XXXIII — Estrangeiro — [246] Estamos longe de ter esgotado o número dos pensadores meticulosos que se ocuparam com a questão do ser e do não-ser, porém o que já vimos é suficiente. Precisamos agora considerar os que defendem outras doutrinas para, no final de contas convencermo-nos de que a natureza do ser não é absolutamente mais [246a] fácil de compreender do que a do não-ser.
Teeteto — Então, passemos também a examiná-los.
Estrangeiro — Dão-nos a impressão de que todos estão travados numa luta de gigantes, tal é sua discordância a respeito do ser.
Teeteto — Como assim?
Estrangeiro — Uns puxam para a terra tudo o que do céu e do domínio do invisível, tomando nas mãos literalmente, rochas e carvalhos, pois é em tais coisas que se aferram, com afirmarem obstinadamente que só existe o que oferece resistência e que, de algum modo se pode pegar. Definem o corpo e o ser como idênticos, [246b] e se alguém do outro bando assevera que há seres sem corpo, não lhe concedem a mínima atenção e interrompem nesse ponto o diálogo.
Teeteto — É uma gente inconversável, realmente; vi muitos tipos assim.
Estrangeiro — Por isso mesmo, os que contestam suas proposições se defendem cautelosamente do alto de alguma região invisível, forçando-os a admitir que a verdadeira essência consiste em certas idéias inteligíveis e incorpóreas. Quanto aos corpos, segundo os adversários e o que eles denominam verdade reduzem-nos [246c] a pedacinhos com seus argumentos, e em lugar de essência lhes concedem apenas geração e movimento. Entre esses dois campos, Teeteto, a luta é encarniçada e ininterrupta.
Teeteto — É muito certo.
Estrangeiro — Perguntemos, então, a esses dois partidos, um por vez, o que eles entendem por essência.
Teeteto — E como arrancaremos deles tal explicação?
Estrangeiro — Dos que a fazem consistir de idéias, talvez o consigamos facilmente, por serem, de algum modo, mais tratáveis; porém dos que de viva força reduzem tudo [246d] a corpo, será muito mais difícil, senão mesmo impossível. Porém acho que com esses tais devemos proceder do seguinte modo.
Teeteto — Como será?
Estrangeiro — O melhor jeito, no caso de haver algum, é deixá-los realmente melhores. Porém se tal coisa for inexeqüível, admitamos, pelo menos em nosso discurso, que eles condescendem em responder com um pouco mais de cortesia. É de mais valia o assentimento de homens de bem, que não o de indivíduos sem préstimo. Aliás, o que importa não são as pessoas, mas apenas a verdade.
Teeteto — É muito certo.
XXXIV — Estrangeiro — Então, pede que te respondam os que se tornaram melhores, e atua como intérprete no que expuserem.
Teeteto — Sim, façamos isso mesmo.
Estrangeiro — Declarem, pois, se admitem que animal mortal é alguma coisa.
Teeteto — E por que não admitir?
Estrangeiro — E estarão de acordo em que seja um corpo dotado de alma?
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E a alma, eles incluem na categoria dos seres?