Estrangeiro — [267] Então, dividamos agora em duas partes a arte dos simulacros.
Teeteto — De que jeito?
Estrangeiro — Uma trabalha com instrumentos; na outra, quem produz o simulacro serve de instrumento.
Teeteto — Que queres dizer com isso?
Estrangeiro — Quando alguém, quero crer, usando de seu próprio corpo, procura imitar tua aparência, ou tua voz com a dele, penso que a essa parte da arte fantástica se dá o nome de mímica.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Assinalemos, então, o domínio próprio dessa parte a que demos o nome de mímica; quanto à outra, sejamos práticos e deixemo-la de lado, ficando para [267b] terceiros o cuidado de conferir-lhe unidade e de dar-lhe nome adequado.
Teeteto — Sim, assinalemos o domínio de uma e abandonemos a outra.
Estrangeiro — Mas essa parte, Teeteto, também merece ser subdividida. E a razão, vais sabê-la.
Teeteto — Ouçamo-la.
Estrangeiro — Entre os imitadores, uns conhecem o que imitam, outros o fazem sem conhecer. E haverá, porventura, mais radical distinção do que a existente entre a ignorância e o conhecimento?
Teeteto — Não é possível.
Estrangeiro — O exemplo apresentado há pouco é de imitação por conhecimento, pois só poderá imitar-te quem conhecer tua figura e tua pessoa.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — E que diremos da figura da justiça ou das virtudes em geral? Mas, não há um sem-número de indivíduos que, sem conhecê-la, porém tendo dela apenas uma espécie de opinião, põem todo o empenho em fazer aparecer ó que eles presumem ter no íntimo, imitando-a, quanto possível, por atos e por palavras?
Teeteto — Há muitíssimos, até.
Estrangeiro — E por acaso todos eles falham no empenho de parecerem justos, conquanto em absoluto não o sejam, ou dar-se-á precisamente o contrário disso?
Teeteto — O contrário, exatamente.
Estrangeiro — Importa, pois, declarar que esse imitador é diferente do outro, tal [267d] como o ignorante difere de quem sabe.
Teeteto — Certo.
LII — Estrangeiro — Onde iremos, então, buscar a designação apropriada para cada um? Evidentemente, é tarefa por demais árdua, porque nisso de dividir os gêneros em espécies, parece que os antigos sofriam de uma velha e inexplicável indolência que nunca os levou pelo menos a tentá-la; dar essa carência tão acentuada de nomes. De um jeito ou de outro, e embora se no afigure um tanto forte a expressão, para melhor diferença-la daremos o nome de doxomimética à imitação que se baseia na opinião, e [267e] a que se funda no conhecimento, mimética histórica ou erudita.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Vamos ocupar-nos com a primeira; o sofista não se inclui no número dos que sabem, mas no dos que imitam.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Examinemos, então, o imitador que se apoia na opinião, como o faríamos com um fragmento de ferro, para vermos se se trata de uma peça uniforme ou se nalgum ponto revela defeito de estrutura.
Teeteto — Sim, examinemo-lo.