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Aristóteles · ADVERTENCIA.

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DE

ARISTOTELES.

TRADUZIDAS DO GREGO

E ORDENADAS CONFORME A HUM NOVO PLANO

POR

SILVESTRE PINHEIRO FERREIRA.

Para uso das Prelecções Philosophicas do mesmo Traductor.

RIO DE JANEIRO.

NA IMPRESSÃO REGIA.

ANNO DE M DCCC XIV.

Com Licença de S. A. R.[1IA]

ADVERTENCIA.

HUMA das partes mais essenciaes do Curso de Prelecções Philosophicas, que estou actualmente publicando, he a Exposição e Analyse das Obras escolhidas dos principaes Philosophos, Oradores, e Poetas; tanto antigos, como modernos, sagrados e profanos, segundo annunciei no Programma que precedeu á publicação das mesmas Prelecções.

Ninguem, que com reflexão tenha lido os Philosophos dos antigos e modernos tempos, poderá negar a Aristoteles a primazia sobre todos elles. E portanto as suas Obras devião ser naturalmente as primeiras, que figurassem nesta como Bibliotheca de Philosophia, que tenho emprehendido.

Mas se não precisa de justificação a homenagem que assim tributo ás Obras de Aristoteles; precisa-o tanto mais a novidade da forma, em que apparecem na presente traducção: novidade, que deve parecer á primeira vista; hum total transtorno do texto do Autor. Porém este transtorno, que he na verdade grande quanto á ordem da escripta, em nada altera, nem a ordem das idéas, nem a da leitura. Porquanto se começando nós a ler o texto na Primeira Parte pela primeira palavra Equivocos (que he tambem a primeira no Original) passarmos da palavra differente á Explicação N.º 1, na Segunda Parte: e lida ella, voltarmos ao segundo §. da Primeira Parte: Univocos porém &c.: e assim continuarmos, passando alternativamente do Texto ás Explicações, que os numeros, ou os asteriscos indicão: e destas ao Texto; ninguem que com os olhos no Original grego nos escutasse, poderia suspeitar que n'elle se hovesse[2IA] feito a menor alteração.

Consiste pois esta unicamente em separar, á maneira de Notas, toda aquella parte do texto original, que não accrescenta nada ao que fica dito, e só serve a exemplificar, ou aclarar por qualquer outro modo, o que precede: sem que este novo arranjo violente a ligação de huma e outra coisa: nem eu tenha para isso omittido, accrescentado, ou substituido palavra alguma, do Original, pois antes as conservei na ordem da Syntaxe, que cada huma dellas alli occupa.

Duas são as vantagens, que me parecia seguirem-se desta disposição: primeira, tornarem-se mais sensiveis e perceptiveis as doutrinas do Autor: Segunda, convidar mais a lerem-se, e facilitar o consultarem-se Obras, que se por algum tempo jazerão[intro1] em huma especie de injusto esquecimento: e por não lidas experimentarão hum tanto mais injusto desprezo; isso derivou em grande parte do fastio que causava aquella multiplicidade de explicações, que interrompem a cada passo o fio das idéas.

Quisera eu que o texto grego apparecesse em frente desta traducção: tanto para excitar a Mocidade ao estudo da Lingua Grega, que no meu conceito constitue o mais glorioso monumento da perfeição do Espirito humano; como tambem porque devendo esta traducção abundar em defeitos inevitaveis pelo pouco tempo em que sou obrigado a faze-la e publica-la; conviria muito, que a facilidade de a cotejarem com o texto offerecesse aos intelligentes o meio de corrigirem as faltas, que nella não póde deixar de haver em grande numero, e muitas vezes de grande nota.

Por maior porém que fosse este meu desejo, não me foi possivel satisfaze-lo; já porque neste nascente Estado faltão os meios para se fazer huma correcta edição de hum texto grego; logo que exceda a certos e muito acanhados limites: já porque a carestia excessiva dos materiaes e da mão d'obra tornaria inutil para a maior parte das pessoas, a cujo uso este meu trabalho he dirigido, huma obra, que tendo unicamente em vista a instrução da Mocidade, deve estar ao alcance até daquelles mesmos que não gozão de avultados bens da fortuna.

Talvez se offereça mais favoravel conjunctura que me permitta fazer ao Publico, serviço menos imperfeito neste mesmo genero: E certamente a saberei aproveitar, se os meus Amigos, e em geral todos aquelles, a quem estes ensaios para o incitamento dos bons estudos interessão, me ajudarem com as suas observações e conselhos.

Resta-me advertir que para esta traducção me servi da edição das Obras de Aristoteles dada por Isaac Casaubono, e impressa em Leão na Officina de Jacob Bubon no anno de mil quinhentos e noventa: em dois volumes in folio.

Rio de Janeiro aos 31 de Dezembro de 1813.


Nesta edição dou um passo que a técnica da sua época não permitia a Ferreira: as remissões numeradas que ele usou para separar o texto de suas Explicações — e que obrigavam o leitor a ir e vir fisicamente entre as duas partes do livro — tornam-se aqui notas de rodapé interativas. O número continua exatamente onde ele o deixou; basta tocar nele para ler a Explicação sem perder a página do Aforismo. É a mesma "Segunda Parte" que ele concebeu, apenas com o hyperlink que lhe faltava.

Porto Alegre, 13 de Outubro de 2026

Ὁ Διαφορεύς παρῆν


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Primeira Parte

Aphorismos

[1] [1a1] Equivocos dizem-se os que tem sómente o nome commum; mas a rasão desse nome differente [e1].

[2] [1a6] Univocos porém dizem-se os que não sómente tem o nome commum; mas tambem a rasão desse nome identica [e2].

[3] [1a12] E cognominados dizem-se os que tendo a terminação differente, tem comtudo as attribuições, que esse nome designa, identicas [e3].

[4] [1a16] Das Locuções, humas exprimem-se ligadas outras desligadas [e4].

[5] [1a20] Das Coisas, humas dizem-se de algum objecto; mas não estão em nenhum objecto [e5].

[6] [1a22] Mas outras sim estão em algum objecto[1][2]; mas não se dizem de nenhum objecto [e6].

[7] [1a29] E outras não só se dizem de algum objecto; mas tambem estão em algum objecto [e7].

[8] [1b3] Outras emfim nem estão em nenhum objecto; nem se dizem de nenhum objecto [e8].

[9] [1b6] Em geral: Tudo o que he indivisivel, e hum em numero não se diz de nenhum objecto; mas nada obsta a que algumas coisas taes possão estar em algum objecto [e9].

[10] [1b10] Quando se diz de hum objecto: que elle he comprehendido em alguma Categoria; tudo o que se diz da Categoria, se ha de tambem dizer do objecto [e10].

[11] [1b16] As coisas que são heterogeneas entre si, e humas não são especies das outras; tambem tem differenças especificas heterogeneas entre si [e11].

[12] [1b20] Mas naquelles generos, que são subordinados huns aos outros, nada obsta a que tenhão as mesmas differenças [e12].

[13] [1b22] Assim que quantas forem as differenças da Categoria, tantas serão as do objecto.

[14] [1b25] As Locuções desligadas ou designão essencia; ou quantidade; ou qualidade; ou relação; ou lugar; ou tempo; ou estado; ou acção permanente; ou acção transeunte; ou paixão [e13].

[15] [2a4] Cada Locução de per si não exprime, nem affirmação, nem negação. Porém mediante a ligação de humas com as outras, resulta affirmação ou negação; porque toda a affirmação ou negação he julgada verdadeira ou falsa. Mas das locuções desligadas nenhuma he verdadeira nem falsa [e14].

[16] [2a11] Primitiva e principalmente chama-se essencia primaria aquella, que nem se diz de nenhum objecto, nem está em nenhum objecto [e15].

[17] [2a14] E chamão-se essencias secundarias, tanto as especies, a que pertencem as essencias primarias, como os generos dessas mesmas especies [e16].

[18] [2a19] Do que fica dito se segue, que tudo o que se diz de hum objecto, he necessariamente categoria delle; não só quanto ao nome; mas tambem quanto á rasão do nome [e17].

[19] [2a27] Mas as coisas, que estão em algum objecto, pela maior parte não são categorias do objecto; nem quanto ao nome, nem quanto á rasão do nome.

[20] [2a29] Porém algumas podem-o talvez ser quanto ao nome; posto que jámais o podem ser quanto á rasão do nome [e18].

[21] [2a34] Todas as outras coisas ou se dizem das essencias primarias, como de outros tantos objectos; ou estão nellas, como em outros tantos objectos [e19].

[22] [2b6] De modo que não existindo as essencias primarias, seria impossivel existir nenhuma das outras.

[23] [2b7] Ora das essencias secundarias a especie he mais essencia do que o genero [e20].

[24] [2b17] O que as essencias primarias são a respeito de todas as outras coisas; isso mesmo he cada especie a respeito do genero [e21].

[25] [2b22] De duas especies, das quaes nenhuma he genero da outra; tambem nenhuma he mais essencia do que a outra [e22].

[26] [2b26] O mesmo he das essencias primarias: que nenhuma dellas he mais essencia do que outra [e23].

[27] [2b29] Com rasão pois entre todas as coisas, que não são as essencias primarias, sómente os generos, e as especies se denominão essencias secundarias [e24].

[28] [3a1] O que as essencias primarias são a respeito de todas as outras coisas: isso mesmo são a respeito de tudo o mais os generos e as especies, a que as mesmas essencias primarias pertencem [e25].

[29] [3a7] He commum a todas as essencias o não estarem em nenhum objecto [e26].

[30] [3a17] Ora as essencias secundarias são categorias do objecto; não só quanto ao nome, mas tambem quanto á rasão do nome [e27].

[31] [3a21] Mas isto não he particular ás essencias; porque tambem as differenças[3] são do numero das coisas, que não estão em nenhum objecto [e28].

[32] [3a25] E as differenças são categorias do objecto a que se referem: até mesmo quanto á rasão do nome [e29].

[33] [3a29] Nem nos faça confusão o estarem as partes das essencias nos todos a que pertencem: de modo que nos julguemos obrigados a dizer, que ellas não são essencias. Porquanto nós não dissemos que as coizas, que estão em algum objecto, existem em algum, como partes d'elle.

[34] [3a33] Verifica-se pois tanto nas essencias, como nas differenças, que todas as outras coizas derivão dellas os seus nomes de huma maneira univoca [e30].

[35] [3b10] Toda a essencia parece significar o que alguma coiza he: E quanto ás essencias primarias he verdade indubitavel, que significão o que alguma coiza he [e31]. Quanto ás essencias secundarias sim parece pela forma do seu enunciado, que tambem significão o que alguma coiza he [e32] : mas isto he mera apparencia; porque taes expressões denotão antes qual seja a coiza a que se referem; nem se applicão a hum só objecto, como as essencias primarias [e33]. Comtudo não denotão huma simples qualidade [e34].

[36] [3b19] Assim que, tanto a especie, como o genero, determinão as qualidades das essencias; porque determinão de huma dada essencia, qual ella seja.

[37] [3b21] Mas esta determinação he mais ampla no genero do que na especie [e35].

[38] [3b24] Tambem se verifica nas essencias o não terem nada, que lhes seja contrario [e36].

[39] [3b27] Mas isto não he particular ás essencias; mas tambem se verifica em muitas outras coizas, como nas quantidades [e37].

[40] [3b33] Parece outrosim que as essencias não são susceptiveis de mais nem de menos [e38].

[41] [4a10] Porém o que principalmente parece ser particular ás essencias, he, que hum e o mesmo individuo he susceptivel de ser em hum tempo o contrario do que era em outro tempo [e39].

[42] [4b17] De modo que he proprio das essencias o admittirem estados contrarios, vindo ellas mesmas a mudarem. Mas o que fica dito bastará a respeito das essencias.

[43] [4b20] Das quantidades humas são discretas, outras são continuas: humas constão de partes que tem certa situação entre si: e outras, cujas partes não são susceptiveis de situação entre si.

[44] [4b22] He quantidade discreta qualquer numero: qualquer discurso: e continua a linha, a superficie, o corpo: e além destas, o lugar, e o tempo [e40].

[45] [5a38] Absolutamente fallando só estas que temos nomeado, he que são quantidades: todas as outras só o são accidentalmente [e41].

[46] [5b11] Além disso á quantidade nada he contrario [e42].

[47] [6a19] Nem tão pouco a quantidade determinada he susceptivel de mais nem de menos [e43].

[48] [6a26] O que he principalmente particular ás quantidades, he o dizerem-se iguaes ou desiguaes [e44].

[49] [6a36] Chamão-se relativas aquellas coisas, que o que são, são-o de outras coisas: ou por outro algum modo o são relativamente a outras coizas [e45].

[50] [6b15] Os relativos são susceptiveis de contrario [e46].

[51] [6b17] Mas nem todos os relativos são susceptiveis de contrario [e47].

[52] [6b19] Tambem parece serem os relativos susceptiveis de mais, e de menos [e48][3IA].

[53] [6b24] Mas nem todos os relativos são susceptiveis de mais, nem de menos [e49].

[54] [6b28] Todos os relativos são reciprocos daquelles de quem se dizem [e50].

[55] [6b36] Comtudo ás vezes póde parecer, que não existe esta reciprocidade; a saber, quando o correlato se não exprime em termos proprios: e isto á proporção que o nome do relativo se afastar do do seu correlato [e51].

[56] [7b15] Igualmente parece ser da natureza dos correlatos o existir hum, sempre que existe o outro. E com effeito assim se verifica pela maior parte [e52].

[57] [7b22] Mas não he da natureza de todos os correlatos o deverem sempre coexistir [e53].

[58] [8a13] Pode entrar em duvida, se ha alguma essencia, que seja do numero das coisas relativas; como com effeito parece não a haver: ou se isto só acontece com algumas das essencias secundarias; porque quanto ás primarias he certo ser assim [e54].

[59] [8b25] Eu chamo qualidade a aquillo por onde se designa, quaes sejão certos e determinados objectos.

[60] [8b25] Mas a qualidade he do numero daquellas palavras, que admittem muitos sentidos. Porquanto ha primeiramente huma especie de qualidades, que he a dos habitos e a das affecções [e55].

[61] [9a14] E ha huma segunda especie, que he aquella pela qual dizemos de algum, que elle he fraco ou que he forte no pugilado, ou na carreira, ou na saude: ou pela qual em geral affirmamos alguma coiza sobre a força ou a fraqueza propria da natureza de qualquer objecto [e56].

[62] [9a28] Ha outra terceira especie de qualidades, que são as qualidades passivas ou as paixões [e57].

[63] [10a11] E ha em fim huma quarta especie de qualidades, que são a figura e as modificações de cada figura [e58].

[64] [10a27] Eis-aqui as que se chamão qualidades: e chamão-se taes os objectos que por cognominação se dizem a respeito dellas, ou por algum outro modo trazem dellas o nome, pelo qual os designamos.

[65] [10a29] Da maior parte e de quasi todas ellas se derivão por cognominação aquelles nomes [e59].

[66] [10a32] Mas em algumas não póde ter lugar a cognominação; porque não existe nome para a respectiva qualidade [e60].

[67] [10b5] Em outros porém, posto que a qualidade tenha nome; o do objecto a que ella se refere, não se deriva delle por cognominação [e61].

[68] [10b12] As qualidades são susceptiveis de contrario [e62].

[69] [10b15] Mas isto não acontece a todas as qualidades [e63].

[70] [10b17] Além disso, todas as vezes que hum de dois contrarios he qualidade, tambem o outro o he necessariamente [e64].

[71] [10b26] Tambem admittem as qualidades mais e menos [e65].

[72] [10b29] Mas não todas, porém sim a maior parte [e66].

[73] [11a15] Comtudo nenhuma das sobreditas propriedades he particular ás qualidades. O que lhes he particular he a semelhança ou a dessemelhança [e67].

[74] [11a20] Nem nos cauze confusão, se alguem nos observar, que tratando-se aqui das qualidades, enumeramos muitas cousas que pertencem aos relativos [e68]. Porquanto he de notar, que de quasi todas essas coizas são os generos os que pertencem aos relativos; e os individuos ás qualidades [e69]. Porém quando acontecesse encontrar-se huma mesma coiza entre os relativos e entre as qualidades, não haveria nisso absurdo algum, porque póde muito bem huma mesma coisa pertencer a dois generos differentes.

[75] [11b1] Tanto a acção, como a paixão são susceptiveis, não só de contrario, mas tambem de mais e de menos [e70].

[76] [11b17] Passando a tratar dos oppostos, e de quantos modos as coisas costumão ser oppostas entre si; he de saber, que ha quatro modos de opposição; que vem a ser: ou como relativos, ou como contrarios, ou como privação e effectividade, ou como affirmação e negação [e71].

[77] [11b24] As coizas que são oppostas como relativas, isso que são, ou o são dos seus oppostos, ou delles se affirma por alguma outra maneira [e72].

[78] [11b32] E as que o são como contrarias, não se podem de nenhum modo affirmar humas das outras: mas sim que humas são contrarias das outras [e73].

[79] [12a1] Aquelles contrarios, de que se verifica que necessariamente ha de existir hum delles nos objectos a que elles por natureza pertencem, ou de que elles são categorias, não admittem nenhum termo medio: bem como aquelles, dos quaes não he forçoso que exista hum delles, póde-se-lhes sempre assignar hum termo medio [e74].

[80] [12a20] Algumas vezes este termo medio tem hum nome [e75] : mas outras vezes não he facil o designa-lo com hum nome particular; e então determina-se pela negativa de hum dos extremos [e76].

[81] [12a26] Tanto a privação, como a effectividade referem-se sempre a hum mesmo e determinado objecto [e77].

[82] [12a29] Quando se diz de alguma coiza, que ella está privada de qualquer effectividade, he nos casos, em que nella não existe o que nella por sua natureza devia existir, ao menos no momento de que se trata [e78].

[83] [12a35] Mas estar privado, e ter a effectividade, não he o mesmo que a privação, e a effectividade [e79].

[84] [12b2] Quanto á opposição entre o estar privado e o ter effectividade, parece ser a mesma que entre a privação e a effectividade; por isso que o modo da opposição he identico [e80].

[85] [12b5] Pela mesma razão as coizas sobre que recahe a affirmação ou a negação, não são affirmação nem negação [e81].

[86] [12b16] Que a privação e a effectividade não são entre si oppostos como relativos, he evidente; pois que de nenhuma dellas se diz que o que ella he, o he da sua opposta [e82].

[87] [12b26] Do que fica dito se vê tambem, que a privação e effectividade não são entre si oppostas como os contrarios; [e83]. Seguindo-se de quanto fica dito, que nem podem pertencer aos contrarios que admittem termo medio, nem a aquelles que o não admittem [e84].

[88] [13a37] As coizas que são entre si oppostas, como affirmação e negação, he evidente que o não podem ser por nenhum dos referidos modos; porque nellas sómente se verifica que de necessidade huma ha de ser verdadeira, e a outra falsa: entretanto que nem nos contrarios, nem nos relativos, nem na privação e effectividade se verifica, que dos oppostos hum haja de ser necessariamente verdadeiro e o outro falso [e85].

[89] [13b36] Ao bem he necessariamente contrario o mal [e86]. Porem ao mal humas vezes he contrario o bem, outras vezes he o outro mal [e87]. Comtudo este ultimo caso em poucos se verifica: pela maior parte o contrario do mal he o bem.

[90] [14a6] He de notar, que de dois contrarios não he necessario que existindo hum, deva existir o outro [e88].

[91] [14a15] He facil de comprehender que os objectos de dois contrarios, devem ser identicos, tanto em genero, como em especie [e89].

[92] [14a19] E portanto he de necessidade, que dois contrarios ou se comprehendão em hum mesmo genero, ou em generos contrarios; ou que elles sejão generos por si mesmos [e90].

[93] [14a26] Quatro são os modos, porque huma coisa se diz ser primeira do que outra: o primeiro e o principal he em razão do tempo [e91] : o segundo he quando, devendo-se concluir da existencia desta a daquella, não se póde concluir reciprocamente [e92] : o terceiro he quando se diz primeiro em razão de alguma determinada ordem [e93] : e além destes, que ficão ditos, parece ser primeiro por natureza, o que he melhor e mais estimado [e94].

[94] [14b10] Poderia lembrar, que além dos quatro referidos ainda existe outro quinto modo de prioridade; porque de duas coisas, das quaes dada a existencia de huma se conclue a da outra: e reciprocamente; aquella de entre ambas, que de algum modo he cauza de existencia da outra, com razão se poderia chamar primeira por sua natureza [e95]. E neste sentido poder-se-hia dizer, que são cinco os modos, porque huma coiza se póde denominar primeira do que outra.

[95] [14b24] Chamão-se connexas as coizas, no sentido mais amplo, e principalmente, quando a sua formação he acontecida no mesmo tempo; de modo que huma não he anterior, nem a outra posterior: E chama-se-lhes simultaneas, ou conjunctas em tempo.

[96] [14b27] Chamão-se porém connexas por natureza aquellas, cuja dependencia he tal; que dada a existencia de qualquer dellas, se póde seguramente concluir a da outra: sem que comtudo huma seja causa da existencia da outra [e96].

[97] [15a13] As especies, que ha de movimentos, são seis; a saber: formação, destruição, augmento, diminuição, transformação, e mudança de lugar [e97].

[98] [15b17] Tambem são muitos os sentidos da palavra ter; porque se diz de qualquer effectividade ou disposição, ou em geral, de qualquer outra qualidade [e98]. Diz-se das quantidades [e99]. Diz-se dos accidentes externos ao corpo todo [e100], ou a huma parte delle [e101]. Diz-se das partes do corpo [e102]. Diz-se das vasilhas [e103]. Diz-se do que se possue [e104]. Talvez se poderião ainda achar outros sentidos da palavra ter; mas os que se costumão usar, são pouco mais ou menos, os que são enumerados.

Fim.

Quantidade. Exemplo: De dois covados; de tres covados.

Qualidade. Exemplo: Branco, Grammatico.

Relação. Exemplo: Dobrado, Metade, Maior.

Lugar. Exemplo: Na praça, No Lycéo.

Tempo. Exemplo: Hontem, Antehontem.

Estar. Exemplo: Está recostado, Está sentado.

Acção permanente. Exemplo: Calçar-se, Armar-se.

Acção transeunte. Exemplo: Cortar, Queimar.

Paixão. Exemplo: Ser cortado, Ser queimado.

não se póde dizer que o he mais, nem menos. Por exemplo se a essencia de que se trata he hum homem, não póde ser mais, nem menos homem do que elle mesmo: nem tão pouco mais ou menos homem do que outro; pois hum homem não he mais homem do que outro, do mesmo modo que huma coiza branca póde ser mais ou menos branca do que outra: ou huma coiza formoza, póde ser mais ou menos formoza do que outra: e até cada huma dellas em si mesma mais e menos; por exemplo hum corpo que he branco diz se agora mais ou menos branco do que antes: hum que está quente, diz-se estar mais ou menos quente. Mas as essencias não se dizem ser nem mais nem menos essencias: porque se não diz que hum homem seja agora mais ou menos homem do que antes: E assim todas as demais coisas que se chamão essencias. Donde se segue, que nenhuma essencia he susceptivel de mais, nem de menos.

quente, ora frio: ora he mão, ora he bom. Porém nada disto parece verificar-se em nenhuma das outras coisas. Excepto se alguem quisesse insistir dizendo, que o discurso e a opinião são susceptiveis de contrariadade; porque parece, que hum mesmo e determinado discurso póde ser verdadeiro e falso. Por exemplo; se fosse verdade o dizer-se que alguem está sentado: logo que elle se levante este dito passa a ser falso. E o mesmo he de qualquer opinião; porque se alguem julgasse com verdade que outrem estava sentado: logo que este se levantasse, julgaria erradamente formando a respeito delle o mesmo juiso. Porém ainda admittindo isso, ha total differença quanto ao modo. Porque, quanto ás essencias, ellas não são susceptiveis de estados contrarios, senão quando mudão: como por exemplo, o que está frio, depois de ter estado quente, passou por huma mudança: o que está denegrido, depois de ter sido branco, varia: bem como o que he bom, depois de ter sido máo: E assim de todas as outras, que só admittem estados contrarios, quando experimentão mudança. Mas o discurso, e a opinião ficão absolutamente immudaveis: e passão a ser o contrario do que erão, quando muda o objecto, a que se referem: como o dito de que alguem está sentado fica sempre sendo o mesmo; e só pela mudança do subjeito he que ora he verdadeiro e depois falso. O mesmo se póde dizer da opinião. Donde se segue, que he particular ás essencias o admittirem pela sua propria mudança estados contrarios.

Mas he de advertir, que quem admittisse, que o discurso e a opinião são susceptiveis de contrariedade, admittiria hum erro; porque nem o discurso nem a opinião passão a ser o contrario do que erão, porque lhes sobreviesse alguma coisa, mas porque se applicão a outro cazo: pela simples existencia ou não existencia do facto, he que o discurso que a elle se refere se diz ser verdadeiro ou falso: e não porque o mesmo discurso em si admittisse estado contrario ao que era antes; porque em nada absolutamente se acha ter mudado, nem o discurso, nem a opinião. Ora não tendo elles recebido mudança alguma em contrario, não se podem dizer susceptiveis de passarem a ser o contrario do que erão. Ao contrario porém as essencias, que por isso que recebem modificações contrarias, he que se dizem susceptiveis de estados contrarios: como por exemplo; porque he susceptivel de doença ou de saude, de brancura ou de negridão; e assim do resto; he que se diz ser susceptivel de contrariedade. Logo he particular ás essencias, que sendo cada qual dellas huma e a mesma em numero, pela sua propria mudança passão a ser o contrario do que erão.

Porém a linha, essa he continua: e póde-se tomar hum termo commum, em que se vem a encontrar as partes de que ella consta, que he o ponto: e da superficie he-o a linha; pois que as partes de hum plano se encontrão em algum termo commum. Do mesmo modo he sempre possivel tomar em qualquer corpo hum termo commum, em que as partes concorrem, que he a superficie ou a linha. Outro tanto acontece ao tempo e ao lugar; porquanto o tempo presente pega com o passado, e com o futuro. Por outra parte o lugar tambem he do numero das quantidades continuas; porque as partes de qualquer corpo occupão algum lugar, e ellas concorrem em hum termo commum, logo tambem as partes do lugar, que occupão as do corpo, hão de concorrer em o mesmo termo commum, em que as partes do corpo concorrem. Do que se segue, que o lugar he huma quantidade continua, por isso que as partes, de que elle se compõe, concorrem em hum termo commum.

Além disso ha humas quantidades, que admittem situação: e outras, cujas partes não são susceptiveis delle. Exemplo: As partes da linha tem huma situação respectiva entre si; porque cada huma dellas jaz em hum lugar: e se póde achar e demonstrar aonde ella jaz no plano, e quaes sejão de entre as outras partes, aquellas com que ella concorre no plano. Do mesmo modo as partes do plano tem huma determinada situação entre si; porque tambem se póde assignar aonde jaz cada huma dellas, e quaes das outras partes são aquellas, com que cada huma concorre. E o mesmo he a respeito dos solidos, e do espaço.

Mas quanto aos numeros, não he possivel mostrar, que as partes, de que cada qual delles se compõe, tenhão certa situação respectiva, nem quaes sejão as que se encontrão com esta ou com aquella. Outro tanto se póde dizer do tempo; por isso que nenhuma das partes delles fica subsistindo: e como poderia admittir situação aquillo que não subsiste? Mais depressa se poderia dizer, que tem huma certa ordem; pois que hum he primeiro em tempo, e outro he posterior. E o mesmo he dos numeros; porque tambem hum se conta primeiro do que dois: e dois do que tres. De modo que se póde dizer que tem huma certa ordem; mas não se póde admittir que tenhão entre si nenhuma situação. Assim tambem com as palavras, de que nenhuma parte fica subsistindo; mas huma vez pronunciadas, se não podem tornar a tomar; por onde de não são susceptiveis de situação, pela simples razão de não serem subsistentes. De tudo o que se segue, que humas coizas constão de partes que tem entre si huma certa situação: e outras, cujas partes não são susceptiveis de situação respectiva.

Por exemplo, dizemos da brancura que he muita, attendendo a haver muita superficie branca. E de huma acção dizemos ser extensa, attendendo a ser muito o tempo que ella durou: E he deste modo que se diz ter sido o movimento muito.

Porém nenhuma destas coizas he em si mesma huma certa quantidade; porque se alguem houver de dizer em que sentido attribue o quantitativo a huma acção, ha de determina-lo pelo tempo da sua duração, como de hum anno, ou outra coisa semelhante. E fallando da brancura, como quantidade, ha de determina-la pela superficie; porque quanto maior for a superficie, tanto maior he a brancura. Assim que absolutamente fallando só são quantidades aquellas, que acabamos de enumerar: de todas as outras nenhuma o he por si mesma; mas só por accidente.

Além disso ter dois ou tres covados, &c. são expressões de quantidades determinadas; mas ser grande ou pequeno não são expressões de quantidades determinadas, porém sim de relações. Porque grande e pequeno sempre se referem a alguma outra coisa: e logo he evidente que o que designão são relações. Mas quer as ponhão entre as quantidades, quer as não ponhão, não se póde assignar nada que lhes seja contrario; porque como he que se póde assignar o contrario de huma coisa, que se não considera em si mesma, porém só com relação a outra? Além de que se grande e pequeno são contrarios, acontecerá que huma mesma coisa admittirá ao mesmo tempo dois contrarios: e será huma mesma coisa contraria a si mesma; pois que acontece que huma mesma coisa he ao mesmo tempo grande e pequena: grande a respeito de hum objecto, e pequena a respeito de outro: e assim a mesma coisa he ao mesmo tempo grande e pequena; e portanto viria a admittir dois contrarios. Mas nada póde admittir dois contrarios; á excepção das essencias, porque essas parece poderem admittir contrarios. Porém ninguem póde estar ao mesmo tempo são e doente; ser ao mesmo tempo branco e preto: e assim de outras coisas, que nenhuma admitte contrarios. E aconteceria que huma coisa seria contraria a si mesma; porque se pequeno he contrario ao grande: como huma mesma coisa póde ser ao mesmo tempo grande e pequena; viria a ser contraria a si mesma. Ora he do numero dos impossiveis que huma coisa seja contraria a si mesma; logo pequeno não he contrario a grande; nem muito a pouco. De modo, que ainda quando alguem dissesse que estas expressões não pertencem ás de relação, mas ás de quantidade; nem por isso lhes poderia descobrir contrario.

Mais depressa poderia parecer que o lugar considerado como quantidade, he susceptivel de contrarios, porque se chama superior o que he contrario ao inferior; referindo-se o inferior a num ponto medio: e determinando o ponto medio, por ser a sua distancia aos pontos cardiaes do Mundo maior que a dos extremos. E em geral chamão-se contrarias entre si as coisas, que sendo de hum mesmo genero, são entre as suas congeneres as que mais distão entre si.

Tambem pertencem aos relativos expressões taes como habito, disposição, sciencia, situação; porque todas-ellas, isso que são, são-o de outras coisas, ou por algum modo relativamente a outras coisas: e sem isso nada significão; porquanto habito he habito de alguma coisa; e sciencia he sciencia de alguma coisa: a posição he posição de alguma coisa: e assim do resto. Logo isso que são, são-o relativamente a alguma outra coisa aquellas, que se dizem serem de outras: ou de algum modo relativamente a outras; como por exemplo se diz de hum monte, que he grande relativamente a outro; porque só relativamente a outro he que se diz grande. Assim tambem o que se diz semelhante, he semelhante a outro. E he deste modo, que todas as outras coisas se chamão relativas. O estado de jazer, de estar em pé, de estar sentado são certas situações; mas jazer, estar em pé, estar sentado são expressões que se derivão daquellas situações.

Mas ás vezes seria necessario formar hum nome analogico, quando o não ha apropriado. Exemplo: Se se tratasse do leme de huma embarcação, não seria analogico o nome de leme; porque não he por ella se chamar embarcação, que ao leme se lhe chama assim; pois que ha embarcações, que não tem leme; e por isso não ha reciprocidade entre aquellas duas expressões: nem se diz de huma embarcação que he embarcação de tal leme. Seria porém analogico o nome, se se dissesse ser o leme de hum alemeado, ou outra expressão semelhante; mas não existe esta, nem outra alguma expressão cognominada; que se existisse, então haveria reciprocidade; porque se diria ser o alemeado do leme. O mesmo he de outras expressões, como por exemplo fallando-se de cabeça seria mais analogico dizer cabeça de hum capitado, do que dizendo-se cabeça de hum animal; porque não he por ter cabeça, que he animal, pois ha muitos animaes que não tem cabeça.

Assim acontecendo não ter huma coisa nome analogico com o do seu correlato, o mais facil seria dar-lhe nome derivado deste com quem essa mesma coisa se acha em reciprocidade; como nos exemplos precedentes de asa ou ala, alado; de leme alemeado. De tudo o que se segue, que todos os correlatos se se enuncião com propriedade, são reciprocos entre si. Mas se cada hum se nomea ao acaso, e sem analogia com o seu correlato; não póde haver reciprocidade entre elles com propriedade.

Digo pois, que mesmo daquellas coisas, que são reciprocas entre si, e que tem nomes cognominados, desapparece a reciprocidade, se em vez de eu enunciar a qualidade correlata de huma dellas para com a outra, enuncio qualquer outra ao acaso. Exemplo; se querendo-se nomear o correlato de servo; em vez de senhor, se disser homem ou bipede, ou outra coisa semelhante; não poderá haver reciprocidade; porque se não apontou a expressão apropriada. E portanto se deixando de parte tudo o que he accidental a hum dos correlatos, se expressar sómente o nome apropriado ao do outro correlato; sempre este se poderá affirmar daquelle. Por exemplo, tratando-se do servo relativamente a seu senhor, se deixando de parte tudo o que he accidental ao senhor (como o ser bipede, intelligente, homem) se chamar sómente senhor; sempre se poderá affirmar deste que outro he seu servo; por isso que o servo he servo do seu senhor.

E a rasão he que se não enunciarmos só a qualidade apropriada do correlato, deixando de parte todas as outras; ninguem dirá que he correlato. Porque supponhamos que se diz o servo do homem, e a asa da ave, deixando-se de parte o dizer do homem que he senhor; não se segue que se deva dizer o servo do homem; porque se elle não for senhor, tambem o outro não he seu servo. Do mesmo modo ommittindo-se o dizer da ave que he alada, não se segue ser correlato de asa; porque não se suppondo o ser alado, não se lhe póde referir aquella expressão de asa. De tudo o que se segue, que convem nomear os correlatos de huma maneira analogica: o que he facil quando ambos tem nomes entre si analogos; mas quando os não tem analogos, cumpre muitas vezes crea-los. Ora dados elles he evidente que existe reciprocidade entre ambos os correlatos.

Porquanto as sensações versão sobre corpos, e nos corpos; e na supposição de não existir o objecto sensivel, tambem não existem corpos (porque os corpos são do numero das coisas sensiveis). Ora não existindo corpos, tambem não póde existir sensação. E por conseguinte não existindo o objecto sensivel, não existe a sensação; de não existir a sensação, não se segue, que não exista o objecto sensivel; porque suppondo-se não existir nenhum animal, não existirá nenhuma sensação: e com tudo existem objectos sensiveis, como: os corpos quentes, doces, amargos, e todos os outros quantos são objectos da sensação. Ora a sensação começa a existir com o ente que sente; porque a sensação começa a existir com o animal; e os objectos sensiveis são tão anteriores á sensação, como aos animaes; porque o fogo, a agoa, e mais elementos, de que o animal se compõe, existião antes de haver animaes nem sensação. Donde com razão parece que os objectos da sensação são anteriores á mesma sensação.

De tudo o que fica manifesto, que se alguem conhecer definitivamente hum relativo, tambem conhecerá definitivamente o seu correlato: e deduz-se claramente do que fica dito, porque se alguem conhece que huma determinada coisa he do numero dos relativos: como ser relativo he ser de certo modo a respeito de outra alguma coisa; segue-se que elle tambem deve conhecer o objecto correlato a respeito de quem aquelle relativo he desse modo; porque se elle não conhece o correlato a respeito do qual o relativo he desse modo, tambem não conhece que elle lhe he relativo. Isto mesmo se manifesta, discorrendo-se por casos particulares. Por exemplo; se alguem sabe que huma determinada coisa he dupla, tambem ha de logo saber o de que he dupla; porque se não conhece nenhuma coisa determinada de que ella seja dupla; ignora absolutamente que ella seja dupla. Do mesmo modo: se alguem sabe que huma coisa he mais formosa que outra; tambem por isso mesmo deve logo saber determinadamente qual seja essa outra que he menos bella: nem he de huma maneira indeterminada, que elle saberá ser essa coisa mais bella do que a outra; pois que nesse caso, haveria supposição, e não sciencia; porque ainda se não conhece exactamente se he mais formosa do que a outra: porquanto a ser assim, seguir-se-hia não haver coisa pior do que essoutra.

De tudo o que fica manifesto, que se alguem conhece determinadamente hum relativo, necessariamente conhece tambem de huma maneira determinada o seu correlato.

Ora a cabeça, a mão, e outras semelhantes coisas que são essencias, póde-se muito bem conhecer determinadamente o que ellas são, sem com tudo se seguir necessariamente, que devamos conhecer os objectos, a que se referem; porque não he consequencia necessaria, que conheçamos determinadamente de quem he a cabeça ou a mão. Logo nenhuma destas coisas he do numero dos relativos: E se nenhuma dellas he do numero dos relativos; será verdade dizer que nenhuma essencia he do numero dos relativos. Mas talvez não he facil o demonstra-lo evidentemente, não se tendo assiduamente meditado. Não deixa comtudo de ter utilidade o questionar sobre cada hum destes objectos em particular.

Temprança ou qualquel[4IA] outra semelhante não parecem ser coisas que mudem facilmente, ou que facilmente variem. Ora chamão-se affecções aquellas que mudão facilmente, e que varião com promptidão: taes como, o calor, o frio, a saude, a doença, e outras semelhantes coisas. Porque o homem de algum modo está subjeito a ellas: e com facilidade muda, passando de quente a frio, e do estado de saude ao de doente: E o mesmo he dos outros casos. Comtudo poderia alguem dizer que huma affecção que tendo durado muito tempo, se tem convertido em natureza, nem se póde destruir, merece o nome de habito. Mas nisto mesmo se mostra, que o que se quer entender por habito, he o que he de maior duração e de mais difficil mudança. Porquanto fallando nós daquellas pessoas que não possuem bastantemente alguma sciencia, nunca dizemos que esta seja nellas hum habito; porque humas vezes estão em melhor, outras em pior estado relativamente á mesma sciencia. Por onde differe a affecção do habito em que a primeira he facil de mudar: e a segunda he de mais duração e da mais difficultosa mudança. Mas todos os habitos são affecções, posto que nem todas as affecções sejão necessariamente habitos. Porquanto aquelles que tem algum habito, são em certo modo affectados por elle. Ora de quem está affectado não se póde dizer que tem hum habito.

As qualidades dizem-se passivas, não porque os objectos, em que ellas se verificação, padeção alguma coisa; porque ao mel não se lhe chama doce, porque padece alguma coisa: e assim nos outros semelhantes: como tambem o calor e a frialidade se dizem qualidades passivas, não porque as substancias, em que aquellas qualidades se encontrão, padeção alguma coisa: mas porque segundo as sensações que cada qual daquellas qualidades produz he causa de huma paixão. Pois que a doçura produz huma paixão no gosto: e a frialdade no tacto: e assim das demais. Quanto á brancura, á negridão, e ás outras cores, sim se chamão tambem qualidades passivas, mas não pela mesma razão das de que acabamos de fallar; mas porque derivão de huma paixão. Que ha muitas mudanças de côr que derivão de alguma paixão, he coisa evidente; pois que o homem que se envergonha se torna vermelho: e amarello, o que se toma de medo: e assim nos demais casos semelhantes. De maneira que todas as vezes que alguem houver experimentado alguma destas paixões, por ser isso proprio da sua natureza; tambem se póde concluir com toda a probabilidade, que tomou aquella mesma côr. Porque he de notar, que a affecção ha pouco observada no corpo por occasião do pejo, tambem pode verificar-se por effeito da constituição physica: e por isso póde tambem resultar a mesma côr, em consequencia da natureza do subjeito.

Todos os symptomas pois que assim como os mencionados, tirão a sua origem de alguma paixão duravel ou menos subseita[5IA] a variar, chamão-se qualidades passivas, quer seja pela propria natureza das coisas (tal como a negridão) por isso que as coisas se dizem taes relativamente a ellas; quer seja porque em consequencia de huma longa enfermidade, ou por huma queimadura, sobreveio ao subjeito a pallidez, ou negridão, de modo que ou não mudão facilmente, ou talvez durão por toda a vida; pois tambem nestes casos se chamão qualidades; por isso que tambem relativamente a ellas se denominão taes os objectos. Mas os que derivão de paixões que facilmente se desvanecem, e com promptidão se mudão; não se chamão qualidades, mas paixões; pois que nunca os objectos se dizem ser taes relativamente a ellas. Assim do homem que por effeito do pejo se fez vermelho, não dizemos que he vermelho: nem daquelle que se tornou pallido por medo, dizemos que he pallido; mas sómente dizemos, que experimentarão certa paixão E portanto são aquellas paixões, e não qualidade. Semelhantemente no que respeita á alma, humas se chamão paixões e outras qualidades passivas. Porquanto aquellas que logo na sua origem se achar, terem derivado de paixões, que difficilmente varião; chamão-se qualidades; taes como a alienação mental: a colera: e outras semelhantes; pois que relativamente a ellas se dizem os homens colericos, maniacos. E do mesmo modo nas demais desordens que se affastão da humana natureza, mas que de tal modo derivão de outros symptomas, que ou são mui difficeis de mudarem, ou são absolutamente inamoviveis: pois todas ellas se chamão qualidades, por isso que conformemente a ellas se dizem os homens taes. Aquellas porém que derivão de symptomas que facil e brevemente mudão; chamão se paixões: como quando alguem exprimentando hum dissabor, se incolerisa; porque em tal caso não se diz que elle he colerico por se ter incolerisado durante aquella paixão; mas antes se diz, que elle padeceu alguma coisa. Assim todas estas coisas se chamão paixões e não qualidades.

Porventura parecerá que o denso, e o raro: o liso, e o aspero entrão no numero das qualidades. Mas a mim parece-me, que estas expressões designão coisas alheias da rubrica da qualidade; pois he manifesto que qualquer dellas denota mais depressa huma certa disposição de partes. Porquanto denso denota que as partes estão conchegadas: raro, que estão distantes humas das outras: liso, que estão todas em hum mesmo plano: e aspero, que humas estão mais altas, e outras mais baixas.

Tambem parecerá talvez haver mais alguma outra especie de qualidade. Mas as que ordinariamente assim se denominão, são estas.

Algumas vezes porém tendo nome a qualidade, nem por isso se denota cognominadamente o subjeito que a possue.

negação, por exemplo: estar sentado se oppõe a não estar sentado: do mesmo modo se oppõe o estar alguma determinada pessoa sentada a não estar sentada.

Ora na effectividade, bem como na privação, nada do que fica dito, se póde verificar; porque daquellas coisas, a que por natureza não compete o terem vista jámais se póde dizer que estão cegos, nem que tenhão vista.

Além disso he proprio dos contrarios, que dado o subjeito, este he susceptivel de mudar de hum delles para o outro. Não se falla dos casos em que por sua natureza o subjeito e o contrario são huma e a mesma cousa; como o fogo ser quente. Mas nos demais casos bem se vê por exemplo, que quem está bom, póde adoecer: que o que he branco, póde passar a ser preto: que o que está frio, póde tornar-se quente: que o que he virtuoso se póde tornar vicioso: e vicioso o que he virtuoso. Porque o vicioso, huma vez que elle se applique a melhores praticas e discursos, não póde deixar de fazer algum progresso, ainda que seja pouco, para se tornar melhor: e huma vez que elle avança, ainda que seja pouco, he evidente, que ou mudará completamente, ou virá a fazer grandes progressos; pois que se vai tornando cada vez mais disposto para a virtude, qualquer que seja o progresso que de principio tiver feito; donde com razão se espera que os fará ainda maiores: e á medida que isto acontecer, se transformará com inteira e completa mudança para o habito contrario.

Ora entre a privação e a effectividade não póde dar-se reciprocidade de mudança de huma para a outra; porque da effectividade para a privação, sim póde havella: mas da privação para a effectividade he impossivel. Por quanto nem huma pessoa que cegou de todo torna a cobrar a vista: nem hum a quem radicalmente cahirão os cabellos, lhe tornão a nascer: nem hum que perdeu de todo os dentes, os torna a recobrar.

Mas quanto a affirmação e negação, forçosamente ha de huma ser verdadeira e a outra falsa, quer o subjeito exista, quer não. Por quanto estar Socrates doente e não estar doente são expressões, das quaes, existindo elle, huma he evidentemente verdadeira e a outra falsa: e não existindo, he falso o estar doente; e he verdade não estar doente.

De modo que são estes casos de affirmação e negação os unicos oppostos, de que he proprio que hum delles ha de ser forçosamente verdadeiro ou falso.

Ora os generos em tanto se dizem anteriores ás suas respectivas especies em quanto a reciprocidade que ha destas para elles, quanto á conclusão da existencia, se não verifica delles para ellas; porque de existir hum aquatil, segue-se que existe hum animal: mas de existir hum animal, não se segue que existe hum aquatil.

Logo tambem são naturalmente connexas as cousas que sem ser huma causa de existencia da outra, tem entre si reciprocidade quanto á conclusão da existencia: Bem como as que pertencendo ao mesmo genero, são especies distinctas: e em geral são connexas todas as cousas que por sua natureza começão a existir ao mesmo tempo.

Quanto porem á transformação póde entrar em duvida, se o que se transforma não experimenta alguma das outras especies de movimento no acto da transformação. Mas seria erro o affirmallo; porque a experiencia nos mostra que todas ou a maior parte das nossas paixões se transformão humas nas outras, sem que se verifique nenhuma das outras especies de movimento. Porque aquelle que experimenta o movimento de qualquer paixão, nem por isso cresce ou diminue: e o mesmo se póde dizer das outras especies de movimentos. He logo a transformação hum movimento differente dos outros; porque se fosse identica com alguma das outras especies, seria forçoso que aquelle que se transforma, augmentasse ou diminuisse, ou experimentasse alguma das outras especies de movimentos: o que não he assim. Do mesmo modo seria forçoso que aquelle que cresce, se transformasse: entre tanto que muitas cousas crescem, sem se transformarem; como por exemplo: se a hum quadrilatero se lhe accrescenta hum gnomon, fica augmentado mas não transformado: e assim nos demais casos semelhantes. Donde se vê que as mencionadas especies de movimentos são todas differentes humas das outras.

Em geral o contrario do movimento he a quietação. Mas cada huma das especies mencionadas tem seu contrario particular. Assim o contrario da geração he a corrupção: o do augmento he a diminuição: e o da mudança de lugar he a quietação no mesmo lugar; posto que pareceria dever-se dizer que tambem e com mais propriedade o he o movimento para a parte contraria: como por exemplo ao de ascenso o de descenso, e ao de descenso o de ascenso. Mas a outra especie de movimento (a transformação) não he facil assignar-se o que lhe possa ser contrario: e até parece que nem o póde haver: a menos que algum lhe não contrapozesse a cessação da respectiva qualidade, ou a mudança para a qualidade contraria: bem como á mudança de lugar se contrapôz a quietação no mesmo lugar, ou o movimento para a parte contraria; visto que a transformação he huma mudança de qualidades. De modo que viria a ser o contrario ao movimento ou mudança das qualidades, tanto a quietação ou permanencia dellas, como o movimento ou mudança para as qualidades contrarias; como por exemplo, o ser preto a ser branco; porque se transforma mediante a mudança para huma qualidade contraria.