores: e à medida que isto acontecer, se transformará com inteira e completa mudança para o hábito contrário.

[13a31] Ora entre a privação e a efetividade não pode dar-se reciprocidade de mudança de uma para a outra; porque da efetividade para a privação, sim pode havê-la: mas da privação para a efetividade é impossível. Porquanto nem uma pessoa que cegou de todo torna a cobrar a vista: nem um a quem radicalmente caíram os cabelos, lhe tornam a nascer: nem um que perdeu de todo os dentes, os torna a recobrar.

{84} ⟨85⟩. [13b5] Exemplo. A saúde e a doença são contrárias entre si; mas nenhuma delas é verdadeira nem falsa. Do mesmo modo o duplo e a sua metade são opostos em razão de relativos; mas também nenhum deles é verdadeiro nem falso: e assim também as cousas que se compreendem nas rubricas de efetividade ou de privação: como a vista e a cegueira: ou em geral toda e qualquer expressão desligada; pois em todas elas se verifica, que nem são verdadeiras, nem falsas: no qual caso estão todas as mencionadas; porque todas elas são desligadas. [13b12] Contudo poderia parecer que com mais razão ainda se poderia dizer isso das expressões ligadas e entre si contrárias; porquanto: Sócrates está bom é contrário a Sócrates está doente: e também não é forçoso que destas expressões uma seja verdadeira e a outra falsa. Existindo Sócrates, sim é forçoso que uma delas seja verdadeira, e a outra falsa. Mas não existindo ele, ambas são falsas, porque tão falso é estar Sócrates bom como o estar doente, quando ele absolutamente nem existe. Quanto aos casos de efetividade ou de privação, não existindo o sujeito nenhum deles é verdadeiro; e existindo, não se segue, que um deva ser verdadeiro e o outro falso: por exemplo: ter vista e estar cego são entre si opostos, em razão de efetividade e privação; porque ter Sócrates vista e ser Sócrates cego, são cousas entre si opostas, como efetividade e privação: e não é forçoso que uma seja verdadeira e a outra falsa: quando naturalmente nele ainda não se podia verificar nenhuma delas, ambas eram falsas: e quando ele absolutamente não exista; tão falso é dizer-se que vê, como que é cego.

[13b28] Mas quanto à afirmação e negação, forçosamente há de uma ser verdadeira e a outra falsa, quer o sujeito exista, quer não. Porquanto estar Sócrates doente e não estar doente são expressões, das quais, existindo ele, uma é evidentemente verdadeira e a outra falsa: e não existindo, é falso o estar doente; e é verdade não estar doente.

[13b33] De modo que são estes casos de afirmação e negação os únicos opostos, de que é próprio que um deles{;} há de ser forçosamente verdadeiro ou falso.

{85} ⟨86⟩. [13b36] Isto se faz manifesto pela indução de casos particulares; como: a doença à saúde: a injustiça à justiça: semelhantemente a covardia ao valor: e assim nos demais casos.

{86} ⟨87⟩. [14a2] Porque à penúria, que é um mal, é contrária a superfluidade, que é outro mal; e a ambas é contrária a mediania, que é um bem.

{87} ⟨88⟩. [14a7] Porque, se todo o mundo lograsse saúde; haveria saúde; e não haveria doenças. Do mesmo modo se todas as cousas fossem brancas; existiria brancura: e não haveria negridão. Além disso se o estar Sócrates bom é contrário a estar Sócrates doente, e não tem lugar que nele se verifiquem ao mesmo tempo ambas as cousas; já se vê que não se segue de existir um contrário, que deva também existir o outro; pois que verificando-se estar Sócrates bom, não tem lugar o estar ele mesmo doente.

{88} ⟨89⟩. [14a16] Porque tanto a doença como a saúde verificam-se no corpo animal: a brancura e negridão no corpo em geral: e a justiça bem como a injustiça na alma do homem.

{89} ⟨90⟩. [14a20] Porque Branco e Preto compreendem-se em um mesmo gênero, que é a cor. A justiça e injustiça compreendem-se em gêneros contrários; porque o gênero de uma é a Virtude: e o da outra é o Vício. E Bom e Mau não se compreendem em nenhum gênero; mas antes eles é que são gêneros, em que outras expressões se compreendem.

{90} ⟨91⟩. [14a27] É neste sentido que uma cousa se diz mais velha ou mais antiga do que outra; por isso que há mais tempo decorrido.

{91} ⟨92⟩. [14a30] Exemplo: um é primeiro que dois: porque, dado, que existem duas cousas, segue-se que existe uma; mas de existir uma não se segue, que existam duas. De modo que não há reciprocidade, para que da existência de um se possa concluir a do outro. Neste caso parece ser primeiro aquele em quem se não verifica a reciprocidade.

{92} ⟨93⟩. [14a36] Como acontece com as Ciências e Discursos; porque nas Ciências demonstrativas há cousas que na ordem devem ser primeiras e outras que devem vir depois. Porque os princípios são primeiro do que as proposições: e na Gramática, as letras são primeiro do que as sílabas. Do mesmo modo nos discursos; porque o exórdio é na ordem primeiro do que a narração.

{93} ⟨94⟩. [14b5] Porque os homens costumam dizer que são primeiros aqueles que entre eles são mais honrados e bem queridos; se bem que esta espécie é de todas a mais heterogênea. Mas nestas se compreendem os diferentes sentidos da palavra primeiro.

{94} ⟨95⟩. [14b13] Haver algumas coisas tais, é evidente; porque o ser homem é intrinsicamente recíproco de existir; sendo assim que esta segunda se segue verdadeira e necessariamente da primeira; porquanto se é verdade o dizer-se de alguém, que é homem; também é verdade o dizer-se, que existe: e reciprocamente se é verdade o dizer-se de um homem, que ele existe; também é verdade dizer-se que é homem. Mas ser verdadeiro o discurso não é causa do fato que nele se afirma: antes o fato é causa de ser o discurso verdadeiro ou falso.

{95} ⟨96⟩. [14b30] Exemplo: o duplo e a sua metade, que são recíprocos entre si; pois que se existe o duplo, deve existir a metade: e se existe a metade, deve existir o duplo: e contudo nenhum deles é causa da existência do outro.

[14b34] Também se dizem conexas por natureza as cousas que pertencem ao mesmo gênero; posto que se distingam e se oponham umas às outras. Mas diz-se, que se distinguem e se opõem as que se compreendem em uma mesma rubrica; assim como alado se distingue e contrapõe a terrestre e a aquático; porque entretanto que pertencem a um mesmo gênero, se distinguem e contrapõem: porquanto Animal se distinguem em todas aquelas espécies a saber: em alados, em terrestres, e em aquáticos: dos quais nenhum é anterior nem posterior ao outro: mas todos eles parecem ser simultâneos. Igualmente se poderia subdividir cada um destes em outras espécies. Donde se segue que são também conexas aquelas cousas, que têm um gênero comum e entram em uma mesma rubrica.

[15a4] Ora os gêneros em tanto se dizem anteriores às suas respectivas espécies em quanto à reciprocidade que há destas para eles, quanto à conclusão da existência, se não verifica deles para elas; porque de existir um aquátil, segue-se que existe um animal: mas de existir um animal, não se segue que existe um aquátil.

[15a8] Logo também são naturalmente conexas as cousas que sem ser uma causa de existência da outra, têm entre si reciprocidade quanto à conclusão da existência: Bem como as que pertencendo ao mesmo gênero, são espécies distintas: e em geral são conexas todas as cousas que por sua natureza começam a existir ao mesmo tempo.

{96} ⟨97⟩. [15a14] É claro que todas estas espécies diferem umas das outras, porquanto a geração não é corrupção: nem o aumento é diminuição, ou mudança de lugar: e o mesmo é das outras.

[15a15] Quanto porém à transformação pode entrar em dúvida, se o que se transforma não experimenta alguma das outras espécies de movimento no ato da transformação. Mas seria erro o afirmá-lo; porque a experiência nos mostra que todas ou a maior parte das nossas paixões se transformam umas nas outras, sem que se verifique nenhuma das outras espécies de movimento. Porque aquele que experimenta o movimento de qualquer paixão, nem por isso cresce ou diminui: e o mesmo se pode dizer das outras espécies de movimentos. É logo a transformação um movimento diferente dos outros; porque se fosse idêntica com alguma das outras espécies, seria forçoso que aquele que se transforma, aumentasse ou diminuísse, ou experimentasse alguma das outras espécies de movimentos: o que não é assim. Do mesmo modo seria forçoso que aquele que cresce, se transformasse; entretanto que muitas cousas crescem, sem se transformarem; como por exemplo: se a um quadrilátero se lhe acrescenta um gnômon, fica aumentado mas não transformado: e assim nos demais casos semelhantes. Donde se vê que as mencionadas espécies de movimentos são todas diferentes umas das outras.

[15b1] Em geral o contrário do movimento é a quietação. Mas cada uma das espécies mencionadas tem seu contrário particular. Assim o contrário da geração é a corrupção: o do aumento é a diminuição: e o da mudança de lugar é a quietação no mesmo lugar; posto que pareceria dever-se dizer que também e com mais propriedade o é o movimento para a parte contrária: como por exemplo ao de ascenso o de descenso, e ao de descenso o de ascenso. Mas à outra espécie de movimento (a transformação) não é fácil assignar-se o que lhe possa ser contrário: e até parece que nem o pode haver: a menos que alguém lhe não contrapusesse a cessação da respectiva qualidade, ou a mudança para a qualidade contrária: bem como à mudança de lugar se contrapôs a quietação no mesmo lugar, ou o movimento para a parte contrária; visto que a transformação é uma mudança de qualidades. De modo que viria a ser o contrário ao movimento ou mudança das qualidades, tanto a quietação ou permanência delas, como o movimento ou mudança para as qualidades contrárias; como por exemplo, o ser preto a ser branco; porque se transforma mediante a mudança de uma qualidade contrária.

{97} ⟨98⟩. [15b18] Porque dizemos que temos (ou possuímos) tal ciência, ou tal virtude.

{98} ⟨99⟩. [15b20] Exemplo: o que tem uma certa grandeza; como quando se diz ser de três ou quatro côvados.

{99} ⟨100⟩. [15b22] Como de um vestido, de uma túnica.

{100} ⟨101⟩. [15b22] Como de um anel.

{101} ⟨102⟩. [15b23] Como da mão, do pé.

{102} ⟨103⟩. [15b24] Como: a medida a respeito de trigo: o vaso a respeito do vinho; porque da medida se diz que tem trigo: e do vaso, que tem vinho.

{103} ⟨104⟩. [15b27] Porque dizemos ter uma casa, ou um campo. Também se diz de um homem que ele tem uma mulher: e de uma mulher, que ela tem um homem: caso este que parece oferecer um sentido muito diferente da palavra ter, do que os que ficam referidos; porque aqui não significam senão coabitar.

FIM.

Erratas.

Primeira parte.

| | Erros. | Emendas. |

|---|---|---|

| ADV. V. | mas também | como também |

| | tornariam | tornaria |

| §. 5. | objeto (a) | objeto |

| §. 6. | objeto | objeto (a) |

| §. 15. | falsa | falsa (14) |

| §. 21. | neles | nelas |

| §. 29. | espécies | essências |

| §. 42. | mudarem (39) | mudarem |

| §. 64. | quais | tais |

Todos os números que indicam Notas, desde (14) até (38), se devem aumentar de uma unidade: pondo-se (15), em vez de (14): (16), em vez de (15): e assim por diante até (38), em vez do qual se deve escrever (39); apagando-se este número no §. 41, onde se acha erradamente.

Segunda parte.

| | ⟨Erros.⟩ | ⟨Emendas.⟩ |

|---|---|---|

| §. 4 | boi corre | homem corre |

| §. 13 | rocio | Liceu |

| §. 19 | dizendo | dizendo-se |

| §. 29 | Sinônimos | Unívocos |

| ib. | espécies | as espécies |

| §. 39 | serem | ser |

Todos os números dos §§. desde 14 até 38: e desde 69 até ao último 103 se devem aumentar de uma unidade; porque faltou o §. que devia ser o 14º*: e é o seguinte*:

14. Exemplo: Homem, Branco; corre, vence.

O número 39 deve-se apagar na página nona, onde se acha erradamente.

Também se deve apagar o número 41 na página undécima, pondo-o na página seguinte, onde por erro está 42.

O §. 54 que não está marcado, é o que começa: Porque na página 22.

O §. 69 começa na palavra Porquanto*, que se acha na quinta regra da página 32*.

No §. 16 falta, depois da palavra Animal, o seguinte: E portanto é Categoria do objeto, não só quanto ao nome, mas também quanto à razão do nome.

No §. 19 falta, depois da palavra Vegetal o seguinte{.}⟨:⟩ Além disso as essências primárias não se dizem principalmente essências, senão porque são objetos de todas a outras cousas: e todas as outras cousas, são Categorias, em que elas se contêm.

No §. 37 falta, depois da palavra semelhante o seguinte: Exceto se alguém disser, que muito é contrário a pouco, e grande a pequeno. Mas às quantidades determinadas nada é contrário.

No §. 41 deve-se apagar este número, e pôr em seu lugar o princípio, que falta, e é o seguinte{.}⟨:⟩ Além disso há umas qualidades, que admitem situação: e outras, cujas partes não são suscetíveis dele. Exemplo, etc.

[a]: Instituto de estudos da linguagem da Universidade Estadual de Campinas. E-mail: buzelli@unicamp.br

[b]: Prelecções Filosóficas sobre a Teórica do Discurso e da Linguagem, a Estética, a Diceósina e a Cosmologia. Rio de Janeiro: 1813.

[t1]: Seja-me desculpado o uso deste pretérito do verbo jazer. Eu sei que os nossos bons Escritores ou se serviram de jouveram, ou o evitaram. Mas o uso geral na conversação e trato da Côrte, não menos do que a analogia, são bastante autoridade em meu favor.

[ed1]: [1a24] Digo, que está em algum objeto, e que, sem ser parte dele, não pode existir fora dele.[t2] (6)

[t3]: Isto é: as diferenças específicas (V*er* Af*orismo* 11) ou os caracteres da espécie. E é sempre neste sentido, que se deve tomar a palavra diferença nas obras de Aristóteles. Nota do Tradutor.

[t4]: Isto é: a razão do nome, ou o caráter da ordem, classe, gênero, espécie etc. Nota do Tradutor.

[t2]: E chama-se-lhe acidente ou qualidade acidental, para o distinguir das qualidades essenciais, cujo complexo é na frase do autor o que se diz de algum objeto. Nota do Tradutor.

Ὁ Διαφορεύς παρῆν — um arquivo: o texto, a fonte, o programa e a voz.