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O Sofista

Platão · Parte 233.241

Estrangeiro — [241] A esse modo, deve ser considerada falsa a proposição [241a] que afirma a existência do não-ser ou a não-existência do ser.

Teeteto – Realmente; pois, de que maneira chegaria a ser falsa?

Estrangeiro — Não há jeito. Mas isso é o que o sofista não quer admitir. E como o admitiria qualquer pessoa de bom senso, se antes concordou que semelhante asserção não pode ser expressa nem falada nem descrita nem pensada? Será que compreendemos, Teeteto, o que ele quer dizer?

Teeteto — Como não compreender, se ele declara que nós dissemos o contrário do que afirmamos antes, quando tivemos o ousio de proclamar que há erros nas opiniões e [241b] nos discursos? Vimo-nos obrigados um sem número de vezes a ligar o ser ao não-ser, em que tivéssemos acabado de declarar ser isso de todo em todo impossível.

XXIX — Estrangeiro — Bem lembrado. Porém passemos a considerar o que será preciso fazer com o sofista. Se insistirmos em procurá-lo na classe dos falsos obreiros e charlatães, bem vês como as dificuldades e as objeções nos surgem aos montes.

Teeteto — Sem dúvida; em grande quantidade, mesmo.

Estrangeiro — E note-se que só nos ocupamos com uma parte mínima, [241c] porque elas são, a bem dizer, infinitas.

Teeteto — Se é assim, nunca apanharemos o sofista.

Estrangeiro — Como! Vamos desistir do nosso propósito, só por comodidade?

Teeteto — Não por minha causa, enquanto houver um pingo de possibilidade de segurar nosso homem.

Estrangeiro — Pelo que declaraste agora mesmo, mostrar-te-ás indulgente, e até satisfeito, se conseguirmos afrouxar um pouquinho a pressão desse argumento tão obstinado?

Teeteto — Como não mostrar-me?

Estrangeiro — Porém ainda quero fazer-te outro pedido.

Teeteto — Qual será?

Estrangeiro — Não me teres na conta de parricida.

Teeteto — Como assim?

Estrangeiro — Por nos vermos forçados, para defender-nos, a pôr à prova a tese de nosso pai Parmênides e arrancar a conclusão de que, seja como for, o não-ser existe, e que o ser, por sua vez, de algum modo não existe.

Teeteto — Evidentemente, essa é a tese que precisamos debater em nossa discussão.

Estrangeiro — Sim, até um cego, por assim dizer, fora capaz de enxergar isso, pois, [241e] a menos que a aceite ou a refute, ninguém poderá falar de discursos ou opiniões falsas, ou de simulacros e de imagens, de imitações e de aparências, nem das respectivas artes, sem cometer o ridículo de cair nas mais grosseiras contradições.

Teeteto — É muito certo o que dizes.