[intro1]: Seja-me desculpado o uso deste preterito do verbo jazer. Eu sei que os nossos bons Escriptores ou se servirão de jouverão, ou o evitarão. Mas o uso geral na conversação e trato da Corte, não menos do que a analogia, são bastante auctoridade em meu favor.
[1]: Digo, que está em algum objecto, e que sem ser parte delle, não póde existir fóra delle.
[2]: E chama-se-lhe accidente ou qualidade accidental, para o distinguir das qualidades essenciaes, cujo compléxo he na phrase do Autor "O que se diz de algum objecto".
[3]: Isto he: as differenças especificas (V. Aph. 11.) ou os caracteres da especie. E he sempre neste sentido, que se deve tomar a palavra differença nas Obras de Aristoteles.
[4]: Isto he: a rasão do nome, ou o caracter da ordem, classe, genero, especie etc.
[e1]: Exemplo: Animal tanto o he o homem, como aquelle nome escripto. Entretanto não tem de commum senão o nome; mas a rasão desse nome he differente para cada hum delles. Porquanto se alguem houver de dar a rasão de se applicar o nome de animal a cada qual delles; para cada hum ha de dar huma rasão particular.
[e2]: Exemplo: Animal tanto o he o homem, como o boi; porque ambos elles se designão pelo nome commum de animal. E até mesmo a rasão desse nome he identica para ambos. Porquanto se alguem houver de dar a rasão, porque qualquer delles he animal, deve dar huma e a mesma rasão.
[e3]: Exemplo: De Grammatica, Grammatico; de Valor, Valoroso.
[e4]: Humas ligadas, como: o homem corre: o homem vence. Outras desligadas, como: Homem, Boi, corre, vence.
[e5]: Exemplo: Homem diz-se de algum objecto, isto he, de algum determinado homem; mas não está em nenhum objecto.
[e6]: Exemplo: A Sciencia grammatical de alguem está em algum objecto, que he a alma; mas não se diz de nenhum objecto. A brancura de algum determinado corpo está em algum objecto, isto he, nesse mesmo corpo; mas não se diz de nenhum objecto.
[e7]: Exemplo: A Sciencia está em algum objecto, que he a alma: e diz-se de algum objecto, como por exemplo, da Grammatica
[e8]: Exemplo: Hum determinado homem, hum determinado cavallo; porque nenhum destes está em nenhum objecto, nem se diz de nenhum objecto.
[e9]: Porque a Sciencia grammatical de alguem he daquellas coisas, que se achão em hum objecto: e comtudo não se diz de nenhum objecto.
[e10]: Exemplo: Na Categoria de Homem comprehende-se hum determinado homem. E na de Animal comprehende-se o Homem. Logo hum determinado homem comprehende-se na Categoria de Animal; porque esse determinado homem he Homem e Animal.
[e11]: Exemplo: As de Animal e as de Sciencias. Porque as differenças de Animal são reptil, bipede, volatil, e aquatil. Ora as de Sciencia não são estas; porque nenhuma Sciencia differe de outra Sciencia em ser bipede.
[e12]: Porque os generos principaes são Categorias, que contém as subalternas.
[e13]: Essencia, para o dizer com exemplos, he como: Homem, Cavallo.
[e14]: Exemplo: Homem, Branco; corre, vence.
[e15]: Exemplo: Hum determinado homem; hum determinado cavallo.
[e16]: Exemplo: Hum determinado homem he comprehendido na especie Homem: E o genero desta especie he Animal. São pois as essencias secundarias taes, como Homem e Animal.
[e17]: Exemplo: Hum determinado homem he hum objecto, que se comprehende na Categoria de Homem: primeiramente quanto ao nome; porque de qualquer determinado homem se diz ser Homem: e em segundo lugar a rasão categorica de Homem he applicavel a qualquer determinado homem; porque qualquer determinado homem he Homem e Animal. E por tanto he Categoria do objecto, não só quanto ao nome, mas tambem quanto á razão do nome.
[e18]: Exemplo: A brancura, que está em hum objecto (qual he o corpo) he Categoria em que se comprehende o corpo; porquanto o corpo se diz branco: mas a rasão Categorica de brancura não he applicavel ao corpo.
[e19]: Isto se faz manifesto da consideração de cada huma das coisas de per si; por exemplo: Homem contém-se na Categoria de Animal; e por conseguinte tambem qualquer determinado homem se conterá nessa mesma Categoria; porque se algum determinado homem se não contém nella: então tambem senão comprehenderá o Homem em geral. Do mesmo modo a cõr existe no corpo: e logo tambem em qualquer determinado corpo; porque se não existe em algum corpo, então tambem não existe no corpo em geral. E portanto todas as outras coisas ou se dizem das essencias primarias, como de outros muitos objectos: ou estão nellas, como em outros tantos objectos.
[e20]: Porque está mais proxima á essencia primaria. Porquanto querendo-se designar o que seja huma essencia primaria, se designará mais clara e propriamente apontando-se a sua especie, do que o seu genero. Por exemplo: querendo-se designar o que seja hum determinado homem, se designará mais claramente, dizendo-se que he Homem, do que dizendo-se, que he Animal. Porque aquella primeira designação he mais propria desse determinado homem: entretanto que esta he mais commum. E querendo-se designar huma determinada arvore, se designará mais claramente, dizendo-se ser huma arvore, do que dizendo-se ser hum vegetal. Além disso as essencias primarias não se dizem principalmente essencias, senão porque são objectos de todas as outras cousas: e todas as outras cousas, são Categorias, em que ellas se contém.
[e21]: Porque a especie passa a ser objecto relativamente ao genero; visto que a especie se comprehende na Categoria do genero: e não inversamente o genero na da especie. E por isso tambem he a especie mais essencia do que o genero.
[e22]: Por isso que querendo-se designar hum determinado homem, não se denotará mais propriamente dizendo que he Homem, do que se querendo-se designar hum determinado cavallo, se dissesse ser Cavallo.
[e23]: Porque hum determinado homem não he mais essencia, do que hum determinado boi.
[e24]: Porque de todas as Categorias, em que a essencia primaria se comprehende, nenhuma a designa tão bem, como os generos e as especies. Porquanto, se se quizer designar o que he hum determinado homem, designar-se-ha com propriedade denotando-se a sua especie, ou o seu genero, e designar-se-ha mais claramente dizendo-se, que he Homem ou Animal. Mas se se apontasse qualquer outra coisa, designar-se-hia de hum modo estranho; como se se dissesse ser branco, ou que corre, ou outra alguma coisa semelhante. Por onde com rasão, de entre todas as coisas, a ellas só se lhes tem dado o nome de essencias. E mesmo as essencias primarias não se chamão com especialidade essencias, senão porque são objectos, que se comprehendem em todas as outras coisas, como em outras tantas Categorias.
[e25]: Porque todas as outras coisas são outras tantas Categorias em que ellas se contém. Porquanto assim como de hum determinado homem he que diremos ser grammatico, assim tambem do que he homem, do que he animal he que diremos ser grammatico. O mesmo acontece em tudo o mais.
[e26]: Porque as essencias primarias nem estão em nenhum objecto, nem se dizem de nenhum. E quanto ás secundarias tambem he claro, que nenhuma dellas está em objecto algum. Pois homem sim se diz de algum objecto, que he qualquer determinado homem; mas não está em nenhum objecto; porque homem não está em nenhum determinado homem. Do mesmo modo animal sim se diz de algum objecto, que he qualquer determinado homem; mas animal não está em nenhum determinado homem. Além disso as coisas, que estão em algum objecto, nada obsta a que sejão Categorias delle quanto ao nome; mas quanto á razão do nome he impossivel que o sejão.
[e27]: Porque a rasão categorica[4] de homem he applicavel a qualquer determinado homem: E do mesmo modo a rasão categorica de animal. De tudo o que se segue, que nenhuma essencia póde ser do numero das coisas, que estão em algum objecto.
[e28]: Porque o ter pés, e o ser bipede, diz-se do homem, como objecto; mas não está em nenhum objecto; porquanto não está no homem o ter pés, nem o ser bipede.
[e29]: Exemplo: se se diz do homem o ter pés, he porque ao homem he applicavel a rasão categorica desta expressão; pois que o homem he hum animal dotado de pés.
[e30]: Porque todas as Categorias, que dellas se derivão, ou comprehendem individuos ou especies, visto que das essencias primarias se não deriva nenhuma Categoria, sendo assim que se não dizem de nenhum objecto. E quanto a aquellas, que se derivão das essencias secundarias, a especie comprehende os individuos: e o genero comprehende as especies e os individuos. Do mesmo modo as differenças fornecem outras tantas Categorias, em que se comprehendem especies e os individuos. Além disso a rasão categorica, tanto das especies, como dos generos, he applicavel ás essencias primarias; porque tudo o que se diz do objecto, se ha de tambem dizer das Categorias, em que elle se comprehende. Semelhantemente a rasão categorica das differenças he applicavel ás especies, e aos individuos. Ora Univocos erão os que tinhão o mesmo nome, e a rasão do nome identica. Logo todas as coisas, que se comprehendem nas Categorias das essencias e das differenças, tirão dellas os seus nomes de huma maneira univoca.
[e31]: Porque cada huma dellas significa hum objecto indivisivel, e hum em numero.
[e32]: Como quando se diz: Homem, Animal.
[e33]: Porquanto Homem, Animal dizem-se de muitos.
[e34]: Como Branco, que nada mais significa do que huma simples qualidade.
[e35]: Porquanto quem diz: Animal, abrange a mais, do que quem diz Homem.
[e36]: Porque quanto ás essencias primarias, que he o que lhes poderia ser contrario? Por exemplo: a hum determinado homem? a hum determinado animal? Sem duvida, que nada lhes he contrario. Tão pouco tem contrario Homem, ou Animal.
[e37]: Porque a ser de dois covados ou a ser de tres covados nada he contrario: bem como nem a dez, nem a outra nenhuma coiza semelhante. Excepto se alguem disser, que muito he contrario a pouco, e grande a pequeno. Mas ás quantidades determinadas nada he contrario.
[e38]: Eu não digo, que não ha huma essencia mais ou menos essencia do que outra; porque isso já fica ensinado afirmativamente. O que eu digo, he, que cada huma das essencias, isso que he.
[e39]: Que he o que jámais se póde verificar em nenhuma outra coisa, que não for essencia; porque apezar de ser huma em numero, nem por isso he susceptivel de contrario: por exemplo, huma determinada cor, apezar de ser huma em numero, não póde ser branca e preta: huma e a mesma acção, a pezar de ser huma em numero, não póde ser boa e má: e assim em todas as demais coisas que não são essencias. Porém as essencias, sendo cada qual dellas huma e a mesma em numero, são susceptiveis de estados contrarios. Por exemplo, hum determinado homem, sendo hum e o mesmo, ora he branco, ora denegrido: ora está
[e40]: Porque as partes do numero não tem termo nenhum commum, em que as partes do mesmo numero se encontrem. Por exemplo cinco considerado como parte de dez, não tem hum termo commum em que se encontre com os outros cinco, mas são quantidades discretas. Do mesmo modo tres e septe não se encontrão em nenhum termo commum. E em geral he impossivel assignar hum termo commum, em que se encontrem as partes de qualquer numero; mas sempre são discretas. De modo que o numero he huma das quantidades discretas. Do mesmo modo o discurso. Ser o discurso quantidade he evidente; porque se mede por syllabas longas e breves. Eu fallo do discurso pronunciado. Mas não ha termo, nenhum commum, em que as partes do discurso concorrão: pois que as syllabas não se encontrão em nenhum termo commum, mas antes ficão discretos entre si.
[e41]: Porque he em consideração ás primeiras, que nós chamamos quantidades á todas as outras.
[e42]: Porque das quantidades determinadas he evidente que não tem contrario; pois nada o póde ser á qualidade de ter dois ou tres covados: ou a huma superficie: ou a qualquer outra coiza semelhante a estas. Excepto se por ventura alguem disser, que muito he contrario de pouco, e grande de pequeno. Porém estas expressões não designão quantidades, mas sim relações; porquanto nada he por si mesmo grande nem pequeno, mas sómente em quanto se refere a outra alguma coiza. He assim que hum monte póde ser pequeno, e grande hum grão de painço, por ser este maior que as outras coisas do mesmo genero: e aquelle, menor. Ha pois nisto huma comparação; porque a não a haver, nunca hum monte poderia ser pequeno, nem grandes hum grão de painço. Outro exemplo: he assim que dizemos haver muita gente em huma Aldea: e pouca em Athenas; posto que o numero desta exceda muitas vezes ao daquella: dizemos haver em caza muita gente, e pouca no theatro; bem que neste haja muitas vezes mais gente que em casa.
[e43]: Por exemplo, o ter dois covados; porquanto isto não admitte mais nem menos. O mesmo succede com os numeros, por exemplo: tres não he mais cinco do que cinco, nem mais tres do que cinco: e o mesmo he de cinco a respeito de tres: nem hum determinado tempo he mais tempo do que outro tempo. Em geral nenhuma das que dissemos serem quantidades, he susceptivel de mais ou de menos. Logo as quantidades determinadas não são susceptiveis de mais ou de menos.
[e44]: Porque cada huma das coisas referidas se diz igual ou desigual: o mesmo he de hum numero ou de hum determinado tempo; que tambem se dizem iguaes ou desiguaes: e assim tambem das outras coisas acima mencionadas; das quaes todas se diz, que são iguaes ou desiguaes. De tudo o mais porém, que não he quantidade, não tem muito lugar o ser igual ou desigual: como por exemplo: huma affecção não se póde dizer com muito acerto, que he igual ou desigual; mas sim semelhante ou dessemelhante: nem de huma coisa branca se diria bem, ser igual ou desigual em cor, mas antes semelhante ou dessemelhante. De modo que parece ser sobretudo proprio das quantidades o dizerem-se iguaes ou desiguaes.
[e45]: Exemplo: Maior sempre se diz relativamente a outro, em toda a extensão do significado; porque se diz maior que alguma outra coisa. Do mesmo modo o que se diz ser duplo, tambem se diz relativamente a outra coisa, em toda a extensão do seu significado, porque de alguma outra coisa se diz duplo: E assim de tudo o mais.
[e46]: Exemplo: A virtude he o contrario do vicio: e cada huma destas expressões he relativa. Do mesmo modo a sciencia he o contrario da ignorancia.
[e47]: Porque a duplo não ha nada que seja contrario; nem a triplo; nem a nenhuma outra destas coisas.
[e48]: Porque semelhante e dessemelhante dizem se se-lo mais ou menos. Igual e desigual tambem se dizem se-lo mais ou menos: estas expressões são relativas; porque o semelhante, a alguma coisa he semelhante: o desigual, he-o a respeito de alguma coisa.
[e49]: Porque huma coisa dupla não se diz ser mais ou menos dupla: nem nenhuma das outras coisas semelhantes.
[e50]: Exemplo: O servo he servo de seu senhor; e o senhor he senhor do seu servo: o duplo he-o da sua metade; e a metade he metade do seu duplo: o que he maior, he-o do que he menor: e o que he menor he-o do que he maior: e assim das demais expressões semelhantes. A's vezes as expressões correlatas differem na desinencia; como por exemplo o conhecimento he-o do conhecido; e o conhecido he-o do conhecimento: a sensação he-o do sentido; e o sentido he-o da sensação.
[e51]: Exemplo: Se se diz que a asa he da ave; nem por isso se póde dizer reciprocamente que a ave he da asa. Porque não tem entre si analogia (grammatical) as duas expressões: asa da ave; porquanto não he por se dizer ave, que se diz ser della a asa; mas porque se diz alada: sendo assim que ha asas de muitas outras coisas, que não são aves. De modo que se se desse o nome analogico, então haveria reciprocidade; a saber: asa he asa de alado: e alado refere-se a asa.
[e52]: Porque duplo e metade sempre andão juntos: e se ha duplo, he porque ha metade. Se ha servo, he porque ha senhor: e se ha senhor, he porque ha servo. E á semelhança destas, todas as demais coisas. Igualmente se verifica que tirado hum dos correlatos, se tira tambem o outro; porque não havendo metade não póde haver o duplo: e não havendo duplo, não póde haver coisa a que se dê o nome de metade. O mesmo se póde dizer de todas as outras coisas a estas semelhantes.
[e53]: Porque parece que o objecto da sciencia deve existir antes da sciencia; sendo assim, que pela maior parte primeiro existem as coisas antes, que nós dellas tenhamos conhecimentos: E serão poucos, ou nenhuns os casos, em que se verifique, que os objectos começão a existir juntamente com o conhecimento delles. Além disso não existindo o objecto do conhecimento, tambem este não póde ter lugar; mas nem por isso que não existe conhecimento, deixa de existir o objecto delle. Por exemplo: da quadratura do circulo não existe a sciencia, mas nem por isso deixa de existir o que sobre isto ha a saber, se he que se póde saber. Por outro lado, não existindo nenhum animal, tambem não ha sciencia, entretanto que nem por isso deixão de existir os muitos objectos de conhecimento. O mesmo acontece com a sensação; pois parece que os objectos sensiveis são anteriores á sensação; visto que suppondo-se não existir o objecto da sensação, tambem esta não póde existir; mas de não existir a sciencia não se segue que não existem os objectos della.
[e54]: Porque as partes de qualquer essencia primaria nem singular, nem collectivamente, se podem considerar como coisas relativas; porquanto hum certo homem não he certo homem de certo homem; nem hum certo boi he certo boi de certo boi. O mesmo he de cada huma das partes; pois se não diz = certa mão de certo homem; porém a mão de certo homem: nem certa cabeça de certo homem; mas a cabeça de certo homem. Assim tambem acontece com as essencias secundarias; quero dizer, pela maior parte; por exemplo: homem não se diz de certo homem: nem boi de certo boi: nem pão de certo pão: bem que qualquer destas coisas se possa chamar propriedade de de alguem. Destas he pois claro que não são relativas. Mas ha algumas outras essencias secundarias, sobre as quaes pode haver duvida; como por exemplo: a cabeça diz-se cabeça de alguem: a mão diz-se mão de alguem: e assim de cada huma das outras coisas semelhantes: de modo que estas com razão podem parecer ser do numero dos relativos. Se pois a definição que se tem dado de relativo he acertada, he muito difficil, ou impossivel o demonstrar, que nenhuma essencia ha do numero dos relativos. Mas se aquella definição não he exacta: e se são relativas aquellas coisas de que se verifica ser o mesmo existirem, que existirem de algum modo a respeito de outra alguma coisa; então poder-se-ha talvez dizer que ha coisas correlatas destas essencias. A primeira daquellas definições sim se verifica em todos os relativos, mas não he o mesmo serem elles relativos, que serem de outra coisa, isso que elles são em si mesmos.
[e55]: E differe o habito da affecção em ser mais diuturno, e mais permanente. Taes são as sciencias e as virtudes. Porque a sciencia parece ser do numero das coisas mais estaveis e menos mudaveis, por pouca que seja a sciencia adquirida, huma vez que por doença, ou por outra alguma semelhante causa não tenha acontecido grande transtorno na pessoa. Do mesmo modo a virtude, como a Justiça, a
[e56]: Porque de nenhuma destas coisas se diz, que alguem está affectado; mas sim que tem a força physica ou a impotencia de fazer alguma acção ou de não soffrerem alguma paixão. Por exemplo os que se dizem habeis no pugilado, ou na carreira; não se dizem taes, porque se achem affectados de hum certo modo, mas porque tem a força physica de fazerem certas coisas facilmente. Os que se dizem sadios, dizem-se taes porque tem a força physica de não soffrerem facilmente dos acasos que attacão a saude: E enfermiços os que são dotados da impotencia para resistirem a esses mesmos acasos. Semelhantemente a estas expressões se verifica com as de duro e de brando; que se chama duro, porque tem a força de se não partir facilmente: e brando, porque he dotado de impotencia para lhe acontecer outro tanto.
[e57]: Taes são por exemplo a doçura, o amargo, o travo, e outras coisas do mesmo genero. E assim tambem o calor e o frio: a brancura, e a negridão. Serem todas estas coisas qualidades, he evidente; porque por ellas he que se determina, de que qualidade são os objectos, que dellas são susceptiveis. Por exemplo: o mel por isso que entra na sua natureza a doçura, he que se chama doce: e hum determinado corpo por isso se diz branco, porque nelle se verifica a brancura. O mesmo acontece com todas as outras expressões.
[e58]: Isto comprehende as linhas e superficies rectas ou curvas, e tudo o que a essas formas se assemelha. Porque a todos e a cada hum destes respeitos se dizem as coisas taes. Assim o ser triangular, ou quadrangular, he ser tal: E do mesmo modo o ser recto ou o ser curvo, cada hum segundo a sua respectiva figura, se diz tal.
[e59]: Por exemplo: de brancura, branco: de litteratura, letra: de justiça, justo: e assim nos demais.
[e60]: Por exemplo: tratando-se de alguem, que possue a habilidade do pugilado ou da carreira; não existe qualidade nenhuma, donde elle derive competente nome, porque aquellas habilidades não tem nomes, conforme aos quaes, o que as possue, se diga tal, do mesmo modo que se chama athletica a sciencia do athleta e cursoria a do corsador: e conforme a aquellas denominações se chamão taes aos que possuem semelhantes sciencias.
[e61]: Por exemplo: Garbo diz-se daquelles, que tem maneiras nobres e engraçadas; mas não ha expressão cognominada para denotar o subjeito em quem se verifica semelhante qualidade. Mas isto acontece em mui poucos casos. Assim chamão-se taes todas as coisas, que por cognominação derivão seus nomes dos de alguma qualidade.
[e62]: Por exemplo: a justiça he contraria á injustiça: a brancura á negridão; e assim as demais. Bem como são contrarias entre si as coisas em que se verificação essas qualidades; por exemplo justo a respeito do injusto: e branco a respeito de preto.
[e63]: Porque o purpureo, a amarello, e a quaesquer cores como estas, nada he contrario.
[e64]: Isto se conhece claramente discorrendo-se por cada huma das outras categorias. Porque se a justiça he contraria á injustiça, e a justiça he qualidade; tambem será qualidade a injustiça. Por quanto nenhuma das outras categorias quadra á injustiça; a saber: nem quantidade, nem relação, nem lugar, nem nenhuma outra, senão qualidade. O mesmo se verifica em todos os outros contrarios relativamente ás qualidades.
[e65]: Porque de duas coisas brancas se diz ser huma mais ou menos branca de que outra: de duas acções justas diz-se ser huma mais ou menos justa do que a outra. E até mesmo cada huma dellas de per si he susceptivel de augmento. Porque huma que he branca, póde vir a ser mais branca.
[e66]: Porquanto não faltará quem duvide que se possa dizer que huma justiça o he mais ou menos do que outra; ou huma saude maior ou menor que outra. He verdade, que se diz, que hum tem mais ou menos justiça, mais ou menos saude do que outro: e semelhantemente de todas as demais affecções. Mas o que daqui se segue he, que indubitavelmente se póde applicar o mais ou menos ás coisas que são susceptiveis daquellas qualidades: como se diz, que hum he mais grammatico, mais justo ou mais sadio de que outro. E assim nos demais casos semelhantes. Mas hum triangulo ou hum quadrilatero, ou qualquer outra figura não parece serem susceptiveis de mais nem de menos; porque todas as coisas, a que he applicavel o nome de triangulo ou a de circulo são igualmente triangulos ou circulos: bem como duas coisas, a que não he applicavel a mesma expressão, não se póde chamar huma mais do que a outra: porque hum quadrilatero não he mais circulo do que hum oval; por isso mesmo que a nenhum delles he applicavel a expressão de circulo. Em geral, todas as vezes que a nenhuma das duas coisas he applicavel huma expressão, nenhuma dellas he mais do que a outra, o que essa expressão designa. Donde se segue, que nem todas as qualidades são susceptiveis de mais ou de menos.
[e67]: Porque ser semelhante ou desemelhante a nada mais se refere do que a aquillo mesmo, em que se verifica a qualidade de que se trata. Por onde o que viria a ser proprio das qualidades, seria a semelhança ou dessemelhança dos objectos relativamente a ella.
[e68]: Porque dissemos, que os habitos, e as affecções pertencião aos relativos. Porquanto a sciencia tomada em geral, isso que he, he o de alguma outra coisa; porque ha de ser a sciencia de alguma coisa. Mas tomada em particular, então isso que he, não o he de outra nenhuma coisa. Por exemplo: a Grammatica tomada individualmente não se diz Grammatica de alguma coisa; nem a Musica, Musica de alguma coisa. Tomadas porém genericamente, então pertencem tambem aos relativos; por exemplo: a Grammatica diz se nesse caso sciencia de alguma coisa; mas não Grammatica de alguma coisa: e a Musica, sciencia de alguma coisa; mas não Musica de alguma coisa: e portanto individualmente não são relativas. E segundo cada huma dellas em particular he que nós nos dizemos taes, por isso que só as possuimos em particular. Assim nos dizemos sabios, porque possuimos algumas das sciencias em particular. E portanto ellas só são qualidades tomadas em particular, e porque só conforme a ellas tomadas em particular he que nós nos dizemos taes. Mas então não são relativas.
[e69]: Porque aquecer he contrario de resfriar: e ter calor he contrario de ter frio: E estar satisfeito he contrario de estar triste. Pelo que são susceptiveis de contrariedade. Quanto a serem susceptiveis de mais e de menos, se vê; porque tanto aquecer, como refriar, como entristecer-se são susceptiveis de mais e de menos. Donde se segue, que tanto a acção, como a paixão, são susceptiveis de mais e de menos. E he o que bastará a este respeito. Quanto aos estados, fica dito, quando se tratou dos relativos, que elles derivão por cognominação das situações. E quanto ás demais (isto he: ao tempo, ao lugar, e ás acções permanentes) são pontos tão faceis de si mesmos, que não diremos mais nada sobre ellas, do que o que ao principio fica exposto: que a acção permanente he como calçar-se, armar-se: O lugar he como: no Lyceo, na Praça. E assim do mais que sobre cada huma dellas fica dito. Pelo que bastará o que temos observado sobre cada huma das especies, que ficão mencionadas.
[e70]: Com exemplos explicaremos o como são estas opposições. Os relativos são oppostos, como por exemplo: o duplo á sua metade. Os contrarios oppoem-se; como por exemplo: o mau ao bom. A effectividade á privação, como por exemplo: a cegueira e a vista. E quanto á affirmação e negação, como por exemplo: está sentado, não está sentado.
[e71]: Exemplo; o duplo de qualquer quantidade, que he metade della, o que he, diz-se de outra; porque ha de ser duplo de alguma outra coisa. E a sciencia oppõe-se ao sabido na maneira dos relativos; porque o que a sciencia he, diz-se daquillo que póde ser sabido; e o que he sabido affirma-se, tal qual elle he, do seu contraposto, a sciencia; porque o que he sabido, diz-se ser de alguma coisa; isto he: de alguma sciencia. De modo que as coisas, que se contrapoem como relativos, isso que são, ou o são de seus contrapostos, ou se affirmão reciprocamente entre si em alguma maneira.
[e72]: Porque nem o que he bom se diz bom do que he máo; mas contrario a elle; nem o que he branco, se diz branco do que he preto; mas contrario a elle. De sorte que são differentes as composições de humas e outras.
[e73]: Exemplo: a doença e a saude são qualidades proprias do corpo animal: e he forçoso que huma dellas exista no corpo animal; ou doença ou saude. Par e impar são categorias de numero: e he forçoso que o numero seja par ou impar. Em nenhum destes exemplos ha meio termo: nem entre doença: nem entre par e impar. Porém quanto a aquellas, de que não he forçoso que exista huma dellas, essas tem termo medio. Por exemplo: he proprio do corpo animal o ser preto ou branco; mas não he forçoso o ser huma ou outra destas duas coisas; porque nem todos os corpos são brancos ou pretos. Bom e máo dizem-se do homem, assim como de muitas outras coisas; mas não he forçoso, que huma daquellas duas qualidades exista; porque essas coisas, de que se dizem, nem todas são boas, ou más. Em todos estes casos ha hum termo medio: por exemplo: entre preto e branco ha fusco, pallido, e todas as outras cores. Entre bom e máo, o que nem he bom, nem máo.
[e74]: Por exemplo: entre o preto e o branco he o fusco, o pallido, e todas as demais cores.
[e75]: Por exemplo: o que nem he bom, nem máo: o que não he justo nem injusto.
[e76]: Por exemplo: a vista e a cegueira referem-se ambas aos olhos. E em geral: do objecto, onde costuma verificar-se a effectividade, he que se póde affirmar ou esta ou a privação.
[e77]: Por exemplo: chamamos desdentado, não ao que não tem dentes: e cego, não ao que não vê; mas sim ao que costumando ter huma ou outra destas duas coisas, lhe falta no caso de que se trata. Porquanto ha muitas coisas que por sua natureza não são dotadas de vista nem de dentes: e nem por isso se dizem cegas, nem desdentadas.
[e78]: Porque a vista he effectividade: a cegueira he privação. Mas o ter vista não he vista: nem o ser cego, cegueira. Porquanto a cegueira he huma privação: e o estar cego he estar privado, mas não he a privação. Porque se cegueira fosse o mesmo que ser cego, ambas estas expressões se poderião usar indifferentemente em qualquer dado caso. Mas de hum homem diz-se ser cego; e não se diz cegueira.
[e79]: Do mesmo modo que a cegueira se oppoe á vista; desse mesmo modo o ser cego se oppoe a ter vista.
[e80]: Porque a affirmação he hum discurso affirmativo: e a negação he hum discurso negativo. Mas aquillo sobre que recahe a affirmação ou a negação, não he discurso, he hum facto. Comtudo diz-se que estes factos se oppoem entre si, assim como a affirmação e a negação; porque tambem aqui se verifica, que o modo da opposição he o mesmo. Assim como a affirmação se oppoe á
[e81]: Porque a vista não he vista de cegueira; nem della se diz em alguma outra maneira. Do mesmo modo a cegueira não se diz cegueira da vista; mas privação da vista. Além disso os relativos são todos reciprocos entre si: de maneira que se a cegueira pertencesse aos relativos, seria reciproco daquillo a que se referisse: ora ella não he reciproca; porque se não diz da vista, que he vista de cegueira.
[e82]: Porque naquelles contrarios, que não tem termo, he forçoso, que nos casos, em que elles se costumão verificar, exista hum delles; pois dissemos que não ha meio termo, quando he forçoso, que huma das duas coisas se verifique no objecto respectivo; como por exemplo: a saude, e a doença: par e impar. Daquellas coisas porém que admittem meio termo, não he forçoso, que alguma dellas se verifique em cada hum dos casos, em que podem ter lugar. Por exemplo: não he forçoso que seja branco ou preto hum objecto que póde admittir qualquer destas coisas: nem, que hum corpo seja quente ou frio; porque nada obsta a que estas coisas tenhão hum meio termo. Por outra parte dissemos, que tem meio termo aquellas coisas, das quaes não he forçoso que huma dellas se verifique no caso em que podem ter lugar. Já se vê que se não falla aqui dos objectos que por sua natureza só admittem huma dessas coisas; como do fogo o ser quente: e da neve o ser branca; porque nesses objectos he forçoso que se verifique huma das duas coisas determinadamente: e não qualquer dellas; pois nem o fogo póde ser frio, nem a neve preta. Por onde nestes casos não he forçoso que o objecto, em que huma das duas coisas, de que se trata, póde ter lugar, tenha qualquer dellas; mas sómente aquella, de que por sua natureza he susceptivel.
[e83]: Porque he forçoso que em todo o objecto susceptivel tanto da effectividade, como da privação, se verifique huma dellas. Por exemplo: competindo-lhe por natureza o ter vista; dir-se-ha della que está cego, ou que vê: mas não determinadamente huma das duas coisas, porém qualquer dellas; pois não he forçoso que veja, nem que esteja cego: sendo como he susceptivel de qualquer das duas coisas. Ora dos contrarios que admittem meio termo, ja vimos não ser forçoso que hum delles se verifique em todos os casos, em que podem ter lugar; mas sómente em alguns: e nesses só e determinadamente hum dos dois contrarios; e não qualquer delles. Por onde he manifesto que por nenhum dos modos se oppõe entre si, como os contrarios, aquellas coisas que são oppostas como effectividade e privação.
[e84]: Exemplo. A saude e a doença são contrarias entre si; mas nenhuma dellas he verdadeira nem falsa. Do mesmo modo o duplo e a sua metade são oppostos em razão de relativos; mas tambem nenhum delles he verdadeiro nem falso: e assim tambem as cousas que se comprehendem nas rubricas de effectividade ou de privação: como a vista e a cegueira: ou em geral toda e qualquer expressão desligada; pois em todas ellas se verifica, que nem são verdadeiras, nem falsas: no qual caso estão todas as mencionadas; porque todas ellas são desligadas. Com tudo poderia parecer que com mais razão ainda se poderia dizer isso das expressões ligadas e entre si contrarias; por quanto: Socrates está bom he contrario a Socrates está doente: e tambem não he forçoso que destas expressões huma seja verdadeira e a outra falsa. Existindo Socrates, sim he forçoso que huma dellas seja verdadeira, e a outra falsa. Mas não existindo elle, ambas são falsas, porque tão falso he estar Socrates bom como o estar doente, quando elle absolutamente nem existe. Quanto aos casos de effectividade ou de privação, não existindo o subjeito nenhum delles he verdadeiro; e existindo, não se segue, que hum deva ser verdadeiro e o outro falso: por exemplo: ter vista e estar cego são entre si oppostos, em razão de effectividade e privação; porque ter Socrates vista e ser Socrates cego, são cousas entre si oppostas, como effectividade e privação: e não he forçoso que huma seja verdadeira e a outra falsa: quando naturalmente n'elle ainda se não podia verificar nenhuma dellas, ambas erão falsas: e quando elle absolutamente não exista; tão falso he dizer-se que vê; como que he cego.
[e85]: Isto se faz manifesto pela inducção de casos particulares; como: a doença á saude: a injustiça á justiça: semelhantemente a covardia ao valor: e assim nos demais casos.
[e86]: Porque á penuria, que he hum mal, he contraria a superfluidade, que he outro mal; e a ambas he contraria a mediania, que he hum bem.
[e87]: Porque se todo o mundo lograsse saude; haveria saude; e não haveria doenças. Do mesmo modo se todas as cousas fossem brancas; existiria brancura: e não haveria negridão. Além disso se o estar Socrates bom he contrario a estar Socrates doente, e não tem lugar que nelle se verifiquem ao mesmo tempo ambas as cousas; já se vê que não se segue de existir hum contrario, que deva tambem existir o outro; pois que verificando-se estar Socrates bom, não tem lugar o estar elle mesmo doente.
[e88]: Porque tanto a doença como a saude verificação- se no corpo animal: a brancura e a negridão no corpo em geral: e a justiça bem como a injustiça na alma do homem.
[e89]: Porque Branco e Preto comprehendem-se em hum mesmo genero, que he a côr. A justiça e injustiça comprehendem-se em generos contrarios; porque o genero de huma he a Virtude: e o da outra he o Vicio. E Bom e Mão não se comprehendem em nenhum genero; mas antes elles he que são generos, em que outras expressões se comprehendem.
[e90]: He neste sentido que huma cousa se diz mais velha ou mais antiga do que outra; por isso que ha mais tempo decorrido.
[e91]: Exemplo: hum he primeiro que dois: porque, dado, que existem duas cousas, segue-se que existe huma; mas de existir huma não se segue, que existão duas. De modo que não ha reciprocidade, para que da existencia de hum se possa concluir a do outro. Neste caso parece ser primeiro aquelle em quem se não verifica a reciprocidade.
[e92]: Como acontece com as Sciencias e Discursos; porque as Sciencias demonstrativas ha cousas que na ordem devem ser primeiras e outras que devem vir depois. Porque os principios são primeiro do que as proposições: e na Grammatica, as letras são primeiro do que as syllabas. Do mesmo modo nos discursos; porque o exordio he na ordem primeiro do que a narração.
[e93]: Porque os homens costumão dizer que são primeiros aquelles que entre elles são mais honrados e bem queridos; se bem que esta especie he de todas a mais heterogenea. Mas nestas se comprehendem os differentes sentidos da palavra primeiro.
[e94]: Haver algumas cousas taes, he evidente; porque o ser homem he intrinsecamente reciproco de existir; sendo assim que esta segunda se segue verdadeira e necessariamente da primeira; por quanto se he verdade o dizer-se de algum, que he homem; tambem he verdade o dizer-se, que existe: e reciprocamente se he verdade o dizer-se de hum homem, que elle existe; tambem he verdade dizer-se que he homem. Mas ser verdadeiro o discurso não he causa do facto que n'elle se affirma: antes o facto he causa de ser o discurso verdadeiro ou falso.
[e95]: Exemplo: o duplo e a sua metade, que são reciprocos entre si; pois que se existe o duplo, deve existir a metade: e se existe a metade, deve existir o duplo: e com tudo nenhum delles he causa da existencia do outro.
[e96]: Tambem se dizem connexas por natureza as cousas que pertencem ao mesmo genero; posto que se distingão e se opponhão humas ás outras. Mas diz-se, que se distinguem e se oppoem as que se comprehendem em huma mesma rubrica; assim como alado se distingue e contrapõe a terrestre e a aquatico; porque entre tanto que pertencem a hum mesmo genero, se distingue e contrapõe: por quanto Animal se distinguem em todas aquellas especies a saber: em alados, em terrestres, e em aquaticos: dos quaes nenhum he anterior nem posterior ao outro: mas todos elles parecem ser simultaneos. Igualmente se poderia subdividir cada hum destes em outras especies. Donde se segue que são tambem connexas aquellas cousas, que tem hum genero commum e entrão em huma mesma rubrica.
[e97]: He claro que todas estas especies differem humas das outras, por quanto a geração não he corrupção: nem o augmento he diminuição, ou mudança de lugar: e o mesmo he das outras.
[e98]: Porque dizemos que temos (ou possuimos) tal sciencia, ou tal virtude.
[e99]: Exemplo: o que tem huma certa grandeza; como quando se diz ser de tres ou de quatro covados.
[e100]: Como de hum vestido: de huma tunica.
[e101]: Como de hum annel.
[e102]: Como da mão, do pé.
[e103]: Como: a medida a respeito de trigo: o vaso a respeito do vinho; porque da medida se diz que tem trigo: e do vaso, que tem vinho.
[e104]: Porque dizemos ter huma casa, ou hum campo. Tambem se diz de hum homem que elle tem huma mulher: e de huma mulher, que ella tem hum homem: caso este que parece offerecer hum sentido muito differente da palavra ter, do que os que ficão referidos; porque aqui não significa serão[6IA] cohabitar.
[1IA]: Nota do Claude Opus 5.5, lendo o fac-símile: as folhas deste exemplar trazem, a lápis, no pé, uma numeração seguida que não é a do livro — 308 na página 3 do PDF, 309 na página 5, 310 na 7, e assim por diante, uma por folha, até 339 na página 65. É sinal de que o exemplar da Biblioteca Nacional está encadernado num volume com outras obras.
[2IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «hovesse»; lê-se «houvesse».
[3IA]: Nota do Claude Opus 5.5: o impresso de 1814 traz o número (49) neste parágrafo e no seguinte. Pelo assunto, a Explicação deste é a 48, e é para ela que a chamada aponta aqui.
[4IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «qualquel»; lê-se «qualquer».
[5IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «subseita»; lê-se «subjeita».
[6IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «serão cohabitar»; a frase pede «senão».