O Sofista
Platão
O Sofista de Platão
I — Teodoro — [216] Fiéis, Sócrates, à nossa combinação de ontem, aqui estamos na melhor ordem. Trouxemos conosco este Estrangeiro, natural de Eléia; é amigo dos discípulos de Parmênides e de Zenão, e filósofo de grande merecimento.
Sócrates — Não se dará o caso, Teodoro, de, sem o saberes, teres trazido um dos deuses em vez de um [216b] Estrangeiro, segundo aquilo de Homero, quando diz que, de regra, os deuses, e particularmente o que preside à hospitalidade, acompanham os cultores da justiça, para observarem o orgulho ou a eqüidade dos homens? Quem sabe se não veio contigo uma dessas divindades, para surpreender-nos e refutar-nos — argumentadores tão fracos todos nós — algum deus disputador?
Teodoro — Não, Sócrates; não é do caráter do nosso Estrangeiro; ele é mais modesto do que todos esses amantes de discussões. Não acho, absolutamente, que o homem seja alguma divindade. Porém divino [216c] terá de ser, sem dúvida; não é outro o qualificativo que costumo dar aos filósofos.
Sócrates — E com razão, amigo. Porém talvez a raça dos filósofos não seja, por assim dizer, muito mais fácil de conhecer do que a dos deuses. Em virtude da ignorância da maioria, esses varões percorrem as cidades sob as mais variadas aparências, contemplando, sobranceiros, a vida cá de baixo. Não me refiro aos pretensos filósofos, porém aos de verdade. Aos olhos de algumas pessoas, eles carecem em absoluto de merecimento; para outros, são dignos de toda a consideração. Ora se apresentam como [216d] políticos, ora como sofistas, havendo, até, quem dê a impressão de ser completamente louco. Por isso mesmo, gostaria de perguntar ao nosso Estrangeiro, caso nada tenha a opor, como pensam a esse respeito lá por suas [217] bandas [217a] e como os denominam.
Teodoro — A que te referes?
Sócrates — Sofista, político, filósofo.
Teodoro — Mas, ao certo, de que se trata, que te deixa tão alvoroçado, para interrogá-lo desse modo?
Sócrates — É o seguinte: desejo saber se seus compatriotas os classificam num só gênero ou em dois; ou ainda, visto tratar-se de três nomes, se atribuem um gênero diferente para cada nome?
Teodoro — A meu ver, ele não se esquivará de elucidar-nos esse ponto. Ou que diremos, Estrangeiro?
Estrangeiro — Isso mesmo, Teodoro. Não me negarei, absolutamente, nem há dificuldade em dizer que os distribuem em três gêneros. Porém definir com exatidão o que venha a ser cada um, não é tarefa pequena nem fácil.
Teodoro — Nem de propósito, Sócrates; sugeres um tema assaz parecido com o assunto sobre que o interrogamos pouco antes de virmos para cá. Suas desculpas de agora são em tudo iguais às que nos apresentou, conquanto admitisse que sobre isso já ouvira muitas discussões e que nada havia esquecido de quanto conversara.
II — Sócrates — Sendo assim, Estrangeiro, não te es[cuse]s * de satisfazer ao nosso primeiro pedido. Diz-nos apenas se, por uma questão de hábito, preferes desenvolver num discurso corrido o tema que te propões apresentar, ou seguir o método de perguntas, a exemplo do outrora fez Parmênides na minha presença? Foi uma discussão memorável; nesse tempo, eu era muito moço e ele já de idade avançada.
Estrangeiro — Quando se acha, Sócrates, um interlocutor [217d] dócil e complacente, é mais agradável o diálogo; não sendo isso possível, será melhor falar apenas um.
Sócrates — Depende de ti convidar dentre os presentes quem te aprouver; todos te ouvirão de muito bom grado. Porém se me aceitares um conselho, sugiro escolheres um dos jovens, Teeteto, por exemplo, ou quem julgares mais indicado.
Estrangeiro — Sinto-me acanhado, Sócrates, por ser a primeira vez que falo convosco, de medo de não poder sustentar um diálogo de períodos curtos, em que os interlocutores se alternem, e de alongar-me numa fala estirada como em solilóquio, ou então conversar com [217e] meu parceiro como se estivesse nalguma exibição pública. A verdade é que, formulada nesses termos, semelhante questão não exige resposta concisa, porém mui longa explanação. Por outro lado, esquivar-me a tão amável convite, teu e dos demais presentes, máxime depois do que disseste, seria revelar rusticidade de todo em todo destoante do vosso bom [218a] acolhimento. Folgo imenso por ter Teeteto como companheiro nesse diálogo, tanto mais que já conversamos antes e tu agora o recomendas.
Teeteto — Resta saber, Estrangeiro, se essa escolha será do agrado de todos, como Sócrates imagina.
Estrangeiro — A meu ver, Teeteto, a esse respeito já não há o que discutir. Daqui por diante, como parece, contigo é que terei de dialogar; se te for molesto o tamanho do meu discurso, não te queixes a mim, senão de teus próprios camaradas.
Teeteto — Não creio que possas fatigar-me; porém se tal acontecer, chamarei em meu auxilio este outro Sócrates, homônimo de Sócrates, meu coetâneo e companheiro de ginásio; já estamos habituados a trabalhar juntos.
III — Estrangeiro — Belas palavras; porém sobre isso tu mesmo resolverás no decorrer de nossa discussão. No momento, o que importa é te associares comigo para darmos início ao nosso estudo, a começar, segundo penso, pelo sofista; investiguemo-lo [218c] e mostremos com nossa análise o que ele venha a ser. Por enquanto, eu e tu apenas num ponto estamos de acordo: o nome. Mas, quanto à coisa designada por esse nome, talvez cada um de nós faça idéia diferente. Porém em toda discussão o que importa, antes de tudo, é ficar em concordância com relação à própria coisa, por meio da explicação adequada, não apenas a respeito do nome, sem aquela explicação. A tribo dos sofistas que nos dispomos a investigar, não é fácil de definir. Mas para levar a bom termo empresas grandes, segundo preceito antigo de aceitação geral, só será de vantagem experimentar antes as forças em [218d] temas menores e mais fáceis, e só depois passar para os maiores. Por isso, Teeteto, o que na presente situação sugiro para nós dois, já que reconhecemos ser difícil e trabalhosa a raça dos sofistas, é nos exercitarmos primeiro nalgum tema simples, a menos que te ocorra indicar um caminho mais cômodo.
Teeteto – Não; nada me ocorre nesse sentido.
Estrangeiro — Concordas, então, em escolhermos um exemplo singelo e apresentá-lo como modelo para o maior?
Teeteto — Concordo.
Estrangeiro — Que assunto, pois, escolheremos, simples, a um tempo, e fácil de conhecer, mas cuja explicação não exija menor número de características do que temas importantes? O do pescador, talvez? Não é assunto bastante conhecido e não nos merece a maior atenção?
Teeteto – [219] Isso mesmo. [219a]
Estrangeiro – Espero que nos aponte o caminho procurado e propicie a definição mais condizente com o nosso intento.
Teeteto – Seria ótimo.
IV — Estrangeiro — Pois então comecemos por aí. Dizei-me uma coisa: como devemos concebê-lo: é artista ou sujeito carecente de arte, porém dotado de alguma outra capacidade?
Teeteto – De jeito nenhum poderá ser carecente de arte.
Estrangeiro – Mas todas as artes se reduzem a duas espécies.
Teeteto – Como assim?
Estrangeiro – A agricultura e tudo o que trata do corpo mortal; depois, tudo o que se relaciona com os objetos compostos e manipulados, a que damos [219b] o nome de utensílios; e, por último, a imitação: não será justo designar tudo isso por um único nome?
Teeteto – Como assim, e que nome será?
Estrangeiro – Damos o nome de produtor a quem traz para a existência o que antes não existia, como denominamos produto o que passa a existir em cada caso particular.
Teeteto – Certo.
Estrangeiro – Então, designemos tudo aquilo por um nome único: serão as artes produtivas.
Teeteto – Seja.
Estrangeiro – Depois dessas, vem a classe inteira das artes da aprendizagem e do conhecimento, as do ganho, a da luta e a da caça, as quais nada fabricam, mas que, por meio da palavra ou da ação, procuram apropriar-se do que existe ou foi produzido, ou impedir que outros se apropriem. O nome genérico mais indicado para todas essas atividades seria o de arte aquisitiva.
Teeteto – Sem dúvida.
V — Estrangeiro – Ora, uma vez que todas as artes ou são criadora ou [219d] aquisitivas, em que classe, Teeteto, colocaremos a do pescador?
Teeteto – Na aquisitiva, é claro.
Estrangeiro – Porém não há duas modalidades de aquisição? De um lado, temos a troca, sempre voluntária, por meio de presentes, locação e compra; do outro, tudo o que visa à captura por meio da ação ou da palavra: a arte da captura.
Teeteto – Ë o que se conclui do que acabaste de expor.
Estrangeiro – E então? Captura, por sua vez, não pode se subdividida?
Teeteto – De que jeito?
Estrangeiro – Classificando no gênero da luta tudo o que é feito a descoberto, [219e] e no da caça o que for a ocultas.
Teeteto – Bem.
Estrangeiro — Porém seria ilógico não dividir também em dois a arte venatória.
Teeteto – Então, explica o modo.
Estrangeiro – De um lado, a caça de objetos sem vida, e, do outro, a dos seres animados.
Teeteto – E por que não dividirmos assim mesmo, se ambos existem?
Estrangeiro – [220] Existem, não há dúvidas. Para a classe dos inanimados não há nome específico, se não for apenas a parte que entende com a arte de mergulhar e outras igualmente insignificantes, que deixaremos de lado; mas para a dos seres animados, referente à caça a animais vivos, reservaremos o nome de caça animal.
Teeteto – Vá que seja.
Estrangeiro — E relativamente à caça animal, seria lícito distinguir duas subclasses: de um lado, a dos animais que andam na terra, subdividida em muitas espécies, cada uma delas com seu nome particular, a que daremos a denominação genérica de caça aos animais marchadores, e, do outro, a que compreende os nadadores?
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — No gênero dos nadadores temos, ainda, a tribo dos voláteis e a dos aquáticos.
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Ao conjunto da caça referente gênero dos voláteis dá-se o nome de caça aos pássaros, não é isso mesmo?
Teeteto — É como, realmente; a denominam.
Estrangeiro — E à caça de quase todos os animais que vivem n’agua dá-se o nome de pescaria.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — E então? Essa última caça, por sua vez, não poderia ser separada em duas grandes secções?
Teeteto — Quais serão?
Estrangeiro — A caça realizada por meio de cercados e a que consiste no golpeamento da vítima.
Teeteto — Que queres dizer com isso e em que se diferençam?
Estrangeiro — Na primeira, tudo o que retém envolve a caça, para impedir [220c] que fuja, chama-se naturalmente cercado.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Covos, redes, laços, cestas e outros engenhos do mesmo tipo, que denominação mais certa lhes daremos, se não for a de cercados?
Teeteto — Não há outra.
Estrangeiro — Então, a essa modalidade de caça daremos o nome de caça por cerco ou coisa parecida.
Teeteto — Exato.
Estrangeiro — A outra, feita por meio de golpes de anzol ou de tridente, para ser englobada num só nome poderá ser denominada caça vulnerante, [220d] a menos, Teeteto, que sugerisses algum nome mais adequado.
Teeteto — Não façamos questão de nomes; esse mesmo está bom.
Estrangeiro — A caça vulnerante apresenta ainda a variedade noturna, feita ao clarão de archotes. Os caçadores a denominam caça ao fogo.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — A realizada de dia, pelo fato de serem os tridentes munidos de fisgas nas extremidades, é chamada pesca de fisga.
Teeteto — Esse é, de fato o nome que lhe dão.
VI — Estrangeiro — A pesca de fisga, quando praticada de cima para baixo, dá-se o nome de pesca de tridente, por ser esse o instrumento usualmente empregado.
Teeteto — Há quem a denomine desse modo.
Estrangeiro — Tudo o mais se inclui numa só espécie.
Teeteto — Qual será?
Estrangeiro — [221] A que vulnera em sentido inverso da precedente, com o recurso do anzol e não fere o peixe em qualquer parte do corpo, como o faz o tridente, porém sempre na [221a] cabeça e na boca, e o puxa de baixo para cima — o contrário, justamente, do processo anterior — com a ajuda de varas e caniços. A essa modalidade de pesca, Teeteto, que denominação daremos?
Teeteto — Ao que parece, trata-se, precisamente, da que nos propusemos descobrir e que, de fato, descobrimos.
VII — Estrangeiro — Desse modo, no que respeita à arte da [221b] pesca, eu e tu chegamos a um completo acordo, e não apenas quanto ao nome, pois demos uma explicação cabal da própria coisa. Vimos, em verdade, que metade da arte em geral é aquisição; metade da aquisição é captura; metade da captura é caça, cuja metade, por sua vez, é caça aos animais, com uma das metades reservada, à caça aos animais aquáticos. A secção inferior dessa porção é inteiramente dedicada à pesca; a porção inferior da pesca consiste na pesca vulnerante, e a desta, na pesca por fisga. Esta modalidade de pesca, a que apanha a vítima e a puxa de baixo para cima, tira a denominação [221c] do próprio ato da tração da linha naquele sentido, de onde vem ser chamada aspaliêutica.
Teeteto — Em tudo é perfeita a explicação apresentada.
VIII — Estrangeiro — Pois então, de acordo com esse modelo, procuremos descobrir o que venha a ser sofista.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — A primeira questão levantada com respeito ao pescador com anzol, foi a de saber se ele deve ser tido na conta de ignorante no seu mister ou na de artista.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — E agora, Teeteto, com referência ao nosso homem, [221d] apresentamo-lo como ignorante ou como sofista, no sentido lato da expressão?
Teeteto — Ignorante, de jeito nenhum. Compreendo o que queres dizer: quem se adorna com aquele nome, terá de honrá-lo em toda a linha.
Estrangeiro — Sendo assim, precisaremos admitir que ele domina alguma arte.
Teeteto — E qual poderá ser?
Estrangeiro — Oh! Pelos deuses! Passou-nos despercebido que este aqui é aparentado do outro.
Teeteto — Este, qual? E de quem é parente?
Estrangeiro — O pescador de anzol; parente do sofista.
Teeteto — Como assim?
Estrangeiro — Acho que ambos são caçadores.
Teeteto — Que caça este agora persegue? Pois do pescador já falamos.
Estrangeiro — Não dividimos em duas secções a caça em geral: a dos seres que nadam e a dos que marcham?
Teeteto — Dividimos.
Estrangeiro — Na primeira, apontamos todas as espécies de animais nadantes; os que andam sobre a terra não subdividimos, contentando-nos com dizer que apresentam inúmeras formas.
Teeteto — [222] Perfeitamente.
Estrangeiro — Até aqui, por conseguinte, o sofista e o pescador de linha trilham a mesma estrada, a da arte aquisitiva.
Teeteto — Pelo menos, é o que parece.
Estrangeiro — Porém separam-se a partir da caça aos animais: o primeiro, em direção do mar, dos rios e dos lagos, em busca dos animais que aí vivem.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — O outro procura a terra e correntes de vária natureza: rios de riqueza e prados pululantes de jovens, a fim de prear as criaturas aí existentes.
Teeteto — Que queres dizer com isso?
Estrangeiro — A caça dos marchadores compreende duas grandes divisões.
Teeteto — Quais são?
Estrangeiro — A dos animais domesticados e a dos selvagens.
IX — Teeteto — Como! Há também caça aos animais domesticados?
Estrangeiro — Sem dúvida, no caso de incluirmos o homem na classe desses animais. Formula a hipótese que te aprouver: ou não há animal domesticado ou há, real mente, mas o homem é selvagem; ou então, se consideras o homem um animal domesticado, não admites que possa haver caça ao homem. Declara qual dessas hipóteses é mais do teu agrado.
Teeteto — Nesse caso, Estrangeiro, sou levado a admitir que somos animais domesticados e declaro que há, rea1mente, uma caça ao homem.
Estrangeiro — Então, assentemos, desde já, que também é dupla a caça aos animais domesticados.
Teeteto — Em que apóias tua proposição?
Estrangeiro — Definamos a pirataria., o tráfico de escravos, a tirania e a arte bélica em geral como pertencentes à caça violenta.
Teeteto — Ótimo.
Estrangeiro — Os discursos do foro, das assembléias populares, a arte da conversação, englobaremos numa só classe, a que [222d] daremos o nome de arte da persuasão.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — Declaremos, ainda, que a arte da persuasão comporta dois gêneros.
Teeteto — Quais serão?
Estrangeiro — Uma caça é particular, e a outra, pública.
Teeteto — São dois, realmente, os gêneros.
Estrangeiro — E na caça aos particulares, uma parte não é feita mediante salário, e outra por meio de presentes?
Teeteto — Não compreendo.
Estrangeiro — Pelo que vejo, ainda não atentaste na caça aos amantes.
Teeteto — De que jeito?
Estrangeiro — É que, além de apanharem a presa, cumulam-na de presentes.
Teeteto — É muito certo o que dizes.
Estrangeiro — Demos, pois, a essa espécie o nome de arte de amar.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — [223] Porém da arte com base no salário, a modalidade que se manifesta nas conversas, com o simples fito de agradar, e que só usa o prazer como isca, sem nada mais exigir para sua subsistência, acho que todos nós concordaríamos [223a] em qualificá-la como aduladora ou simplesmente arte recreativa.
Teeteto — Sem dúvida nenhuma.
Estrangeiro — E a modalidade que promete ensinar a virtude por meio da conversação e que se faz pagar em espécie, não merecerá, como gênero à parte, denominação especial?
Teeteto — Como não!
Estrangeiro — E que nome há de ser? Não te disporás a achá-lo?
Teeteto — E muito fácil. Acho que encontramos o sofista. Designando-o desse modo, penso atribuir-lhe o nome mais acertado.
X — Estrangeiro — Assim, Teeteto, de acordo com presente exposição, parece que essa parte da arte priativa, em sua variedade aquisitiva, de caça, de aos animais, aos animais vivos, aos de terra, aos domésticos, ao homem, ao cidadão particular, com imposição de salário e em troco de dinheiro, aparentemente instrutiva, a caça que visa a apanhar mancebos ricos e de famílias ilustres, conforme indica a presente exposição, deverá ser denominada sofística.
Teeteto — Exato.
Estrangeiro — Consideremos também o seguinte, pois o que procuramos não participa de uma arte [223c] simples, senão de múltiplas facetas. De tudo o que expusemos até agora, só nos surgiu um simulacro, como se o sofista não fosse o que acabamos de dizer, mas pertencesse a gênero diferente.
Teeteto — Como assim?
Estrangeiro — A arte aquisitiva compreende duas espécies: uma, na base de donativos, e a outra na de compra e venda.
Teeteto — Sim, digamos isso mesmo.
Estrangeiro — Acrescentemos, ainda, que esta última, a de compra e venda, é também dupla.
Teeteto — De que jeito?
Estrangeiro — Uma parte consiste na venda direta da produção; a outra é a troca de produtos de origem diferente.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E então? As trocas efetivadas na cidade e que abrangem quase metade dessas transações, não constituem a atividade própria dos varejistas?
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — E a outra modalidade, de trocas efetuadas entre cidades diferentes, por meio de compra e venda, não define à justa os mercadores?
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Porém já não observamos que no comércio [223e] há uma parte em que se vende e compra, e que serve para uso e alimento do corpo, e outra para uso da alma?
Teeteto — Que queres dizer com isso?
Estrangeiro — Talvez ignoremos a que diz respeito à alma, pelo fato de conhecermos muito bem a outra.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — [224] Declaremos, então, que a arte da música em geral, sempre que é levada de cidade em cidade, comprada aqui, transportada e vendida acolá; a, pintura, a arte da prestidigitação e muitas outras que se relacionam com a alma e são transportadas e vendidas ora como simples meio de deleitação, ora para fins mais sérios, conferem aos que as compram e vendem, com o mesmo direito com que o faz o comércio de alimentos e de bebidas, o nome de negociantes.
Teeteto — Nada mais certo.
Estrangeiro — E a quem vai de cidade em cidade, e compra conhecimento por atacado, para trocá-lo por dinheiro, não designarás pelo mesmo nome?
Teeteto — Com toda a segurança.
XI — Estrangeiro — E a uma parte desse comércio de mercadorias da alma, não caberia, com justiça, a denominação de ostentação, como a outra, não menos risível do que a primeira e que também vende conhecimentos, não precisará ser designada por algum nome relacionado com sua atividade?
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Sendo assim, daremos um nome à secção [224c] desse comércio de conhecimentos que entende com o conhecimento das outras artes, e nome diferente à que se ocupa com a virtude?
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Tráfico de artes é a designação mais indicada para a primeira; quanto à outra, procura tu mesmo nomeá-la.
Teeteto — E por que nome poderíamos defini-la sem perigo de errar, se não for justamente pelo que procuramos, o gênero sofístico?
Estrangeiro — Não há outro. Então, resumamos tudo isso, para dizer que, pela segunda vez, a sofística se nos revelou como a parte da aquisição, da troca, do comércio, [224d] do tráfico, do negócio de mercadorias da alma relativo aos discursos, aos conhecimentos e à virtude política.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — O terceiro seria, segundo creio, o de quem se estabelecesse na cidade com o intuito de viver da venda de conhecimentos desses objetos por ele mesmo fabricados ou comprados. Estou que não lhe aplicarias denominação diferente da que empregaste há pouco.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — Assim, a essa parte da arte aquisitiva que se exerce por troca e consiste [224e] na revenda a varejo ou na venda de seus próprios produtos, de qualquer forma, uma vez que esse comércio diz respeito ao gênero de conhecimentos de que já falamos, darás sempre, como parece, o nome de sofística.
Teeteto — Forçosamente; não posso perder de vista as pegadas do argumento.
XII — Estrangeiro — Vejamos agora se o gênero por nós procurado não tem alguma semelhança com tudo isso.
Teeteto — [225] Semelhança, de que jeito?
Estrangeiro — Já vimos que a disposição para a luta constitui uma das condições da arte aquisitiva.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — Então, não será fora de propósito dividi-la em duas partes.
Teeteto — Declaremos logo quais sejam.
Estrangeiro — Uma é competição; a outra, pugna.
Teeteto — Exato.
Estrangeiro — A parte da luta que se exerce corpo a corpo, pode ser natural e convenientemente aplicado o qualificativo de violenta.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — E a que consiste no entrechoque de discursos, que nome [225b] lhe daremos, Teeteto, se não for o de controvérsia?
Teeteto — Não há outro.
Estrangeiro — Mas o gênero da controvérsia terá, por sua vez, de ser subdividido.
Teeteto — De que maneira?
Estrangeiro — Quando o debate consta de digressões a respeito do justo e do injusto, recebe o qualificativo de forense ou judicial.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — Porém quando é realizado entre particulares e cortado em pedacinhos, por meio de perguntas e respostas, não temos o costume de dar-lhe o nome de contenda?
Teeteto — Não há outro.
Estrangeiro — E na contenda, a parte que consiste na [225c] mera discussão sobre contratos, sem método nem regras de arte, deve ser considerada espécie diferente, já que nossa argumentação a reconhece como tal, muito embora os antigos não lhe tenham aplicado nome, nem mereça, agora, que lhe reservemos designação especial.
Teeteto — É muito certo, pois está subdividida em pequeninas e variadas partes.
Estrangeiro — E a que é feita com arte, acerca do justo e do injusto, e de outros assuntos gerais, não temos por hábito denominar erística?
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Mas há uma erística que sabe ganhar dinheiro, e outra que o dissipa.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Tentemos, agora, encontrar a designação adequada para cada uma.
Teeteto — Sim, façamos isso mesmo.
Estrangeiro — Para mim, a disputa levada a cabo como simples jogo verbal e com negligência dos interesses próprios, em estilo nada agradável para a maioria dos ouvintes, na minha maneira de pensar só merece o de verbosidade.
Teeteto — É realmente como a denominam.
Estrangeiro — Por outro lado, a que junta dinheiro com discussões particulares, procura tu mesmo, agora, o nome que lhe convém.
Teeteto — Que se poderia dizer sem perigo de errar, a não ser que, pela quarta vez, nos apareceu aquele tipo estupendo, em cujo encalce nos achamos: o sofista?
A Purificação - 226b-231b
Estrangeiro — [226] Isso mesmo. Conforme já vimos, é do gênero lucrativo, da arte erística, da arte de disputas, das controvérsias, da arte do combate, da arte da luta e do ganho, segundo neste momento provou nossa argumentação, que o sofista provém.
Teeteto — Nada mais verdadeiro.
XIII — Estrangeiro — Como vês, é muito acertado dizer-se que se trata de um animal de múltiplas facetas. Daí, confirmar-se o dito, de que nem tudo se pode pegar só com uma das mãos.
Teeteto — Pois empreguemos duas.
Estrangeiro — Sim, é o que precisaremos fazer, empenhando nisso todos [226b] os nossos recursos, a fim de acompanhar-lhe o rastro. Dize-me o seguinte: não temos designações especiais para determinadas ocupações servis?
Teeteto — Muitas, até; porém, no meio de tantas, a quais particularmente te referes?
Estrangeiro — Penso nas seguintes: coar, peneirar, joeirar, debulhar.
Teeteto — E daí?
Estrangeiro — E também: cardar, fiar, urdir e mil outras de emprego corrente em ocupações congêneres, não é isso mesmo?
Teeteto — Onde queres chegar com tais exemplos e [226c] para que tantas perguntas?
Estrangeiro — De modo geral, todos esses vocábulos exprimem a idéia de separação.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — Ora, de acordo com o meu raciocínio, se uma arte, apenas, abrange todas essas ocupações, teremos de atribuir-lhe um único nome.
Teeteto — E como a denominaremos?
Estrangeiro — Arte de separar.
Teeteto — Que seja.
Estrangeiro — Considera agora se nos será possível distinguir duas espécies.
Teeteto — Impões-me uma tarefa muito rápida.
Estrangeiro — Porém nas distinções por nós feitas, já se tratou da separação entre o pior e o melhor, e também entre semelhante e dessemelhante.
Teeteto — Dita dessa maneira, parece-me bastante clara.
Estrangeiro — Não conheço o nome geralmente aplicado a esta última separação; porém sei o que dão à outra, a que retém o melhor e rejeita o pior.
Teeteto — Dize qual seja.
Estrangeiro — No meu entender, todas as separações desse tipo são geralmente chamadas purificação.
Teeteto — Com efeito; é como as denominam.
Estrangeiro — E todo o mundo não perceberá que há duas espécies de purificação?
Teeteto — Depois de refletir, é possível; eu, pelo menos, não percebo purificação alguma.
XIV — Estrangeiro — Será conveniente abranger numa designação única as diferentes modalidades de purificação do corpo.
Teeteto — Quais são, e como se chamam?
Estrangeiro — [227] Primeiro, as dos seres vivos, que operam no interior do corpo, graças a uma discriminação exata pela ginástica e a medicina, [227a] como a purificação externa, de designação corriqueira, alcançada pela arte do banho; depois, a dos corpos inanimados, que compreende a arte do pisoeiro e a dos adornos em de geral, de infinitas modalidades, cujos nomes são considerados ridículos.
Teeteto — É muito certo.
Estrangeiro — Certo, não, Teeteto: certíssimo. Mas o método argumentativo não dá maior nem menor importância à purificação por meio da esponja do que à obtida com poções medicamentosas, jamais perguntando se os benefícios de uma são mais ou menos [227b] relevantes do que os da outra. Para alcançar o conhecimento é que ela se esforça por observar as afinidades ou dissemelhanças entre as artes, honrando a todas igualmente, e quando chega a compará-las, não conclui que uma seja mais ridícula do que a outra. Não considera, ainda, mais importante quem ilustra a arte da caça com o exemplo do estratego do que com o do matador de pulgas, porém mais pretensioso. Do mesmo modo, agora, no que entende com o nome para designar o conjunto das forças purificadoras dos corpos, quer sejam animados quer não sejam, não se preocupa no mínimo de saber que nome é de aparência mais distinta. [227c] Limitar-se-á a separar a purificação da alma, deixando num único feixe as outras purificações, sem indagar do objeto sobre que se exercem. Seu intento exclusivo consiste nisto, precisamente: separar das demais purificações a que tem por objetivo a alma, se é que compreendemos o seu fim.
Teeteto — Penso que já compreendi, e admito que haja duas espécies de purificação, sendo diferente da do corpo a que se exerce sobre a alma.
Estrangeiro — Ótimo! Agora ouve o que segue e procura partir [227d] ao meio esta última secção.
Teeteto — Sob tua direção, tentarei dividir conforme desejas.
XV — Estrangeiro — A maldade na alma não é algo diferente da virtude?
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — E purificação, não consiste em jogar fora a parte ruim e conservar tudo o mais?
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Sendo assim, todo meio que encontrarmos de expungir a alma de maldade, se lhe dermos o nome de purificação, teremos falado com acerto.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Precisamos admitir que na alma há duas espécies de maldade.
Teeteto — Quais serão?
Estrangeiro — [228] Uma está na alma como a doença está no corpo; a outra como a fealdade.
Teeteto — Não compreendo.
Estrangeiro — Talvez não consideres a doença a mesma coisa que discórdia.
Teeteto — Sobre isso, também, não sei o que deva responder...
Estrangeiro — És de parecer que discórdia não seja a dissolução de elementos aparentados, pela ação de algum dissídio intercorrente?
Teeteto — Não será outra coisa.
Estrangeiro — E fealdade, não será senão defeito de proporção, gênero por demais nocivo à vista?
Teeteto — Sim, terá de ser isso, simplesmente.
Estrangeiro — E então? Já não observamos que na alma dos indivíduos ruins estão sempre em conflito as opiniões e os desejos, a coragem e os prazeres, a razão e as tristezas, e tudo o mais da mesma natureza, em constante oposição?
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — Logo, tudo isso apresenta afinidade recíproca?
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Nesse caso, se designarmos a maldade como doença e discórdia da alma, teremos encontrado o termo exato.
Teeteto — Exatíssimo.
Estrangeiro — Como? Se as coisas que participam do movimento e tendem para determinada meta errarem o alvo e passarem de lado a cada tentativa no propósito de alcançá-la, com diremos que isso acontece: em virtude da simetria existente entre eles ou da assimetria?
Teeteto — Da assimetria, evidentemente.
Estrangeiro — Por outro lado, sabemos muito bem que nenhuma alma ignora voluntariamente seja o que for.
Teeteto — É muito certo.
Estrangeiro — Ora, errar nada mais é do que se desviar do [228d] seu caminho a alma, quando intenta alcançar a verdade, sem passar ao lado dela o entendimento.
Teeteto — Exato.
Estrangeiro — Nesse caso, precisaremos atribuir fealdade e assimetria à alma ignorante.
Teeteto — É claro.
Estrangeiro — Há nela, por conseguinte, como parece, dois gêneros de males: um, designado geralmente como maldade, é, sem dúvida, doença da alma.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — O outro tem o nome de ignorância; mas, por ser o único vício da alma, de regra não a consideram como tal.
Teeteto — Evidentemente, terei de admitir o que a princípio duvidava, quando declaraste haver dois gêneros de maldade na alma, e que a cobardia, a intemperança e a injustiça devem ser englobadamente consideradas como uma doença em nós, e as manifestações da ignorância, tão variadas quanto freqüentes, como deformidade.
XVI — Estrangeiro — E para o caso do corpo, não se formaram duas artes que se ocupam com essas duas afecções?
Teeteto — Quais serão?
Estrangeiro — [229] Para e fealdade, ginástica; para a doença, medicina.
Teeteto — É evidente.
Estrangeiro — E onde há insolência, injustiça e cobardia, não é a correção, dentre todas as artes, a mais de acordo com a justiça?
Teeteto — Com toda a probabilidade; pelo menos, assim pensa a maioria.
Estrangeiro — E então? Para a ignorância em geral, poder-se-ia indicar uma arte mais adequada do que a da instrução?
Teeteto — Não há outra.
Estrangeiro — Senão, vejamos. Com respeito à arte do ensino, [229b] diremos que só há um gênero, ou que há pelo menos dois, e ambos de grande importância? pensa no caso.
Teeteto — Já pensei.
Estrangeiro — A meu ver, deste modo resolveremos mais facilmente a questão.
Teeteto — Como será?
Estrangeiro — Examinando a ignorância, para ver se pode ser dividida ao meio. Sendo dupla, é evidente que o ensino deverá também constar de duas partes, uma para cada divisão da ignorância.
Teeteto — E com isso, já se te revelou o que procuramos?
Estrangeiro — Acho que consegui isolar uma espécie grande e por demais nociva de ignorância, que sozinha vale por todas as outras reunidas.
Teeteto — Qual é?
Estrangeiro — Quando se imagina conhecer o que não se conhece. Talvez seja essa a origem dos erros a que está sujeito o intelecto.
Teeteto — É verdade.
Estrangeiro — Essa espécie de ignorância, quero crer, é a única que recebeu o nome de tolice.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E como designaremos a parte do ensino que nos livra de tal inconveniente?
Teeteto — Eu, de mim, Estrangeiro, acho que a parte restante tem o nome de ensino profissional; a outra, pelo menos entre nós, é denominada educação.
Estrangeiro — O mesmo se observa, Teeteto, entre os demais helenos. Porém ainda nos falta considerar se a educação é um todo indivisível ou se comporta alguma divisão merecedora de nome especial?
Teeteto — Falta isso, realmente.
XVII — Estrangeiro — Quer parecer-me que neste ponto ela é divisível.
Teeteto — Onde?
Estrangeiro — No ensino pelo discurso, ao que parece, [229e] há um trecho mais áspero e outro mais liso.
Teeteto — E que qualificativo lhes daremos?
Estrangeiro — [230] Um deles é o método vetusto e venerável que nossos pais geralmente seguiam na educação dos filhos, e que ainda hoje muitos adotam quando os vêem cometer alguma [230a] falta, misto moderado de reprimenda e advertência, e que no todo poderia ser chamado exortação.
Teeteto — Isso mesmo.
Estrangeiro — Por outro lado, depois de maduras reflexões, há os que opinam que toda ignorância é involuntária e que nenhum dos que se julgam sábios se dispõe a aprender seja o que for daquilo em que se considera forte. Assim, com todo seu trabalho, o método educativo pela admoestação alcança resultados medíocres.
Teeteto — Pois têm razão de pensar dessa maneira.
Estrangeiro — Daí, adotarem outro processo para se livrarem de semelhante presunção.
Teeteto — Qual é?
Estrangeiro — Formulam uma série de perguntas sobre assunto em que o interlocutor pensa responder com vantagem, quando a verdade é que não diz coisa com coisa; depois, aproveitando-se de sua desorientação lhe rebatem facilmente as opiniões, que eles amontoam na crítica a que as submetem e, confrontando umas com as outras, mostram como se contradizem sobre os mesmos objetos em idênticas relações e igual sentido. Os que se vêem assim confundidos, acabam por desgostar-se de si próprios e passam a mostrar-se mais dóceis com relação aos outros; isso os livra do [230c] exagerado conceito que faziam deles mesmos, o que, de todas as liberações, é a mais agradável de se ouvir e a de melhor efeito para o interessado. O que se dá, meu caro menino, é que esses purificadores pensam exatamente como os médicos do corpo, os quais acreditam que o corpo não tira benefício algum dos alimentos sem primeiro remover alguém o que o perturba. O mesmo pensam aqueles a respeito da alma, que não pode colher vantagem dos ensinamentos ministrados, enquanto não for submetida [230d] a crítica rigorosa e a refutação não a fizer enrubescer de vergonha, com livrá-la das falsas opiniões que servem de obstáculo ao conhecimento e, assim purificada, levá-la à convicção de que só sabe o que realmente sabe, nada mais do que isso.
Teeteto — Sem dúvida; essa é a melhor e mais sábia disposição.
Estrangeiro — Por isso mesmo, Teeteto, devemos dizer que a refutação é a maior e mais eficiente purificação, sendo forçoso concluir que o indivíduo que se eximir a esse processo, ainda mesmo que se trate do grande [230e] Rei, é impuro no mais alto grau, ignorante e deformado naquilo em que deveria mostrar-se mais extreme e mais belo, caso queira alcançar a verdadeira felicidade.
Teeteto — Perfeitamente.