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Pensamento e Linguagem

Lev Semenovich Vygotsky · V

V

Podemos agora voltar a debruçar-nos sobre a definição do discurso interior que propusemos antes de iniciarmos a nossa análise. O discurso interior não é o aspecto interior do discurso externo — é uma função em si próprio. Continua a ser discurso, isto é, pensamento ligado por palavras. Mas enquanto o pensamento externo se encontra encarnado em palavras, no discurso interior é, em grande medida, um pensamento feito de significados puros. É uma coisa dinâmica, instável, e derivante, que flutua entre a palavra e o pensamento, os dois componentes mais ou menos estáveis, mais ou menos solidamente delineados do pensamento verbal. Só se pode compreender a sua verdadeira natureza e o seu verdadeiro lugar, após se ter examinado o plano seguinte do pensamento verbal, o plano ainda mais profundo do que o discurso interior.

Esse plano é o próprio pensamento. Como dissemos, todos os pensamentos criam uma conexão, preenchem uma função, resolvem um problema. A corrente de pensamento não é acompanhada por um desabrochar simultâneo do discurso. Os dois processos não são idênticos e não há correspondência rígida entre as unidades de pensamento e de discurso. Isto é particularmente verdade quando um pensamento aborta — quando como Dostoyevski diz, um “pensamento não entra nas palavras”. O pensamento tem a sua própria estrutura e a transição entre ele e a linguagem não é coisa fácil. O teatro defrontou-se, antes da psicologia, com o problema dos pensamentos ocultos por detrás das palavras. Ao ensinar o seu sistema de representação, Stanislawsky exigia dos autores que descobrissem o “subtexto” das suas réplicas na peça. Na comédia de Griboedov “O Espírito traz a Infelicidade”, à heroína que afirma nunca o ter esquecido, o herói, Chatsky, diz: “Três vezes abençoado quem tal acreditar. A fé aquece o coração”. Stanislawsky interpretou esta passagem como querendo dizer: “Acabemos com esta conversa”, mas poderia também ser interpretada como querendo dizer: “Não acredito em si. Diz isso para me reconfortar”, ou: “Não vê que me está a atormentar? Eu bem queria acreditar em si. Seria uma benção...”. Todas estas frases que proferimos na vida real possuem uma espécie de sub-texto, um pensamento oculto por detrás delas. Nos exemplos que atrás demos da ausência de concordância entre o sujeito e o predicado, não levamos a nossa análise até ao fim. Tal como uma frase pode exprimir muitos pensamentos, um mesmo pensamento pode ser expresso por meio de diferentes frases. Por exemplo, a frase “O relógio caiu”, como resposta à pergunta: “Porque é que o relógio parou?” poderia significar: “Não tive culpa de o relógio se ter estragado; caiu”. O mesmo pensamento, que é uma auto-justificação, poderia assumir a forma seguinte: “Não é meu hábito mexer nas coisas das outras pessoas. Só estava a limpar o pó aqui”, ou muitas outras frases.

Ao contrário do discurso, o pensamento não é constituído por unidades separadas. Quando desejo comunicar o pensamento de que hoje vi um rapaz descalço de camisa azul a correr pela rua abaixo, não vejo cada elemento em separado: o rapaz, a camisa, a cor desta última, a corrida do rapaz, a ausência de sapatos. Concebo tudo isto num só pensamento, mas exprimo o pensamento em palavras separadas. Um interlocutor leva por vezes vários minutos a expor um só pensamento. No seu espírito o pensamento encontra-se presente na sua globalidade num só momento, mas no discurso tem que ser desenvolvido por fases sucessivas. Podemos comparar um pensamento com uma nuvem que faz cair uma chuva de palavras. Como, precisamente, um pensamento não tem correspondência imediata em palavras, a transição entre o pensamento e as palavras passa pelo significado Na nossa fala, há sempre o pensamento oculto, há sempre o sub-texto. Houve sempre lamentos acerca da inexpressibilidade do pensamento devido ao fato de ser impossível uma transição direta do pensamento para a palavra:

Como poderá o coração exprimir-se? Como poderá outro compreendê-lo? (F. Tjutchev)

A comunicação direta entre os espíritos é impossível, não só fisicamente mas também psicologicamente. A comunicação só é possível de uma forma indireta. O pensamento tem que passar primeiro pelos significados e depois pelas palavras.

Chegamos assim ao último passo da nossa análise do pensamento verbal. O pensamento propriamente dito é gerado pela motivação, isto é, pelos nossos desejos e necessidades, os nossos interesses e emoções. Por detrás de todos os pensamentos há uma tendência volitiva-afetiva, que detém a resposta ao derradeiro porquê da análise do pensamento. Uma verdadeira e exaustiva compreensão do pensamento de outrem só é possível quando tivermos compreendido a sua base afetiva-volitiva. Ilustraremos isto por meio de um exemplo que já tem sido utilizado: a interpretações dos papéis de uma peça. Nas suas instruções para os atores, Stanislawsky enumerava os motivos subjacentes nas palavras dos seus personagens. Por exemplo:

TEXTO DA PEÇA

MOTIVOS SUBJACENTES

Sofia:
Ah, Chatsky, como estou contente por teres vindo!

Tente ocultar a atrapalhação.

Chatsky:
Estás tão contente! Que simpático! Mas alegrias dessas não entendo bem! Pois antes me parece que ao fim e ao cabo. Ao vir por aí à chuva mais o meu cavalo. A mim me contentei e a mais ninguém.

Tenta fazê-la sentir-se culpada.

“Não tens vergonha?!”

Tenta forçá-la a ser franca!

Liza:
Senhor se aqui estivesses neste mesmo lugar. Há uns cinco minutos, não, nem há tanto, não. Vosso nome ouviríeis bem alto soar!
Ah Menina! Dizei-lhe que tenho razão!

Tenta acalmá-lo. Tenta ajudar Sofia numa situação difícil.

Sofia:
Assim é, nem mais, nem menos!
Que quanto a isso, sei que não tendes nada que me censurar!

Tenta serenar Chatsky.

Não sou culpada de nada.

Chatsky:
Pronto, aceitemos que assim é, deixai estar!
Três vezes louvado quem tiver fé!
Pois a fé o coração aquece!
Acabemos com esta conversa, etc..

Para compreendermos o discurso de outrem, não basta compreender as suas palavras — temos que compreender o seu pensamento. Mas também isto não basta — temos que conhecer também as suas motivações. Nenhuma análise psicológica de uma frase proferida se encontra completa antes de se ter atingido esse plano.

Chegamos ao fim da nossa análise; passemos os seus resultados em revista. O pensamento verbal surge-nos como uma entidade dinâmica e complexa e a relação entre o pensamento e a palavra no seu interior aparece-nos como um movimento que abarca uma série de planos. A nossa análise seguiu o processo desde o seu plano mais externo até ao seu plano mais interno. Na realidade, o desenvolvimento do pensamento verbal segue uma trajetória oposta: do motivo que gera um pensamento à modelação do pensamento, primeiro no discurso interior, depois nos significados das palavras e finalmente nas palavras. Seria no entanto errado imaginar que este é o único caminho do pensamento para a palavra. O desenvolvimento pode deter-se num ponto qualquer da sua complexa trajetória; é possível uma infinidade de movimentos progressivos e recessivos, uma grande variedade de evoluções que desconhecemos ainda. O estudo destas multifacetadas variações não cabe no âmbito da nossa tarefa presente.

A nossa investigação seguiu um percurso bastante invulgar. Desejávamos estudar a forma como internamente operam o pensamento e a linguagem, formas essas que se encontram ocultas à observação direta. O significado e todo o aspecto interior da linguagem, a sua faceta que se encontra voltada para a pessoa e não para o mundo exterior tem constituído até hoje um território desconhecido. Sejam quais forem as interpretações que lhes sejam dadas, as relações entre o pensamento e a palavra foram sempre consideradas como algo constante e imutável, estabelecido para sempre. A nossa investigação mostrou que tais relações são, pelo contrário, relações mutáveis entre processos, que surgem durante o desenvolvimento do pensamento verbal. Não queríamos nem podíamos esgotar o assunto do pensamento verbal. Tentamos apenas dar uma concepção geral da infinita complexidade desta estrutura dinâmica — concepção que parte dos fatos experimentalmente documentados.

Para a psicologia associacionista, o pensamento e a palavra encontram-se unidos por laços externos, semelhantes aos laços existentes entre duas sílabas sem sentido. A psicologia gestaltista introduziu o conceito dos nexos estruturais, mas, tal como a velha teoria, não entrou em linha de conta com as relações específicas entre o pensamento e a palavra. Quanto às outras teorias, agrupavam-se em torno de dois pólos — quer o pólo do conceito behaviourista segundo o qual o pensamento é linguagem sem o ponto de vista idealista, defendido pela escola de Wuerzburg, e Bergson, segundo o qual o pensamento poderia ser “puro”, isto é, pensamento sem qualquer relação com a linguagem, pensamento que seria distorcido pelas palavras. A frase de Tjutchev “Uma vez dito um pensamento torna-se mentira”, poderia muito bem servir de epitáfio para o último grupo. Quer se inclinem para o puro naturalismo quer se inclinem para o idealismo mais extremo, todas estas teorias comungam dum mesmo traço — o seu pendor anti-histórico. Estudam o pensamento e a palavra sem fazerem qualquer referência à sua História genética.

Só uma teoria histórica do discurso interior poderá tratar cabalmente este complexo e imenso problema. A relação entre o pensamento e a palavra é um processo vivo; o pensamento nasce através das palavras. Uma palavra vazia de pensamento é uma coisa morta, e um pensamento despido de palavras permanece uma sombra. A conexão entre ambos não é, no entanto, algo de constante e já formado: emerge no decurso do desenvolvimento e modifica-se também ela própria. À expressão bíblica “No princípio era o Verbo”, Goethe faz Fausto responder: “No princípio era a ação”. A intenção desta frase é a de diminuir o valor da palavra, mas podemos aceitar esta versão se lhe dermos outra acentuação: no princípio era a ação. A palavra não é o ponto de partida — a ação já existia antes dela; a palavra é o termo do desenvolvimento, o coroamento da ação.

Não podemos encerrar o nosso relance sem mencionarmos as perspectivas abertas pela nossa investigação. Estudamos os aspectos internos da linguagem que eram tão desconhecidos para a Ciência como o outro lado da Lua. Mostramos que as palavras têm por característica fundamental serem um reflexo generalizado do mundo. Este aspecto da palavra conduz-nos ao limiar de um tema muito mais profundo e mais vasto — o problema geral da consciência. As palavras desempenham um papel fundamental, não só no desenvolvimento do pensamento mas também no desenvolvimento histórico da consciência como um todo. Cada palavra é um microcosmos da consciência humana.

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Copyright ©
Autor: Lev S. Vygotsky
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
(www.jahr.org)

©2001 — Ridendo Castigat Mores

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Setembro 2001

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