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Discursos Duplos (Dissoi Logoi)

Anônimo · Notas, a partir da 1

[1]: Tomo por base o texto grego proposto por Robinson (1979). Possíveis divergências estão indicadas em nota.

[2]: Opto pela tradução canônica, para facilitar o reconhecimento do texto; creio que o entendimento de dissoi deva ser “invertido”, “inverso”, ainda assim “complementar”. Entre outras ocorrências, cf. Eurípides, Hipólito, v. 385 e ss.: “[...] e mesmo coisas vergonhosas, que apresentam duas facetas (dissai d’eisin): uma delas não é má, a outra é o aniquilamento das famílias, (se a diferença se tornasse clara a tempo, coisas opostas não teriam um só nome).” (grifo meu) (Trad. Kury, 2001); Eurípides, Fr. 189: “Em todos os casos, se a pessoa for inteligente no falar, poderia estabelecer um debate de argumentos duplos (disson logon)” (Trad. Kerferd, 1990); e Protágoras DK80 A1: “Sobre todas as coisas há dois discursos opostos um ao outro”. Nos cinco primeiros capítulos, a estrutura é mais claramente antilógica.

[3]: Os estudiosos divergem acerca de como interpretar e traduzir o adjetivo neutro singular substantivado: neste capítulo, to agathon e to kakon. Para Dueso (1996, p. 179), essa forma expressa o valor abstrato de uma propriedade, o não-aplicado; todavia, sua tradução é “lo bueno y lo malo”, e não “el bien y el mal”, embora deixe claro que a interpretação deva ser esta última. Esse autor acrescenta que, para “aplicações concretas dessa propriedade”, para se referir ao conjunto, a forma seria o neutro plural: ta agatha, “as coisas boas”. Assim, a afirmação allo to agathon, allo to kakon (na antítese), mais à frente, realmente referir-se-ia à propriedade abstrata, ao bem e ao mal: “[...] o bem é diferente do mal”. Essa afirmação deve-se, de acordo com esse autor, ao fato de a antítese acreditar que, na tese, os termos são usados também dessa forma, tendo afirmado assim que “o bem e o mal são idênticos”; ou, ao menos, por supor que essa seria uma operação efetuável, uma consequência do que a tese propõe. Porém, o discurso da tese é to auto estin [kakon kai agathon], não há substantivação (substantificação) dos termos, seu uso parece ser em sentido aplicado, como adjetivos, e, portanto, estaria assim constatando a possibilidade de se atribuir diferentes predicados a uma mesma coisa: “a mesma coisa é boa e ruim”. De fato, a tese em momento algum usa os termos substantivados, apenas a antítese é que a retoma dessa forma. Os contraargumentos da antítese, nesse caso, reduzem ao absurdo uma tese que não foi proposta, logo, segundo Dueso, os discursos, graças ao “equívoco” dos defensores da antítese, não compartilham da mesma linguagem, e a tese não é refutada. Robinson (1979, p. 151), por sua vez, acredita que o adjetivo neutro singular substantivado se refira tanto ao universal quanto ao particular; essa ambiguidade seria, então, responsável pelo dissídio. A antítese atribui (propositalmente ou equivocadamente?) à tese a afirmação “to agathon kai to kakon to auto esti”, em sentido universal: “tudo que é bom e tudo que é ruim é igual”, o que a tornaria, no limite, identitária. No entanto, caso a tese tivesse proposto esse enunciado, só poderia, conforme os exemplos apresentados por ela, tê-lo afirmado em sentido particular: “o que é bom e o que é ruim é idêntico ⟨em relação a certos aspectos⟩.” Segundo essa interpretação, as duas posições estariam falando sobre a coisa, sobre algo concreto a que se aplica uma dada propriedade, e o conflito dar-se-ia entre atribuição particular (individual) e universal (em conjunto). Enquanto a tese estaria propondo que, em alguns casos, uma coisa pode ser boa e ruim, a antítese estaria interpretando isso como: as coisas boas e as coisas ruins são todas iguais, logo, “dá tudo na mesma.” Por isso, a antítese investe contra as consequências, que julga absurdas, dessa suposição, procurando salvaguardar a diferença: as coisas são ou isso ou aquilo. De minha parte, concordo com Dueso (op. cit., p. 179), a opção de Robinson, conquanto possível, mascara a questão da possível transformação da propriedade em conceito. O uso dos adjetivos neutros substantivados marca, justamente, a possibilidade de se alçar a discussão da realidade concreta para a abstrata: “[...] temos a abstração quando o elemento universal, por meio do artigo e de sua força indicativa e demonstrativa, é colocado como algo determinado, tornando-se, assim, portador de um nome [...] e, portanto, ‘objeto do pensamento’’’ (SNELL, 2001, p. 234). Tal processo, que permite “[...] ver a realidade à distância e de cima” (SOLMSEN, 1975, p. 124), é comum em Tucídides e outros pensadores, durante a segunda metade do séc. V a.C. (cf. SNELL, op. cit*., p. 229 e ss. e SOLMSEN, op. cit., p. 83 e ss.). Soma-se a essa a questão de a sintaxe grega ser ambígua entre “x* e y é o mesmo” e “a mesma coisa é x e y”, que dá margem à interpretação “equívoca” da tese pela antítese, como mencionei na apresentação do texto. Tendo em vista os exemplos expostos, Robinson (op. cit*., p. 162) observa que a tese pode ser chamada “contextualista”: “[...] um e o mesmo evento/ação/estado de coisas irá variar de coloração moral de acordo com o contexto. Assim, os proponentes da suposta contra-tese […] parecem estar atacando um boneco de palha [strawman*], já que eles (deliberadamente ou não) interpretam a proposição touton kalon kai aiskhron como identitária quando ambas as evidências, a própria sintaxe da sentença e os argumentos de 2. 2-20, deixam claro que ela é meramente predicativa.” Dueso, e também Robinson, como eu, diferenciam o sujeito pelo uso do artigo: termos substantivados = sujeitos, o que evidencia a leitura da tese como predicativa. Robinson (op. cit*., p. 163) possivelmente está correto, ao afirmar que o leitor ou ouvinte perspicaz repararia facilmente que as duas posições não se contradizem. Há, contudo, tradutores, como exposto antes, que acreditam que tese e antítese versem ambas sobre a qualidade abstrata: “to auto estin [_ kakon kai _ agathon]” = “o bem e o mal são o mesmo”; “allo to agathon, allo to kakon” = “o bem e o mal são diferentes”, de forma que, desse ponto de vista, a tese realmente proporia a identificação dos conceitos e a antítese seria de fato uma contra*-tese. O mais provável, no entanto, é que, em maior ou menor medida, os gregos convivessem com as ambiguidades mencionadas, com a possibilidade delas – consciente ou inconscientemente. Por isso, minha opção foi procurar artimanhas para manter, sempre que possível e quando for o caso, a questão em aberto; tentei produzir um texto em português que apresentasse um nível de complexidade parecido com o do texto grego, isto é, que permitisse que os mesmos questionamentos fossem levantados. Obviamente, a intenção não assegura que o objetivo tenha sido atingido. Um exemplo: em português, o adjetivo “bom” e o substantivo “bem” são diferentes (em inglês, ambos podem ser “good”), isso significa que traduzir por “o bem e o mal” ou por “o que é bom e o que é ruim” privaria o leitor da ambiguidade, direcionando a forma para o uso ou abstrato ou aplicado. Por isso, tomei a liberdade de usar o adjetivo “bom” substantivado, tentando com isso sugerir as duas acepções: “o bom”, a qualidade abstrata, e “o que é bom’, a coisa. Também levei em consideração a tradução corrente de to kalon por “o belo”, e não “a beleza”, embora esse termo tenha uma longa história interpretativa e possa soar já teórico. Outra informação interessante é que Platão parece ter sentido a necessidade de criar uma expressão para se referir à forma (Forma) e não ao concreto, e evitar a ambiguidade: auto to kalon, “o belo mesmo”, “o belo em si”.

[4]: A menção à Grécia pode ser um indício da magnitude da polêmica. Além disso, o fato de, nesse caso, não serem mencionados argumentos da Academia ou do Liceu reforça a datação do tratado para a passagem do séc. V para o IV a.C.

[5]: Literalmente, “pelos que filosofam”; embora a questão seja incerta, tem-se preferido a acepção ampla: o termo (e apenas ele, não necessariamente a prática), a essa época, ainda não teria adquirido o sentido técnico que foi instituído mais tarde, a partir das discussões propostas por Platão. Em favor da acepção ampla, também se diz que visões semelhantes às encontradas no DL estão presentes nas obras de homens como Eurípides e Heródoto, entre outros não-filósofos.

[6]: Provavelmente, entre esses poderia estar Sócrates, por preocupar-se com a definição individual de conceitos morais, como o bem e o mal, apesar de talvez a prática socrática ter efetuado ainda uma outra operação possível, mas não necessariamente manifesta, no DL.

[7]: Dada a sentença anterior, poder-se-ia supor que a frase completa aqui seria: toi de legousin hos ⟨to agathon kai to kakon⟩ to auto estin – “dizem que o bom e o ruim são a mesma coisa.” No entanto, a frase seguinte e os exemplos de 1.2-10 comprovam que essa posição se compromete apenas com os termos como adjetivos: to auto estin ⟨_ agathon kai _ kakon⟩. Como sugere Robinson (op. cit*., p. 150), poderia haver interesse no efeito paradoxal da ambiguidade acima mencionada entre “x* e y são o mesmo” e “a mesma coisa é x e y”. Conquanto seus argumentos deixem claro a proposição predicativa, a tese ainda permitiria, sintaticamente, a possibilidade da ambiguidade. Cf. Aristóteles, Metaph., 1062b 15, em que a sentença predicativa (to auto... kakon kai agathon) se refere à consequência relativista da doutrina do homem medida de Protágoras, que resultaria, para o estagirita, na negação do princípio de não-contradição. Mais à frente, Aristóteles dirá (1063a 10): “[...] devemos questionar a verdade com base nas coisas que sempre se conservam do mesmo modo e não que sofrem alguma mudança.” (grifo meu) Como se posicionou Aguiar (2006): “[...] os DL não querem solucionar a confusão entre o que é essencial e acidental. O caminho tomado pela argumentação do texto anônimo é o do muitas vezes e não o caminho do sempre. Ao se enveredar por uma senda que não busca chegar à essência das coisas, mas ao melhor uso argumentativo, pragmático, do logos, ele opta por trabalhar acidentalmente, o que é primordial para que possa relativizar suas asserções. E isso é feito sem um juízo de valor ontológico ou normativo.”

[8]: O uso do optativo é frequente em lugares onde poderíamos esperar um indicativo depois do verbo principal, cf. 1.11; 1.17; 2. 21; 4.6. Robinson (1979, p. 154) observa que a intenção do autor pode ser aparentar neutralidade. Poderia ainda ser a de atenuar a afirmação, colocando-a no nível do potencial. Porém, devido à constância do uso, isso também pode simplesmente indicar um vício de linguagem, por parte do autor.

[9]: Essa afirmação confirma que a tese está usando os termos kalon e aiskhron de forma predicativa. Assim, o argumento seria que, baseando-se na experiência, diferentes valorações podem ser dadas para a “mesma coisa”, de acordo com diferentes situações e perspectivas, em diferentes tempos e lugares.

[10]: Acerca dos enunciados em primeira pessoa, Dueso (1996, p. 136) acredita que tese e antítese reflitam as posições de dois oradores rivais, como numa disputa oratória. Nesse caso, a forma antilógica de influência protágorica estaria refletida apenas na construção “a mesma coisa é x e o contrário de x”, presente na tese. Robinson (1979, p. 74) sugere que as afirmações em primeira pessoa poderiam ser um elemento retórico característico deste tipo de escrito antilógico. Dessa forma, então, a antilogia seria o princípio norteador do texto como um todo e se provaria pela complementaridade das posições.

[11]: potitithemai: “associar-se com, estar a favor de, estar ao lado de, tomar partido de”, contrasta com a construção mais branda usada em 2.2 e 3.1: peiraomai, “tentar”.

[12]: Os adjetivos estão, em geral, no neutro singular, de sorte que eles não mudam a forma, concordando com o sujeito: uma tradução literal seria, portanto, “x é uma coisa boa” ou “x é um bem”, mas optei por “x é bom”, e por sempre concordar adjetivo com sujeito. Além disso, é importante destacar que optei por traduzir os adjetivos repetidos sempre que possível pela mesma palavra, isto é, agathon, por exemplo, sempre é “bom”; quando, na verdade, eu teria à disposição outras várias acepções possíveis. Usar uma palavra para cada contexto comprometeria o caráter reiterativo do texto, que joga, justamente, com os diversos sentidos, com as diferentes aplicações de um mesmo termo. A opção por manter essa característica do texto produz por vezes passagens canhestras em português, porque dificilmente o termo escolhido dá conta de todos os usos do termo grego.

[13]: Cf. Protágoras, 334a-c: “algo variado e multiforme é o bem”. “Depois da fala de Protágoras, o público aplaude, como se tivesse sido exposta uma doutrina original e importante.” (DUESO, 1996). Uma interpretação dessa passagem pode ser: “A doutrina de Protágoras é que o bem não é um objeto nem uma qualidade, mas uma relação. [...] As condutas boas e más não formam para todos e para sempre classes necessariamente disjuntas.” (ibidem).

[14]: “Na competição do estádio”: medida de distância equivalente a 125 pés, ou 206,25 metros.

[15]: Essa é a passagem que sugere a datação do texto ou, ao menos, seu terminus a quo.

[16]: A derrota dos atenienses e aliados deu-se na batalha de Egospótamos, em 405/404 a.C.

[17]: As Guerras Persas ocorreram entre 490-479 a.C. Duas batalhas importantes deram a vitória aos gregos, no ano de 479 a.C. – a de Plateia e a de Mícale.

[18]: Talvez uma referência à expedição mítica conhecida como os “Sete contra Tebas”.

[19]: Os centauros, convidados do casamento do rei dos Lápitas, Peirítoos, tentaram raptar a noiva, Hipodâmia, e outras mulheres de seus anfitriões. Na batalha que se seguiu, os centauros foram derrotados e expulsos do monte Pélion.

[20]: Os Gigantes, segundo se narra, rebelaram-se contra os deuses, mas foram derrotados e aprisionados nas profundezas da terra.

[21]: Aqui tem início a antítese, o discurso oposto. Segundo a interpretação de Dueso, já mencionada, após a exposição da tese, um outro debatedor tomaria agora a palavra.

[22]: Pragma, em sentido geral, remete tanto a “coisa, fato, ação, evento” como “circunstância, situação” – e, por isso, “realidade” (como uso em 4.6): o conjunto das coisas reais (concretas) em oposição aos seus nomes. A relação entre onoma/pragma como “nome/coisa” (ou, algumas vezes, ergon, “ação”), paralela à antítese nomos/physis (“convenção/natureza’), foi um tópico muito recorrente e de extrema importância para os gregos antigos. O entendimento dessa relação reflete o pensamento sobre o vínculo linguagem e realidade, bem como, em determinado momento, a questão da significação dos nomes. Cf. Eurípides, Fenícias, v. 499 e ss.: “Se, para todos, a mesma coisa fosse, por natureza, ao mesmo tempo, boa e sábia, não existiria entre os homens a discórdia de ambígua linguagem. Mas não existe nada idêntico ou semelhante com exceção dos nomes (onomasin); a coisa (ergon) não é assim.” E Aristóteles, Metaph., 1006b 22: “Mas o ponto em discussão não é saber se o mesmo ente pode a um tempo ser e não ser um homem quanto ao nome (onoma), e sim quanto ao fato (pragma). Ora, se ‘homem’ e ‘não-homem’ não diferem na significação, evidentemente ‘não ser homem’ outra coisa não significará senão ‘ser homem’; de modo que ‘ser homem’ equivalerá a ‘não ser homem’, pois tudo será uma coisa só.” (Trad. Vallandro, 1969, p. 95). A concepção arcaica parece ter reconhecido no nome, considerando a experiência do rito, sua função (in)vocativa, capaz de manifestar ou introduzir o ser. Essa valoração da palavra pode ser encontrada atualmente tanto na poesia quanto no folclore popular (crendices e tabus) e em práticas supersticiosas e/ou religiosas (invocações, maldições, entre outras). Aceito como uma propriedade do ser que nomeia, possuiria o poder de instaurá-lo (cf. Hes. Teog. 149). Onoma, em Homero, diz-se para o nome próprio (cf. Il. 9.515; 10.68; 18.449), a única unidade linguística isolável equivalente a nossa palavra, aparecendo em oposição a e*rgon* e pragma, entendidos, nesse ambiente, primordialmente como ação guerreira; ou oposto à pessoa mesmo. A explicação etimológicosemântica dos onomata, principalmente dos deuses, desde muito cedo, tornou-se parte da técnica poética, sendo um recurso utilizado por rapsodos, poetas líricos e trágicos. Quando os poemas épicos se tornaram algo como textos morais para os gregos, a exegese dos nomes foi um recurso empregado na tentativa de explicar o que não era facilmente compreendido, já que os textos apresentavam alguma dificuldade de interpretação, dada a disparidade entre a concepção presente neles e a vigente à época, e mesmo por conta do desconhecimento do vocabulário. A crítica e a elucidação desses textos passou a integrar a própria recitação dos mesmos, e a ênfase na explicação das palavras dever-se-ia à crença numa verdade oculta nelas, a análise desvelava ao público seu sentido profundo e verdadeiro, no nome subjaziam informações sobre a coisa. Onoma passa logo a designar, então, qualquer nome (substantivo), sem perder, no entanto, sua característica primeira, impregnando o pensamento sobre a linguagem com a ideia de que qualquer nome é próprio. A necessidade de explicações racionalistas encontrou na etimologia e na alegoria um modo de proceder sem questionar ou afrontar a tradição. Procedimentos exegéticos baseados na análise do onoma forneciam respostas e, por isso, foram alçados à categoria de ferramentas de reflexão. As possibilidades de relações de cunho cognitivo, ontológico e moral, reveladas na análise do nome, instauram uma forma de investigação da realidade que tem na linguagem uma via de conhecimento. “A concepção de que sob cada onoma subjaz a coisa e seu logos (ou explicação) chegará até Aristóteles e mais além.” (ELICEGUI, 1977, p. 10). Heráclito teria unido essa concepção de linguagem à prática filosófica. O vínculo palavra-coisa é levado a outro nível por ele: a importância da polissemia dos termos é usada como argumento para o constante devir do universo e a distinção estabelecida por ele entre o nível comum da linguagem (logos), presente no discurso cotidiano, e o nível profundo (Logos), transmissor e manifestante da sabedoria ligada à organização do universo, deixa entrever a importância que Heráclito conferiu à linguagem como desveladora das relações profundas da realidade. Parmênides também parece ter dado grande importância à linguagem, na medida em que estava relacionada ao pensar e ao ser. O que é dito deveria se referir ao que é, assim não poderia existir um significado que fosse diferente da realidade. Os nomes seriam expressões do ser e, ainda que contraditórios, não poderiam ser ilusórios. A linguagem comum teria se tornado defeituosa e polissêmica, por causa das falsas percepções humanas; apesar disso, ou contra isso, o ser e a verdade deveriam sobrepor-se à linguagem. A crença no vínculo entre realidade e linguagem e a convicção de que há um nível subjacente à linguagem, o qual permite a explicação da realidade, i.é., conhecer o nome é conhecer a coisa, parece provocar uma necessidade de ajuste. Delineia-se, desde então, a disposição de manipular, controlar a linguagem, de maneira a revelar mais prontamente relações “verdadeiras” com/sobre o real. “O nome fala a verdade sobre as coisas: onoma ornis - o nomen é um omen [“o nome é um sinal, agouro ou presságio”].” (WOODBURY, 1958, p. 155). A ideia de que o onoma guarda o logos de uma coisa sugere que o logos de uma coisa corresponda a seu onoma, de sorte que onoma equivalerá à expressão que o explica - e assim diferenciar onoma de pragma é também diferenciar uma expressão daquilo (da coisa) a que se refere: expressões diferentes indicam coisas diferentes, são onomata diferentes. Verifica-se, então, um vínculo onoma/ pragma - linguagem/realidade. Supondo que essa ideia de vínculo estivesse subjacente ao argumento em questão, uma interpretação possível da passagem do DL poderia ser: “o onoma da coisa que é boa é to agathon (o bom, o bem), porque agathon é seu logos; e o onoma da coisa que é ruim é to kakon. To agathon e to kakon são onomata diferentes, referem-se a (indicam) coisas diferentes no mundo (‘o nome é diferente, assim também a realidade’); to agathon e to kakon não são e não podem ser nomes para a mesma coisa, porque então ela teria dois logoi opostos, e não saberíamos mais qual o logos de cada coisa (o que ela é: ‘o que é bom e o que é ruim’).” O que já supõe, no mínimo, uma operação: agathon Y to agathon, do logos ao onoma; esse cálculo possibilitaria novas operações: daí, e de novo, do onoma ao logos (a pergunta pelo logos de to agathon) Y abstração, ideia Y conceito Y Forma; e várias escolhas: 1. veracidade do vínculo – só há um logos verdadeiro para cada coisa: é impossível contradizer; 2. descrédito do vínculo: exercício da contradição; 3. quebra do vínculo: é inevitável contradizer; 4. imposição do vínculo: não se deve contradizer; e assim por diante. Além disso, e por outro lado, no século V a.C., a racionalização crescente, a consolidação do alfabeto, a difusão da literatura escrita, entre outros fatores históricos, propiciaram que aos poucos surgisse um novo entendimento da linguagem. Passível de ser decomposta em elementos (letras e sílabas) sem significado, e de ser analisada em seu valor próprio - uma concepção materialista que foi ligada à figura de Demócrito. Demócrito teria considerado a linguagem arbitrária e fruto de convenção ou instituição. Posições assim influenciaram alguns pensadores a desvicularem-na da realidade, atendo-se, portanto, a questões e potencialidades meramente linguísticas (discursivas, sonoras), movimento que acaba, porém, por evidenciar ainda mais problemas epistemológicos. A questão da orthotes onomaton (“correção dos nomes”) é, nos sofistas, ao que tudo indica, uma discussão acerca da definição para a correta aplicação pragmática das palavras – comparação, distinção e escolha do vocábulo mais apropriado ao uso pretendido, orientando a melhor escolha, a mais adequada à situação (ainda que possa ter sido, em Pródico, por exemplo, a procura do logos de cada onoma). Mas parece tornar-se, novamente, em Platão, uma indagação acerca da adequação da linguagem à realidade, de como a primeira pode representar verdadeiramente a segunda. Em vista de tantos desajustes manifestos, Platão teria acabado desqualificando a linguagem comum como caminho seguro para se conhecer o real.

[23]: O verbo é diaireuomai, cf. Heráclito, B 1 DK (diaireon) e Pródico, A 14, A 16, A 17 DK. Pródico era conhecido por sua insistência em distinguir os nomes (diairein ton onomaton), analisando matizes semânticos dos vocábulos aparentemente sinônimos. Alguns viram nesse procedimento um antecedente do método de divisão socrático, que tem papel decisivo na dialética platônica. Contudo, ao que tudo indica, o interesse de Pródico estava relacionado ao uso correto da linguagem, tal como expresso em nota anterior, e não visava a inquirir a essência correspondente a um determinado nome e dividir cada noção, dicotomicamente, em subespécies, mas demonstrar que não eram sinônimos os termos vulgarmente considerados como tal (cf. SOUSA; PINTO, 2005, p. 155-156). De qualquer forma, é bastante provável que seu método tenha exercido grande influência sobre Sócrates. Voltando ao nosso texto, a antítese afirma que há dois nomes distintos, to agathon e to kakon, e que há duas coisas distintas – todavia, não é o que é específico de ser to agathon ou to kakon (a essência, ou seja, uma definição do conceito) que se busca, não será dito o que é to agathon e o que é to kakon, mas que são diferentes (1.17). O argumento seguinte, no entanto, sugere que a diferença entre to agathon e to kakon é necessária, para que uma coisa seja entendida como agathon ou kakon.

[24]: Na tradução de Dueso (op. cit., p. 153), hekateron, nessa frase, se refere não a agathon e kakon da frase anterior, mas sim a tagathon e to kakon do início de 1.11: “Me parece, en efecto, que no sería evidente cuáles son las cosas buenas y cuáles las malas, sino uno y otro (el bien y el mal) fueran lo mismo y no distintos.” O mesmo para Robinson (op. cit., p. 161): “[...] pois hekateron (um e outro) é mais naturalmente ‘cada um dos dois componentes da identidade to agathon e to kakon’(cf. 2.21), enquanto a frase imediatamente anterior é, claro, meramente predicativa. A suposta contradição não é de fato uma contradição.” Uma coisa é a igualdade entre ekeino ho esti kalon e ekeino ho esti aiskhron (“aquilo que é bom e aquilo que é ruim”) (mesma coisa, e julgamentos opostos, dependendo de quem (e quando e como)); outra, a diferença entre to agathon e to kakon. Se se tratam de duas coisas, dois assuntos, não há contradição – o conflito seria aparente, parece sugerir Robinson, as visões são complementares – no entanto, a tensão permanece como efeito da manipulação da linguagem.

[25]: Dillon e Gergel (2003, p. 405) afirmam que “[...] este argumento revela um descuido primitivo com a diferença entre absoluto e relativo, e lembra o tipo de argumento retratado por Platão como tendo sido alardeado por uma figura tal como Eutidemo.” (grifo meu) Acredito que seja isso mesmo, revelar, demonstrar possibilidades argumentativas, porém, de como o descuido pode ser utilizado: a suposta falta de cuidado, apenas, não nos comprova que os sofistas não percebiam a diferença, ao contrário, pode indicar que a valorizaram somente no que tinha de mais palpável: como uma diferença nas maneiras de dizer.

[26]: O texto apresentado por Diels é*:*εἶπον δή μοι, ἤδη τύ τι τοὶ γονέες ἀγαθόν ἐποίησαν; - “[...] diga-me, seus pais já lhe fizeram alguma coisa boa?”. Robinson (1979), que seguimos, diz manter a versão dos Mss., onde o sentido seria: “[...] é ilógico restringir as atitudes para com os pais a atitudes boas, já que atitudes de natureza contrária, isto é, ruins, seriam igualmente boas.”

[27]: Para Kranz (1937) e Ramage (1961, apud ROBINSON, op. cit., p. 156), de 1.12 a 1.17 teríamos o fragmento de um diálogo genuinamente socrático, ainda que primitivo e mal elaborado.

[28]: Uma típica preocupação socrática era a busca pela definição dos termos, principalmente morais, cf. Aristóteles, Metaph., 987b 1-5. Como já mencionado anteriormente, esse interesse socrático foi inclusive suposto como um desdobramento do método de distinção de sinônimos aparentes de Pródico.

[29]: A antítese não chega a defender sua posição, explicando por que, ou como, o bom é diferente do ruim (o bem do mal), apenas produz uma réplica à posição anterior, evidenciando problemas aí implicados. Essa é uma tática comum também aos diálogos socráticos de Platão: as asserções refutadas são conclusões do próprio Sócrates acerca de doutrinas de seus adversários.

[30]: Percebam-se os movimentos da antítese: comparar 1.16 e 2.1 com o modo como a antítese passa de uma sentença de identidade (1.12) a uma sentença predicativa (1.14), usa os dois tipos na mesma seção (1.16) e termina com uma sentença predicativa explícita e uma de identidade encoberta (1.17). O mesmo em 2. 20, 21, 22 e 24, como se não houvesse diferença entre os dois tipos de sentença. Poderia ser ingenuidade do autor, mas, um propósito propedêutico não deve ser descartado. A intenção poderia ser evidenciar aos alunos os problemas envolvidos numa argumentação desse tipo: em que operações ela se apoia. Mais que supor que essa argumentação realmente refute a tese, instruir na detecção de raciocínios falaciosos (ROBINSON, op. cit., p. 77, 150, 151). Isso reforçaria a afirmação tantas vezes feita em defesa dos sofistas, contra Platão, de que eles estavam conscientes dos limites (do alcance) das estratégias discursivas que propunham.

[31]: O sentido, de acordo com os contextos apresentados, seria: “decente” e “vergonhoso” ou “adequado” e “inconveniente”, isto é, moral e/ou socialmente aceito e não. Peri kalou significa, à letra, “sobre o belo”, mas o vocábulo grego kalos tem também a conotação valorativa, no plano moral, do que é “bom”, e aiskhros tem o significado pejorativo de “vil”, “indecoroso”. Também se usa, na linguagem coloquial, a oposição ‘bonito/feio’, num sentido próximo deste indicado (cf. SOUSA; PINTO, op. cit*.*, p. 288).

[32]: “De fato” traduz to soma (“corpo”). Aqui a oposição onoma/pragma é substituída por onoma/soma, o que reforça a existência de uma contraparte objetiva do nome como um argumento para a distinção, tal como existiria a pessoa a quem se refere seu nome. Taylor (1911, p. 103) menciona a aproximação de soma com idea (eidos ou idee), ambas ao lado de physis, em oposição a onoma e nomos, um sentido que persistiria, segundo o autor, em Platão e Aristóteles.

[33]: Cf. Platão, Phaedr. 230e ss. e Symp. 183d.

[34]: Cf. Heródoto, 1. 203; 3. 101; Xenofonte, Anab. 5. 4. 33; Platão, Hipp. Mai. 299a.

[35]: Para o homem é feio, mas para a mulher é muito feio: o grau superlativo do adjetivo certamente não é usado à toa.

[36]: Algumas afirmações etnológicas dadas pelo autor coincidem com passagens de Heródoto, no entanto, detalhes e até mesmo informações gerais que aparecem no DL não se encontram no historiador. Isso poderia sugerir que ambos tenham trabalhado com fontes mais antigas. Em nota, indico algumas passagens que podem ser comparadas.

[37]: grammata.

[38]: Cf. Eurípides, Electra 815 ss.

[39]: Cf*.* Hdt. 4. 65, 66.

[40]: Cf. Hdt. 1. 216; 4. 26; 3. 38.

[41]: Cf. Hdt. 3.31; Xenofonte, Mem. 4. 4. 20.

[42]: Cf. Hdt. 1.93.

[43]: Cf. Hdt. 3. 38, 7. 152.

[44]: O verbo é diaireo, cf. nota 25.

[45]: ho kairos.

[46]: Estes versos costumam ser atribuídos a Eurípides, cf. Robinson, op. cit*.,* nota ad loc.

[47]: Enunciado explícito: to auto pragma.

[48]: Perceba-se a reformulação do enunciado, transformando os termos predicados em sujeitos da oração.

[49]: Também sobre o tema, cf. [Platão sp.], Peri dikaíou; Xenofonte, Cyrop. 1.6.26 ss.; Platão, Res. 331b-d, Leg. 860 c-e;

[50]: A correspondência, inclusive literal, entre passagens deste capítulo e o diálogo de Sócrates e Eutidemo, retratado por Xenofonte, Memorab. 4. 2. 14 ss., tem instigado a busca de sua fonte primeira: Sócrates; o próprio autor do DL; ou outro pensador mais antigo. A questão é incerta, cf. Robinson, op. cit., nota ad. loc. com bibliografia mencionada.

[51]: Ambos mataram a própria mãe para vingar o pai.

[52]: antios logos.

[53]: Passagem complicada. Diels propõe:καὶ ⟨αἰ*⟩* λέγοιτο ῾πολλὰ ἀδικήσας ἀποθανέτω᾿, ἀποθανέτω ⟨καὶ πολλὰ καὶ δίκαια δια⟩πραξάμενος. “Se fosse dito: “que morra aquele que cometer muitas injustiças”, que morra também o que fez muitas coisas justas.”

[54]: Pseudeos é genitivo do substantivo pseudos e não do adjetivo pseudes, cujo neutro singular não é encontrado em escritos mais antigos, cf. LSJ⁹, s.v. Alatheias pode ser genitivo do substantivo alatheia (dórico para aletheia), mas também uma variante para to alathes, cf. Robinson, op. cit., p. 190. Para to pseudos oposto a to alathes, ver adiante 4.5, e Platão, Euthyd. 272b, Gorg. 505e, Resp. 382d., entre outros.

[55]: Cf. Platão, Euthyd., 283a e ss. (acerca de qualquer enunciado ser verdadeiro); Aristóteles, Soph. El., 178b 24 e ss. (acerca de uma proposição ser falsa e verdadeira), Cat. 4a 23 - b 13 (acerca de asserções e opiniões admitirem os contrários).

[56]: ergon. A retomada desta afirmação pela antítese em 4. 7 usa o termo pragma, traduzido então por “acontecimento”.

[57]: Se dissessem que é falsa sua afirmação de que “o discurso verdadeiro e o falso são o mesmo”, então, o discurso verdadeiro e o falso não seriam o mesmo, seriam diferentes.

[58]: Para o argumento da autorrefutação, peritrope, empregado desde a antiguidade contra afirmações relativistas atribuídas aos sofistas, ver Platão, Euthyd. 286c, Theae. 171; Demócrito, DK 68 A114.

[59]: As seções 7 e 8 são complicadas e podem estar corrompidas ou apresentar lacunas; sigo o texto proposto por Blass, conforme Dueso (op. cit*., p. 138 e 191). A passagem seria uma réplica ao proposto pela tese em 4.3, que fala de um mesmo* discurso e cita a prática dos tribunais. A antítese pretende demonstrar (4.7) que do próprio argumento deles se segue que são dois discursos distintos, um falso e outro verdadeiro.

[60]: Uma das interpretações dessa passagem poderia ser que a antítese deturpa o que a tese diz em 4.3, acreditando que despreze o julgamento dos juízes: já que eles não presenciam os fatos, não podem dizer se há correspondência. Mas a tese parece simplesmente afirmar que um mesmo discurso, expresso com as mesmas palavras, será ora verdadeiro, ora falso, a depender dos eventos, o que seria comprovado pela prática dos tribunais.

[61]: Também os juízes reconheceriam que são dois discursos diferentes. Isso, além de reforçar a antítese, poderia ter sido dito no intuito de salvaguardar a prática jurídica (cf. nota anterior).

[62]: Cf. Platão, Alc. i, 109b; Leg. 944c.

[63]: Com base nesse capítulo, e como leitura do tratado mesmo, apresento duas posições: 1) Kneale e Kneale, acerca da reflexão sobre problemas de lógica formal antes de Aristóteles: “[O DL] é obviamente parte de um prolongado debate sobre a possibilidade de falsidade e contradição. Como o fragmento está mutilado é impossível saber bem de que se trata, mas parece que o autor defende que é possível não só fazer afirmações contraditórias (antilegein) mas mesmo sustentar em diversos contextos, duas teses plausíveis que se contradizem uma à outra. Para provar desenvolve uma série de antinomias, cada uma com uma tese e uma antítese. De interesse especial é a quarta antinomia na qual o autor mostra que é possível sustentar ambos os lados de uma contradição sobre verdade e falsidade. Na tese ele tenta mostrar que a verdade e a falsidade são idênticas [sic] citando o exemplo de uma forma verbal, e.g., ‘Sou um iniciado’ que é verdadeira quando dita por A e falsa, quando dita por B. Deste argumento é, no entanto, possível tirar a conclusão de que não é a expressão verbal (a frase) que pode ser verdadeira ou falsa. Esses predicados têm que ser aplicados àquilo que é expresso pela frase, i. é., a afirmação ou a proposição. Podemos ter aqui a origem da distinção estoica entre phone e lekton. Esse argumento estabelece o mesmo princípio acerca das noções de verdadeiro e de falso que o argumento do Eutidemo acerca de validade, nomeadamente que essas noções não podem ser ligadas a simples esquemas verbais.” (KNEALE; KNEALE, 1972). 2) E Rossetti, abordando o que chama de relativismo fenomenológico de Protágoras, do DL e de outros textos sofísticos, diferenciando esse relativismo de um pessimismo epistemológico, por evidenciar-lhe o “desacordo respeitoso”, o qual reconhece a dignidade das opiniões que não partilhamos, sobretudo a dignidade dos julgamentos descritivos e das opiniões que se apoiam sobre experiências pessoais diretas e imediatas, e que não se estende a opiniões que não se sustentam - por exemplo, à opiniões intencionalmente caluniosas que inventam e falsificam dados existentes, considerará o DL exemplar da souplesse desse relativismo: “[...] a análise [no DL] é enriquecida pela possibilidade de se estabelecer a falsidade de um julgamento descritivo quando o fato a descrever é, em geral, inequívoco. Mas o autor do DL contempla outros recursos também, e, se nos três primeiros capítulos ele adere manifestamente [sic] ao relativismo da ‘verdade’, em outro, no quinto, ele nos assegurará que há casos em que o julgamento bem pode ser manifestamente falso: por exemplo, não podemos reivindicar que o homem normalmente (convencionalmente) sentado está de pé, ou que onos seja a mesma coisa que noos. A flexibilidade deste relativismo me parece então notável.” (ROSSETTI, 1986).

[64]: O enunciado é explicíto: to auto pragma.

[65]: A julgar pelos exemplos dados, essa afirmação resumiria as possibilidades de se atribuir diferentes predicados a uma mesma coisa, isto é, todos eles seriam possíveis: essa coisa é potencialmente qualquer coisa. O enunciado, no entanto, contém a já mencionada ambiguidade entre “x é y” e “y é x”, tendo sido, por conta disso, traduzido muitas vezes por “tudo é o mesmo” – que, na verdade, é a consequência inversa que a antítese imputa à tese para assim poder refutá-la.

[66]: “Ser, estar, existir e haver” pode ser dito com o mesmo verbo em grego, por isso, esse exemplo serve para confirmar a afirmação imediatamente anterior.

[67]: As coisas (físicas) = ta pragmata são/estão/existem e não são/não estão/não existem (em algum lugar ou de alguma forma). A confusão provém da ambiguidade gerada pelo duplo sentido do verbo ser: ser-existencial e ser-predicativo, entre ser absolutamente e ser em algum aspecto. A considerar os exemplos, a afirmação se daria em sentido relativo, no entanto, sua forma é ambígua e dá margem à falácia conhecida como a dicto secundum quid ad dictum simpliciter, que assim é explicada por Aristóteles: “[...] ocorre quando o que se predica em parte é tomado como se fosse predicado de forma absoluta, [...] pois não é o mesmo ser alguma coisa (ti) e ser absolutamente [ou simplesmente] (aplos).” (Soph. El. 166b 38-167a 3). Cf. nota 27.

[68]: Temos, no mínimo, duas leituras interessantes para a conexão entre as passagens 5.10 e 5.11, com diferentes resultados: Sousa e Pinto (op. cit*., p. 295), Robinson (op. cit., 129 e notas ad loc.) e Sprague (1968, p. 163) apresentam, aproximadamente, a seguinte interpretação: “eles acrescentam “quando convém” e “quando não convém”, mas as coisas* não se alteram com isso; as coisas se alteram quando se muda o acento, se trocam as letras (etc.). Robinson (idem) acredita num equívoco: para a tese, o “quando convém” e “quando não convém” (o contexto: ex. falar vaca para vaca - convém, e vaca para cavalo – não convém) indicaria se quem fala (a mesma coisa: vaca) é louco ou sensato. Porém, a antítese supõe que o acréscimo estaria pressupondo uma mudança no significado, por isso, sustentará que somente uma modificação na palavra poderia alterá-lo, somente outra palavra indica outra coisa (“vaca” dito “quando não convém” não significa “cavalo”). Também Desbordes (1987, p. 40-42) apoia sua argumentação em interpretação semelhante a essa, com uma diferença no tom: o contexto poderia fazer crer que não é mais a mesma coisa (a mesma palavra), mas, em matéria de linguagem, a mudança tem que se dar na palavra: “[...] duas palavras são diferentes não porque se referem a coisas diferentes, mas porque possuem sentidos diferentes, e essa diferença está marcada na matéria mesma das palavras por uma diferença concreta, quão pequena for. [...] Tratando-se de linguagem, a resposta à questão “o mesmo ou o outro” é inteiramente interna e desligada de toda relação com o mundo exterior.” (ibidem, p. 41, grifos meus). Semelhante às leituras de Mittman, Ribeiro e Targa (2008, p. 28) e Gagarin e Woodruff (1995, p. 305), eu sugiro a seguinte interpretação: eles acrescentam “quando convém” e “quando não convém” e isso muda a coisa; as coisas se alteram, sim, não só assim, mas também quando se muda o acento, se trocam as letras (etc.); logo, os loucos e os sensatos não falam a mesma coisa. Na minha opinião, essa leitura está de acordo com a argumentação da antítese em 4.6, 4.7 e 4.9, quando conclui, utilizando as próprias colocações da tese, que o enunciado verdadeiro é diferente do falso, e também está de acordo com a colocação da antítese, em 5.13: acrescer ou retirar algo muda a coisa. Parece-me o mesmo argumento de 4.9, algo como: de acordo com sua tese, eles dizem que os sensatos falam quando convém, e os loucos quando não convém; portanto, há diferença. Em 2.23, a antítese sustentou que “[...] se a mesma coisa é bonita e feia, então, na Lacedemônia é bonito que as meninas pratiquem ginástica, e na Lacedemônia é feio que as meninas pratiquem ginástica”, de sorte que a manutenção do complemento “na Lacedemônia” parece fazer parte de seu argumento de que assim se fala da mesma coisa. A tensão permanece entre a visão relativista, perspectivista, ou contextualista, da tese e a leitura em bloco da antítese.

[69]: Todos os exemplos mencionam palavras “iguais”, porém, com acentos recaindo, ora na primeira, ora na segunda sílaba.

[70]: Como o autor menciona, a diferença, não marcada na transliteração, está na presença das “mesmas” vogais, ora longas, ora breves.

[71]: Cf*. Platão, Crátilo*, 432a-b: “Crátilo: Mas tu percebes muito bem, Sócrates, que quando atribuímos aos nomes, de acordo com a gramática, as letras a e b, ou qualquer outra letra, se acrescentarmos ou subtrairmos ou deslocarmos uma, não poderemos dizer que escrevemos o nome, embora incorretamente; não escrevemos de jeito nenhum, pois o que nessa mesma hora surgiu foi outro nome, uma vez introduzidas todas aquelas modificações. Sócrates: É preciso ver, Crátilo, se não estamos considerando o assunto por um prisma errado. Crát.: Como assim? Sóc.: É bem possível que se passe conforme dizes com o que só existe necessariamente, ou não existe, por meio de números. O número dez, por exemplo, ou outro qualquer que te aprouver: se acrescentares ou suprimires alguma coisa, tornar-se-á imediatamente outro número; [...].” (Trad. Nunes, 1980, p. 182).

[72]: Desbordes (op. cit*.,* p. 41) chama a atenção para a antiguidade dessa quadripartição – mutação (acentos, duração), metátese (ordem das letras), adição e subtração –, atribuída geralmente aos estoicos.

[73]: Réplica a 5.3. A interpretação de Dueso e Robinson é que a antítese aceita que “as mesmas coisas sejam tudo”, mas apenas de maneira relativa (pei), secundum quid, e não de maneira absoluta (ta panta), simpliciter. Cf. nota 67. O que acaba por ser, por fim, a explicitação do argumento que estava na base de suas colocações até agora. O fato, já mencionado muitas vezes, é que a tese, devido aos exemplos utilizados, não se compromete com afirmações em sentido absoluto.

[74]: Costuma-se traduzir arete por “virtude”, termo que evitei usar, por crer que transmite um conceito cristão de castidade e/ou correção moral. Na discussão apresentada no Protágoras de Platão, acerca da possibilidade ou não do ensino de arete, discussão esta que se assemelha em muitos pontos à do DL, o que está em jogo, pela visão sofística, é a possibilidade de, através do ensino, tornar um homem influente, capaz de tomar decisões adequadas e ser honrado pelos demais, recebendo distinção e reconhecimento público, bem como posição de destaque no governo da cidade; e, pela visão socrática, a desconfiança de que o ensino que vem de fora não pode incutir qualidades superiores num homem, caso ele já não as possua. A tradução por “virtude”, parece-me, poderia vir a desmerecer o debate. O ponto de contato dar-se-ia entre o entendimento socrático-platônico de arete como “virtude” da alma, essencialmente moral, e o uso que indica a competência e, então “virtude”, nas artes e em política. A tradução por excelência, ainda que não dê conta de todas as ocorrências, tenta manter a ligação com aristos (o melhor, superlativo de agathos) e a relação com o domínio de uma tekhne, um saber fazer, e segue Cassin (2005, p. 336).

[75]: O título aparece em Diels e Kranz.

[76]: Nesta seção (6.9), sigo o texto de Diels e Kranz. A proposta de Diels e Kranz simplifica a colocação do autor e parece estar de acordo com construções presentes em 6.10 e 6.12. De qualquer forma, tal como a de Robinson, é uma conjectura não totalmente corroborada pelos Mss. e pode ser criticada. Também Dueso (1996), aqui, segue Diels e Kranz, sem, contudo, mencionar que o faz.

[77]: Ta onumata (lit. os nomes, as palavras). Duas ocorrências na seção seguinte: 6.12.

[78]: Cf. Platão, Protagoras, 327e - 328a: “Agora, você age com desdém, caro Sócrates, porque todos, cada qual na medida dos seus próprios meios, são professores de excelência, embora ninguém, a seus olhos, se encontre em condições de ensiná-la. Ou ainda, é como se você procurasse por alguém capaz de ensinar a falar o grego, pois também não lhe pareceria que só existe um mestre [...].” (Trad. Cassin, 2005, p. 345)

[79]: Desbordes (op. cit., p. 36) assim interpreta esta passagem: “Reconhece-se uma prova banal da ‘convenção’ que rege a linguagem [...]. Mas nosso autor faz melhor [...]: a linguagem não é uma emanação das coisas, mas [também] não é mais uma propriedade da raça e do sangue - não se fala espontaneamente [...], mas por imitação do entorno, qual for. A linguagem é uma propriedade difundida por toda uma comunidade, ela é a mesma para todos e não se pode atribui-la a ninguém. É um fenômeno autônomo, independente das coisas, mas independente também da pessoa que a emite, que não é mais que um suporte temporário.”

[80]: O sorteio era feito usando-se favas.

[81]: Dueso (1996) propõe: “Siguiendo el critério de las propias técnicas, considero que un hombre experto se define por su capacidade para...” Segundo esse autor (1996, p. 196), kata tas autas tekhnas está presente em todos os Mss., tendo sido alterado por Blass. A tradução que ele fornece, no entanto, me parece inapropriada. Mesmo assim, o texto original permanece incerto e parece pouco adequado concluir, com base apenas nessa passagem, algo definitivo sobre o capítulo, tal como sustentar que se defenda aí a polimatia. Creio que da interpretação dessa frase, até o momento insatisfatória, dependeria um melhor entendimento do propósito deste capítulo.

[82]: No original: dialegesthai kata brakhu - fica a dúvida acerca da necessidade de aproximar essa habilidade com o procedimento geralmente adotado por Sócrates, nos chamados diálogos socráticos de Platão. Dueso (op. cit., p. 197): “[...] dialogar con preguntas y respuestas breves”; e Robinson (op. cit., p. 137): “[...] to converse in brief questions and answers.” Numa breve consulta à tradução do Protágoras de Platão, feita por Lombardo e Bell (1997, p. 746- 790), diálogo em que o modo de tratar um assunto se torna motivo de debate, percebe-se que as ocorrências dos compostos do verbo dialegomai são preferivelmente traduzidas por compostos do verbo to discuss, sem qualificação (assim, em 337a, 335d, 347e, 348b, por exemplo). Em 336c, onde se evidencia o procedimento socrático em comparação à longa exposição feita por Protágoras, prefere-se uma tradução qualificada: dialectical discussion; e apenas o enunciado explícito dialegestho eroton te kai apokrinomenos é então traduzido por let him engage in a question-and-answer dialogue. Ver adiante 8. 13.

[83]: pragmata.

[84]: hapanta.

[85]: Dueso (op. cit*., p. 171-176) e Taylor (1911, p. 127) acreditam que o capítulo defenda posições socráticas acerca das qualidades do político; Robinson (op. cit., p. 77, 80 e 81) descreve o capítulo como uma listagem das qualidades de um político-orador exemplar, e sugere um propósito propedêutico sofístico, por trás da aparência paradoxal das asserções aí apresentadas, as quais se assemelham às apresentadas no Eutidemo* de Platão. Observe-se que, no decorrer do capítulo, as competências listadas na primeira seção são tratadas aparentemente em sequência inversa.

[86]: Cf. Platão, Euthyd. 293-297 (Eutidemo e Dionisodoro lançam mão de diversos sofismas, para demonstrar a Sócrates que todos conhecem todas as coisas, se conhecerem apenas uma); Gorg. 456-459 (Górgias discorre sobre o poder da retórica e menciona que o orador é capaz de falar sobre todas as questões); Soph. 232b e ss. (discussão acerca da capacidade do sofista de discutir e conhecer qualquer assunto), sugere-se comparar principalmente as seguintes passagens: Soph. 232d 1-2 e DL 8.6, 8.9, 8.10; Soph. 232c 8-10 e DL 8.1 (fim); Soph. 232b 11-12, 232e 3-4 e DL 8.1, 8.3, 8.5, 8.13, (in.); Soph. 234c 4 e DL 8.1, 8.12; e Soph. 232c 4-5 e DL 8.1, 8.2.

[87]: O advérbio grego orthos contém a mesma ambiguidade que o português corretamente - falar “apropriadamente” ou falar “com exatidão, com veracidade”. Dentro do ambiente sofístico, falar ou advogar corretamente pode exprimir também a ideia de falar “persuasivamente”, obtendo êxito na causa.

[88]: Possivelmente há interesse na ambiguidade do termo, podendo funcionar como argumento falacioso ligado à seção anterior: para falar corretamente, é preciso conhecer o assunto sobre o qual se fala; quem tem o conhecimento das técnicas discursivas fala corretamente sobre tudo; logo, conhece tudo. Aparece também em 8.6, 8.9, 8.10 e 8.13.

[89]: Dueso (op. cit., p. 197) dá a tradução: “En efecto, tratará de conocer todas las cosas”: pois acredita ser um “futuro expressando uma necessidade mais que um fato, também em 8.7.” Discordo.

[90]: Segundo Robinson (op. cit., p. 230), os Mss. indicam uma lacuna de 4 ou 5 linhas aqui.

[91]: Esta passagem é uma das mais difíceis do tratado, pois não há certeza acerca do texto correto, muito menos de como deva ser interpretado, e os resultados são os mais díspares possíveis: Dueso (op. cit., p. 198):ἔστι γὰρ ταὐτὰ τῶν πάντων, τῆνα δὲ ποτὶ τωὐτὸν τὰ δέοντα πράσσεσθαι χρή - “Pues todos los seres humanos llevan a cabo los mismos actos, pero es preciso hacer aquello que es conveniente en relación com un mismo acto.”; Robinson (op. cit*., p. 138-139):ἔστι γὰρ ταῦτα τῶν πάντων, τῆνα δὲ ποτὶ τωὐτὸν τὰ δέοντα παρέξεται, αἰ χρή. - “For these ⟨objects of knowledge⟩ are part of all ⟨objects of knowledge⟩, and the exigency of the situation will, if need be, provide him with those ⟨other objects⟩, so as to achieve the same end*”; Diels e Kranz (1960, p. 416): ἔστι γὰρ ταὐτὰ τῶν πάντων τῆνα, ⟨ὁ⟩ δὲ ποτὶ τωὐτὸν τὰ δέοντα πράξει, αἰ χρή - “Estas coisas são as mesmas em todos os casos. E ele fará o que deve, diante do mesmo caso, se for preciso.” (Trad. MITTMAN; RIBEIRO; TARGA, 2008). Eu sigo o texto proposto por Robinson, porém, mantenho πρασσεῖται, presente nos Mss. (conforme informação constante nas três edições mencionadas). Uma tradução semelhante à minha é dada por Gagarin e Woodruff (1995, p. 308): “For these things belong to all things and, if necessary, he will accomplish the other things that need to be done.” Para a interpretação dada pelos autores citados, ver notas ad loc.

[92]: A negação está presente em todos os Mss., porém, foi eliminada na edição de Diels (DUESO, op. cit., p. 198).

[93]: Dueso substitui ταὶ δίκαι por τὰ δίκαια – “pues con esto tienen que ver las acciones justas.” – que, segundo ele, está em todos os manuscritos. Sua leitura é que o conhecimento da justiça (to dikaion) é a condição para conhecer as ações justas (ta dikaia): “O duplo nível ‘justiça-ações justas’ ou ‘beleza-coisas belas’ é uma exigência tipicamente platônica.” (DUESO, op. cit., p. 176).

[94]: pragmata.

[95]: nomos pode significar também “melodia”.

[96]: Cf. Platão, Gorg. 449b: “Sóc. Górgias, estarias disposto a continuar conversando como estamos fazendo agora, perguntando umas vezes e respondendo outras? [...] queira responder com brevidade às perguntas. Górg. [...] tentarei responder com a máxima brevidade. [...] ninguém seria capaz de dizer as mesmas coisas em menos palavras que eu.” (Trad. minha, com base em CALONGE, 1999).

[97]: O autor parece se referir, de acordo com as seções seguintes, mais propriamente à arte da memória (mnemotécnica ou mnemônica) que à faculdade de memorização. Uma memória treinada era de vital importância para os oradores na antiguidade e tornou-se parte do estudo formal de retórica: cf. Ad Herennium (tratado anônimo composto em I a.C.), III, 28-40, inclusive esta passagem, dedicada à memória, inicia-se com um elogio parecido àquele do DL: “Passemos agora ao tesouro das coisas inventadas e à guardiã de todas as partes da retórica: a memória.” (Trad. FARIA; SEABRA, 2005, p. 181). Esta obra, descrita por Yates (1984, p. 5) como a principal e única fonte completa para o estudo da arte da memória, tanto no mundo grego quanto latino, voltará a ser citada, pois sua discussão sobre memória de coisas e memória de palavras, papéis dados a lugares e imagens, esclarece detalhes deste pequeno capítulo do DL.

[98]: es philosophían, cf. nota 6. A tradução de Robinson (1979, p. 141) para a frase é: “for both general education and practical wisdom”. Cf. Élio Aristides (DK 79 1): “[...] filosofia designava uma espécie de amor pelo belo e um estudo relativo aos discursos, não nesta orientação atual, mas como uma educação em geral.” (grifo meu) (Trad. SOUSA; PINTO, 2005, p. 52).

[99]: A menção à sabedoria é, para Dueso (op. cit*.*, p. 199), prova de que este capítulo faça parte da estrutura conceitual dos quatro últimos, que, segundo ele, tratam do conceito de ciência, sendo, em conjunto, a parte positiva do que chama tese B, a antítese, cuja influência seria nomeadamente Sócrates.

[100]: Este é o capítulo que se pode mais facilmente relacionar com Hípias, a quem foi atribuída uma memória invulgar, entre muitas outras habilidades, bem como o desenvolvimento de técnicas mnemônicas específicas que constituíam matéria de ensino, cf. Platão (Hipp. Min. 368d 6-7 e Hipp. Mai. 285e), Filostrato (V. Soph. 1.11.1) e Xenofonte (Symp. 4.62). Contudo, é no mínimo questionável que ele fosse o único a possuir e ensinar essas técnicas. Para uma leitura que vê neste capítulo uma abordagem inovadora da memória no ambiente ético-político, traçando seu caminho desde a obra dos antigos poetas à sua valoração dentro da paideia sofística, ver AGUIAR, 2006, p. 87-93 e DETIENNE, 1988, passim. É oportuno lembrar que Cícero (I a.C.), no seu De oratore, apresenta um relato de como o poeta Simônides (séc. VI-V a.C.) teria inventado a arte da memória.

[101]: Desbordes (1998*)* cita este capítulo como um exemplo do interesse do autor do DL pela linguagem: “[...] trata-se de tornar consciente o processo da memória que está na base mesmo da competência linguística: a linguagem não é uma justaposição ao infinito de palavras isoladas, irredutíveis umas às outras; pode-se estabelecer entre elas relações, começar a esboçar uma rede, um sistema. E um sistema baseado nas propriedades materiais das palavras, aquelas que se pode manipular à vontade.” (ibidem, p. 36).

[102]: Robinson (1979, p. 141 e 239) traduz por following this course, i.é., o curso de memorização que estaria descrito nas seções seguintes.

[103]: A ordem de algumas palavras entre as seções 2 e 3 aqui está alterada em comparação com o texto proposto por Diels e Kranz.

[104]: O verbo é katatithemi: “relacionar” ou “associar”, no entanto, considerando o que os tratados remanescentes mais antigos nos dizem sobre a arte da memória, a tradução literal por “colocar” também estaria adequada. De fato, a mnemônica é descrita pelos romanos como a técnica de organizar arquitetonicamente lugares (loci) na memória, e dispor, então, ordenadamente, nesse espaço mental, as imagens (imagines) daquilo a ser lembrado: “A memória artificial constitui-se de lugares e imagens. [...] Por exemplo, se queremos guardar na memória um cavalo, um leão ou uma águia, será preciso dispor suas imagens em lugares determinados.” (Ad Herennium, III, 29. Trad. FARIA; SEABRA, 2005, p. 183).

[105]: Novamente a distinção onoma/pragma, cf*. nota 22. Aqui os exemplos parecem opor nomes próprios a substantivos comuns, no entanto, a distinção possivelmente se dá entre memorização de palavras, nomes (onomata*) e memorização de coisas (pragmata). Essa divisão aparece exposta nos tratados posteriores que versam mais longamente sobre a arte da memória, tal como o anônimo Ad Herennium, e as obras De oratore, de Cícero, e Institutio oratoria, de Quintiliano. No Ad Herennium (III, 33), é dito que há dois tipos de imagens, uma para coisas (res), outra para palavras (verba): coisas são os próprios casos, um assunto inteiro, o tema do discurso, que deve resumir-se em imagens; palavras são sequências ordenadas de palavras (uma poesia, por exemplo), e o método parece sugerir a semelhança sonora para construção da imagem. Minha tradução de peri andreias, nesta seção, por “o que diz respeito à coragem” (da mesma forma, em elipse, e deixando margem para alguma ambiguidade, com peri khalkeias - arte do ferreiro - e peri deilias - covardia) pode ter (re) forçado a comparação entre os tratados, de sorte que coisas não seriam os substantivos apresentados (coragem, arte do ferreiro, covardia), mas teriam o sentido ampliado do que é relativo a. Desbordes (op. cit., p. 36) acredita que essa divisão, entre memória de palavras e memória de coisas, testemunhe o desejo de fazer da linguagem um objeto autônomo.

[106]: A indicação de que o texto prossegue além deste ponto é dada pelos Mss. Não se sabe, todavia, quanto foi perdido.

[intro2]: Não se sabe por que o texto foi atribuído a Sexto Empírico. Fabricius, em sua edição do tratado, em 1724, afirma que isso ocorreu devido a uma confusão, e o autor seria, na verdade, Sexto de Queronea, um anticético. A hipótese, contudo, não foi aceita. Na opinião de Dueso (1996), “[...] a associação do tratado com Sexto Empírico deve-se a motivações teóricas: com efeito, os Dissoi Logoi seriam uma boa confirmação do princípio (arkhe) do sistema cético, a saber, que ‘a cada proposição se opõe uma proposição equivalente’ (S.E. P. 1. 12).” Vale lembrar que o DL não necessariamente se compromete com a afirmação de que os dois discursos apresentados sejam equivalentes. Segundo Floridi (2002), o DL está presente em vinte e dois dos cinquenta e quatro manuscritos gregos de Sexto Empírico.

[intro3]: O título pelo qual é conhecido atualmente, Dissoi Logoi, são as palavras inicias do texto. Robinson (1979, p. 78) observa que esse título pode ser infeliz, já que é meramente uma frase de efeito baseada nas palavras iniciais do texto que chegou até nós, refletindo apenas a estrutura dos cinco primeiros capítulos, e não do texto como um todo.

[intro4]: Isso leva a crer que não considerasse Sexto Empírico o autor do texto, mas também não o atribui a Diógenes Laércio.

[intro5]: Provavelmente, no período entre o fim da Guerra do Peloponeso e o começo da Guerra Coríntia, a qual durou de 394-387 a.C., já que esta guerra, na qual Corinto se juntou a Atenas, Tebas e Argos contra Esparta, não é mencionada. Mazzarino (1966 apud ROBINSON, 1979, p. 34) é o único que sugere uma data anterior, entre 457 e 429 a.C. Contra ele, manifestaram-se Untersteiner (1996) e Robinson (1979). Conley (1985 apud DUESO, 1996, p. 133) argumentou que as evidências internas apenas sugerem um terminus a quo; também Kerferd (2003, p. 94) sustenta essa posição, sustentando que a passagem coloca em relação temporal apenas as guerras citadas, mas não o momento em que o texto é escrito. De qualquer forma, as demais evidências não são, com isso, descaracterizadas: o próprio Kerferd sugere o começo do século IV a.C.

[intro6]: Para um estudo completo (até sua época) acerca das tentativas de atribuir autoria ao tratado e estabelecer suas influências filosóficas, incluindo as de seus editores dos sécs. XVII, XVIII e XIX, ver Robinson, (1979, p. 41-73).

[intro7]: As formas do particípio dativo plural, tais como poleunti (“os que vendem”), astheneunti (“os que adoecem”, mistharneonti (“os que obtêm lucro”), por exemplo, não são reconhecidas como características de nenhuma cidade. Para Robinson (1979), elas são um erro: “[...] a troca eo > eu é comum a muitos dialetos dóricos, e teriam assumido – erroneamente – que, porque a terceira pessoa plural do presente em dórico termina em –onti, o dativo masculino plural do presente particípio teria (como em ático e jônico) um final idêntico.”

[intro8]: Trieber (1892 apud DUESO, 1996) afirma que “[...] já na Antiguidade se acreditava que somente os pitagóricos haviam escrito em dórico e que, sem este erro, os DL teriam compartilhado o triste destino de outros textos sofísticos. A preferência da Idade Média por textos pitagóricos e místicos justificaria sua transmissão.” Contra a leitura de Rostagni, ver também Aguiar (2006, p. 40-46).

[intro9]: A relação do tratado com Hípias foi apontada já em 1889 por Dümmler. Trieber (1892) sugeriu que o autor seria o próprio Hípias ou um de seus seguidores, o mesmo pensou Pohlenz (1913) (ROBINSON, 1979).

[intro10]: XENOFONTE, Symp. 4. 62; PLATÃO, Hpp.Ma. 285e, Hpp.Mi. 368d.

[intro11]: Para Nestle (1940, p. 439 apud DUESO, 1996, p. 136), o autor se encontra completamente desamparado em sua opção entre as duas teses opostas, e refuta a tese protagórica da relatividade dos valores de uma forma torpe e infantil.

[intro12]: Os termos não aparecem nessa sentença, mas as sentenças seguintes, exemplificativas, expressam justamente esse uso.

[intro13]: Gomperz (1912): “die Andern aber, beides sei dasselbe” (1); “Die Einen erklären sie für identisch” (2); “die andere [erklären sie] für identisch” (3). Untersteiner (1961): “Altri, invece, (affermano) che (il bene e il male) coincidono” (1,1); “Altri, invece, sostengono che bello e turpe sono identici” (2. 1); “altri, invece, (affermano) che il giusto e l’ingiusto s’identificano” (3. 1). Sprague (1968): “but others say that they are the same” (1. 1); “and others say that the seemly and disgraceful are the same” (2. 1); “and others that the just and the unjust are the same” (3. 1). Dumont (1969): “Mais pour d’autres, honorable e répréhensible sont identiques” (2. 1); “Les autres que le juste et l’injuste sont identiques”(3. 1). Piqué (1985): segue os mesmos padrões. Sousa e Pinto (2005): “outros dizem que são o mesmo” (1. 1); “Outros, pelo contrário, dizem que decente e vergonhoso são o mesmo.” (2. 1); “outros dizem que justo e injusto são o mesmo.” (3. 1). Dessas traduções, por mim foram consultadas: Gomperz (1912), Sprague (1968), Sousa e Pinto (2005), as outras são citadas por Dueso, 1996, p. 179. Tradutores que, como eu, evidenciam a diferença entre as teses, distinguindo-as pelo uso ou não do artigo definido, são: Robinson (1979): “Other say that the same thing is both seemly and shameful” (2. 1); “Others that the same thing is just and unjust” (3. 1); Gagarin e Woodruff (1995): “while others say that the same thing can be both” (1. 1); “others say that the same thing is proper and shameful” (2. 1); “the same thing is right and wrong” (3. 1); Dueso (1996): “Otros mantienen que la misma cosa es bella y fea” (2. 1); “Otros, por el contrario, afirman que la misma cosa es justa e injusta.” (3. 1); Mittmann, Ribeiro e Targa (2008): “outros dizem que a mesma coisa é boa e má” (1, 1); “outros dizem que o mesmo é belo e feio” (2. 1); “outros, que o mesmo é justo e injusto” (3. 1).

[intro14]: De fato, “talento”, uma moeda grega, é o objeto em questão na frase anterior, mas essa frase tem a mesma estrutura linguística das que são traduzidas como identificando os predicados. O “simultaneamente” é a solução das autoras para kai ... kai....

[intro15]: Mas 2.20: panta kairoi men kala enti, en akairia d’aiskhra – “todas as coisas são bonitas no momento certo, mas são feias no momento errado”; e: tauta aiskhra kai kala eonta – “as mesmas coisas são feias e bonitas”, em que os adjetivos estão concordando em gênero e número (neutro plural) com o sujeito.