Obra longa: também em 2 partes, uma por capítulo, livro ou seção, cada uma cabendo numa leitura — https://pedraangular.app.br/rolo/aristoteles-categorias-pt-ferreira-1814/
CATEGORIAS
DE
ARISTOTELES.
TRADUZIDAS DO GREGO
E ORDENADAS CONFORME A HUM NOVO PLANO
POR
SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA.
Para uso das Prelecções Philosophicas do mesmo Traductor.
RIO DE JANEIRO.
NA IMPRESSÃO REGIA.
ANNO DE M DCCC XIV.
Com Licença de S. A. R.[1IA]
ADVERTENCIA.
HUMA das partes mais essenciaes do Curso de Prelecções Philosophicas, que estou actualmente publicando, he a Exposição e Analyse das Obras escolhidas dos principaes Philosophos, Oradores, e Poetas; tanto antigos, como modernos, sagrados e profanos, segundo annunciei no Programma que precedeu á publicação das mesmas Prelecções.
Ninguem, que com reflexão tenha lido os Philosophos dos antigos e modernos tempos, poderá negar a Aristoteles a primazia sobre todos elles. E portanto as suas Obras devião ser naturalmente as primeiras, que figurassem nesta como Bibliotheca de Philosophia, que tenho emprehendido.
Mas se não precisa de justificação a homenagem que assim tributo ás Obras de Aristoteles; precisa-o tanto mais a novidade da forma, em que apparecem na presente traducção: novidade, que deve parecer á primeira vista; hum total transtorno do texto do Autor. Porém este transtorno, que he na verdade grande quanto á ordem da escripta, em nada altera, nem a ordem das idéas, nem a da leitura. Porquanto se começando nós a ler o texto na Primeira Parte pela primeira palavra Equivocos (que he tambem a primeira no Original) passarmos da palavra differente á Explicação N.º 1, na Segunda Parte: e lida ella, voltarmos ao segundo §. da Primeira Parte: Univocos porém &c.: e assim continuarmos, passando alternativamente do Texto ás Explicações, que os numeros, ou os asteriscos indicão: e destas ao Texto; ninguem que com os olhos no Original grego nos escutasse, poderia suspeitar que n'elle se hovesse[2IA] feito a menor alteração.
Consiste pois esta unicamente em separar, á maneira de Notas, toda aquella parte do texto original, que não accrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar, ou aclarar por qualquer outro modo, o que precede: sem que este novo arranjo violente a ligação de huma e outra coisa: nem eu tenha para isso omittido, accrescentado, ou substituido palavra alguma, do Original, pois antes as conservei na ordem da Syntaxe, que cada huma dellas alli occupa.
Duas são as vantagens, que me parecia seguirem-se desta disposição: primeira, tornarem-se mais sensiveis e perceptiveis as doutrinas do Autor: Segunda, convidar mais a lerem-se, e facilitar o consultarem-se Obras, que se por algum tempo jazerão[intro1] em huma especie de injusto esquecimento: e por não lidas experimentarão hum tanto mais injusto desprezo; isso derivou em grande parte do fastio que causava aquella multiplicidade de explicações, que interrompem a cada passo o fio das idéas.
Quisera eu que o texto grego apparecesse em frente desta traducção: tanto para excitar a Mocidade ao estudo da Lingua Grega, que no meu conceito constitue o mais glorioso monumento da perfeição do Espirito humano; como tambem porque devendo esta traducção abundar em defeitos inevitaveis pelo pouco tempo em que sou obrigado a faze-la e publica-la; conviria muito, que a facilidade de a cotejarem com o texto offerecesse aos intelligentes o meio de corrigirem as faltas, que nella não póde deixar de haver em grande numero, e muitas vezes de grande nota.
Por maior porém que fosse este meu desejo, não me foi possivel satisfaze-lo; já porque neste nascente Estado faltão os meios para se fazer huma correcta edição de hum texto grego; logo que exceda a certos e muito acanhados limites: já porque a carestia excessiva dos materiaes e da mão d'obra tornaria inutil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho he dirigido, huma obra, que tendo unicamente em vista a instrução da Mocidade, deve estar ao alcance até daquelles mesmos que não gozão de avultados bens da fortuna.
Talvez se offereça mais favoravel conjunctura que me permitta fazer ao Publico, serviço menos imperfeito neste mesmo genero: E certamente a saberei aproveitar, se os meus Amigos, e em geral todos aquelles, a quem estes ensaios para o incitamento dos bons estudos interessão, me ajudarem com as suas observações e conselhos.
Resta-me advertir que para esta traducção me servi da edição das Obras de Aristoteles dada por Isaac Casaubono, e impressa em Leão na Officina de Jacob Bubon no anno de mil quinhentos e noventa: em dois volumes in folio.
Rio de Janeiro aos 31 de Dezembro de 1813.
Nesta edição dou um passo que a técnica da sua época não permitia a Ferreira: as remissões numeradas que ele usou para separar o texto de suas Explicações — e que obrigavam o leitor a ir e vir fisicamente entre as duas partes do livro — tornam-se aqui notas de rodapé interativas. O número continua exatamente onde ele o deixou; basta tocar nele para ler a Explicação sem perder a página do Aforismo. É a mesma "Segunda Parte" que ele concebeu, apenas com o hyperlink que lhe faltava.
Porto Alegre, 13 de Outubro de 2026
Ὁ Διαφορεύς παρῆν
Categorias
Primeira Parte
Aphorismos
[1] [1a1] Equivocos dizem-se os que tem sómente o nome commum; mas a rasão desse nome differente [e1].
[2] [1a6] Univocos porém dizem-se os que não sómente tem o nome commum; mas tambem a rasão desse nome identica [e2].
[3] [1a12] E cognominados dizem-se os que tendo a terminação differente, tem comtudo as attribuições, que esse nome designa, identicas [e3].
[4] [1a16] Das Locuções, humas exprimem-se ligadas outras desligadas [e4].
[5] [1a20] Das Coisas, humas dizem-se de algum objecto; mas não estão em nenhum objecto [e5].
[6] [1a22] Mas outras sim estão em algum objecto[1][2]; mas não se dizem de nenhum objecto [e6].
[7] [1a29] E outras não só se dizem de algum objecto; mas tambem estão em algum objecto [e7].
[8] [1b3] Outras emfim nem estão em nenhum objecto; nem se dizem de nenhum objecto [e8].
[9] [1b6] Em geral: Tudo o que he indivisivel, e hum em numero não se diz de nenhum objecto; mas nada obsta a que algumas coisas taes possão estar em algum objecto [e9].
[10] [1b10] Quando se diz de hum objecto: que elle he comprehendido em alguma Categoria; tudo o que se diz da Categoria, se ha de tambem dizer do objecto [e10].
[11] [1b16] As coisas que são heterogeneas entre si, e humas não são especies das outras; tambem tem differenças especificas heterogeneas entre si [e11].
[12] [1b20] Mas naquelles generos, que são subordinados huns aos outros, nada obsta a que tenhão as mesmas differenças [e12].
[13] [1b22] Assim que quantas forem as differenças da Categoria, tantas serão as do objecto.
[14] [1b25] As Locuções desligadas ou designão essencia; ou quantidade; ou qualidade; ou relação; ou lugar; ou tempo; ou estado; ou acção permanente; ou acção transeunte; ou paixão [e13].
[15] [2a4] Cada Locução de per si não exprime, nem affirmação, nem negação. Porém mediante a ligação de humas com as outras, resulta affirmação ou negação; porque toda a affirmação ou negação he julgada verdadeira ou falsa. Mas das locuções desligadas nenhuma he verdadeira nem falsa [e14].
[16] [2a11] Primitiva e principalmente chama-se essencia primaria aquella, que nem se diz de nenhum objecto, nem está em nenhum objecto [e15].
[17] [2a14] E chamão-se essencias secundarias, tanto as especies, a que pertencem as essencias primarias, como os generos dessas mesmas especies [e16].
[18] [2a19] Do que fica dito se segue, que tudo o que se diz de hum objecto, he necessariamente categoria delle; não só quanto ao nome; mas tambem quanto á rasão do nome [e17].
[19] [2a27] Mas as coisas, que estão em algum objecto, pela maior parte não são categorias do objecto; nem quanto ao nome, nem quanto á rasão do nome.
[20] [2a29] Porém algumas podem-o talvez ser quanto ao nome; posto que jámais o podem ser quanto á rasão do nome [e18].
[21] [2a34] Todas as outras coisas ou se dizem das essencias primarias, como de outros tantos objectos; ou estão nellas, como em outros tantos objectos [e19].
[22] [2b6] De modo que não existindo as essencias primarias, seria impossivel existir nenhuma das outras.
[23] [2b7] Ora das essencias secundarias a especie he mais essencia do que o genero [e20].
[24] [2b17] O que as essencias primarias são a respeito de todas as outras coisas; isso mesmo he cada especie a respeito do genero [e21].
[25] [2b22] De duas especies, das quaes nenhuma he genero da outra; tambem nenhuma he mais essencia do que a outra [e22].
[26] [2b26] O mesmo he das essencias primarias: que nenhuma dellas he mais essencia do que outra [e23].
[27] [2b29] Com rasão pois entre todas as coisas, que não são as essencias primarias, sómente os generos, e as especies se denominão essencias secundarias [e24].
[28] [3a1] O que as essencias primarias são a respeito de todas as outras coisas: isso mesmo são a respeito de tudo o mais os generos e as especies, a que as mesmas essencias primarias pertencem [e25].
[29] [3a7] He commum a todas as essencias o não estarem em nenhum objecto [e26].
[30] [3a17] Ora as essencias secundarias são categorias do objecto; não só quanto ao nome, mas tambem quanto á rasão do nome [e27].
[31] [3a21] Mas isto não he particular ás essencias; porque tambem as differenças[3] são do numero das coisas, que não estão em nenhum objecto [e28].
[32] [3a25] E as differenças são categorias do objecto a que se referem: até mesmo quanto á rasão do nome [e29].
[33] [3a29] Nem nos faça confusão o estarem as partes das essencias nos todos a que pertencem: de modo que nos julguemos obrigados a dizer, que ellas não são essencias. Porquanto nós não dissemos que as coizas, que estão em algum objecto, existem em algum, como partes d'elle.
[34] [3a33] Verifica-se pois tanto nas essencias, como nas differenças, que todas as outras coizas derivão dellas os seus nomes de huma maneira univoca [e30].
[35] [3b10] Toda a essencia parece significar o que alguma coiza he: E quanto ás essencias primarias he verdade indubitavel, que significão o que alguma coiza he [e31]. Quanto ás essencias secundarias sim parece pela forma do seu enunciado, que tambem significão o que alguma coiza he [e32] : mas isto he mera apparencia; porque taes expressões denotão antes qual seja a coiza a que se referem; nem se applicão a hum só objecto, como as essencias primarias [e33]. Comtudo não denotão huma simples qualidade [e34].
[36] [3b19] Assim que, tanto a especie, como o genero, determinão as qualidades das essencias; porque determinão de huma dada essencia, qual ella seja.
[37] [3b21] Mas esta determinação he mais ampla no genero do que na especie [e35].
[38] [3b24] Tambem se verifica nas essencias o não terem nada, que lhes seja contrario [e36].
[39] [3b27] Mas isto não he particular ás essencias; mas tambem se verifica em muitas outras coizas, como nas quantidades [e37].
[40] [3b33] Parece outrosim que as essencias não são susceptiveis de mais nem de menos [e38].
[41] [4a10] Porém o que principalmente parece ser particular ás essencias, he, que hum e o mesmo individuo he susceptivel de ser em hum tempo o contrario do que era em outro tempo [e39].
[42] [4b17] De modo que he proprio das essencias o admittirem estados contrarios, vindo ellas mesmas a mudarem. Mas o que fica dito bastará a respeito das essencias.
[43] [4b20] Das quantidades humas são discretas, outras são continuas: humas constão de partes que tem certa situação entre si: e outras, cujas partes não são susceptiveis de situação entre si.
[44] [4b22] He quantidade discreta qualquer numero: qualquer discurso: e continua a linha, a superficie, o corpo: e além destas, o lugar, e o tempo [e40].
[45] [5a38] Absolutamente fallando só estas que temos nomeado, he que são quantidades: todas as outras só o são accidentalmente [e41].
[46] [5b11] Além disso á quantidade nada he contrario [e42].
[47] [6a19] Nem tão pouco a quantidade determinada he susceptivel de mais nem de menos [e43].
[48] [6a26] O que he principalmente particular ás quantidades, he o dizerem-se iguaes ou desiguaes [e44].
[49] [6a36] Chamão-se relativas aquellas coisas, que o que são, são-o de outras coisas: ou por outro algum modo o são relativamente a outras coizas [e45].
[50] [6b15] Os relativos são susceptiveis de contrario [e46].
[51] [6b17] Mas nem todos os relativos são susceptiveis de contrario [e47].
[52] [6b19] Tambem parece serem os relativos susceptiveis de mais, e de menos [e48][3IA].
[53] [6b24] Mas nem todos os relativos são susceptiveis de mais, nem de menos [e49].
[54] [6b28] Todos os relativos são reciprocos daquelles de quem se dizem [e50].
[55] [6b36] Comtudo ás vezes póde parecer, que não existe esta reciprocidade; a saber, quando o correlato se não exprime em termos proprios: e isto á proporção que o nome do relativo se afastar do do seu correlato [e51].
[56] [7b15] Igualmente parece ser da natureza dos correlatos o existir hum, sempre que existe o outro. E com effeito assim se verifica pela maior parte [e52].
[57] [7b22] Mas não he da natureza de todos os correlatos o deverem sempre coexistir [e53].
[58] [8a13] Pode entrar em duvida, se ha alguma essencia, que seja do numero das coisas relativas; como com effeito parece não a haver: ou se isto só acontece com algumas das essencias secundarias; porque quanto ás primarias he certo ser assim [e54].
[59] [8b25] Eu chamo qualidade a aquillo por onde se designa, quaes sejão certos e determinados objectos.
[60] [8b25] Mas a qualidade he do numero daquellas palavras, que admittem muitos sentidos. Porquanto ha primeiramente huma especie de qualidades, que he a dos habitos e a das affecções [e55].
[61] [9a14] E ha huma segunda especie, que he aquella pela qual dizemos de algum, que elle he fraco ou que he forte no pugilado, ou na carreira, ou na saude: ou pela qual em geral affirmamos alguma coiza sobre a força ou a fraqueza propria da natureza de qualquer objecto [e56].
[62] [9a28] Ha outra terceira especie de qualidades, que são as qualidades passivas ou as paixões [e57].
[63] [10a11] E ha em fim huma quarta especie de qualidades, que são a figura e as modificações de cada figura [e58].
[64] [10a27] Eis-aqui as que se chamão qualidades: e chamão-se taes os objectos que por cognominação se dizem a respeito dellas, ou por algum outro modo trazem dellas o nome, pelo qual os designamos.
[65] [10a29] Da maior parte e de quasi todas ellas se derivão por cognominação aquelles nomes [e59].
[66] [10a32] Mas em algumas não póde ter lugar a cognominação; porque não existe nome para a respectiva qualidade [e60].
[67] [10b5] Em outros porém, posto que a qualidade tenha nome; o do objecto a que ella se refere, não se deriva delle por cognominação [e61].
[68] [10b12] As qualidades são susceptiveis de contrario [e62].
[69] [10b15] Mas isto não acontece a todas as qualidades [e63].
[70] [10b17] Além disso, todas as vezes que hum de dois contrarios he qualidade, tambem o outro o he necessariamente [e64].
[71] [10b26] Tambem admittem as qualidades mais e menos [e65].
[72] [10b29] Mas não todas, porém sim a maior parte [e66].
[73] [11a15] Comtudo nenhuma das sobreditas propriedades he particular ás qualidades. O que lhes he particular he a semelhança ou a dessemelhança [e67].
[74] [11a20] Nem nos cauze confusão, se alguem nos observar, que tratando-se aqui das qualidades, enumeramos muitas cousas que pertencem aos relativos [e68]. Porquanto he de notar, que de quasi todas essas coizas são os generos os que pertencem aos relativos; e os individuos ás qualidades [e69]. Porém quando acontecesse encontrar-se huma mesma coiza entre os relativos e entre as qualidades, não haveria nisso absurdo algum, porque póde muito bem huma mesma coisa pertencer a dois generos differentes.
[75] [11b1] Tanto a acção, como a paixão são susceptiveis, não só de contrario, mas tambem de mais e de menos [e70].
[76] [11b17] Passando a tratar dos oppostos, e de quantos modos as coisas costumão ser oppostas entre si; he de saber, que ha quatro modos de opposição; que vem a ser: ou como relativos, ou como contrarios, ou como privação e effectividade, ou como affirmação e negação [e71].
[77] [11b24] As coizas que são oppostas como relativas, isso que são, ou o são dos seus oppostos, ou delles se affirma por alguma outra maneira [e72].
[78] [11b32] E as que o são como contrarias, não se podem de nenhum modo affirmar humas das outras: mas sim que humas são contrarias das outras [e73].
[79] [12a1] Aquelles contrarios, de que se verifica que necessariamente ha de existir hum delles nos objectos a que elles por natureza pertencem, ou de que elles são categorias, não admittem nenhum termo medio: bem como aquelles, dos quaes não he forçoso que exista hum delles, póde-se-lhes sempre assignar hum termo medio [e74].
[80] [12a20] Algumas vezes este termo medio tem hum nome [e75] : mas outras vezes não he facil o designa-lo com hum nome particular; e então determina-se pela negativa de hum dos extremos [e76].
[81] [12a26] Tanto a privação, como a effectividade referem-se sempre a hum mesmo e determinado objecto [e77].
[82] [12a29] Quando se diz de alguma coiza, que ella está privada de qualquer effectividade, he nos casos, em que nella não existe o que nella por sua natureza devia existir, ao menos no momento de que se trata [e78].
[83] [12a35] Mas estar privado, e ter a effectividade, não he o mesmo que a privação, e a effectividade [e79].
[84] [12b2] Quanto á opposição entre o estar privado e o ter effectividade, parece ser a mesma que entre a privação e a effectividade; por isso que o modo da opposição he identico [e80].
[85] [12b5] Pela mesma razão as coizas sobre que recahe a affirmação ou a negação, não são affirmação nem negação [e81].
[86] [12b16] Que a privação e a effectividade não são entre si oppostos como relativos, he evidente; pois que de nenhuma dellas se diz que o que ella he, o he da sua opposta [e82].
[87] [12b26] Do que fica dito se vê tambem, que a privação e effectividade não são entre si oppostas como os contrarios; [e83]. Seguindo-se de quanto fica dito, que nem podem pertencer aos contrarios que admittem termo medio, nem a aquelles que o não admittem [e84].
[88] [13a37] As coizas que são entre si oppostas, como affirmação e negação, he evidente que o não podem ser por nenhum dos referidos modos; porque nellas sómente se verifica que de necessidade huma ha de ser verdadeira, e a outra falsa: entretanto que nem nos contrarios, nem nos relativos, nem na privação e effectividade se verifica, que dos oppostos hum haja de ser necessariamente verdadeiro e o outro falso [e85].
[89] [13b36] Ao bem he necessariamente contrario o mal [e86]. Porem ao mal humas vezes he contrario o bem, outras vezes he o outro mal [e87]. Comtudo este ultimo caso em poucos se verifica: pela maior parte o contrario do mal he o bem.
[90] [14a6] He de notar, que de dois contrarios não he necessario que existindo hum, deva existir o outro [e88].
[91] [14a15] He facil de comprehender que os objectos de dois contrarios, devem ser identicos, tanto em genero, como em especie [e89].
[92] [14a19] E portanto he de necessidade, que dois contrarios ou se comprehendão em hum mesmo genero, ou em generos contrarios; ou que elles sejão generos por si mesmos [e90].
[93] [14a26] Quatro são os modos, porque huma coisa se diz ser primeira do que outra: o primeiro e o principal he em razão do tempo [e91] : o segundo he quando, devendo-se concluir da existencia desta a daquella, não se póde concluir reciprocamente [e92] : o terceiro he quando se diz primeiro em razão de alguma determinada ordem [e93] : e além destes, que ficão ditos, parece ser primeiro por natureza, o que he melhor e mais estimado [e94].
[94] [14b10] Poderia lembrar, que além dos quatro referidos ainda existe outro quinto modo de prioridade; porque de duas coisas, das quaes dada a existencia de huma se conclue a da outra: e reciprocamente; aquella de entre ambas, que de algum modo he cauza de existencia da outra, com razão se poderia chamar primeira por sua natureza [e95]. E neste sentido poder-se-hia dizer, que são cinco os modos, porque huma coiza se póde denominar primeira do que outra.
[95] [14b24] Chamão-se connexas as coizas, no sentido mais amplo, e principalmente, quando a sua formação he acontecida no mesmo tempo; de modo que huma não he anterior, nem a outra posterior: E chama-se-lhes simultaneas, ou conjunctas em tempo.
[96] [14b27] Chamão-se porém connexas por natureza aquellas, cuja dependencia he tal; que dada a existencia de qualquer dellas, se póde seguramente concluir a da outra: sem que comtudo huma seja causa da existencia da outra [e96].
[97] [15a13] As especies, que ha de movimentos, são seis; a saber: formação, destruição, augmento, diminuição, transformação, e mudança de lugar [e97].
[98] [15b17] Tambem são muitos os sentidos da palavra ter; porque se diz de qualquer effectividade ou disposição, ou em geral, de qualquer outra qualidade [e98]. Diz-se das quantidades [e99]. Diz-se dos accidentes externos ao corpo todo [e100], ou a huma parte delle [e101]. Diz-se das partes do corpo [e102]. Diz-se das vasilhas [e103]. Diz-se do que se possue [e104]. Talvez se poderião ainda achar outros sentidos da palavra ter; mas os que se costumão usar, são pouco mais ou menos, os que são enumerados.
Fim.
[intro1]: Seja-me desculpado o uso deste preterito do verbo jazer. Eu sei que os nossos bons Escriptores ou se servirão de jouverão, ou o evitarão. Mas o uso geral na conversação e trato da Corte, não menos do que a analogia, são bastante auctoridade em meu favor.
[1]: Digo, que está em algum objecto, e que sem ser parte delle, não póde existir fóra delle.
[2]: E chama-se-lhe accidente ou qualidade accidental, para o distinguir das qualidades essenciaes, cujo compléxo he na phrase do Autor "O que se diz de algum objecto".
[3]: Isto he: as differenças especificas (V. Aph. 11.) ou os caracteres da especie. E he sempre neste sentido, que se deve tomar a palavra differença nas Obras de Aristoteles.
[4]: Isto he: a rasão do nome, ou o caracter da ordem, classe, genero, especie etc.
[e1]: Exemplo: Animal tanto o he o homem, como aquelle nome escripto. Entretanto não tem de commum senão o nome; mas a rasão desse nome he differente para cada hum delles. Porquanto se alguem houver de dar a rasão de se applicar o nome de animal a cada qual delles; para cada hum ha de dar huma rasão particular.
[e2]: Exemplo: Animal tanto o he o homem, como o boi; porque ambos elles se designão pelo nome commum de animal. E até mesmo a rasão desse nome he identica para ambos. Porquanto se alguem houver de dar a rasão, porque qualquer delles he animal, deve dar huma e a mesma rasão.
[e3]: Exemplo: De Grammatica, Grammatico; de Valor, Valoroso.
[e4]: Humas ligadas, como: o homem corre: o homem vence. Outras desligadas, como: Homem, Boi, corre, vence.
[e5]: Exemplo: Homem diz-se de algum objecto, isto he, de algum determinado homem; mas não está em nenhum objecto.
[e6]: Exemplo: A Sciencia grammatical de alguem está em algum objecto, que he a alma; mas não se diz de nenhum objecto. A brancura de algum determinado corpo está em algum objecto, isto he, nesse mesmo corpo; mas não se diz de nenhum objecto.
[e7]: Exemplo: A Sciencia está em algum objecto, que he a alma: e diz-se de algum objecto, como por exemplo, da Grammatica
[e8]: Exemplo: Hum determinado homem, hum determinado cavallo; porque nenhum destes está em nenhum objecto, nem se diz de nenhum objecto.
[e9]: Porque a Sciencia grammatical de alguem he daquellas coisas, que se achão em hum objecto: e comtudo não se diz de nenhum objecto.
[e10]: Exemplo: Na Categoria de Homem comprehende-se hum determinado homem. E na de Animal comprehende-se o Homem. Logo hum determinado homem comprehende-se na Categoria de Animal; porque esse determinado homem he Homem e Animal.
[e11]: Exemplo: As de Animal e as de Sciencias. Porque as differenças de Animal são reptil, bipede, volatil, e aquatil. Ora as de Sciencia não são estas; porque nenhuma Sciencia differe de outra Sciencia em ser bipede.
[e12]: Porque os generos principaes são Categorias, que contém as subalternas.
[e13]: Essencia, para o dizer com exemplos, he como: Homem, Cavallo.
Quantidade. Exemplo: De dois covados; de tres covados.
Qualidade. Exemplo: Branco, Grammatico.
Relação. Exemplo: Dobrado, Metade, Maior.
Lugar. Exemplo: Na praça, No Lycéo.
Tempo. Exemplo: Hontem, Antehontem.
Estar. Exemplo: Está recostado, Está sentado.
Acção permanente. Exemplo: Calçar-se, Armar-se.
Acção transeunte. Exemplo: Cortar, Queimar.
Paixão. Exemplo: Ser cortado, Ser queimado.
[e14]: Exemplo: Homem, Branco; corre, vence.
[e15]: Exemplo: Hum determinado homem; hum determinado cavallo.
[e16]: Exemplo: Hum determinado homem he comprehendido na especie Homem: E o genero desta especie he Animal. São pois as essencias secundarias taes, como Homem e Animal.
[e17]: Exemplo: Hum determinado homem he hum objecto, que se comprehende na Categoria de Homem: primeiramente quanto ao nome; porque de qualquer determinado homem se diz ser Homem: e em segundo lugar a rasão categorica de Homem he applicavel a qualquer determinado homem; porque qualquer determinado homem he Homem e Animal. E por tanto he Categoria do objecto, não só quanto ao nome, mas tambem quanto á razão do nome.
[e18]: Exemplo: A brancura, que está em hum objecto (qual he o corpo) he Categoria em que se comprehende o corpo; porquanto o corpo se diz branco: mas a rasão Categorica de brancura não he applicavel ao corpo.
[e19]: Isto se faz manifesto da consideração de cada huma das coisas de per si; por exemplo: Homem contém-se na Categoria de Animal; e por conseguinte tambem qualquer determinado homem se conterá nessa mesma Categoria; porque se algum determinado homem se não contém nella: então tambem senão comprehenderá o Homem em geral. Do mesmo modo a cõr existe no corpo: e logo tambem em qualquer determinado corpo; porque se não existe em algum corpo, então tambem não existe no corpo em geral. E portanto todas as outras coisas ou se dizem das essencias primarias, como de outros muitos objectos: ou estão nellas, como em outros tantos objectos.
[e20]: Porque está mais proxima á essencia primaria. Porquanto querendo-se designar o que seja huma essencia primaria, se designará mais clara e propriamente apontando-se a sua especie, do que o seu genero. Por exemplo: querendo-se designar o que seja hum determinado homem, se designará mais claramente, dizendo-se que he Homem, do que dizendo-se, que he Animal. Porque aquella primeira designação he mais propria desse determinado homem: entretanto que esta he mais commum. E querendo-se designar huma determinada arvore, se designará mais claramente, dizendo-se ser huma arvore, do que dizendo-se ser hum vegetal. Além disso as essencias primarias não se dizem principalmente essencias, senão porque são objectos de todas as outras cousas: e todas as outras cousas, são Categorias, em que ellas se contém.
[e21]: Porque a especie passa a ser objecto relativamente ao genero; visto que a especie se comprehende na Categoria do genero: e não inversamente o genero na da especie. E por isso tambem he a especie mais essencia do que o genero.
[e22]: Por isso que querendo-se designar hum determinado homem, não se denotará mais propriamente dizendo que he Homem, do que se querendo-se designar hum determinado cavallo, se dissesse ser Cavallo.
[e23]: Porque hum determinado homem não he mais essencia, do que hum determinado boi.
[e24]: Porque de todas as Categorias, em que a essencia primaria se comprehende, nenhuma a designa tão bem, como os generos e as especies. Porquanto, se se quizer designar o que he hum determinado homem, designar-se-ha com propriedade denotando-se a sua especie, ou o seu genero, e designar-se-ha mais claramente dizendo-se, que he Homem ou Animal. Mas se se apontasse qualquer outra coisa, designar-se-hia de hum modo estranho; como se se dissesse ser branco, ou que corre, ou outra alguma coisa semelhante. Por onde com rasão, de entre todas as coisas, a ellas só se lhes tem dado o nome de essencias. E mesmo as essencias primarias não se chamão com especialidade essencias, senão porque são objectos, que se comprehendem em todas as outras coisas, como em outras tantas Categorias.
[e25]: Porque todas as outras coisas são outras tantas Categorias em que ellas se contém. Porquanto assim como de hum determinado homem he que diremos ser grammatico, assim tambem do que he homem, do que he animal he que diremos ser grammatico. O mesmo acontece em tudo o mais.
[e26]: Porque as essencias primarias nem estão em nenhum objecto, nem se dizem de nenhum. E quanto ás secundarias tambem he claro, que nenhuma dellas está em objecto algum. Pois homem sim se diz de algum objecto, que he qualquer determinado homem; mas não está em nenhum objecto; porque homem não está em nenhum determinado homem. Do mesmo modo animal sim se diz de algum objecto, que he qualquer determinado homem; mas animal não está em nenhum determinado homem. Além disso as coisas, que estão em algum objecto, nada obsta a que sejão Categorias delle quanto ao nome; mas quanto á razão do nome he impossivel que o sejão.
[e27]: Porque a rasão categorica[4] de homem he applicavel a qualquer determinado homem: E do mesmo modo a rasão categorica de animal. De tudo o que se segue, que nenhuma essencia póde ser do numero das coisas, que estão em algum objecto.
[e28]: Porque o ter pés, e o ser bipede, diz-se do homem, como objecto; mas não está em nenhum objecto; porquanto não está no homem o ter pés, nem o ser bipede.
[e29]: Exemplo: se se diz do homem o ter pés, he porque ao homem he applicavel a rasão categorica desta expressão; pois que o homem he hum animal dotado de pés.
[e30]: Porque todas as Categorias, que dellas se derivão, ou comprehendem individuos ou especies, visto que das essencias primarias se não deriva nenhuma Categoria, sendo assim que se não dizem de nenhum objecto. E quanto a aquellas, que se derivão das essencias secundarias, a especie comprehende os individuos: e o genero comprehende as especies e os individuos. Do mesmo modo as differenças fornecem outras tantas Categorias, em que se comprehendem especies e os individuos. Além disso a rasão categorica, tanto das especies, como dos generos, he applicavel ás essencias primarias; porque tudo o que se diz do objecto, se ha de tambem dizer das Categorias, em que elle se comprehende. Semelhantemente a rasão categorica das differenças he applicavel ás especies, e aos individuos. Ora Univocos erão os que tinhão o mesmo nome, e a rasão do nome identica. Logo todas as coisas, que se comprehendem nas Categorias das essencias e das differenças, tirão dellas os seus nomes de huma maneira univoca.
[e31]: Porque cada huma dellas significa hum objecto indivisivel, e hum em numero.
[e32]: Como quando se diz: Homem, Animal.
[e33]: Porquanto Homem, Animal dizem-se de muitos.
[e34]: Como Branco, que nada mais significa do que huma simples qualidade.
[e35]: Porquanto quem diz: Animal, abrange a mais, do que quem diz Homem.
[e36]: Porque quanto ás essencias primarias, que he o que lhes poderia ser contrario? Por exemplo: a hum determinado homem? a hum determinado animal? Sem duvida, que nada lhes he contrario. Tão pouco tem contrario Homem, ou Animal.
[e37]: Porque a ser de dois covados ou a ser de tres covados nada he contrario: bem como nem a dez, nem a outra nenhuma coiza semelhante. Excepto se alguem disser, que muito he contrario a pouco, e grande a pequeno. Mas ás quantidades determinadas nada he contrario.
[e38]: Eu não digo, que não ha huma essencia mais ou menos essencia do que outra; porque isso já fica ensinado afirmativamente. O que eu digo, he, que cada huma das essencias, isso que he.
não se póde dizer que o he mais, nem menos. Por exemplo se a essencia de que se trata he hum homem, não póde ser mais, nem menos homem do que elle mesmo: nem tão pouco mais ou menos homem do que outro; pois hum homem não he mais homem do que outro, do mesmo modo que huma coiza branca póde ser mais ou menos branca do que outra: ou huma coiza formoza, póde ser mais ou menos formoza do que outra: e até cada huma dellas em si mesma mais e menos; por exemplo hum corpo que he branco diz se agora mais ou menos branco do que antes: hum que está quente, diz-se estar mais ou menos quente. Mas as essencias não se dizem ser nem mais nem menos essencias: porque se não diz que hum homem seja agora mais ou menos homem do que antes: E assim todas as demais coisas que se chamão essencias. Donde se segue, que nenhuma essencia he susceptivel de mais, nem de menos.
[e39]: Que he o que jámais se póde verificar em nenhuma outra coisa, que não for essencia; porque apezar de ser huma em numero, nem por isso he susceptivel de contrario: por exemplo, huma determinada cor, apezar de ser huma em numero, não póde ser branca e preta: huma e a mesma acção, a pezar de ser huma em numero, não póde ser boa e má: e assim em todas as demais coisas que não são essencias. Porém as essencias, sendo cada qual dellas huma e a mesma em numero, são susceptiveis de estados contrarios. Por exemplo, hum determinado homem, sendo hum e o mesmo, ora he branco, ora denegrido: ora está
quente, ora frio: ora he mão, ora he bom. Porém nada disto parece verificar-se em nenhuma das outras coisas. Excepto se alguem quisesse insistir dizendo, que o discurso e a opinião são susceptiveis de contrariadade; porque parece, que hum mesmo e determinado discurso póde ser verdadeiro e falso. Por exemplo; se fosse verdade o dizer-se que alguem está sentado: logo que elle se levante este dito passa a ser falso. E o mesmo he de qualquer opinião; porque se alguem julgasse com verdade que outrem estava sentado: logo que este se levantasse, julgaria erradamente formando a respeito delle o mesmo juiso. Porém ainda admittindo isso, ha total differença quanto ao modo. Porque, quanto ás essencias, ellas não são susceptiveis de estados contrarios, senão quando mudão: como por exemplo, o que está frio, depois de ter estado quente, passou por huma mudança: o que está denegrido, depois de ter sido branco, varia: bem como o que he bom, depois de ter sido máo: E assim de todas as outras, que só admittem estados contrarios, quando experimentão mudança. Mas o discurso, e a opinião ficão absolutamente immudaveis: e passão a ser o contrario do que erão, quando muda o objecto, a que se referem: como o dito de que alguem está sentado fica sempre sendo o mesmo; e só pela mudança do subjeito he que ora he verdadeiro e depois falso. O mesmo se póde dizer da opinião. Donde se segue, que he particular ás essencias o admittirem pela sua propria mudança estados contrarios.
Mas he de advertir, que quem admittisse, que o discurso e a opinião são susceptiveis de contrariedade, admittiria hum erro; porque nem o discurso nem a opinião passão a ser o contrario do que erão, porque lhes sobreviesse alguma coisa, mas porque se applicão a outro cazo: pela simples existencia ou não existencia do facto, he que o discurso que a elle se refere se diz ser verdadeiro ou falso: e não porque o mesmo discurso em si admittisse estado contrario ao que era antes; porque em nada absolutamente se acha ter mudado, nem o discurso, nem a opinião. Ora não tendo elles recebido mudança alguma em contrario, não se podem dizer susceptiveis de passarem a ser o contrario do que erão. Ao contrario porém as essencias, que por isso que recebem modificações contrarias, he que se dizem susceptiveis de estados contrarios: como por exemplo; porque he susceptivel de doença ou de saude, de brancura ou de negridão; e assim do resto; he que se diz ser susceptivel de contrariedade. Logo he particular ás essencias, que sendo cada qual dellas huma e a mesma em numero, pela sua propria mudança passão a ser o contrario do que erão.
[e40]: Porque as partes do numero não tem termo nenhum commum, em que as partes do mesmo numero se encontrem. Por exemplo cinco considerado como parte de dez, não tem hum termo commum em que se encontre com os outros cinco, mas são quantidades discretas. Do mesmo modo tres e septe não se encontrão em nenhum termo commum. E em geral he impossivel assignar hum termo commum, em que se encontrem as partes de qualquer numero; mas sempre são discretas. De modo que o numero he huma das quantidades discretas. Do mesmo modo o discurso. Ser o discurso quantidade he evidente; porque se mede por syllabas longas e breves. Eu fallo do discurso pronunciado. Mas não ha termo, nenhum commum, em que as partes do discurso concorrão: pois que as syllabas não se encontrão em nenhum termo commum, mas antes ficão discretos entre si.
Porém a linha, essa he continua: e póde-se tomar hum termo commum, em que se vem a encontrar as partes de que ella consta, que he o ponto: e da superficie he-o a linha; pois que as partes de hum plano se encontrão em algum termo commum. Do mesmo modo he sempre possivel tomar em qualquer corpo hum termo commum, em que as partes concorrem, que he a superficie ou a linha. Outro tanto acontece ao tempo e ao lugar; porquanto o tempo presente pega com o passado, e com o futuro. Por outra parte o lugar tambem he do numero das quantidades continuas; porque as partes de qualquer corpo occupão algum lugar, e ellas concorrem em hum termo commum, logo tambem as partes do lugar, que occupão as do corpo, hão de concorrer em o mesmo termo commum, em que as partes do corpo concorrem. Do que se segue, que o lugar he huma quantidade continua, por isso que as partes, de que elle se compõe, concorrem em hum termo commum.
Além disso ha humas quantidades, que admittem situação: e outras, cujas partes não são susceptiveis delle. Exemplo: As partes da linha tem huma situação respectiva entre si; porque cada huma dellas jaz em hum lugar: e se póde achar e demonstrar aonde ella jaz no plano, e quaes sejão de entre as outras partes, aquellas com que ella concorre no plano. Do mesmo modo as partes do plano tem huma determinada situação entre si; porque tambem se póde assignar aonde jaz cada huma dellas, e quaes das outras partes são aquellas, com que cada huma concorre. E o mesmo he a respeito dos solidos, e do espaço.
Mas quanto aos numeros, não he possivel mostrar, que as partes, de que cada qual delles se compõe, tenhão certa situação respectiva, nem quaes sejão as que se encontrão com esta ou com aquella. Outro tanto se póde dizer do tempo; por isso que nenhuma das partes delles fica subsistindo: e como poderia admittir situação aquillo que não subsiste? Mais depressa se poderia dizer, que tem huma certa ordem; pois que hum he primeiro em tempo, e outro he posterior. E o mesmo he dos numeros; porque tambem hum se conta primeiro do que dois: e dois do que tres. De modo que se póde dizer que tem huma certa ordem; mas não se póde admittir que tenhão entre si nenhuma situação. Assim tambem com as palavras, de que nenhuma parte fica subsistindo; mas huma vez pronunciadas, se não podem tornar a tomar; por onde de não são susceptiveis de situação, pela simples razão de não serem subsistentes. De tudo o que se segue, que humas coizas constão de partes que tem entre si huma certa situação: e outras, cujas partes não são susceptiveis de situação respectiva.
[e41]: Porque he em consideração ás primeiras, que nós chamamos quantidades á todas as outras.
Por exemplo, dizemos da brancura que he muita, attendendo a haver muita superficie branca. E de huma acção dizemos ser extensa, attendendo a ser muito o tempo que ella durou: E he deste modo que se diz ter sido o movimento muito.
Porém nenhuma destas coizas he em si mesma huma certa quantidade; porque se alguem houver de dizer em que sentido attribue o quantitativo a huma acção, ha de determina-lo pelo tempo da sua duração, como de hum anno, ou outra coisa semelhante. E fallando da brancura, como quantidade, ha de determina-la pela superficie; porque quanto maior for a superficie, tanto maior he a brancura. Assim que absolutamente fallando só são quantidades aquellas, que acabamos de enumerar: de todas as outras nenhuma o he por si mesma; mas só por accidente.
[e42]: Porque das quantidades determinadas he evidente que não tem contrario; pois nada o póde ser á qualidade de ter dois ou tres covados: ou a huma superficie: ou a qualquer outra coiza semelhante a estas. Excepto se por ventura alguem disser, que muito he contrario de pouco, e grande de pequeno. Porém estas expressões não designão quantidades, mas sim relações; porquanto nada he por si mesmo grande nem pequeno, mas sómente em quanto se refere a outra alguma coiza. He assim que hum monte póde ser pequeno, e grande hum grão de painço, por ser este maior que as outras coisas do mesmo genero: e aquelle, menor. Ha pois nisto huma comparação; porque a não a haver, nunca hum monte poderia ser pequeno, nem grandes hum grão de painço. Outro exemplo: he assim que dizemos haver muita gente em huma Aldea: e pouca em Athenas; posto que o numero desta exceda muitas vezes ao daquella: dizemos haver em caza muita gente, e pouca no theatro; bem que neste haja muitas vezes mais gente que em casa.
Além disso ter dois ou tres covados, &c. são expressões de quantidades determinadas; mas ser grande ou pequeno não são expressões de quantidades determinadas, porém sim de relações. Porque grande e pequeno sempre se referem a alguma outra coisa: e logo he evidente que o que designão são relações. Mas quer as ponhão entre as quantidades, quer as não ponhão, não se póde assignar nada que lhes seja contrario; porque como he que se póde assignar o contrario de huma coisa, que se não considera em si mesma, porém só com relação a outra? Além de que se grande e pequeno são contrarios, acontecerá que huma mesma coisa admittirá ao mesmo tempo dois contrarios: e será huma mesma coisa contraria a si mesma; pois que acontece que huma mesma coisa he ao mesmo tempo grande e pequena: grande a respeito de hum objecto, e pequena a respeito de outro: e assim a mesma coisa he ao mesmo tempo grande e pequena; e portanto viria a admittir dois contrarios. Mas nada póde admittir dois contrarios; á excepção das essencias, porque essas parece poderem admittir contrarios. Porém ninguem póde estar ao mesmo tempo são e doente; ser ao mesmo tempo branco e preto: e assim de outras coisas, que nenhuma admitte contrarios. E aconteceria que huma coisa seria contraria a si mesma; porque se pequeno he contrario ao grande: como huma mesma coisa póde ser ao mesmo tempo grande e pequena; viria a ser contraria a si mesma. Ora he do numero dos impossiveis que huma coisa seja contraria a si mesma; logo pequeno não he contrario a grande; nem muito a pouco. De modo, que ainda quando alguem dissesse que estas expressões não pertencem ás de relação, mas ás de quantidade; nem por isso lhes poderia descobrir contrario.
Mais depressa poderia parecer que o lugar considerado como quantidade, he susceptivel de contrarios, porque se chama superior o que he contrario ao inferior; referindo-se o inferior a num ponto medio: e determinando o ponto medio, por ser a sua distancia aos pontos cardiaes do Mundo maior que a dos extremos. E em geral chamão-se contrarias entre si as coisas, que sendo de hum mesmo genero, são entre as suas congeneres as que mais distão entre si.
[e43]: Por exemplo, o ter dois covados; porquanto isto não admitte mais nem menos. O mesmo succede com os numeros, por exemplo: tres não he mais cinco do que cinco, nem mais tres do que cinco: e o mesmo he de cinco a respeito de tres: nem hum determinado tempo he mais tempo do que outro tempo. Em geral nenhuma das que dissemos serem quantidades, he susceptivel de mais ou de menos. Logo as quantidades determinadas não são susceptiveis de mais ou de menos.
[e44]: Porque cada huma das coisas referidas se diz igual ou desigual: o mesmo he de hum numero ou de hum determinado tempo; que tambem se dizem iguaes ou desiguaes: e assim tambem das outras coisas acima mencionadas; das quaes todas se diz, que são iguaes ou desiguaes. De tudo o mais porém, que não he quantidade, não tem muito lugar o ser igual ou desigual: como por exemplo: huma affecção não se póde dizer com muito acerto, que he igual ou desigual; mas sim semelhante ou dessemelhante: nem de huma coisa branca se diria bem, ser igual ou desigual em cor, mas antes semelhante ou dessemelhante. De modo que parece ser sobretudo proprio das quantidades o dizerem-se iguaes ou desiguaes.
[e45]: Exemplo: Maior sempre se diz relativamente a outro, em toda a extensão do significado; porque se diz maior que alguma outra coisa. Do mesmo modo o que se diz ser duplo, tambem se diz relativamente a outra coisa, em toda a extensão do seu significado, porque de alguma outra coisa se diz duplo: E assim de tudo o mais.
Tambem pertencem aos relativos expressões taes como habito, disposição, sciencia, situação; porque todas-ellas, isso que são, são-o de outras coisas, ou por algum modo relativamente a outras coisas: e sem isso nada significão; porquanto habito he habito de alguma coisa; e sciencia he sciencia de alguma coisa: a posição he posição de alguma coisa: e assim do resto. Logo isso que são, são-o relativamente a alguma outra coisa aquellas, que se dizem serem de outras: ou de algum modo relativamente a outras; como por exemplo se diz de hum monte, que he grande relativamente a outro; porque só relativamente a outro he que se diz grande. Assim tambem o que se diz semelhante, he semelhante a outro. E he deste modo, que todas as outras coisas se chamão relativas. O estado de jazer, de estar em pé, de estar sentado são certas situações; mas jazer, estar em pé, estar sentado são expressões que se derivão daquellas situações.
[e46]: Exemplo: A virtude he o contrario do vicio: e cada huma destas expressões he relativa. Do mesmo modo a sciencia he o contrario da ignorancia.
[e47]: Porque a duplo não ha nada que seja contrario; nem a triplo; nem a nenhuma outra destas coisas.
[e48]: Porque semelhante e dessemelhante dizem se se-lo mais ou menos. Igual e desigual tambem se dizem se-lo mais ou menos: estas expressões são relativas; porque o semelhante, a alguma coisa he semelhante: o desigual, he-o a respeito de alguma coisa.
[e49]: Porque huma coisa dupla não se diz ser mais ou menos dupla: nem nenhuma das outras coisas semelhantes.
[e50]: Exemplo: O servo he servo de seu senhor; e o senhor he senhor do seu servo: o duplo he-o da sua metade; e a metade he metade do seu duplo: o que he maior, he-o do que he menor: e o que he menor he-o do que he maior: e assim das demais expressões semelhantes. A's vezes as expressões correlatas differem na desinencia; como por exemplo o conhecimento he-o do conhecido; e o conhecido he-o do conhecimento: a sensação he-o do sentido; e o sentido he-o da sensação.
[e51]: Exemplo: Se se diz que a asa he da ave; nem por isso se póde dizer reciprocamente que a ave he da asa. Porque não tem entre si analogia (grammatical) as duas expressões: asa da ave; porquanto não he por se dizer ave, que se diz ser della a asa; mas porque se diz alada: sendo assim que ha asas de muitas outras coisas, que não são aves. De modo que se se desse o nome analogico, então haveria reciprocidade; a saber: asa he asa de alado: e alado refere-se a asa.
Mas ás vezes seria necessario formar hum nome analogico, quando o não ha apropriado. Exemplo: Se se tratasse do leme de huma embarcação, não seria analogico o nome de leme; porque não he por ella se chamar embarcação, que ao leme se lhe chama assim; pois que ha embarcações, que não tem leme; e por isso não ha reciprocidade entre aquellas duas expressões: nem se diz de huma embarcação que he embarcação de tal leme. Seria porém analogico o nome, se se dissesse ser o leme de hum alemeado, ou outra expressão semelhante; mas não existe esta, nem outra alguma expressão cognominada; que se existisse, então haveria reciprocidade; porque se diria ser o alemeado do leme. O mesmo he de outras expressões, como por exemplo fallando-se de cabeça seria mais analogico dizer cabeça de hum capitado, do que dizendo-se cabeça de hum animal; porque não he por ter cabeça, que he animal, pois ha muitos animaes que não tem cabeça.
Assim acontecendo não ter huma coisa nome analogico com o do seu correlato, o mais facil seria dar-lhe nome derivado deste com quem essa mesma coisa se acha em reciprocidade; como nos exemplos precedentes de asa ou ala, alado; de leme alemeado. De tudo o que se segue, que todos os correlatos se se enuncião com propriedade, são reciprocos entre si. Mas se cada hum se nomea ao acaso, e sem analogia com o seu correlato; não póde haver reciprocidade entre elles com propriedade.
Digo pois, que mesmo daquellas coisas, que são reciprocas entre si, e que tem nomes cognominados, desapparece a reciprocidade, se em vez de eu enunciar a qualidade correlata de huma dellas para com a outra, enuncio qualquer outra ao acaso. Exemplo; se querendo-se nomear o correlato de servo; em vez de senhor, se disser homem ou bipede, ou outra coisa semelhante; não poderá haver reciprocidade; porque se não apontou a expressão apropriada. E portanto se deixando de parte tudo o que he accidental a hum dos correlatos, se expressar sómente o nome apropriado ao do outro correlato; sempre este se poderá affirmar daquelle. Por exemplo, tratando-se do servo relativamente a seu senhor, se deixando de parte tudo o que he accidental ao senhor (como o ser bipede, intelligente, homem) se chamar sómente senhor; sempre se poderá affirmar deste que outro he seu servo; por isso que o servo he servo do seu senhor.
E a rasão he que se não enunciarmos só a qualidade apropriada do correlato, deixando de parte todas as outras; ninguem dirá que he correlato. Porque supponhamos que se diz o servo do homem, e a asa da ave, deixando-se de parte o dizer do homem que he senhor; não se segue que se deva dizer o servo do homem; porque se elle não for senhor, tambem o outro não he seu servo. Do mesmo modo ommittindo-se o dizer da ave que he alada, não se segue ser correlato de asa; porque não se suppondo o ser alado, não se lhe póde referir aquella expressão de asa. De tudo o que se segue, que convem nomear os correlatos de huma maneira analogica: o que he facil quando ambos tem nomes entre si analogos; mas quando os não tem analogos, cumpre muitas vezes crea-los. Ora dados elles he evidente que existe reciprocidade entre ambos os correlatos.
[e52]: Porque duplo e metade sempre andão juntos: e se ha duplo, he porque ha metade. Se ha servo, he porque ha senhor: e se ha senhor, he porque ha servo. E á semelhança destas, todas as demais coisas. Igualmente se verifica que tirado hum dos correlatos, se tira tambem o outro; porque não havendo metade não póde haver o duplo: e não havendo duplo, não póde haver coisa a que se dê o nome de metade. O mesmo se póde dizer de todas as outras coisas a estas semelhantes.
[e53]: Porque parece que o objecto da sciencia deve existir antes da sciencia; sendo assim, que pela maior parte primeiro existem as coisas antes, que nós dellas tenhamos conhecimentos: E serão poucos, ou nenhuns os casos, em que se verifique, que os objectos começão a existir juntamente com o conhecimento delles. Além disso não existindo o objecto do conhecimento, tambem este não póde ter lugar; mas nem por isso que não existe conhecimento, deixa de existir o objecto delle. Por exemplo: da quadratura do circulo não existe a sciencia, mas nem por isso deixa de existir o que sobre isto ha a saber, se he que se póde saber. Por outro lado, não existindo nenhum animal, tambem não ha sciencia, entretanto que nem por isso deixão de existir os muitos objectos de conhecimento. O mesmo acontece com a sensação; pois parece que os objectos sensiveis são anteriores á sensação; visto que suppondo-se não existir o objecto da sensação, tambem esta não póde existir; mas de não existir a sciencia não se segue que não existem os objectos della.
Porquanto as sensações versão sobre corpos, e nos corpos; e na supposição de não existir o objecto sensivel, tambem não existem corpos (porque os corpos são do numero das coisas sensiveis). Ora não existindo corpos, tambem não póde existir sensação. E por conseguinte não existindo o objecto sensivel, não existe a sensação; de não existir a sensação, não se segue, que não exista o objecto sensivel; porque suppondo-se não existir nenhum animal, não existirá nenhuma sensação: e com tudo existem objectos sensiveis, como: os corpos quentes, doces, amargos, e todos os outros quantos são objectos da sensação. Ora a sensação começa a existir com o ente que sente; porque a sensação começa a existir com o animal; e os objectos sensiveis são tão anteriores á sensação, como aos animaes; porque o fogo, a agoa, e mais elementos, de que o animal se compõe, existião antes de haver animaes nem sensação. Donde com razão parece que os objectos da sensação são anteriores á mesma sensação.
[e54]: Porque as partes de qualquer essencia primaria nem singular, nem collectivamente, se podem considerar como coisas relativas; porquanto hum certo homem não he certo homem de certo homem; nem hum certo boi he certo boi de certo boi. O mesmo he de cada huma das partes; pois se não diz = certa mão de certo homem; porém a mão de certo homem: nem certa cabeça de certo homem; mas a cabeça de certo homem. Assim tambem acontece com as essencias secundarias; quero dizer, pela maior parte; por exemplo: homem não se diz de certo homem: nem boi de certo boi: nem pão de certo pão: bem que qualquer destas coisas se possa chamar propriedade de de alguem. Destas he pois claro que não são relativas. Mas ha algumas outras essencias secundarias, sobre as quaes pode haver duvida; como por exemplo: a cabeça diz-se cabeça de alguem: a mão diz-se mão de alguem: e assim de cada huma das outras coisas semelhantes: de modo que estas com razão podem parecer ser do numero dos relativos. Se pois a definição que se tem dado de relativo he acertada, he muito difficil, ou impossivel o demonstrar, que nenhuma essencia ha do numero dos relativos. Mas se aquella definição não he exacta: e se são relativas aquellas coisas de que se verifica ser o mesmo existirem, que existirem de algum modo a respeito de outra alguma coisa; então poder-se-ha talvez dizer que ha coisas correlatas destas essencias. A primeira daquellas definições sim se verifica em todos os relativos, mas não he o mesmo serem elles relativos, que serem de outra coisa, isso que elles são em si mesmos.
De tudo o que fica manifesto, que se alguem conhecer definitivamente hum relativo, tambem conhecerá definitivamente o seu correlato: e deduz-se claramente do que fica dito, porque se alguem conhece que huma determinada coisa he do numero dos relativos: como ser relativo he ser de certo modo a respeito de outra alguma coisa; segue-se que elle tambem deve conhecer o objecto correlato a respeito de quem aquelle relativo he desse modo; porque se elle não conhece o correlato a respeito do qual o relativo he desse modo, tambem não conhece que elle lhe he relativo. Isto mesmo se manifesta, discorrendo-se por casos particulares. Por exemplo; se alguem sabe que huma determinada coisa he dupla, tambem ha de logo saber o de que he dupla; porque se não conhece nenhuma coisa determinada de que ella seja dupla; ignora absolutamente que ella seja dupla. Do mesmo modo: se alguem sabe que huma coisa he mais formosa que outra; tambem por isso mesmo deve logo saber determinadamente qual seja essa outra que he menos bella: nem he de huma maneira indeterminada, que elle saberá ser essa coisa mais bella do que a outra; pois que nesse caso, haveria supposição, e não sciencia; porque ainda se não conhece exactamente se he mais formosa do que a outra: porquanto a ser assim, seguir-se-hia não haver coisa pior do que essoutra.
De tudo o que fica manifesto, que se alguem conhece determinadamente hum relativo, necessariamente conhece tambem de huma maneira determinada o seu correlato.
Ora a cabeça, a mão, e outras semelhantes coisas que são essencias, póde-se muito bem conhecer determinadamente o que ellas são, sem com tudo se seguir necessariamente, que devamos conhecer os objectos, a que se referem; porque não he consequencia necessaria, que conheçamos determinadamente de quem he a cabeça ou a mão. Logo nenhuma destas coisas he do numero dos relativos: E se nenhuma dellas he do numero dos relativos; será verdade dizer que nenhuma essencia he do numero dos relativos. Mas talvez não he facil o demonstra-lo evidentemente, não se tendo assiduamente meditado. Não deixa comtudo de ter utilidade o questionar sobre cada hum destes objectos em particular.
[e55]: E differe o habito da affecção em ser mais diuturno, e mais permanente. Taes são as sciencias e as virtudes. Porque a sciencia parece ser do numero das coisas mais estaveis e menos mudaveis, por pouca que seja a sciencia adquirida, huma vez que por doença, ou por outra alguma semelhante causa não tenha acontecido grande transtorno na pessoa. Do mesmo modo a virtude, como a Justiça, a
Temprança ou qualquel[4IA] outra semelhante não parecem ser coisas que mudem facilmente, ou que facilmente variem. Ora chamão-se affecções aquellas que mudão facilmente, e que varião com promptidão: taes como, o calor, o frio, a saude, a doença, e outras semelhantes coisas. Porque o homem de algum modo está subjeito a ellas: e com facilidade muda, passando de quente a frio, e do estado de saude ao de doente: E o mesmo he dos outros casos. Comtudo poderia alguem dizer que huma affecção que tendo durado muito tempo, se tem convertido em natureza, nem se póde destruir, merece o nome de habito. Mas nisto mesmo se mostra, que o que se quer entender por habito, he o que he de maior duração e de mais difficil mudança. Porquanto fallando nós daquellas pessoas que não possuem bastantemente alguma sciencia, nunca dizemos que esta seja nellas hum habito; porque humas vezes estão em melhor, outras em pior estado relativamente á mesma sciencia. Por onde differe a affecção do habito em que a primeira he facil de mudar: e a segunda he de mais duração e da mais difficultosa mudança. Mas todos os habitos são affecções, posto que nem todas as affecções sejão necessariamente habitos. Porquanto aquelles que tem algum habito, são em certo modo affectados por elle. Ora de quem está affectado não se póde dizer que tem hum habito.
[e56]: Porque de nenhuma destas coisas se diz, que alguem está affectado; mas sim que tem a força physica ou a impotencia de fazer alguma acção ou de não soffrerem alguma paixão. Por exemplo os que se dizem habeis no pugilado, ou na carreira; não se dizem taes, porque se achem affectados de hum certo modo, mas porque tem a força physica de fazerem certas coisas facilmente. Os que se dizem sadios, dizem-se taes porque tem a força physica de não soffrerem facilmente dos acasos que attacão a saude: E enfermiços os que são dotados da impotencia para resistirem a esses mesmos acasos. Semelhantemente a estas expressões se verifica com as de duro e de brando; que se chama duro, porque tem a força de se não partir facilmente: e brando, porque he dotado de impotencia para lhe acontecer outro tanto.
[e57]: Taes são por exemplo a doçura, o amargo, o travo, e outras coisas do mesmo genero. E assim tambem o calor e o frio: a brancura, e a negridão. Serem todas estas coisas qualidades, he evidente; porque por ellas he que se determina, de que qualidade são os objectos, que dellas são susceptiveis. Por exemplo: o mel por isso que entra na sua natureza a doçura, he que se chama doce: e hum determinado corpo por isso se diz branco, porque nelle se verifica a brancura. O mesmo acontece com todas as outras expressões.
As qualidades dizem-se passivas, não porque os objectos, em que ellas se verificação, padeção alguma coisa; porque ao mel não se lhe chama doce, porque padece alguma coisa: e assim nos outros semelhantes: como tambem o calor e a frialidade se dizem qualidades passivas, não porque as substancias, em que aquellas qualidades se encontrão, padeção alguma coisa: mas porque segundo as sensações que cada qual daquellas qualidades produz he causa de huma paixão. Pois que a doçura produz huma paixão no gosto: e a frialdade no tacto: e assim das demais. Quanto á brancura, á negridão, e ás outras cores, sim se chamão tambem qualidades passivas, mas não pela mesma razão das de que acabamos de fallar; mas porque derivão de huma paixão. Que ha muitas mudanças de côr que derivão de alguma paixão, he coisa evidente; pois que o homem que se envergonha se torna vermelho: e amarello, o que se toma de medo: e assim nos demais casos semelhantes. De maneira que todas as vezes que alguem houver experimentado alguma destas paixões, por ser isso proprio da sua natureza; tambem se póde concluir com toda a probabilidade, que tomou aquella mesma côr. Porque he de notar, que a affecção ha pouco observada no corpo por occasião do pejo, tambem pode verificar-se por effeito da constituição physica: e por isso póde tambem resultar a mesma côr, em consequencia da natureza do subjeito.
Todos os symptomas pois que assim como os mencionados, tirão a sua origem de alguma paixão duravel ou menos subseita[5IA] a variar, chamão-se qualidades passivas, quer seja pela propria natureza das coisas (tal como a negridão) por isso que as coisas se dizem taes relativamente a ellas; quer seja porque em consequencia de huma longa enfermidade, ou por huma queimadura, sobreveio ao subjeito a pallidez, ou negridão, de modo que ou não mudão facilmente, ou talvez durão por toda a vida; pois tambem nestes casos se chamão qualidades; por isso que tambem relativamente a ellas se denominão taes os objectos. Mas os que derivão de paixões que facilmente se desvanecem, e com promptidão se mudão; não se chamão qualidades, mas paixões; pois que nunca os objectos se dizem ser taes relativamente a ellas. Assim do homem que por effeito do pejo se fez vermelho, não dizemos que he vermelho: nem daquelle que se tornou pallido por medo, dizemos que he pallido; mas sómente dizemos, que experimentarão certa paixão E portanto são aquellas paixões, e não qualidade. Semelhantemente no que respeita á alma, humas se chamão paixões e outras qualidades passivas. Porquanto aquellas que logo na sua origem se achar, terem derivado de paixões, que difficilmente varião; chamão-se qualidades; taes como a alienação mental: a colera: e outras semelhantes; pois que relativamente a ellas se dizem os homens colericos, maniacos. E do mesmo modo nas demais desordens que se affastão da humana natureza, mas que de tal modo derivão de outros symptomas, que ou são mui difficeis de mudarem, ou são absolutamente inamoviveis: pois todas ellas se chamão qualidades, por isso que conformemente a ellas se dizem os homens taes. Aquellas porém que derivão de symptomas que facil e brevemente mudão; chamão se paixões: como quando alguem exprimentando hum dissabor, se incolerisa; porque em tal caso não se diz que elle he colerico por se ter incolerisado durante aquella paixão; mas antes se diz, que elle padeceu alguma coisa. Assim todas estas coisas se chamão paixões e não qualidades.
[e58]: Isto comprehende as linhas e superficies rectas ou curvas, e tudo o que a essas formas se assemelha. Porque a todos e a cada hum destes respeitos se dizem as coisas taes. Assim o ser triangular, ou quadrangular, he ser tal: E do mesmo modo o ser recto ou o ser curvo, cada hum segundo a sua respectiva figura, se diz tal.
Porventura parecerá que o denso, e o raro: o liso, e o aspero entrão no numero das qualidades. Mas a mim parece-me, que estas expressões designão coisas alheias da rubrica da qualidade; pois he manifesto que qualquer dellas denota mais depressa huma certa disposição de partes. Porquanto denso denota que as partes estão conchegadas: raro, que estão distantes humas das outras: liso, que estão todas em hum mesmo plano: e aspero, que humas estão mais altas, e outras mais baixas.
Tambem parecerá talvez haver mais alguma outra especie de qualidade. Mas as que ordinariamente assim se denominão, são estas.
[e59]: Por exemplo: de brancura, branco: de litteratura, letra: de justiça, justo: e assim nos demais.
[e60]: Por exemplo: tratando-se de alguem, que possue a habilidade do pugilado ou da carreira; não existe qualidade nenhuma, donde elle derive competente nome, porque aquellas habilidades não tem nomes, conforme aos quaes, o que as possue, se diga tal, do mesmo modo que se chama athletica a sciencia do athleta e cursoria a do corsador: e conforme a aquellas denominações se chamão taes aos que possuem semelhantes sciencias.
Algumas vezes porém tendo nome a qualidade, nem por isso se denota cognominadamente o subjeito que a possue.
[e61]: Por exemplo: Garbo diz-se daquelles, que tem maneiras nobres e engraçadas; mas não ha expressão cognominada para denotar o subjeito em quem se verifica semelhante qualidade. Mas isto acontece em mui poucos casos. Assim chamão-se taes todas as coisas, que por cognominação derivão seus nomes dos de alguma qualidade.
[e62]: Por exemplo: a justiça he contraria á injustiça: a brancura á negridão; e assim as demais. Bem como são contrarias entre si as coisas em que se verificação essas qualidades; por exemplo justo a respeito do injusto: e branco a respeito de preto.
[e63]: Porque o purpureo, a amarello, e a quaesquer cores como estas, nada he contrario.
[e64]: Isto se conhece claramente discorrendo-se por cada huma das outras categorias. Porque se a justiça he contraria á injustiça, e a justiça he qualidade; tambem será qualidade a injustiça. Por quanto nenhuma das outras categorias quadra á injustiça; a saber: nem quantidade, nem relação, nem lugar, nem nenhuma outra, senão qualidade. O mesmo se verifica em todos os outros contrarios relativamente ás qualidades.
[e65]: Porque de duas coisas brancas se diz ser huma mais ou menos branca de que outra: de duas acções justas diz-se ser huma mais ou menos justa do que a outra. E até mesmo cada huma dellas de per si he susceptivel de augmento. Porque huma que he branca, póde vir a ser mais branca.
[e66]: Porquanto não faltará quem duvide que se possa dizer que huma justiça o he mais ou menos do que outra; ou huma saude maior ou menor que outra. He verdade, que se diz, que hum tem mais ou menos justiça, mais ou menos saude do que outro: e semelhantemente de todas as demais affecções. Mas o que daqui se segue he, que indubitavelmente se póde applicar o mais ou menos ás coisas que são susceptiveis daquellas qualidades: como se diz, que hum he mais grammatico, mais justo ou mais sadio de que outro. E assim nos demais casos semelhantes. Mas hum triangulo ou hum quadrilatero, ou qualquer outra figura não parece serem susceptiveis de mais nem de menos; porque todas as coisas, a que he applicavel o nome de triangulo ou a de circulo são igualmente triangulos ou circulos: bem como duas coisas, a que não he applicavel a mesma expressão, não se póde chamar huma mais do que a outra: porque hum quadrilatero não he mais circulo do que hum oval; por isso mesmo que a nenhum delles he applicavel a expressão de circulo. Em geral, todas as vezes que a nenhuma das duas coisas he applicavel huma expressão, nenhuma dellas he mais do que a outra, o que essa expressão designa. Donde se segue, que nem todas as qualidades são susceptiveis de mais ou de menos.
[e67]: Porque ser semelhante ou desemelhante a nada mais se refere do que a aquillo mesmo, em que se verifica a qualidade de que se trata. Por onde o que viria a ser proprio das qualidades, seria a semelhança ou dessemelhança dos objectos relativamente a ella.
[e68]: Porque dissemos, que os habitos, e as affecções pertencião aos relativos. Porquanto a sciencia tomada em geral, isso que he, he o de alguma outra coisa; porque ha de ser a sciencia de alguma coisa. Mas tomada em particular, então isso que he, não o he de outra nenhuma coisa. Por exemplo: a Grammatica tomada individualmente não se diz Grammatica de alguma coisa; nem a Musica, Musica de alguma coisa. Tomadas porém genericamente, então pertencem tambem aos relativos; por exemplo: a Grammatica diz se nesse caso sciencia de alguma coisa; mas não Grammatica de alguma coisa: e a Musica, sciencia de alguma coisa; mas não Musica de alguma coisa: e portanto individualmente não são relativas. E segundo cada huma dellas em particular he que nós nos dizemos taes, por isso que só as possuimos em particular. Assim nos dizemos sabios, porque possuimos algumas das sciencias em particular. E portanto ellas só são qualidades tomadas em particular, e porque só conforme a ellas tomadas em particular he que nós nos dizemos taes. Mas então não são relativas.
[e69]: Porque aquecer he contrario de resfriar: e ter calor he contrario de ter frio: E estar satisfeito he contrario de estar triste. Pelo que são susceptiveis de contrariedade. Quanto a serem susceptiveis de mais e de menos, se vê; porque tanto aquecer, como refriar, como entristecer-se são susceptiveis de mais e de menos. Donde se segue, que tanto a acção, como a paixão, são susceptiveis de mais e de menos. E he o que bastará a este respeito. Quanto aos estados, fica dito, quando se tratou dos relativos, que elles derivão por cognominação das situações. E quanto ás demais (isto he: ao tempo, ao lugar, e ás acções permanentes) são pontos tão faceis de si mesmos, que não diremos mais nada sobre ellas, do que o que ao principio fica exposto: que a acção permanente he como calçar-se, armar-se: O lugar he como: no Lyceo, na Praça. E assim do mais que sobre cada huma dellas fica dito. Pelo que bastará o que temos observado sobre cada huma das especies, que ficão mencionadas.
[e70]: Com exemplos explicaremos o como são estas opposições. Os relativos são oppostos, como por exemplo: o duplo á sua metade. Os contrarios oppoem-se; como por exemplo: o mau ao bom. A effectividade á privação, como por exemplo: a cegueira e a vista. E quanto á affirmação e negação, como por exemplo: está sentado, não está sentado.
[e71]: Exemplo; o duplo de qualquer quantidade, que he metade della, o que he, diz-se de outra; porque ha de ser duplo de alguma outra coisa. E a sciencia oppõe-se ao sabido na maneira dos relativos; porque o que a sciencia he, diz-se daquillo que póde ser sabido; e o que he sabido affirma-se, tal qual elle he, do seu contraposto, a sciencia; porque o que he sabido, diz-se ser de alguma coisa; isto he: de alguma sciencia. De modo que as coisas, que se contrapoem como relativos, isso que são, ou o são de seus contrapostos, ou se affirmão reciprocamente entre si em alguma maneira.
[e72]: Porque nem o que he bom se diz bom do que he máo; mas contrario a elle; nem o que he branco, se diz branco do que he preto; mas contrario a elle. De sorte que são differentes as composições de humas e outras.
[e73]: Exemplo: a doença e a saude são qualidades proprias do corpo animal: e he forçoso que huma dellas exista no corpo animal; ou doença ou saude. Par e impar são categorias de numero: e he forçoso que o numero seja par ou impar. Em nenhum destes exemplos ha meio termo: nem entre doença: nem entre par e impar. Porém quanto a aquellas, de que não he forçoso que exista huma dellas, essas tem termo medio. Por exemplo: he proprio do corpo animal o ser preto ou branco; mas não he forçoso o ser huma ou outra destas duas coisas; porque nem todos os corpos são brancos ou pretos. Bom e máo dizem-se do homem, assim como de muitas outras coisas; mas não he forçoso, que huma daquellas duas qualidades exista; porque essas coisas, de que se dizem, nem todas são boas, ou más. Em todos estes casos ha hum termo medio: por exemplo: entre preto e branco ha fusco, pallido, e todas as outras cores. Entre bom e máo, o que nem he bom, nem máo.
[e74]: Por exemplo: entre o preto e o branco he o fusco, o pallido, e todas as demais cores.
[e75]: Por exemplo: o que nem he bom, nem máo: o que não he justo nem injusto.
[e76]: Por exemplo: a vista e a cegueira referem-se ambas aos olhos. E em geral: do objecto, onde costuma verificar-se a effectividade, he que se póde affirmar ou esta ou a privação.
[e77]: Por exemplo: chamamos desdentado, não ao que não tem dentes: e cego, não ao que não vê; mas sim ao que costumando ter huma ou outra destas duas coisas, lhe falta no caso de que se trata. Porquanto ha muitas coisas que por sua natureza não são dotadas de vista nem de dentes: e nem por isso se dizem cegas, nem desdentadas.
[e78]: Porque a vista he effectividade: a cegueira he privação. Mas o ter vista não he vista: nem o ser cego, cegueira. Porquanto a cegueira he huma privação: e o estar cego he estar privado, mas não he a privação. Porque se cegueira fosse o mesmo que ser cego, ambas estas expressões se poderião usar indifferentemente em qualquer dado caso. Mas de hum homem diz-se ser cego; e não se diz cegueira.
[e79]: Do mesmo modo que a cegueira se oppoe á vista; desse mesmo modo o ser cego se oppoe a ter vista.
[e80]: Porque a affirmação he hum discurso affirmativo: e a negação he hum discurso negativo. Mas aquillo sobre que recahe a affirmação ou a negação, não he discurso, he hum facto. Comtudo diz-se que estes factos se oppoem entre si, assim como a affirmação e a negação; porque tambem aqui se verifica, que o modo da opposição he o mesmo. Assim como a affirmação se oppoe á
negação, por exemplo: estar sentado se oppõe a não estar sentado: do mesmo modo se oppõe o estar alguma determinada pessoa sentada a não estar sentada.
[e81]: Porque a vista não he vista de cegueira; nem della se diz em alguma outra maneira. Do mesmo modo a cegueira não se diz cegueira da vista; mas privação da vista. Além disso os relativos são todos reciprocos entre si: de maneira que se a cegueira pertencesse aos relativos, seria reciproco daquillo a que se referisse: ora ella não he reciproca; porque se não diz da vista, que he vista de cegueira.
[e82]: Porque naquelles contrarios, que não tem termo, he forçoso, que nos casos, em que elles se costumão verificar, exista hum delles; pois dissemos que não ha meio termo, quando he forçoso, que huma das duas coisas se verifique no objecto respectivo; como por exemplo: a saude, e a doença: par e impar. Daquellas coisas porém que admittem meio termo, não he forçoso, que alguma dellas se verifique em cada hum dos casos, em que podem ter lugar. Por exemplo: não he forçoso que seja branco ou preto hum objecto que póde admittir qualquer destas coisas: nem, que hum corpo seja quente ou frio; porque nada obsta a que estas coisas tenhão hum meio termo. Por outra parte dissemos, que tem meio termo aquellas coisas, das quaes não he forçoso que huma dellas se verifique no caso em que podem ter lugar. Já se vê que se não falla aqui dos objectos que por sua natureza só admittem huma dessas coisas; como do fogo o ser quente: e da neve o ser branca; porque nesses objectos he forçoso que se verifique huma das duas coisas determinadamente: e não qualquer dellas; pois nem o fogo póde ser frio, nem a neve preta. Por onde nestes casos não he forçoso que o objecto, em que huma das duas coisas, de que se trata, póde ter lugar, tenha qualquer dellas; mas sómente aquella, de que por sua natureza he susceptivel.
Ora na effectividade, bem como na privação, nada do que fica dito, se póde verificar; porque daquellas coisas, a que por natureza não compete o terem vista jámais se póde dizer que estão cegos, nem que tenhão vista.
[e83]: Porque he forçoso que em todo o objecto susceptivel tanto da effectividade, como da privação, se verifique huma dellas. Por exemplo: competindo-lhe por natureza o ter vista; dir-se-ha della que está cego, ou que vê: mas não determinadamente huma das duas coisas, porém qualquer dellas; pois não he forçoso que veja, nem que esteja cego: sendo como he susceptivel de qualquer das duas coisas. Ora dos contrarios que admittem meio termo, ja vimos não ser forçoso que hum delles se verifique em todos os casos, em que podem ter lugar; mas sómente em alguns: e nesses só e determinadamente hum dos dois contrarios; e não qualquer delles. Por onde he manifesto que por nenhum dos modos se oppõe entre si, como os contrarios, aquellas coisas que são oppostas como effectividade e privação.
Além disso he proprio dos contrarios, que dado o subjeito, este he susceptivel de mudar de hum delles para o outro. Não se falla dos casos em que por sua natureza o subjeito e o contrario são huma e a mesma cousa; como o fogo ser quente. Mas nos demais casos bem se vê por exemplo, que quem está bom, póde adoecer: que o que he branco, póde passar a ser preto: que o que está frio, póde tornar-se quente: que o que he virtuoso se póde tornar vicioso: e vicioso o que he virtuoso. Porque o vicioso, huma vez que elle se applique a melhores praticas e discursos, não póde deixar de fazer algum progresso, ainda que seja pouco, para se tornar melhor: e huma vez que elle avança, ainda que seja pouco, he evidente, que ou mudará completamente, ou virá a fazer grandes progressos; pois que se vai tornando cada vez mais disposto para a virtude, qualquer que seja o progresso que de principio tiver feito; donde com razão se espera que os fará ainda maiores: e á medida que isto acontecer, se transformará com inteira e completa mudança para o habito contrario.
Ora entre a privação e a effectividade não póde dar-se reciprocidade de mudança de huma para a outra; porque da effectividade para a privação, sim póde havella: mas da privação para a effectividade he impossivel. Por quanto nem huma pessoa que cegou de todo torna a cobrar a vista: nem hum a quem radicalmente cahirão os cabellos, lhe tornão a nascer: nem hum que perdeu de todo os dentes, os torna a recobrar.
[e84]: Exemplo. A saude e a doença são contrarias entre si; mas nenhuma dellas he verdadeira nem falsa. Do mesmo modo o duplo e a sua metade são oppostos em razão de relativos; mas tambem nenhum delles he verdadeiro nem falso: e assim tambem as cousas que se comprehendem nas rubricas de effectividade ou de privação: como a vista e a cegueira: ou em geral toda e qualquer expressão desligada; pois em todas ellas se verifica, que nem são verdadeiras, nem falsas: no qual caso estão todas as mencionadas; porque todas ellas são desligadas. Com tudo poderia parecer que com mais razão ainda se poderia dizer isso das expressões ligadas e entre si contrarias; por quanto: Socrates está bom he contrario a Socrates está doente: e tambem não he forçoso que destas expressões huma seja verdadeira e a outra falsa. Existindo Socrates, sim he forçoso que huma dellas seja verdadeira, e a outra falsa. Mas não existindo elle, ambas são falsas, porque tão falso he estar Socrates bom como o estar doente, quando elle absolutamente nem existe. Quanto aos casos de effectividade ou de privação, não existindo o subjeito nenhum delles he verdadeiro; e existindo, não se segue, que hum deva ser verdadeiro e o outro falso: por exemplo: ter vista e estar cego são entre si oppostos, em razão de effectividade e privação; porque ter Socrates vista e ser Socrates cego, são cousas entre si oppostas, como effectividade e privação: e não he forçoso que huma seja verdadeira e a outra falsa: quando naturalmente n'elle ainda se não podia verificar nenhuma dellas, ambas erão falsas: e quando elle absolutamente não exista; tão falso he dizer-se que vê; como que he cego.
Mas quanto a affirmação e negação, forçosamente ha de huma ser verdadeira e a outra falsa, quer o subjeito exista, quer não. Por quanto estar Socrates doente e não estar doente são expressões, das quaes, existindo elle, huma he evidentemente verdadeira e a outra falsa: e não existindo, he falso o estar doente; e he verdade não estar doente.
De modo que são estes casos de affirmação e negação os unicos oppostos, de que he proprio que hum delles ha de ser forçosamente verdadeiro ou falso.
[e85]: Isto se faz manifesto pela inducção de casos particulares; como: a doença á saude: a injustiça á justiça: semelhantemente a covardia ao valor: e assim nos demais casos.
[e86]: Porque á penuria, que he hum mal, he contraria a superfluidade, que he outro mal; e a ambas he contraria a mediania, que he hum bem.
[e87]: Porque se todo o mundo lograsse saude; haveria saude; e não haveria doenças. Do mesmo modo se todas as cousas fossem brancas; existiria brancura: e não haveria negridão. Além disso se o estar Socrates bom he contrario a estar Socrates doente, e não tem lugar que nelle se verifiquem ao mesmo tempo ambas as cousas; já se vê que não se segue de existir hum contrario, que deva tambem existir o outro; pois que verificando-se estar Socrates bom, não tem lugar o estar elle mesmo doente.
[e88]: Porque tanto a doença como a saude verificação- se no corpo animal: a brancura e a negridão no corpo em geral: e a justiça bem como a injustiça na alma do homem.
[e89]: Porque Branco e Preto comprehendem-se em hum mesmo genero, que he a côr. A justiça e injustiça comprehendem-se em generos contrarios; porque o genero de huma he a Virtude: e o da outra he o Vicio. E Bom e Mão não se comprehendem em nenhum genero; mas antes elles he que são generos, em que outras expressões se comprehendem.
[e90]: He neste sentido que huma cousa se diz mais velha ou mais antiga do que outra; por isso que ha mais tempo decorrido.
[e91]: Exemplo: hum he primeiro que dois: porque, dado, que existem duas cousas, segue-se que existe huma; mas de existir huma não se segue, que existão duas. De modo que não ha reciprocidade, para que da existencia de hum se possa concluir a do outro. Neste caso parece ser primeiro aquelle em quem se não verifica a reciprocidade.
[e92]: Como acontece com as Sciencias e Discursos; porque as Sciencias demonstrativas ha cousas que na ordem devem ser primeiras e outras que devem vir depois. Porque os principios são primeiro do que as proposições: e na Grammatica, as letras são primeiro do que as syllabas. Do mesmo modo nos discursos; porque o exordio he na ordem primeiro do que a narração.
[e93]: Porque os homens costumão dizer que são primeiros aquelles que entre elles são mais honrados e bem queridos; se bem que esta especie he de todas a mais heterogenea. Mas nestas se comprehendem os differentes sentidos da palavra primeiro.
[e94]: Haver algumas cousas taes, he evidente; porque o ser homem he intrinsecamente reciproco de existir; sendo assim que esta segunda se segue verdadeira e necessariamente da primeira; por quanto se he verdade o dizer-se de algum, que he homem; tambem he verdade o dizer-se, que existe: e reciprocamente se he verdade o dizer-se de hum homem, que elle existe; tambem he verdade dizer-se que he homem. Mas ser verdadeiro o discurso não he causa do facto que n'elle se affirma: antes o facto he causa de ser o discurso verdadeiro ou falso.
[e95]: Exemplo: o duplo e a sua metade, que são reciprocos entre si; pois que se existe o duplo, deve existir a metade: e se existe a metade, deve existir o duplo: e com tudo nenhum delles he causa da existencia do outro.
[e96]: Tambem se dizem connexas por natureza as cousas que pertencem ao mesmo genero; posto que se distingão e se opponhão humas ás outras. Mas diz-se, que se distinguem e se oppoem as que se comprehendem em huma mesma rubrica; assim como alado se distingue e contrapõe a terrestre e a aquatico; porque entre tanto que pertencem a hum mesmo genero, se distingue e contrapõe: por quanto Animal se distinguem em todas aquellas especies a saber: em alados, em terrestres, e em aquaticos: dos quaes nenhum he anterior nem posterior ao outro: mas todos elles parecem ser simultaneos. Igualmente se poderia subdividir cada hum destes em outras especies. Donde se segue que são tambem connexas aquellas cousas, que tem hum genero commum e entrão em huma mesma rubrica.
Ora os generos em tanto se dizem anteriores ás suas respectivas especies em quanto a reciprocidade que ha destas para elles, quanto á conclusão da existencia, se não verifica delles para ellas; porque de existir hum aquatil, segue-se que existe hum animal: mas de existir hum animal, não se segue que existe hum aquatil.
Logo tambem são naturalmente connexas as cousas que sem ser huma causa de existencia da outra, tem entre si reciprocidade quanto á conclusão da existencia: Bem como as que pertencendo ao mesmo genero, são especies distinctas: e em geral são connexas todas as cousas que por sua natureza começão a existir ao mesmo tempo.
[e97]: He claro que todas estas especies differem humas das outras, por quanto a geração não he corrupção: nem o augmento he diminuição, ou mudança de lugar: e o mesmo he das outras.
Quanto porem á transformação póde entrar em duvida, se o que se transforma não experimenta alguma das outras especies de movimento no acto da transformação. Mas seria erro o affirmallo; porque a experiencia nos mostra que todas ou a maior parte das nossas paixões se transformão humas nas outras, sem que se verifique nenhuma das outras especies de movimento. Porque aquelle que experimenta o movimento de qualquer paixão, nem por isso cresce ou diminue: e o mesmo se póde dizer das outras especies de movimentos. He logo a transformação hum movimento differente dos outros; porque se fosse identica com alguma das outras especies, seria forçoso que aquelle que se transforma, augmentasse ou diminuisse, ou experimentasse alguma das outras especies de movimentos: o que não he assim. Do mesmo modo seria forçoso que aquelle que cresce, se transformasse: entre tanto que muitas cousas crescem, sem se transformarem; como por exemplo: se a hum quadrilatero se lhe accrescenta hum gnomon, fica augmentado mas não transformado: e assim nos demais casos semelhantes. Donde se vê que as mencionadas especies de movimentos são todas differentes humas das outras.
Em geral o contrario do movimento he a quietação. Mas cada huma das especies mencionadas tem seu contrario particular. Assim o contrario da geração he a corrupção: o do augmento he a diminuição: e o da mudança de lugar he a quietação no mesmo lugar; posto que pareceria dever-se dizer que tambem e com mais propriedade o he o movimento para a parte contraria: como por exemplo ao de ascenso o de descenso, e ao de descenso o de ascenso. Mas a outra especie de movimento (a transformação) não he facil assignar-se o que lhe possa ser contrario: e até parece que nem o póde haver: a menos que algum lhe não contrapozesse a cessação da respectiva qualidade, ou a mudança para a qualidade contraria: bem como á mudança de lugar se contrapôz a quietação no mesmo lugar, ou o movimento para a parte contraria; visto que a transformação he huma mudança de qualidades. De modo que viria a ser o contrario ao movimento ou mudança das qualidades, tanto a quietação ou permanencia dellas, como o movimento ou mudança para as qualidades contrarias; como por exemplo, o ser preto a ser branco; porque se transforma mediante a mudança para huma qualidade contraria.
[e98]: Porque dizemos que temos (ou possuimos) tal sciencia, ou tal virtude.
[e99]: Exemplo: o que tem huma certa grandeza; como quando se diz ser de tres ou de quatro covados.
[e100]: Como de hum vestido: de huma tunica.
[e101]: Como de hum annel.
[e102]: Como da mão, do pé.
[e103]: Como: a medida a respeito de trigo: o vaso a respeito do vinho; porque da medida se diz que tem trigo: e do vaso, que tem vinho.
[e104]: Porque dizemos ter huma casa, ou hum campo. Tambem se diz de hum homem que elle tem huma mulher: e de huma mulher, que ella tem hum homem: caso este que parece offerecer hum sentido muito differente da palavra ter, do que os que ficão referidos; porque aqui não significa serão[6IA] cohabitar.
[1IA]: Nota do Claude Opus 5.5, lendo o fac-símile: as folhas deste exemplar trazem, a lápis, no pé, uma numeração seguida que não é a do livro — 308 na página 3 do PDF, 309 na página 5, 310 na 7, e assim por diante, uma por folha, até 339 na página 65. É sinal de que o exemplar da Biblioteca Nacional está encadernado num volume com outras obras.
[2IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «hovesse»; lê-se «houvesse».
[3IA]: Nota do Claude Opus 5.5: o impresso de 1814 traz o número (49) neste parágrafo e no seguinte. Pelo assunto, a Explicação deste é a 48, e é para ela que a chamada aponta aqui.
[4IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «qualquel»; lê-se «qualquer».
[5IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «subseita»; lê-se «subjeita».
[6IA]: Nota do Claude Opus 5.5: assim no impresso de 1814, «serão cohabitar»; a frase pede «senão».