Estrangeiro — É que semelhante proposição se atreve a afirmar a existência do não-ser, sem o que o falso também não existiria. Parmênides, o grande, meu filho, desde o nosso tempo de criança e enquanto viveu [237b] protestou contra essa doutrina, repetindo sempre, tanto em prosa corrente como em verso:
Nunca , falou, chegarás a entender que o não-ser possa ser. A alma conserva afastada de tais reflexões.
Aí tens seu testamento. Porém o mais certo será submeter a sentença à prova adequada. É o que teremos de ver desde já, se não te ocorrer alguma objeção.
Teeteto — Comigo não te preocupes. Pensa apenas na melhor maneira de conduzir o discurso, que eu acompanharei de perto tuas pegadas.
XXV — Estrangeiro — Sem intenção de brigar nem de pilheriar, mas se algum [237c] dos ouvintes se visse na contingência de refletir a que se deve aplicar a expressão Não-ser, teremos de acreditar que ele saberia indicar o objeto adequado e mostrá-lo ao seu interlocutor?
Teeteto — Para um espírito como o meu, trata-se de uma pergunta difícil e quase impossível de responder.
Estrangeiro — Porém uma coisa é certa: que não podemos atribuir o não-ser a nenhum ser.
Teeteto — Como fora possível?
Estrangeiro — E se não podemos atribuí-lo ao ser, também não poderemos relacioná-lo com coisa alguma.
Teeteto — Como assim?
Estrangeiro — É evidente para todos nós, que ao empregarmos a expressão Alguma coisa, sempre nos referimos a um ser, pois seu emprego isolado e, por assim dizer, nu e despido de todo o ser, é absolutamente impossível. Ou não?
Teeteto — Impossível.
Estrangeiro — Tua anuência implica reconhecer que sempre que alguém diz alguma coisa, refere-se a um determinado objeto?
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Alguma coisa, dirás, é expressão de unidade, como Ambas as coisas, a de dual, e Várias coisas, a de objetos no plural.
Teeteto — Exato.
Estrangeiro — Porém, ao que parece, quem não diz alguma coisa, por força não dirá nada.
Teeteto — Sim, de toda a necessidade.
Estrangeiro — Então, nem mesmo devemos conceder que semelhante indivíduo fale, porém não diga nada. Não; o certo será dizer que ele não fala quando se dispõe a enunciar o não-ser.
Teeteto — Seria a única maneira de solucionar essa questão intricada.