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Categorias

Aristóteles · Apresentação

Apresentação

Este artigo transcreve e edita a tradução que Silvestre Pinheiro Ferreira fez e mandou imprimir das Categorias de Aristóteles, no ano de 1814, para uso em suas prelações filosóficas, como ele próprio afirma na “advertência”. Foi essa, creio, a primeira tradução de obra aristotélica publicada na América portuguesa, onde, antes da chegada da família real em 1808, as oficinas de imprensa estavam proibidas.

Lisboeta, Ferreira (1769-1846) veio para o Rio de Janeiro em 1810 e aqui viveu até 1821, quando voltou para a Europa. Autor de uma obra extensa e variada, que abarca da mecânica ao direito, e da teologia à diplomacia, ele fizera publicar em 1813 suas Prelecções Filosóficas,[b] produto e material didático do curso de filosofia que ministrou no carioca Real Colégio de São Joaquim. A tradução das Categorias serviu declaradamente ao mesmo propósito pedagógico, que se percebe no arranjo mesmo do texto de Aristóteles.

Conforme já anuncia o subtítulo da publicação, as Categorias vêm “ordenadas conforme a um novo plano”: de fato, Ferreira decidiu rearranjar o texto aristotélico, dividindo-o em duas seções ou partes — “aforismos” (Primeira Parte) e “explicações” (Segunda Parte) — para, segundo afirma, separar as declarações de suas explicações. Diz ele que a “novidade que deve parecer à primeira vista um total transtorno do texto do autor... em nada altera nem a ordem das ideias, nem a da leitura” (p. iii), uma vez que “passando alternativamente do texto às explicações (que os números ou asteriscos indicam), e destas ao texto, ninguém que com os olhos no original grego nos escutasse poderia suspeitar que nele houvesse feito a menor alteração” (p. iv). Teria feito isso para tornar “mais sensíveis e perceptíveis as doutrinas do autor”, facilitando sua leitura e consulta e evitando o “fastio que causava aquela multiplicidade de explicações que interrompem a cada passo o fio das ideias” (pp. iv-v).

Fica claro que Ferreira se apega ao conceito de tradução literal ou palavra-por-palavra, buscando ser o mais fiel possível ao original, ainda que “transtornando” os aforismos e as explicações:

Consiste, pois, esta (sc. novidade) unicamente em separar, à maneira de notas, toda aquela parte do texto original que não acrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar ou aclarar por qualquer outro modo o que precede, sem que este novo arranjo violente a ligação de uma e outra coisa, nem que eu tenha para isso omitido, acrescentado ou substituído palavra alguma do original, pois antes as conservei na ordem da sintaxe que cada uma delas ali ocupa. (p. iv)

Ferreira dá também testemunho da precariedade editorial deste lado do Atlântico nas primeiras décadas do século xix, quando diz que desejava ter podido imprimir o texto grego ao lado de sua tradução, tanto para incentivar a mocidade a estudar a língua, quanto para facilitar aos que já a soubessem o cotejo com a tradução, podendo assim corrigir suas “faltas, que nela não pode deixar de haver em grande número, e muitas vezes de grande nota” (p. v).

Por maior, porém, que fosse este meu desejo, não me foi possível satisfazê-lo, já porque neste nascente estado faltam os meios para se fazer uma correta edição de um texto grego, logo que exceda a certos e muito acanhados limites, já porque a carestia excessiva dos materiais e da mão-de-obra tornaria inútil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho é dirigido, uma obra que, tendo unicamente em vista a instrução da mocidade, deve estar ao alcance até daqueles mesmos que não gozam de avultados bens da cultura. (p. v)