Fragmentos de Empédocles de Acragas
fr. 1 [112DK]
Ó meus amigos da grande cidade do louro Akragas,
do alto da acrópole, vós que cuidais de benéficas obras,
porto gentil a estrangeiros, sem o entrave de males,
salve! Pois eu não mais um mortal, mas um deus ambrosino
vou entre vós, honrado por todos — assim me assemelho, [5]
ora com fitas envolto e viçosas coroas festivas!
Todos então quando chego a tão vicejantes cidades,
homens ou mulheres, veneram-me enquanto me seguem
aos milhares: perguntam por onde é a vereda do lucro,
uns carentes de oráculos, e outros contra doenças [10]
tantas procuram ouvir afiada palavra de cura,
desde muito já atravessados por dores penosas...
fr. 2 [113DK]
Mas por que nisso detenho-me como se fosse algo grande,
se eu supero os muiperecíveis humanos mortais?
fr. 3 [114DK]
Ó meus amigos, sei que a verdade está nas palavras
que eu vos direi — mas muito penoso se faz para os homens
e rivaliza o romper persuasivo com suas entranhas.
fr. 4 [2DK]
É que estreitos maneios vertem-se ao longo dos membros,
e repentinas misérias, que embotam as ponderações;
breve parte da vida em sua existência observam:
prestifadados qual justa fumaça a elevar-se esvoaçam,
persuadidos tão só, cada um, pelo que hão encontrado, [5]
todos, levados por tudo, e acham ter descoberto o inteiro.
Eis que nem são vistas por homens e ouvidas tais cousas
nem agarradas co’a mente; e tu, que pra cá te arredaste,
aprenderás — e a sapiência mortal romperá como nunca!
fr. 5 [3DK]
Mas, ó deuses, tal loucura afastai desta língua,
sim, e de santas bocas vertei a fonte mais pura;
plurimemória, musa virgem de cândidos braços,
peço-te enfim conduzir o que é norma que efêmeros ouçam:
toques da Reverência a bem-redeada carroça! [5]
fr. 6 [1DK]
Ouve, Pausânias, ó filho do espertíssimo Ankhites
fr. 7 [3DK]
nem te seja forçoso que as flores da fama e da honra
ergas dentre mortais ao dizer algo mais do que é santo
com audácia e sentar às alturas da sabedoria.
Mas observa com todo maneio cada evidência,
nem confiando na vista como mais plena que o ouvido, [5]
ou no ouvir ressonante mais que nos pontos da língua;
nem de algum outro membro que para pensar seja via
desconfies, mas pensa por meio de cada evidência.
fr. 8 [111DK]
Quantos remédios há, salvação da velhice e dos males,
aprenderás, pois só para ti cumprirei isso tudo —
e pausarás a incansável violência dos ventos que em terra
sopra com toda a força e irrompe por campos defuntos,
e para trás, se quiseres, trarás um benéfico sopro; [5]
e hás de fazer da chuva obscura uma seca oportuna
para os humanos, e hás de fazer no verão de uma seca
fluxos arborescentes, que são habitantes do éter;
desde o Hades trarás a força de um homem defunto!
fr. 9 [5DK]
restringir para dentro de mudas entranhas
fr. 10 [4DK]
mas para o mau é forçoso não ter confiança no forte!
E a persuasão confiável tal qual nossa musa proclama
bem conheças ao ter dividido em teu cerne o que conto
fr. 11 [131DK]
pois se em vista de um dos efêmeros, musa ambrosina,
nossos cuidados alegre levaste por teu pensamento,
ora ao que reza, de novo, apresenta-te, Kalliopeia,
que os venturosos deuses irá elucidar em boa conta!
fr. 12 [6DK]
Quatro são as raízes de tudo — e primeiro as escuta:
Zeus clareante, a vivífera Hera, e ainda o Edoneu,
bem como Néstis, que a fonte mortal em lágrimas rega
fr. 13 [7DK]
inatos
fr. 14 [12DK]
pois é decerto impossível nascer a partir do não ente,
e o perecer, inviável ao ente, e assim não se ouve —
sempre ali mesmo será, onde quer que alguém o assente
fr. 15 [8DK]
E outra cousa direi: nascimento nenhum há de todos
esses mortais, nem perecem num termo de morte ruinosa:
são somente a mistura e a alternação de misturas,
e isso os humanos nomeiam como “nascer” da natura
fr. 16 [10DK]
ou então “morte” “vingativa”
fr. 17 [9DK]
Quando afinal co’a mistura de homem chegam ao éter,
ou como a raça de feras selvagens, ou como moitas,
ou como pássaros, dizem então que por isso “nasceram”;
quando a união é cindida, que é a desventura da sina...
Não é de acordo co’a norma, e só digo também por costume [5]
fr. 18 [11DK]
tolos! Longipensantes não são suas ponderações,
dos que esperam que nasça deveras o antes não ente,
que algo morra e possa sumir, que pereça de todo
fr. 19 [15DK]
o homem de sábias entranhas não preveria tais cousas,
que eles, enquanto vivem aquilo que chamam de vida,
só por enquanto são, com bens e misérias presentes;
que antes da forma mortal e que após desmontarem são nada
fr. 20 [16DK]
é, pois, tal como era e será, e acredito que nunca
de ambos há de vagar a indizível, imensa existência
fr. 21 [14DK]
nada é vago do todo — e de onde é que algo viria?
fr. 22 [17DK]
Duplamente direi: por certo ora cresce a ser um só
desde muitos, ora desbrota a ser muitos de um só.
Dupla a origem das cousas mortais, e dupla a partida: (235)
essa a junção de tudo faz com que nasça e pereça,
e essa, de volta, no desbrotamento nutrida esvoaça; [5]
e isso então alternando-se perpetuamente não cessa:
ora em Amor reunindo-se tudo elabora-se em uno,
ora no ódio se vai cada qual dividido em Discórdia. (240)
Eis que, se desde muitos uno aprendeu a brotar-se, (240a)
e se de volta o uno desbrota e terminam-se muitos, [10]
vão assim nascendo, sem pé para sua existência;
sim, e se entrealternando-se perpetuamente não cessa,
sempre assim são inamovíveis ao longo do ciclo.
Vem as palavras ouvir: aprender faz crescer as entranhas! (245)
Tal como já articulei com o fio de minhas palavras, [15]
duplamente direi: por certo ora cresce a ser um só
desde muitos, ora desbrota a ser muitos de um só —
fogo e água e terra e do ar as imensas alturas:
deles à parte, ruinosa Discórdia, em balança por tudo, (250)
e entre eles Amor, com igual comprimento e amplitude. [20]
Tu, estarrecido, não penes co’os olhos, mas vê com a mente
essa que pelos mortais se diz natural de suas juntas,
por quem pensam amáveis e juntos cumprem trabalhos,
tendo “Alegria” como um de seus nomes, e ainda “Aphrodite”. (255)
Essa, entre eles rodando nem a percebe ou domina [25]
o homem — mas ouve o apresto da conta, em nada falseado!
Esses são todos iguais e de idêntica natividade;
outra porém é a honra de outro, e o modo é de cada,
tendo em partes então o poder, regirando-se o tempo. (260)
E algo além disso nem sobrenasce nem subcessa: [30]
se perecessem perpetuamente, não mais o seriam;
e ia de que se acrescer esse todo, e vindo de onde?
Como, por onde é que pereceria, se nada é um ermo?
Sim, isso tudo é o que é, mas uns aos outros percorrem (265)
ora nascendo-se outro e contínuos o mesmo pra sempre. [35]
reunimo-nos juntos em uma só ordem;
desbrota a ser muitos de um só,
dos quais tudo que era, que é e que será no futuro
desabrochou como árvores, homens e mesmo mulheres, (270)
sim, como feras e pássaros, peixes aquanutridos, [40]
bem como deuses de longevidade, maiores em honras.
Nisso então disparando perpetuamente não cessa
com seus densos rodeios t
ininterruptos, e nunca (275)
muitas as eras primeiras [45]
antes disso passar
por tudo então disparando perpetuamente não cessa,
pois nem o sol p d
nesse rompante enchendo-se (280)
nem algum dos outros [50]
mas sim entrealternando-se em ciclo dispara-se tudo:
é quando corre a terra impassada, bem como do sol a
tão grande quanto agora os homens declaram —
dessa maneira é que todos uns aos outros percorrem, (285)
e outros noutros lugares se atêm ao errar [55]
Não é ainda que nós adentramos o meio a ser um só
(quando Discórdia alcança as insurpassáveis funduras
no redemunho e Amor lá no meio das voltas descende,
nisso então reunindo-se tudo se põe a ser um só). (290)
Cuida que não às orelhas somente [60]
e ouve de mim o que é no arredor, o infalível
e hei de mostrar aos teus olhos, que um corpo maior
primeiramente a junção e a evolução dos nascidos,
e inda agora o restante que vem a ser dessa prole (295)
dentre animais montierrantes — as feras da tribo selvagem! —, [65]
dentre os humanos de dúplice ramo
enraizadas a raça, e de cachos viderrolantes.
Leva às entranhas a amostra de não mentirosas palavras —
nisso verás a junção e a evolução dos nascidos (300)
traslação planejando. [70]
fr. 23 [20DK]
Isso é entre mortais na massa dos membros notável:
ora em Amor reunindo-nos tudo elabora-se em uno,
partes que somam o corpo, no pico viçoso da vida;
ora, se males rebentam, porém, divididas por brigas (305)
erram à parte, e se vai cada qual pela orla da vida. [5]
Dessa maneira é com moitas, com aquatelhados peixinhos,
sim, com feras montícolas e alipassantes gaviotas
mi
eco
es
as
fr. 24 [ - DK]
um dividido do outro a cair e seguir seu destino,
muito a contragosto e lugubremente coagidos
a apodrecer: se a atraente Amizade nós temos agora,
hão de fazer-se presentes Harpyias co’os lotes da morte.
Ah, que me houvesse arruinado bem antes o dia inclemente, [5] (335)
obras cruéis de carnívoras garras sem ter planejado!
Vãs são agora estas chuvas de Noto que banham meu rosto:
o redemunho profundo acredito que logo alcançamos;
no ânimo, sem almejarmos, se apresentarão muitas dores
e embarcaremos na conta de novo [10] (340)
quando se dava por sorte a chama incansável
o mais, ascendendo a muidesgraçada mistura,
eis que a prolífera raça afinal de animais há brotado
a Manhã pode ver o restante inda agora.
Quando com éter se unindo em mistura ao extremo então passa, [15] (345)
eis que com berro e com brado,
sim, divinais partilham de concavidades,
pastos a terra no entorno.
Tal como quando
um ferreiro [20] (350)
e as
te
fr. 25 [76DK]
Isso se encontra na concha marítima dorsipesada,
sobre os véus pedregosos (355)
nisso verás toda a terra que habita o supremo da pele;
como a armadura de dorsiforçudo c’ranguejo salino,
do caramujo, de courirrochosos qual tartaruga o [5]
casco, o chifre de freixo do corço também, montierrante —
mas não terminaria de aqui te contar toda a prole... (360)
Tal como quando
disso
e ela [10]
e
fr. 26 [71DK]
Se em tais cousas faltou material para tua confiança —
como da água e da terra, bem como do sol e do éter
se adicionando é que formas e tons de mortais nasceriam,
quantos nascem agora, dos que harmonizou Aphrodite
fr. 27 [73DK]
tal como Cýpris então, a terra na chuva regada,
deu apressando-se as formas pro fogo veloz reforçá-la
fr. 28 [75DK]
e do que é denso por dentro mas solto por fora montou-se,
flácido sendo sortido ao manejo das palmas de Cýpris
fr. 29 [74DK]
vem com a tribo sem musa dos peixes plurissemeados
fr. 30 [83DK]
quanto aos ouriços,
lanciaguda no dorso é que sua cabeleira se eriça
fr. 31 [82DK]
pelos, folhas, escamas e densas penas de aves
vêm a ser o mesmo sobre os membros robustos
fr. 32 [24DK]
atando uma ponta à outra ponta
destas palavras sem termo num só curso
fr. 33 [25DK]
o que é devido é belo dizer duas vezes
fr. 34 [21DK]
Vem, observa-me então atestar as primeiras conversas,
se nas primícias faltou material a respeito de algo:
sol que lampeja ao olhar, seu calor que se assoma por tudo;
tudo que nada à sua vista, ambrosino em sua alva clareza;
chuva também, sobre todos frígida e enturvecente — [5]
sim, e da terra profluem os sólidos e alicerçados.
Se em rancor diferem na forma e dividem-se todos,
junto andou-se em Amor, no que um ao outro deseja.
Deles, tudo que era, que é e que será no futuro
desabrochou como árvores, homens e mesmo mulheres, [10]
sim, como feras e pássaros, peixes aquanutridos,
bem como deuses de longevidade, maiores em honras.
É que isso tudo é o que é, mas uns aos outros percorrem
ora tornando-se outros — e a troca se faz na mistura.
fr. 35 [23DK]
Tal como quando pintores multicolorem of’rendas,
homens sabidos e expertos, com belo domínio da arte,
e as soluções de múltiplo tom nas mãos então pegam,
e em harmonia assim misturando umas mais e outras menos
delas semelhas a tudo é que ambos produzem imagens [5]
ao desenhar suas árvores, homens também, e mulheres,
sim, suas feras e pássaros, peixes aquanutridos,
bem como deuses de longevidade, maiores em honras,
que não te exceda as entranhas o engano de ser doutra fonte
tudo que vem — indizíveis mortais — a ser evidente. [10]
Sê dessas cousas sabido, afiado ao discurso de um deus!
fr. 36 [26DK]
Tendo em partes então o poder, regirando-se o ciclo,
uns nos outros minguam e crescem por partes na sina.
É que isso tudo é o que é, mas uns aos outros percorrem
ora nascendo-se humanos e outros bandos de feras:
ora em Amor reunindo-se juntam-se em uma só ordem, [5]
ora no ódio se vai cada qual dividido em Discórdia,
’té que um-só cobrotando-se o todo abaixo descenda.
Eis que, se desde muitos uno aprendeu a brotar-se,
e se de volta o uno desbrota e terminam-se muitos,
vão assim nascendo, sem pé para sua existência; [10]
sim, e se isso alternando-se perpetuamente não cessa,
sempre assim são inamovíveis ao longo do ciclo.
fr. 37 [22DK]
sim, tudo isso bem junto co’as partes então deles mesmos,
o âmbar solar e o céu e a terra e o mar além disso,
quantas deles entre mortais debrotaram errantes.
Dessa maneira, das que se asseguram mais na mistura,
uma é por outra afeiçoada, no que as igualou Aphrodite; [5]
mas odiadas ao máximo distam-se umas das outras
em nascimento e mistura e nas formas que foram impressas:
na convivência, mais lúgubres, desabituadas de todo,
discordinatas porquanto nascidas em fúria nefasta!
fr. 38 [27DK]
lá nem mesmo do sol se divisa a esplêndida vista,
nem a hirsuta raça da terra ou a forma dos mares
fr. 39 [36DK]
deles então reunindo-se parte ao extremo Discórdia
fr. 40 [ad 29DK]
era Esphero
fr. 41 [159DK]
acumulada grandeza
fr. 42 [27DK]
lá nem mesmo do sol se divisam os membros velozes,
nem o hirsuto corpo da terra ou a forma dos mares;
e eis que, em denso véu de harmonia então afixado,
’Sphero rotundo celebra a circunfeliz solidão
fr. 43 [13DK]
nem há algo do todo nem vago nem excedente
fr. 44 [29&28DK]
pois nem vão dois galhos romper a partir de seu dorso
nem tem pés ou ligeiros joelhos, nem pênis que engendra;
todo igual a si mesmo e em tudo, porém, infinito,
’Sphero rotundo se alegra na circular solidão
fr. 45 [30DK]
mas quando grande Discórdia tornou-se nutrida nos membros
e prorrompeu para as honras, enfim terminando-se o tempo
que para a troca de volta decorre de amplíssima jura
fr. 46 [31DK]
todos contínuos é que estremeciam os membros do deus
fr. 47 [38DK]
Vem! Falarei primeiro de que é que o sol no princípio
e outras mais evidências nasceram (que então vemos todos),
tanto a terra, o mar onduloso, o ar aguacento,
como o Titã — como o éter contendo num círculo todos
fr. 48 [A49aDK]
esvoaçando-se, éter, cindido do ar e do fogo,
logo veio a tornar-se o vasto céu envolvente;
sim, e o fogo, que permaneceu do céu apartado
veio a crescer afinal como o brilho radiante do sol.
Terra então, disparando e por coação adensada, [5]
logo ilustrou-se e assentou-se no meio; e assim é que o éter,
sendo mais leve, sem retirar-se a circunda de todo
fr. 49 [53DK]
pois desse modo é que deu-se a correr; muita vez é de outro
fr. 50 [51DK]
rapidamente subindo
fr. 51 [54DK]
pelo chão mergulhava com longas raízes
fr. 52 [37DK]
chão, pois, cresce seu corpo terrestre, e éter ao éter
fr. 53 [52DK]
muitos fogos queimam abaixo do solo
fr. 54 [39DK]
se as profundezas da terra e o éter profuso infinitos
são, como vindo de línguas por quais muitíssimas bocas
vertem à toa, daqueles que pouco viram do todo
fr. 55 [40DK]
sol, o lanciagudo, e ainda a propícia lua
fr. 56 [41DK]
consolidou-se, e no grande céu ele gira velando-o
fr. 57 [44DK]
contraclareia o Olympo ao vir com impávida face
fr. 58 [45DK]
cíclica sai a rodar sobre a terra lúmen alheio
fr. 59 [46DK]
como a rodar o meão da carroça, em roda da ponta
fr. 60 [47DK]
pois observa, contrária ao senhor, seu claríssimo círc’lo
fr. 61 [42DK]
e lhe ensombreou a clareza
vindo à terra de sobre, e entenebreceu pela terra
ampla região, com igual dimensão do luar de olho glauco
fr. 62 [43DK]
eis que o clarão, golpeando o círculo amplo da lua,
logo torna de volta, e o céu ele atinge em seu curso
fr. 63 [48DK]
noite se estabelece por terra opondo-se às luzes
fr. 64 [152DK]
o dia à velhice
fr. 65 [154DK]
mantendo seu curso, da aurora
vinha cindir o poente e trazia de volta em seguida,
floricoroado e frutífero o viço lhes sobrecoroando
das estações; violentada era a terra
fr. 66 [56DK]
sal se firmou compelido por golpes frementes do sol
fr. 67 [55DK]
mar, os suores da terra
fr. 68 [A66aDK]
dele, a orla furiosa não cessa seu ímpeto inflado,
tal como quando recebem os charcos errante granizo —
toda a humidade na terra pras côncavas profundidades
segue impelida afinal por contínuos rodeios de ventos
uns pelos outros correntes, como em prisão poderosa [5]
fr. 69 [50DK]
Íris do pélago traz ventania ou também grande chuva
fr. 70 [161DK]
Sete os astros errantes que ao longo do olímpio caminho
põem-se a rodar, e com eles regula-se sempre a existência:
noctiluzente Luar, o Sol doce, e Krono odioso,
Páphia dos íntimos, Ares audaz, bem-alígero Hermes
e arquinascido Zeus, de quem a natura brotou-se. [5]
Eles arrastam a raça distinta, estando conosco
Zeus, Sol, Krono e Lua, Páphia e Ares e Hermes,
visto que é nossa partilha arrastar desde o sopro do éter
lágrima, riso, tensão, o nascer, sono, raiva e palavra:
lágrima é Krono, Zeus é nascer, a palavra é de Hermes; [10]
ânimo é Ares, da Lua é o sono, a tensão, da Cythéria,
sim, e do Sol o sorriso — por ele, afinal, com justeza
riem-se todo o mortal pensamento e o mundo infinito!
fr. 71 [35DK]
E eu para trás voltarei, irrompendo à vereda dos hinos
que nas primícias cantei, revertendo esta conta a uma conta
de antes: quando Discórdia alcançou as mais baixas funduras
do redemunho e Amor lá no meio das voltas descende,
nisso então reunindo-se tudo se põe a ser um só — [5]
não de repente, querendo-se unem-se a outros de outrures.
E eis: da mistura verteram-se bandos mortais aos milhares;
e em alternância muitos ficaram não misturados,
quantos reteve Discórdia suspensos: de todo impecável
não foi ao retirar-se às divisas extremas do círc’lo, [10]
mas uma parte dos membros ficava e outra saíra.
Quanto sempre corresse, esse tanto a seguia premente,
gentilmente o romper ambrosino de Amor impecável —
brotam mortais os que outrora aprenderam a ser imortais e
puros, outrora impermistos, entrealternando as estradas. [15]
E eis: da mistura verteram-se bandos mortais aos milhares,
justos em tudo que é forma visível — espanto de ver-se!
fr. 72 [96DK]
Terra então donairosa recebe em crisol percavado
duas partes das oito de Néstis resplandecente,
quatro de Hephesto também, e com isso ossos brancos nasceram:
justos, enfim, com cola divina os ajusta Harmonia.
fr. 73 [98DK]
Terra então igualada, com eles ao ter se encontrado —
sim, com Hephesto, com chuva e com éter luminescente —,
deu-se ancorada no bem-terminado porto de Cýpris,
seja um pouco maior ou menor que os demais ali dentro;
disso é que o sangue nasceu, e as muitas formas da carne. [5]
fr. 74 [85DK]
flama propícia afinal é sortida a terra minguada
fr. 75 [86DK]
disso formou incansáveis os olhos a diva Aphrodite
fr. 76 [33DK]
tal como a seiva que prende e pregueia ao ligar leite branco
fr. 77 [87DK]
elaborou-os com pregos de afeto então Aphrodite
fr. 78 [88DK]
nasce uma única vista de ambos
fr. 79 [58DK]
unimembres
fr. 80 [57DK]
muitas cabeças despescoçadas desabrocharam;
nus, desunidos dos ombros, vagavam errantes os braços,
e olhos, pobres, erravam a sós, carecendo de faces
fr. 81 [59DK]
mas quanto mais divindades uniam-se, dáimon com dáimon,
isso tudo encontrou-se conforme deu-se com cada,
e outros também além disso, contínuos, muitos nasceram
fr. 82 [34DK]
grânulos co’água colando
fr. 83 [19DK]
tenacíssimo amor
fr. 84 [32DK]
é presa uma dupla na junta
fr. 85 [61DK]
muitas formas ambífaces e ambipeitadas brotavam,
hominifrontes bovininatos, e contraemergiam
bovinicéfalos hominiformes, um misto aqui de homens,
feminiformes ali, arreados em membros sombrios
fr. 86 [60DK]
rola-pés e de mãos indecisas
fr. 87 [160DK]
e os animais cognatos antes da terra emergiam;
logo em seguida, rolando, quebravam o galho da espinha.
Água jorrou com Amor ao passar borbulhando aguacenta:
recipiente-de-grãos, muiaberta formou a barriga;
o arquinascido fogo ao redor do nariz perfurado [5]
ao inspirar-se passou, e empurrou com o sopro um caminho
fr. 88 [150DK]
fígado plurissanguíneo
fr. 89 [62DK]
Vem, sobre como de homens e muilamentosas mulheres
foi conduzir os rebentos noturnos cindindo-se o fogo,
ouve o discurso nem distraído nem indominado!
Unibrotadas primeiro figuras da terra emergiam,
de ambos água e calor possuindo porção em sua forma: [5]
estes o fogo ascendeu por querer a um igual alcançar-se,
nem um corpo atraente de partes ainda ilustrando,
nem uma voz ou mesmo dos homens o membro nativo.
fr. 90 [63DK]
a natureza dos membros, porém, separou-se entre homem
fr. 91 [64DK]
vem até ele também pela vista o desejo de unir-se
fr. 92 [66DK]
ao fendido gramado da Aphrodite
fr. 93 [151DK]
gran’dadivosa
fr. 94 [153DK]
ninho
fr. 95 [65DK]
e se verteram no puro, a tornar-se no fim ou mulheres,
se deparando com frio
fr. 96 [67DK]
pois veio a ser o que é másculo em partes mais quentes da terra,
sendo por isso escuros e mais corpulentos os homens,
sim, mais membripeludos
fr. 97 [153aDK]
sete semanas após
fr. 98 [70DK]
pele do anho
fr. 99 [68DK]
no oitavo mês um pus branco, no décimo dia, se torna
fr. 100 [69DK]
binatais
fr. 101 [72DK]
como as longas árvores ou estacados marinhos
fr. 102 [ - DK]
pois do que outrora com sobrepostas raízes abaixo
mas mais raros e soltos rebentos firmou-se viçoso
fr. 103 [ - DK]
as longas árvores nunca parem as novas
fr. 104 [79DK]
e eis que as árvores longas desovam olivas primeiro
fr. 105 [80DK]
já que tardias romãs e sobrepolpudas maçãs
fr. 106 [81DK]
vinho vem d’água da polpa que se apodreceu na madeira
fr. 107 [77&78DK]
vê-se em pés dos frutiperenes e perenifólios
livre de inveja o frutal vicejar pelo ar todo o ano
fr. 108 [149DK]
junta-nuvem
fr. 109 [100DK]
Eis como tudo inspira e expira: se estendem em todos
vãos exangues de carne ao longo do extremo do corpo,
e os bocais na fronteira mais última fundo perfuram
densos regos na tez — perpetuam-se para a sangueira
se esconder e o éter partir em caminhos viáveis. [5]
Quando dispara pra trás, demanando o levíssimo sangue,
o éter contradispara, fervendo em furor e se inflando;
quando repula de volta se expira, tal como a menina
faz meninice com sua clepsidra de bronze divino:
pondo no furo do cano aflautado a mãozinha formosa [10]
e este nas águas de corpo levíssimo e alviluzente,
nada no vaso do fluido então entra, mas sim é retido,
vindo a massa de ar pelas densas passagens de dentro
’té que destringe-se a densa afluência, quando em seguida,
já com o sopro cedendo, adentra essa parte de água; [15]
dessa maneira também, com a água no fundo do bronze,
visto que a pele mortal vai barrando seu furo e a via,
o éter externo pra dentro refreia o fluido de prata
contra o chuveiro estridente, forçando as portas e a ponta
’té que a mão se retire: e de volta, ao contrário de antes, [20]
já com o sopro revindo, se escorre essa parte de água —
dessa maneira nos membros o tenro e levíssimo sangue
se para trás revolteia, irrompendo e manando pro fundo,
de éter o fluxo dispara e descende com ímpeto inflado;
quando repula de volta se expira igual depois disso. [25]
fr. 110 [89DK]
saibas: de tudo há eflúvio, de tantos quantos nasceram
fr. 111 [95DK]
juntos primeiro brotando ao manejo das palmas de Cýpris
fr. 112 [84DK]
Tal como alguém que, pensando na viagem, prepara a lanterna
para uma noite de inverno, a flama do fogo abrasante,
indo atar umas lâminas mais que repilam os ventos
(elas que logo dispersam o sopro de todos os ventos)
onde, estendendo-se o lúmen, tanto mais longo e delgado, [5]
pela soleira lampeja incansável seu brilho radiante —
dessa maneira, retido em membranas o prístino fogo,
e entre leves tecidos, gerou a ciclópica moça,
e eram ali perfurados com orifícios divinos:
circunfluindo o ogígio, restringem-se as águas profundas [10]
onde pulula-se o fogo, tanto mais longo e delgado.
fr. 113 [94DK]
e o tom negro no fundo dos rios se ergue das sombras,
e esse igualmente se vê lá dentro de côncavos antros
fr. 114 [49DK]
noite tão erma de vaga visão
fr. 115 [99DK]
rebento de carne
fr. 116 [101DK]
com o nariz farejando a fração das partes de feras
partida dos pés pela grama macia
fr. 117 [102DK]
eis como tudo partilha de respiração e de faro
fr. 118 [90DK]
doce assim doce captura, e irrompe o amargo no amargo,
ácido no ácido pula, picante vai ter com picante
fr. 119 [91DK]
água ao vinho ajunta-se mais, enquanto o azeite
ela não quer
fr. 120 [92DK]
bronze
quando unido ao estanho
fr. 121 [93DK]
e com o linho, do glauco açafrão se mistura seu brilho
fr. 122 [103DK]
e eis que se deu pelo intuito de Sorte que tudo é pensante
fr. 123 [104DK]
quanto os mais sutis caindo se dão encontrados
fr. 124 [105DK]
partem manando-se mares de sangue, tão logo o nutrindo
onde há mais “pensamento”, como chamam humanos:
para os humanos, o sangue no cor é que é o pensamento
fr. 125 [106DK]
pois é pelo presente que cresce a sapiência nos homens
fr. 126 [109DK]
é com terra que terra veremos, e água com água,
éter divino com éter, e fogo inviso com fogo,
com afeição afeição, com discórdia nefasta discórdia
fr. 127 [110DK]
pois se firmando essas cousas sob cerradas entranhas
bem favorável contemplares com puros cuidados,
isso tudo há de ser-te presente por tua existência,
e outras muitas delas terás — pois elas se crescem,
cada modo alcançando conforme a natura de cada. [5]
Se outras cousas porém procurares, quantas aos homens
são misérias milhares que embotam as ponderações,
saibas que logo irão se furtar, regirando-se o tempo,
tão desejosas de ter com amados de sua mesma raça:
tudo tem discernimento e alguma porção do pensar. [10]
fr. 128 [107DK]
Disso afinal é que tudo montou-se em conjunta harmonia,
sendo por eles que pensam, que sentem prazer e padecem
fr. 129 [108DK]
quanto rebrotem outros, tanto assim é que sempre
outro também se apresenta o pensar
fr. 130 [115DK]
É questão de coação, antigo decreto dos deuses,
sempiterno e selado afinal por amplíssimas juras:
quando alguém de assassínio macula seus membros amados,
e em discórdia aquele que errando comete perjúrio —
dáimons, com a partilha de longevidade na vida! — [5]
três vezes dez mil anos desvia-se dos venturosos
para brotar pelo tempo com todas as formas mortais:
entre as dores, da vida ele vai alternando as estradas.
Fato é que a força do éter então para mar o persegue,
mar logo o cospe ao chão sobre o solo, e a terra à clareza [10]
lá do sol luminoso, que do éter o lança em rodeios —
outro após outro o recebe, estigma que todos detestam.
E eu sou desses errantes, agora no exílio dos deuses,
em Discórdia furiosa fiado
fr. 131 [117DK]
pois uma vez já nasci como moço e também como moça,
sim, como pássaro e moita, e no mar fui mudo peixinho
fr. 132 [132DK]
Próspero aquele que é rico no discernimento divino,
e miserável quem guarda sombrio parecer sobre os deuses!
fr. 133 [133DK]
não é nem alcançável que nos acheguemos co’os olhos
ou que peguemos co’as mãos, por onde maior para os homens
segue a rota da persuasão que cai na entranhas
fr. 134 [134DK]
pois nem exibe uma fronte de homem entre seus membros,
nem se verão dois galhos romper a partir de seu dorso,
nem tem pés ou ligeiros joelhos, nem partes peludas:
como na entranha, sagrado e inefável, um cerne somente,
a disparar com ligeiro pensar pela ordem do mundo [5]
fr. 135 [154cDK]
mas são logo evidentes os brotos que hão de dar frutos
fr. 136 [155DK]
grande Telauges, rapaz de Pythágoras e de Theano!
fr. 137 [129DK]
Era entre eles um homem sabido em muitíssimas cousas,
altamente rico no discernimento supino,
máximo mestre de todos os hábeis e sábios trabalhos —
pois quando quer que estendesse todo o discernimento,
fácil podia então ver cada um de todos os entes, [5]
tanto em dez ou mesmo em vinte das vidas humanas!
fr. 138 [27aDK]
nem levante ou indestinada disputa nos membros
fr. 139 [119DK]
de quais honras e de quão alta prosperidade
fr. 140 [142DK]
Fato é que nem o recebe o teto do egífero Zeus
nem para dentro o denso e restrito palácio de Hades
fr. 141 [126DK]
ela ao dispor ao redor uma túnica estranha de carne
fr. 142 [148DK]
terra envolve-mortal
fr. 143 [116DK]
detestando coação angustiante
fr. 144 [120DK]
viemos sob este antro que sobrerrestringe
fr. 145 [121DK]
desprazerosa região:
nela Assassínio e Rancor com as tribos de Fatalidades
(com ressequidas doenças e putrefações e defluxos)
sob as sombras vagueiam no prado da atroz Perdição
fr. 146 [118DK]
tanto chorei ao me ver na inabituada região
fr. 147 [158DK]
privado afinal da existência
próspera
fr. 148 [122DK]
Lá é que estavam Khthônia e Helíope longividente,
Déris sangrenta também, e Harmonia de vista solene;
sim, e Aiskhré e Kallisto, e também Denaié e Thoosa,
e Nemertés atraente, e de escura menina Asapheia
fr. 149 [123DK]
tanto Physó com Phthímene, e Eunaié com Egérsis,
e Astemphés e Cinó, e a muicoroada Megisto
e Aphorié, e Sopé com Omphaié
fr. 150 [124DK]
Ah, miseráveis mortais — ah, raça desventurada!
Ah, de que brigas e de que gemidos agora nascestes!
fr. 151 [128DK]
Era entre eles deus nem Ares nem mesmo Tumulto,
nem Zeus rei nem Krono, nem tampouco Posêidon,
mas sim Cýpris rainha
Eles a propiciavam com reverentes imagens,
sim, pintando animais, dominando oloríferas artes [5]
de óleos e puras de mirra, oferendas de incenso fragrante,
e as libações só de mel alourado lançando no solo:
nunca o impuro assassínio de touros banhava os altares,
mas era essa a maior das nódoas para os humanos —
a de furtar-lhes a alma pra se alimentar de seus membros! [10]
fr. 152 [130DK]
Todos se davam com os humanos, propensos e mansos,
desde as feras ao pássaro: amor nas entranhas queimava
fr. 153 [125DK]
dos animados, em troca, dispôs cadavéricas formas
fr. 154 [138DK]
a alma sugando, arrancando com bronze
fr. 155 [143DK]
sim, das cinco fontes cortando com bronze alongado
fr. 156 [139DK]
Ah, que me houvesse arruinado bem antes o dia inclemente,
obras cruéis a carnívoros lábios sem ter planejado!
fr. 157 [135DK]
Mas o que é lei para todos se alonga no amplirregente
éter e vai se esticando contínuo na imensa clareza.
fr. 158 [136DK]
Não parareis o assassínio estridente? Será que não vedes
que uns aos outros vos devorais por descuido da mente?
fr. 159 [137DK]
Já com a forma alterada é que o pai tem o seu filho amado
e o degolando faz preces: co’o grande tolo confusos,
é um suplicante que ofertam, mas sem lhe ouvir os clamores
ele o degola em casa ao cuidar de maligno banquete —
dessa maneira é filho com pai e co’a mãe a criança, [5]
ao furtar-lhes a alma e comer sua carne adorada
fr. 160 [154aDK]
dores e choros então levedando com danos e enganos
fr. 161 [145DK]
Sim, é por isso que, desvairados em males penosos,
no ânimo nunca vos aliviareis de aflições e misérias!
fr. 162 [144DK]
se abster da maldade
fr. 163 [141DK]
míseros, míseros — tende bem longe das mãos os feijões!
fr. 164 [140DK]
de todo manter-se bem longe das folhas de louro
fr. 165 [154dDK]
lágrima tua é a muissofredora raça dos homens,
mas desabrocha sorrindo a raça sagrada de deuses
fr. 166 [127DK]
entre montícolas feras, leões que no solo adormecem
nascem, e louros entre os arbóreos de belos cabelos
fr. 167 [146DK]
sim, e no fim vêm a ser adivinhos, cantores de hinos,
príncipes e curandeiros aos sobreterrâneos humanos —
e desabrocham então como deuses, maiores em honras
fr. 168 [147DK]
entre os demais imortais, comensais sob a mesma lareira,
livres do lote das dores dos homens, um ser incansável.