Antilogia a Antilogia Sofística — 231b-233d
XVIII — Estrangeiro — [231] E então? E os que praticam semelhante arte, como os denominaremos? Eu, de [231a] mim, tenho medo de considerá-los sofistas.
Teeteto — Por quê?
Estrangeiro — Para não lhes conferir demasiada honra.
Teeteto — Mas a descrição se parece maravilhosamente com eles.
Estrangeiro — Como o lobo se parece com o cão, o animal mais selvagem com o mais manso. Quem é precavido emprega com cautela semelhantes comparações; é gênero escorregadio. Mas, que fique. Quero crer que não suscitaremos conflitos por pequena diferença de palavras, se sempre [231b] os mantivermos sob vigilância severa.
Teeteto — Com toda a probabilidade.
Estrangeiro — Destaquemos, então, da arte de se parar a de purificar; da de purificar, a parte que se relaciona com a alma; desta a do ensino, e da do ensino a arte da educação. Na arte da educação, conforme já vimos de relance, a refutação das vãs ostentações de sabedoria nada mais é do que a sofística de nobre nascimento.
Teeteto — Façamos isso mesmo. Mas, em virtude de já se nos ter ela apresentado sob tantos aspectos, confesso-me [231c] em dificuldade para formular com verdade e segurança a definição certa do sofista.
Estrangeiro — Compreendo que te encontres em dificuldade. Mas teremos de admitir que ele, também, não estará menos atrapalhado para achar maneira de escapar de nossa argumentação. E muito certo o ditado: Não é fácil fugir de tudo. Por isso, apertemo-lo até o fim.
Teeteto — Falaste bem.
XIX — Estrangeiro — Inicialmente, aproveitemos esta pausa para tomar fôlego, e enquanto descansamos, cá entre nós façamos a [231d] conta das formas sob que o sofista já nos apareceu. Se mal não me lembro, de início achamos que ele era um caçador que sabia cobrar seus serviços para pegar moços ricos.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Em segundo lugar, mercador de conhecimentos para a alma.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E em terceiro, não se nos revelou retalhista desses mesmos conhecimentos?
Teeteto — Sim; e em quarto, fabricante dos conhecimentos que ele próprio vende.
Estrangeiro — Tens boa memória. A quinta fica a meu cargo definir: uma espécie de atleta nos [231e] certames da palavra e por demais habilidoso na arte das disputas.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — A sexta forma suscitou discussões; não obstante, concordamos em atribuir-lhe o papel de purificador das opiniões que na alma servem de obstáculo para o conhecimento.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — [232] Ainda não percebeste que o indivíduo versado em diferentes conhecimentos, sempre que é designado profissionalmente pelo nome de uma única arte não nos proporciona uma imagem sadia? É evidente que quem faz tal idéia de determinada arte é incapaz de distinguir nela o ponto de convergência daqueles conhecimentos. Essa a razão de ser ele designado por muitos nomes, não apenas por um.
Teeteto — É bem provável que tudo se passe como disseste.
XX — Estrangeiro — Acautelemo-nos para que não nos aconteça a mesma coisa, por falta de diligência em nossa investigação. Voltemos, pois, para o começo e recapitulemos o que ficou dito a respeito do sofista. Uma particularidade me parece designá-lo à maravilha.
Teeteto — Qual é?
Estrangeiro — Se estou bem lembrado, dissemos que era disputador.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — E então? E também não afirmamos que ele ensinava a outras pessoas essa mesma arte?
Teeteto — Afirmamos.
Estrangeiro — Determinemos, então, em que essa gente se considera competente para ensinar aos outros é arte de disputar. De início, orientemos nosso exame da seguinte [232c] maneira: será acerca das coisas divinas de modo geral, ocultas aos homens, que eles comunicam a seus discípulos a capacidade de discutir?
Teeteto — Pelo menos, é o que todos dizem.
Estrangeiro — E também acerca de tudo o que vemos na terra e no céu e de quanto em ambos se contém.
Teeteto — Por que não?
Estrangeiro — Mas, em suas reuniões particulares quando discutem problemas gerais da geração e do ser sabemos perfeitamente que são tão fortes na arte de se contradizerem, como capazes de transmitir aos outros essa mesma habilidade.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E a respeito de leis e dos negócio públicos, não se comprometem a fazer dos outros bons disputadores?
Teeteto — Ninguém, por assim dizer, os procuraria, se da parte deles não houvesse tal promessa.
Estrangeiro — No que entende com as artes em geral e com cada uma em particular, todas as objeções a que os respectivos profissionais precisarão responder foram redigidas em forma popular e se encontram ao alcance de quem quiser estudá-las.
Teeteto — Quer parecer-me que te referes aos escritos de Protágoras sobre [232e] a luta e outras artes que tais.
Estrangeiro — Isso mesmo, varão felicíssimo, e a muitas outras coisas mais. E sua arte de contradizer, não se te afigura, em resumo, uma faculdade capaz de discutir todos os assuntos?
Teeteto — Parece, mesmo, que pouquíssima coisa lhe escapa.
Estrangeiro — Mas, pelos deuses, menino, achas possível semelhante coisa? Talvez vossos olhos de moço distingam com nitidez o que para os nossos é confuso.
Teeteto — [233] A que te referes, e qual a razão de te manifestares desse modo? Não apanho bem o sentido da questão.