[i]: Por “percepção quase ao mesmo tempo” Koehler entende situações em que instrumento e objetivo foram vistos juntos pouco tempo antes, ou quando foram usados conjuntamente tantas vezes numa situação idêntica que são, para todos os fins, psicologicamente apreendidos simultaneamente (18, p. 39).
[ii]: Vygotsky não descreve o teste em pormenor. A seguinte descrição é extraída de Conceptual Thinking in Schizophrenia, de E. Hanfmann e J. Kasanin (16, pp. 9-10).
O material utilizado nos testes de formação dos conceitos consiste em 22 blocos de madeira de várias cores, formas, alturas e larguras. Existem 5 cores diferentes, 6 formas diferentes, 2 alturas (os blocos altos e os blocos baixos), e 2 larguras da superfície horizontal (larga e estreita). Na face inferior de cada figura, que não é vista pelo sujeito, está escrita uma das quatro palavras sem sentido: lag, bik, mur, cev. Desprezando a cor ou a forma, lag está escrita em todas as figuras largas e altas, bik em todas as figuras largas e baixas, mur em todas as altas e estreitas, e cev nas baixas e estreitas. No inicio da experiência todos os blocos, misturados quer nas cores, tamanhos e formas, são espalhados numa mesa defronte do sujeito ... O examinador vira um dos blocos (a “amostra”), mostra e lê o seu nome ao sujeito, e pede-lhe que retire todos os blocos que pensar puderem pertencer ao mesmo tipo. Após o sujeito o ter feito ... o examinador vira um doa blocos “erradamente” selecionado, mostra que é um bloco de um tipo diferente e encoraja o sujeito a prosseguir nas tentativas. Após cada nova tentativa, outro bloco erradamente retirado é virado. À medida que o número de blocos virados aumenta, o sujeito obtém gradualmente uma base para descobrir a que características dos blocos se referem as palavras sem sentido. Mal faça esta descoberta, as ... palavras ... começam a fixar-se em tipos definidos de objetos (ou seja, lag para blocos largos e altos, bik para largos e baixos), e novos conceitos, para os quais a linguagem não fornece nenhum nome, são então formados. O sujeito encontra-se então preparado para completar a tarefa de separação dos quatro tipos de blocos indicados pelas palavras sem sentido. Então, o uso dos conceitos tem um valor funcional definido para o fim requerido por este teste. Se o sujeito utilizar realmente o pensamento conceptual na tentativa de resolução do problema ... poder-se-á inferir da natureza dos grupos que constrói e do seu procedimento na sua construção que aproximadamente cada etapa do seu raciocínio é refletida na sua manipulação dos blocos. A primeira abordagem do problema, o manuseamento da amostra, a resposta à correção, a descoberta da solução, todos estes estádios da experimentação podem fornecer dados que podem servir como indicadores do nível de pensamento do sujeito.
[iii]: A seguinte análise das observações experimentais é tirada do estudo de E. Hanfmann e J. Kasanin (16, pp. 30-31):
Em muitos casos o grupo, ou grupos, criados pelo sujeito têm quase o mesmo aspecto que numa classificação coerente, e a carência de uma verdadeira fundamentação conceptual só transparece quando o sujeito se vê na contingência de pôr à prova as idéias que consubstanciam o seu agrupamento. Isto acontece no momento da correção quando o examinador vira um dos blocos erradamente selecionados e mostra que a palavra nele escrita é diferente da do bloco de amostra, por exemplo, que não é mur. Este é um dos pontos críticos da experiência...
Sujeitos que abordaram a tarefa como um problema de classificação respondem imediatamente à correção de uma forma perfeitamente específica. Esta resposta é adequadamente expressa na afirmação: “Ah! Então não se trata da cor” (ou forma, etc.)... O sujeito retira todos os blocos que tinha colocado junto à amostra e começa à procura de outra possível classificação.
Por outro lado, o comportamento exterior do sujeito no início da experiência pode ter sido o de tentar conseguir uma classificação. Pode ter colocado todos os blocos vermelhos junto à amostra, procedendo com bastante segurança... e declarar que pensa que aqueles blocos vermelhos são os murs. Então o examinador vira um dos blocos escolhidos e mostra que tem um nome diferente... O sujeito vê-o retirado, ou mesmo retira-o ele próprio obedientemente, mas é tudo quanto faz: não faz nenhuma tentativa para retirar os outros blocos vermelhos de junto da amostra mur. À questão do examinador se é que ainda pensa que aqueles blocos devem estar juntos, e são mur, responde peremptoriamente. “Sim, devem manter-se juntos porque são vermelhos”. Esta réplica demolidora revela uma atitude totalmente incompatível com uma verdadeira tentativa de classificação e prova que os grupos que ele tinha formado eram na realidade pseudo-classes.
[iv]: Deve ficar bem claro neste capítulo que as palavras também desempenham uma importante, embora diferente, função nos vários estádios do pensamento por complexos. Contudo, consideramos o pensamento complexo um estádio no desenvolvimento do pensamento verbal, à diferença de muitos outros autores (21, 53,55) que alargam o termo complexo para incluir o pensamento pré-verbal e mesmo o instinto primitivo dos animais.
[v]: Idênticos desenhos foram mostrados a dois grupos de crianças em idade pré-escolar de idades e nível de desenvolvimento semelhantes. Pediu-se a um grupo para representar o desenho — o que indicaria o grau da imediata apreensão do seu conteúdo; ao outro grupo pediu-se para o narrar por palavras, tarefa requerendo uma capacidade de compreensão conceptualmente mediada. Verificou-se que os “atores” forneceram o significado da situação representada, ao passo que os narradores enumeraram objetos separados.
[vi]: “A cigarra e a formiga”. Em francês no original.
[vii]: O exemplo dado por Vygotsky perde parte do seu impacto em português, devido às diferentes relações entre os gêneros na língua portuguesa e na língua russa.