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O Sofista

Platão · Parte 233.250

Estrangeiro — [250] Considera com mais calma, depois de tudo o que admitimos até agora, se [250a] não poderiam apresentar-nos as mesmas perguntas que já formulamos aos que afirmam que o todo consiste no quente e no frio.

Teeteto — Que pergunta? Aviva-me a memória.

Estrangeiro — Perfeitamente. Esforçar-me-ei por fazer isso mesmo, interrogando-te como fiz com os outros, para, assim, avançarmos um pouquinho.

Teeteto — Certo

Estrangeiro — Muito bem. Não consideras como contrários movimento e repouso?

Teeteto — Como não?

Estrangeiro — No entanto, afirmas que os dois e cada um deles existem?

Teeteto — Afirmo, sem dúvida.

Estrangeiro — Quer dizer: aceitas que ambos e cada um em particular se movem quando lhes atribuis existência?

Teeteto — Isso, não.

Estrangeiro — Então achas que estão em repouso quando declaras que ambos existem?

Teeteto – De que forma?

Estrangeiro — Sendo assim, concebes na alma o ser como um terceiro elemento acrescentado àqueles, por incluíres nele repouso e movimento. Foi levando em consideração sua comunhão com o ser, que concluíste pela existência dos dois.

Teeteto — É bem possível que aceitemos o ser como um terceiro elemento, quando dizemos que o movimento e o repouso existem.

Estrangeiro — Então, o ser não será a combinação de movimento e repouso, porém algo diferente de ambos.

Teeteto — Parece.

Estrangeiro — Logo, por coerência com sua própria natureza, o ser não está nem em repouso nem em movimento.

Teeteto — É possível.

Estrangeiro — Para que lado, então, terá de volver o pensamento quem quiser adquirir noções precisas a respeito do ser?

Teeteto — Para qual se voltará?

Estrangeiro — Não me parece fácil decidir, porque se alguma coisa não se move, como [250d] não há de estar em repouso? E o que não repousa de maneira nenhuma, como não estar em movimento? Porém o ser se nos revelou como alheio a esses dois estados. Mas, será possível semelhante coisa?

Teeteto — É absolutamente impossível.

Estrangeiro — Sobre isso há uma particularidade que fora justo recordar.

Teeteto — Qual é?

Estrangeiro — Quando nos perguntaram a que poderíamos aplicar a expressão Não-ser, vimo-nos em grande perplexidade, lembras-te?

Teeteto — Como não?

Estrangeiro — E agora, será menor a dificuldade a respeito [250e] do ser?

Teeteto — Sinceramente, Estrangeiro, me parece que a presente dificuldade é muito maior.