Capítulo 2
O hurão, chamado o Ingênuo, é reconhecido por seus parentes.
O Ingênuo, segundo o seu costume, acordou com o sol, ao cantar do galo, que é chamado na Inglaterra e na Hurônia a trombeta do dia. Não era como a gente da alta., que enlanguesce num preguiçoso leito, até que o sol haja feito metade do seu curso, que não pode nem dormir nem levantar-se, que perde tantas horas preciosas nesse estado intermediário entre a vida e a morte, e ainda se queixa de que a vida é demasiado curta.
Já fizera duas ou três léguas, tendo abatido, a funda, umas trinta peças de caça, quando, ao regressar, encontrou o prior de Nossa Senhora da Montanha e sua discreta irmã, que passeavam de touca de dormir pelo seu pequeno jardim. Apresentou-lhes a sua caça e, tirando da camisa uma espécie de talismã que trazia sempre ao pescoço, pediu-lhes que o aceitassem como agradecimento pela sua boa recepção.
— É o que eu tenho de mais precioso – lhes disse ele. Asseguraram-me que eu seria sempre feliz enquanto o usasse. E assim lhes faço este presente, para que sejam sempre felizes.
O prior e sua irmã sorriram comovidos ante a simplicidade do Ingênuo. O referido presente consistia em dois pequenos retratos muito mal feitos, unidos por uma correia bastante sebenta
A senhorita de Kerkabon perguntou-lhe se havia pintores na Hurônia.
— Não – disse o Ingênuo, – esta raridade me veio de parte de minha ama; o seu marido a adquirira por conquista, despojando alguns franceses do Canadá que haviam travado batalha conosco. É só o que eu sei.
O prior examinava atentamente aqueles retratos; mudou de cor, emocionou-se, as mãos tremeram-lhe.
— Por Nossa Senhora da Montanha – exclamou ele, – creio que é o meu irmão capitão e sua mulher.
A senhorita, depois de os haver examinado com igual emoção, também achou o mesmo. Estavam ambos transidos de espanto e de uma alegria mesclada de sofrimento; ambos se enterneciam; ambos choravam; palpitava-lhes o coração; soltavam gritos; arrancavam um ao outro os retratos; cada qual os tomava e devolvia vinte vezes por segundo devoravam com os olhos os retratos e o hurão; perguntavam-lhe um após outro, e os dois ao mesmo tempo, em que lugar, em que tempo, de que modo, tinham aquelas miniaturas ido parar às mãos da sua ama; comparavam as datas; lembravam-se de ter tido notícias do capitão até a sua chegada à terra dos hurões; época em que mais nada souberam a seu respeito.
Dissera-lhes o Ingênuo que não conhecera nem pai nem mãe. O prior, que era bom observador, notou que o Ingênuo tinha um pouco de barba e sabia que os hurões não a têm. “Seu queixo tem barba; o Ingênuo deve ser, portanto, filho de um europeu. Meu irmão e a minha cunhada não mais apareceram depois da expedição contra os hurões em 1669; meu sobrinho devia ser então criança de peito; a ama huronesa lhe salvou a vida e serviu-lhe de mãe”. Enfim, depois de cem perguntas e cem respostas, o prior e sua irmã concluíram que o hurão era o seu próprio sobrinho. Beijavam-no a chorar; e o Ingênuo ria, sem poder imaginar como é que um hurão poderia ser sobrinho de um prior da Baixa Bretanha.
Acorreram todos; o senhor de St. Yves, que era grande fisionomista, comparou os dois retratos com o rosto do Ingênuo; notou habilmente que ele tinha os olhos da mãe, a testa e o nariz do falecido capitão de Kerkabon, e as faces de ambos. A senhorita de St. Yves, que jamais vira o pai nem a mãe, assegurou que o Ingênuo se lhes assemelhava perfeitamente. Admiravam todos a Providência e o encadeamento dos sucessos deste mundo. Estavam enfim tão persuadidos, tão convictos da origem do Ingênuo, que ele próprio assentiu em ser sobrinho do senhor prior, dizendo que gostaria tanto de o ter por tio como a qualquer outro.
Foram agradecer a Deus na igreja de Nossa Senhora da Montanha, enquanto o hurão, com um ar indiferente, divertia-se em beber em casa.
Os ingleses que o tinham trazido, e que estavam prestes a zarpar, vieram dizer-lhe que era tempo de partir.
— Pelo que vejo – lhes disse o hurão, – vocês não encontraram os seus tios: eu fico por aqui; voltem para Plymouth; dou-lhes de presente todos os meus trapos; não tenho necessidade de mais nada no mundo, pois sou sobrinho de um prior.
Os ingleses velejaram, pouco se lhes dando que o hurão tivesse ou não parentes na Baixa Bretanha.
Depois que o tio, a tia e todas as visitas cantaram o Te Deum; depois que o bailio encheu o Ingênuo de novas perguntas; depois que esgotaram tudo o que o espanto, a alegria e a ternura podem fazer dizer, o prior da Montanha e o padre de St. Yves resolveram batizá-lo o mais depressa possível Mas um hurão adulto de vinte e dois anos não estava no mesmo caso de uma criança, a quem se regenera sem que esta fique sabendo coisa alguma. Era preciso doutriná-lo, e isso parecia difícil; pois o abade de St. Yves supunha que um homem que não nascera na França não podia ter senso comum.
O prior observou à companhia que, se de fato o Ingênuo, seu sobrinho, não tivera a ventura de nascer na Baixa Bretanha, nem por isso deixava de ter espírito, o que se poderia avaliar por todas as suas respostas, e que sem dúvida a natureza muito o favorecera, tanto do lado paterno como do materno.
Perguntaram-lhe primeiro se ele já tinha lido algum livro. Respondeu que lera Rabelais traduzido em inglês e alguns trechos de Shakespeare que sabia de cor; que tinha encontrado esses livros com o capitão do navio que o trouxera da América para Plymouth, e que muito lhe haviam agradado. O bailio não deixou de interrogá-lo sobre os referidos livros.
— Confesso – disse o Ingênuo – que julguei adivinhar qualquer coisa, e não entendi o resto.
A estas palavras, o padre de St. Yves refletiu que era assim que ele próprio sempre havia lido, e que a maioria dos homens não lia de outro modo.
— Com certeza já leu a Bíblia, não? – perguntou ele ao Ingênuo.
— Absolutamente, senhor padre; não estava entre os livros do meu capitão, nem nunca ouvi falar nisso.
— Eis como são esses malditos ingleses – gritava a senhorita Kerkabon. – Farão mais caso de uma peça de Shakespeare, de um plumpunding e de uma garrafa de rum do que do Pentateuco. É por isso que jamais converteram ninguém na América. Certamente são amaldiçoados de Deus; e dentro em pouco nós lhes tomaremos a Jamaica e a Virgínia. Como quer que fosse, mandaram buscar o mais hábil alfaiate de Saint-Malo para vestir o Ingênuo dos pés à cabeça. O grupo separou-se; o bailio foi fazer suas perguntas noutra parte. A senhorita de St. Yves, ao partir, voltou-se várias vezes, a fim de olhar para o Ingênuo; e fez-lhe reverências mais profundas do que nunca as fizera a ninguém em toda a vida.
Antes de partir, o bailio apresentou à senhorita de St. Yves um paspalhão de filho que acabava de sair do colégio; ela, porém, mal lhe dirigiu o olhar, tão preocupada estava com o hurão.