Tradução coletiva de Apologia de Sócrates perante os dicastas de Xenofonte
Resumo: Embora já existam traduções em língua portuguesa da Apologia de Sócrates, obra escrita pelo polígrafo socrático Xenofonte, não há nenhuma outra que foi concebida e executada como tradução coletiva, no nosso caso, por sete pessoas com as mais variadas proficiências em língua grega e em língua portuguesa. Os encontros diacrônicos de professores e alunos do grego antigo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) proporcionaram essa tradução que tenta reproduzir o estilo de Xenofonte em um português brasileiro de cunho literário. Os primeiros passos tradutórios foram feitos em 2019 numa disciplina do Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas, ficando a sua finalização reservada a uma disciplina de graduação do curso Português-Grego da UFRJ, em 2022.
Palavras-chave: Xenofonte; Apologia de Sócrates; tradução coletiva.
Collective Translation of Xenophon’s Apology of Socrates
Abstract: It’s true that Portuguese translations of the Apology of Socrates, a work written by the Socratic polygraph Xenophon, already exist. But it’s also true that none of them was conceived and executed as a collective translation, as in our case, by seven persons with rather distinct proficiencies in Greek and Portuguese. The diachronic meetings of these professors and students of ancient Greek at the Federal University of Rio de Janeiro (UFRJ) provided a translation which tries to reproduce the style of Xenophon in terms of a literary Brazilian Portuguese. The first translation steps were made in 2019 within a class of the Post-Graduate Program of Classics, while it got its final form within a final term class of the Portuguese-Greek Graduate Course of the UFRJ, in 2022.
Keywords: Xenophon; Apology of Socrates; collective translation.
1. Introdução à obra
Sócrates (470 a.C. – 399 a.C.), apesar de ser um filósofo de indiscutível influência na Atenas clássica, não deixou escritos próprios. Foram seus discípulos que tomaram a tarefa de perpetuar a memória e a filosofia socrática através dos relatos de seus diálogos. Tais diálogos proliferaram-se a ponto de serem referidos por Aristóteles como uma categoria própria de escrita poética, os Σωκρατικοὶ λόγοι (Poética, 1447b11) ou “diálogos socráticos”. Alguns destes diálogos foram conhecidos como “apologéticos”, inspirados pelo processo de condenação de Sócrates em 399 a.C. iniciado por Meleto. Estas “apologias” centraram-se na defesa de Sócrates das acusações consideradas infundadas por seus discípulos.
O ateniense Xenofonte (430 a.C. – 354 a.C.) foi um dos renomados discípulos de Sócrates que se dedicou à atividade de reconstituir partes do processo que levou à condenação e morte do grande filósofo grego. Xenofonte foi discípulo de Sócrates por um breve período e, após a derrota de Atenas na Guerra do Peloponeso, foi acusado pelos seus concidadãos de aliar-se à Esparta e ao governo dos Trinta Tiranos. A forte associação de Xenofonte com Esparta e a sua admiração aberta pelo governo e modos de vida espartanos culminaram com o seu exílio de Atenas proclamado entre 394 e 393 a.C. As circunstâncias biográficas de Xenofonte afetaram a escrita de suas obras históricas, seus tratados e seus diálogos socráticos (Memoráveis, Econômico, Banquete e Apologia de Sócrates).
A Apologia de Sócrates perante os Dicastas[1] (Ἀπολογία Σωκράτους πρὸς τοὺς Δικαστάς), escrita por Xenofonte em torno de 386 a.C. (cerca de 13 anos depois da morte de Sócrates), busca inocentar a figura do filósofo perante a opinião pública a despeito de sua condenação pelos membros do dicastério ateniense. Neste diálogo, Xenofonte se apresenta como autor-narrador do processo (narrador homodiegético), apesar de não reproduzir explicitamente no texto o seu nome. A Apologia escrita mantém uma conexão direta com sua outra obra sobre Sócrates, as Memoráveis (371 a.C.), na qual apresenta as acusações do processo contra Sócrates listadas por Xenofonte, quais sejam: o desrespeito pela constituição vigente de Atenas (Mem. 1.2.9), o comportamento condenável dos discípulos de Sócrates, Crítias e Alcibíades (Mem. 1.2.12-47), a incitação ao desrespeito dos jovens atenienses contra os seus pais (Mem. 1.2.49-55), o recurso constante de Sócrates a citações poéticas de teor subversivo (Mem. 1.2.56-61), e, enfim, o não reconhecimento dos deuses da cidade, junto com a introdução de novas divindades (Mem. 1.1.1. e Ap. 10). Na Apologia, o poeta Meleto, o comerciante Ânito e o orador Lícon aparecem como coautores do processo; destes apenas Meleto figura como aquele que interpôs diretamente a ação (γραφή) contra Sócrates. A animosidade e os motivos dos algozes do processo contra Sócrates são tematizados tanto na Apologia como em Memoráveis, em que se alega a falta de embasamento para suas acusações senão pelos orgulhos feridos resultantes dos questionamentos de Sócrates ao comportamento de seus cidadãos.
Sócrates afirmava ser inspirado por um δαίμων (daímon), uma voz interna que o acompanhava desde a infância, agindo como um guia ou uma voz crítica que o impedia de agir erroneamente. A referência de Sócrates a esta divindade interior não era segredo em Atenas, e sua existência não fora negada por Sócrates no processo. Sócrates, ao encarar as acusações de impiedade e introdução de novas divindades diante dos atenienses, foi objeto de uma defesa vigorosa por parte de Xenofonte. A impiedade, no contexto de Atenas, denotava o desrespeito pela religião tradicional e os rituais dedicados aos deuses. No entanto, Sócrates argumentou que as acusações eram infundadas, realçando o seu modo de vida transparente em relação à religião. Testemunhos de seus contemporâneos atestavam que Sócrates era um crente praticante, apesar de suas críticas à religião tradicional, uma perspectiva compartilhada por outros intelectuais. Já a alegação da introdução de novas divindades fora questionada pelo texto de Xenofonte, uma vez que Atenas frequentemente aceitava a inclusão de cultos a deuses estrangeiros. Assim, Sócrates é criticado por algo tão comum entre os atenienses, enquanto os acusadores não tinham evidências de que Sócrates era um reformador religioso, sem sequer especificar quais deuses ele havia abandonado ou introduzido. É crucial destacar que Sócrates nunca foi acusado de ateísmo, mas sim de impiedade, por não prestar culto a deidades específicas de Atenas.
Enfim, Sócrates não pareceu realizar um esforço considerável para se defender das acusações durante o julgamento, focando-se em demonstrar a inconsistência das acusações e a sua filosofia particular que o levou até aquela situação. Uma filosofia que é, de todo modo, mais consistente com os demais escritos que reproduzem o pensamento de Xenofonte do que com a filosofia socrática embasada na obra correlata de Platão. Além das acusações de impiedade e introdução de novas divindades, Sócrates também foi acusado de corromper os jovens, já que sua educação era uma de suas maiores preocupações e ele se tornara uma referência nessa área. Ele conseguia influenciar os jovens a obedecerem-no mais do que a seus pais, o que provocou a ira de alguns setores da sociedade ateniense.
O veredicto do julgamento de Sócrates resultou em sua condenação à morte pela ingestão de cicuta. A obra de Xenofonte não menciona explicitamente o veneno, mas ambas as versões de Platão e Xenofonte coincidem ao afirmar que Sócrates teve a chance de comutar a pena ou fugir da prisão, mas ele recusou ambas as alternativas. Segundo Xenofonte, Sócrates justificou sua decisão argumentando que a morte naquele momento era uma saída honrosa, ao invés de enfrentar os problemas naturais da velhice, considerando-se já em idade avançada e sem necessidade de prolongar a vida. Essa justificativa não é encontrada na versão de Platão, que, no diálogo Críton, enfatiza a importância de seguir as leis da cidade.
Em resumo, Sócrates enfrentou acusações de impiedade e introdução de novas divindades, sendo defendido por Xenofonte, que argumentou que tais acusações eram infundadas. O julgamento resultou na condenação à morte, que Sócrates aceitou com base em sua própria justificação pessoal, recusando oportunidades de escapar. Além disso, sua influência sobre os jovens também o tornou alvo de acusações de corrupção. A história de Sócrates ilustra vividamente o conflito entre a filosofia e a sociedade de sua época.
2. Introdução à tradução
A presente tradução foi elaborada na ocasião da disciplina intitulada "Paideia e expressividade nos escritos socráticos e na Ciropedia de Xenofonte", inserida no Programa de Pós-Graduação em Letras Clássicas da UFRJ e ministrada no segundo semestre de 2019 pelos professores Emerson Cerdas, Rainer Guggenberger e Tania Martins Santos. A atividade tradutória foi executada como projeto final da disciplina pelos alunos inscritos no programa de Letras Clássicas com proficiência em grego, Emerson Rocha de Almeida, Fernanda Borges da Costa, e Gabriel Heil Figueira da Silva sob a supervisão dos professores Rainer Guggenberger e Tania Martins Santos, com o intuito de concretizar a experiência teórica dos discentes desenvolvida ao longo da disciplina a partir de cuidadosa análise e tradução do texto em grego antigo na edição escolhida (XENOPHON, 2013). Dentre os textos de Xenofonte abordados na disciplina, leu-se a Apologia de Sócrates traduzida por Ana Elias Pinheiro e publicada pelo Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos de Coimbra em 2008 (XENOFONTE, 2008). Enquanto a tradução de Ana Elias Pinheiro serviu de inspiração para os estudos do texto, a atividade tradutória embasou-se fortemente no método da disciplina, o que resultou em um foco diferente para a transposição do texto em língua grega para a língua portuguesa.
A metodologia de tradução centrou-se na análise do texto grego a partir das traduções elaboradas pelos discentes com formação e experiência com a língua grega antiga: Emerson Rocha de Almeida (do parágrafo 1 ao 9), Fernanda Borges da Costa (10 ao 22), e Gabriel Heil Figueira da Silva (23 ao 34); e com acompanhamento da introdução à obra de Xenofonte elaborada pela aluna Ohana Marçal dos Passos.[2]
Em seguida, as traduções dos discentes foram analisadas e debatidas sob a supervisão e correção dos professores Rainer Guggenberger e Tania Martins Santos, com amplo incentivo de aplicação do conhecimento acumulado nas aulas precedentes. A atividade foi realizada através de seguidas reuniões presenciais focadas na leitura das propostas de tradução, com exame sintático e semântico do texto e análise da relação da Apologia confrontada com as outras obras de Xenofonte. Este modelo de estudo e revisão do texto permitiu o imenso aprofundamento da compreensão do autor e de sua obra, com ampla participação de discentes e docentes perante suas experiências acadêmicas diversificadas. Deste método resultaram as opções de tradução de termos e passagens específicos cujo foco principal residiu na compreensão do texto em grego por examinadores familiarizados ou que buscam familiarizar-se com o estilo de escrita e a filosofia de Xenofonte. É assim que se formaram a presente tradução e as notas que a acompanham.
Por falta de tempo e pela pandemia da COVID-19, a finalização da tradução coletiva ficou reservado a uma disciplina do último período da graduação do curso Português-Grego da UFRJ, em 2022, na qual as alunas Laura Castello Branco e Samira de Oliveira Machado se dispuseram a revisar as traduções junto ao professor da disciplina, Rainer Guggenberger.
3. Tradução[3]
[1] E[4] de Sócrates[5] parece-me ser digno lembrar também como, quando convocado ao julgamento[6], deliberou tanto acerca da defesa como também sobre o fim da vida. Escreveram, de fato, sobre isto também outros,[7] e todos destacaram a linguagem pretensiosa dele. Com isso fica evidente que foi realmente assim que Sócrates falou. Mas que ele julgou que, para si, a morte seria mais vantajosa que a vida, isto já não deixaram claro, de modo que a linguagem pretensiosa parece ser mais insensata do que era.
[2] Em todo caso, Hermógenes, o filho de Hipônico, um companheiro que estava com ele, também relatou tais coisas sobre Sócrates, o que mostra que a linguagem pretensiosa era compatível com a intenção dele. Pois Hermógenes disse que, ao vê-lo conversando sobre tantas outras coisas que não menos acerca do julgamento, perguntou-lhe:
[3] — Ó Sócrates, não seria de fato necessário, considerar, também aquilo com que irás te defender?
– A princípio, ele lhe respondeu:
— Por quê? Não parece a ti que tenho praticado essa defesa ao longo da vida?
– Em seguida, Hermógenes replicou:
— Como assim?
— Porque passei a vida sem ter feito nada injusto; isso considero ser a melhor prática para a defesa.
[4] Ao que Hermógenes retrucou:
— Não vês como os tribunais dos atenienses, muitas vezes sendo seduzidos pelo discurso, condenaram à morte aqueles que não cometeram injustiça nenhuma, e, por outro lado, tantas vezes, apiedaram-se, por seu discurso, daqueles que cometeram injustiças, ou os absolveram por terem dito palavras lisonjeiras?
— Mas sim, por Zeus! –, respondeu Sócrates –, e já duas vezes tentei refletir sobre a minha defesa, mas o daimonion[8] se opunha a mim.
[5] Hermógenes[9], então, falou:
— São coisas estranhas que dizes!
E Sócrates, por sua vez, respondeu:
— Achas estranho se também ao deus parece ser melhor eu já terminar a minha vida? Não sabes que até este momento não admiti a nenhum dos homens que vivesse melhor do que eu? Pois é, para mim, muito agradável saber ter vivido a vida toda de forma piedosa e justa. Descobri ser isso mesmo o que constantemente admiro em mim e também o que os que convivem comigo o reconhecem a meu respeito. [6] Agora, se minha idade avançar ainda mais, sei que será necessário passar pelas dificuldades da velhice: enxergar pior, ouvir menos, ser mais lento na aprendizagem e esquecer com maior frequência o que aprendi. Se eu perceber que me torno mais fraco e se encontrar mais falhas em mim mesmo, como eu poderia ainda viver com prazer? – disse Sócrates. – [7] Talvez, – ele acrescentou – o deus, por sua benevolência, esteja proporcionando-me finalizar a minha existência não só no momento oportuno da vida, mas também do modo mais fácil possível. Isso porque, se a minha condenação for proferida agora, é claro que eu deparar-me com o fim que os encarregados disto julgam algo mais brando, menos dificultoso aos amigos e que mais saudade causa do falecido. Pois quando nada vergonhoso nem desagradável nos pensamentos dos presentes ele deixa, e quando perece, tendo o corpo são e a alma benevolente[10], como não deixaria saudade? –
[8] Sócrates continuou – E com razão, naquela ocasião, os deuses se opunham à minha reflexão sobre o discurso, uma vez que deliberei ser necessário procurar de todo modo os meios para escapar. Pois se eu fizesse isso, em vez de já cessar a minha vida, é evidente que eu me prepararia para morrer sofrendo com doenças ou com a velhice, causadora de todas as dificuldades e de bastante falta de prazeres. – [9] Ele disse – Por Zeus, ó Hermógenes, isso eu não desejarei, mas, se eu incomodar os dicastas mostrando todos os bens que eu penso ter conseguido de deuses e homens e a opinião que tenho a meu próprio respeito, preferirei mais morrer do que viver sem liberdade, e ainda mendigando para ganhar uma vida muito inferior em vez da morte.
[10] Falou Hermógenes que Sócrates, tendo assim decidido, quando os seus adversários o acusaram tanto de não cultuar os deuses que a cidade cultua como de introduzir outras novas divindades e de corromper os jovens, disse, ao se apresentar:
[11] — Mas eu, homens, em primeiro lugar, admiro-me de Meleto: o que ele pensou para dizer que eu não cultuo os deuses que a cidade cultua, visto que os demais aqui presentes e o próprio Meleto, se quisesse, podiam ver-me fazer sacrifícios nas festas comunitárias e diante dos altares públicos? [12] Como eu teria introduzido novas divindades afirmando que a voz de um deus se manifesta para mim, sinalizando o que é necessário fazer? Pois também os que se servem dos sons dos pássaros e das revelações dos homens sem dúvida formam opinião com base em vozes. Quem contestará que os trovões não falam ou que eles não são o maior presságio? E a sacerdotisa no tripé em Pito? Também ela com sua própria voz não anuncia algo vindo do deus? [13] Mas, em todo caso, também que o deus preveja o futuro e prenuncie a quem ele desejar, isto todos dizem e creem do mesmo modo que eu afirmo. Os outros, porém, nomeiam aquilo que prenuncia como pássaros, revelações, sinais e adivinhos, mas eu chamo isso de daimonion, e penso que ao chamá-lo assim, digo algo com mais verdade e piedade do que os que atribuem a influência dos deuses às aves. De que, de fato, não minto contra o deus, também tenho este indício: pois, também tendo revelado a muitos dos meus amigos os conselhos do deus, jamais se mostrou que eu estava mentindo.
[14] Quando os dicastas ouviram essas coisas, fizeram tumulto, uns por não crer nas palavras, e outros com inveja de ele alcançar coisas maiores dos deuses do que eles. Sócrates disse por sua vez:
— Vinde agora e escutai também outra coisa, para que aqueles de vós que desejarem não continuem desconfiando que eu estou sendo honrado pelo deus. Pois quando Querefonte, certa vez, indagou em Delfos a meu respeito, diante de muitos presentes, Apolo apontou que nenhum dos homens era mais livre, nem mais justo, nem mais prudente do que eu.[11]
[15] Como os dicastas, por sua vez, ao ouvirem estas coisas, compreensivelmente protestaram ainda mais, outra vez Sócrates disse:
— Mas coisa maior, homens, o deus disse em oráculos sobre Licurgo, o legislador dos Lacedemônios[12], do que sobre mim. Pois dizem que, ao entrar no templo, Apolo lhe disse: “Reflito se devo te declarar deus ou homem.” A mim não me igualou com um deus, mas me julgou superior aos homens em muito. E, no entanto, em relação a isso, vós não deveis crer, sem reflexão, no deus, mas examinai cada uma das coisas que o deus disse.
[16] Pois quem conheceis que seja menos escravizado do que eu pelos desejos do corpo? E quem é mais livre dentre os homens do que eu, que não aceito nem presentes, nem salário de ninguém? E quem consideraríeis, com razão, ser mais justo do que aquele que, por se ajustar com as coisas ao seu alcance, não necessita de nada dos pertences alheios?[13] E como alguém não diria, e com razão, que sou um homem sábio, que desde o momento em que passei a entender o que estava sendo falado, comecei e nunca mais deixei de investigar[14] e aprender tudo de bom que pudesse?
[17] Isto não vos parece também serem provas que não me esforcei em vão: o fato de muitos cidadãos entre os que anseiam pela virtude, e muitos dos estrangeiros, terem preferido entre todas a minha companhia? E disso, o que diríamos ser a razão, de que todos sabem que eu teria poucos bens para retribuir, no entanto muitos desejam me presentear? E do fato de que não estão sendo reivindicados benefícios de mim por ninguém, mas muitos concordam dever gratidão a mim?[15]
[18] E de que, nem no cerco[16], enquanto os outros lamentavam a si mesmos, eu não passei mais dificuldade do que quando a cidade prosperava ao máximo? E de que os outros arranjam prazeres dispendiosos vindos da ágora, enquanto eu produzo, partindo do meu interior, sem despesas, alegrias maiores do que as deles? Certamente, se ninguém poderia me condenar por mentir quanto às coisas que informei quanto a mim mesmo, como então eu não seria louvado, justamente, por deuses e homens?
[19] No entanto, tu dizes, Meleto, que com tais práticas eu corrompo os jovens? Realmente, nós sabemos sem dúvida quais corrupções há entre os jovens. Tu, então, diz , se conheces alguém que por minha causa tenha se tornado de piedoso ímpio, de prudente descomedido, de equilibrado pródigo, de moderado bebedor bêbado, de laborioso complacente, ou que por algum outro prazer vil tenha se deixado vencer.
[20] — Mas sim, por Zeus! – disse Meleto – Eu conheço aqueles que tu persuadiste a te obedecer mais do que aos pais.
— Concordo – disse Sócrates –, quanto à educação[17], pois eles sabem que ela é minha preocupação. Quanto à saúde, os homens obedecem mais aos médicos do que aos genitores; também nas assembleias, é claro, todos os atenienses são convencidos mais pelos que dizem coisas sensatíssimas do que pelos parentes. Pois, de fato, também vós não elegeis como generais, em vez de pais e irmãos, e sim, por Zeus, também em vez de vós mesmos, aqueles que consideraríeis serem os mais sensatos quanto aos assuntos da guerra?
— Pois assim –, disse Meleto –, é proveitoso e está em conformidade com o costume, Sócrates.
[21] — Portanto –, disse Sócrates –, isto não te parece ser espantoso, que, em outras práticas, os melhores não só obtêm paridade, mas também recebem honrarias, enquanto eu, que sou declarado ser o melhor por eles no que se refere ao maior bem para os homens, a educação, sou por ti acusado com punição de morte por causa disso?
[22] É claro que muito mais que isso foi dito por ele e por testemunhas de defesa dentre os seus amigos. Mas eu não me dediquei a falar de tudo do processo, porém me foi suficiente mostrar que Sócrates sobretudo valorizava não ser ímpio com os deuses, nem se mostrar injusto com relação aos homens. E não achava necessário insistir para não morrer, mas considerava já ser o momento oportuno para o fim de sua vida. [23] Que pensava dessa forma ficou mais do que claro quando a pena foi dada. Primeiramente, porque, ao ser chamado a impor a si próprio uma pena alternativa, não impôs a si mesmo uma pena e nem deixou que seus amigos o fizessem, mas até chegou a dizer que impor a si próprio uma pena seria concordar com ser injusto. Depois, quando os companheiros quiseram raptá-lo, não aceitou, mas parecia zombar, perguntando se saberiam onde existiria algum lugar, fora da Ática, não acessível à morte.
[24] Quando o julgamento chegou ao fim, ele disse:
— Mas, homens, é necessário que as testemunhas que foram instruídas de que é preciso, de má fé, prestar falso testemunho contra mim, estejam cientes de suas grandes impiedade e injustiça. Quanto a mim, porque convém agora ser menos sensato do que antes de ter sido condenado, visto que não se demonstrou que cometi algum crime dos quais me acusaram? Pois eu certamente não me mostrei nunca como alguém que oferece sacrifícios a quaisquer novas divindades em vez de Zeus, Hera, e dos deuses que estão com eles, nem tampouco jurei, nem invoquei outros deuses. Como, por certo, eu destruiria os jovens habituando-os à paciência e também à austeridade? [25] E, para os crimes aos quais a pena estabelecida é a morte – saque de templos, arrombamento de muro para roubo, escravização de homens livres, traição da polis –, nem os meus próprios acusadores alegaram que algum deles tenha sido praticado por mim. Por essa razão, parece-me espantoso como, em algum momento, pareceu a vós que eu tenha cometido algum crime digno da minha morte. [26] Mas, seguramente, não é porque estou morrendo injustamente que tenho de ser menos sensato por causa disso. Pois isto não é vergonhoso para mim, mas para os que me condenam. Consola-me o fato de também Palamedes ter tido um fim quase igual ao meu: pois, ainda hoje, é contemplado com hinos muito mais belos que Odisseu, que lhe causou a morte injustamente. Sei também que se testemunhará a meu favor, não só pelo tempo que está por vir, mas também pelo que já passou, que jamais fiz mal a ninguém, nem tornei ninguém pior, muito pelo contrário, fazia o bem aos que conversavam comigo, ensinando-lhes gratuitamente o que de bom eu podia.
[27] Tendo dito isso, retirou-se, em conformidade com o que tenha sido dito, e mostrando pelo olhar, pela postura e pelo andar que estava alegre. Quando percebeu que aqueles que o acompanhavam choravam, ele disse:
— O que é isto? Chorais justamente agora? Pois antes não soubestes que há muito tempo, ao nascer, a natureza me condenou à morte? Realmente, se eu perecer enquanto coisas boas ainda estão afluindo, é claro que seria necessário que isso causasse dor em mim e naqueles que me querem bem; mas, se esperando apenas dificuldades, ponho fim à vida, eu acho que vós todos, considerando que estou bem, deveis estar contentes.
[28] Estando presente um certo Apolodoro, um de seus discípulos fervorosos, mas de resto simplório, esse falou assim:
— Mas isto, Sócrates, é o que eu suporto com mais dificuldade: que te vejo morrendo injustamente.
– Diz-se, que acariciando sua cabeça, Sócrates respondeu, rindo ao mesmo tempo:
— Tu, querido Apolodoro, preferirias me ver morrendo justa ou injustamente?
[29] Conta-se também que vendo Ânito passar, disse:
— Este é um homem que se orgulha, como se tivesse feito algo grande e nobre, ao me matar, porque ao vê-lo recebendo as mais altas honrarias da cidade, eu disse que não deveria limitar-se a educar o filho sobre curtumes. Como é miserável – continuou – aquele que não sabe, aparentemente, que qualquer um de nós dois que tiver feito o mais útil e o mais belo em todos os tempos, este é realmente o vitorioso! [30] Mas, certamente – disse ele –, também Homero atribuiu àqueles que estão no instante de dissolução da vida, conhecer o que virá, e eu também desejo proferir um oráculo. Pois, certa vez, passei um pouco de tempo com o filho de Ânito, e ele não me parecia ser fraco de espírito, de modo que afirmo que ele não permanecerá na vida servil que o pai lhe forneceu. Mas, por não ter um mentor comprometido, cairá em algum desejo vergonhoso e avançará certamente a um futuro de mais depravação.
[31] Tendo dito isso, não mentiu. De fato, o jovem, deliciando-se com vinho – nem de noite, nem de dia parava de beber –, por fim, não valeu nada para sua cidade, para seus amigos e para si próprio. Certamente, Ânito, por causa da péssima educação do filho, e de sua própria insensatez, mesmo morto, ainda possui má reputação.
[32] E Sócrates, ao se exaltar perante o tribunal, despertou inveja e garantiu ainda mais sua condenação pelos dicastas. Portanto, parece ter se cumprido o destino que agrada a deus, pois, por um lado, se livrou da parte mais difícil da vida, por outro, alcançou a mais fácil das mortes. [33] Demonstrou, assim, sua força de espírito, pois quando percebeu que para ele era melhor morrer do que viver, assim como nunca se opôs a qualquer outra coisa boa, nem fraquejou diante da morte, mas alegremente a aceitou, e se sujeitou a ela.
[34] E eu, por certo, ao contemplar a sabedoria e a nobreza do homem, nem sou capaz de não lembrar dele, nem, ao lembrá-lo, de deixar de louvá-lo. E se, entre aqueles que anseiam pela virtude, alguém já encontrou pessoa mais prestativa que Sócrates, eu considero esse homem digno de ser considerado o mais feliz.
Referências
ARISTOTELIS. De arte poetica liber. Rudolf Kassel (ed.). Oxford: Oxford University Press, 1965 (cit. Poética).
DANZIG, Gabriel. Apologizing for Socrates: Plato and Xenophon on Socrates’ Behavior in Court. Transactions of the American Philological Association, v. 133, n. 2, p. 281-321, 2003.
DORION, Louis-André. Xenophon’s Socrates. In: AHBEL-RAPPEAND, Sara; KAMTEKAR, Rachana (org.). A Companion to Socrates. Malden (MA), Oxford, Victoria: Blackwell Publishing, 2006. p. 93-109.
O’CONNOR, David K. Xenophon and the Enviable Life of Socrates. In: MORRISON, Donald R. (org.). The Cambridge Companion to Socrates. Cambridge: Cambridge University Press, 2010. p. 48-74.
PLATÃO. O Banquete, Apologia de Sócrates. Tradução do grego de Carlos Alberto Nunes. Belém: Editora Universitária UFPA, 2001 (cit. Ap.).
PLATO. Charmides. Alcibiades 1 & 2. Hipparchus. The Lovers. Theages. Minos. Epinomis. Translated by W. R. M. Lamb. Loeb Classical Library 201. Cambridge (MA): Harvard University Press, 1927 (cit. Ap. [texto grego]).
PLATO. Euthyphro. Apology. Crito. Phaedo. Edited and translated by Christopher Emlyn-Jones and William Preddy. Loeb Classical Library 36. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2017 (cit. Chrm.).
XENOFONTE. Banquete. Apologia de Sócrates. Tradução de Ana Elias Pinheiro. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos, 2008.
XENOPHON. Memorabilia. Oeconomicus. Symposium. Apology. Translated by E. C. Marchant, O. J. Todd. Revised by Jeffrey Henderson. Loeb Classical Library 168. Cambridge (MA): Harvard University Press, 2013.
Data de envio: 27/02/2023
Data de aprovação: 27/10/2023
Data de publicação: 15/12/2023
[1]: Optamos por traduzir o termo δικαστάς não por “juízes” ou “jurados”, uma vez que o termo grego não corresponde plenamente a um desses termos modernos.
[2]: Estudo e introdução que resultou no verbete em português publicado na Wikipédia sobre a Apologia de Sócrates de Xenofonte, disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Apologia_de_S%C3%B3crates_(Xenofonte); último acesso em 22.12.2022. Contudo, a introdução à versão final da tradução, abaixo apresentada, foi, na sua maioria, escrita por Fernanda Borges da Costa.
[3]: O texto grego que serviu como base da tradução é aquele da edição LOEB (XENOPHON, 2013).
[4]: A segunda palavra do texto grego é δὲ, uma partícula que sinaliza continuidade. Xenofonte, com este início, pode ter indicado que a obra começa no meio de um relato sobre Sócrates.
[5]: “Sócrates” é a primeira palavra no texto grego. Sendo assim, o começo do texto revela o seu tema, qual seja as lembranças das coisas dignas sobre Sócrates, estabelecendo, desta maneira, uma conexão com a obra Memoráveis.
[6]: Em grego consta τὴν δίκην, cuja tradução comum é “a justiça”, mas que no contexto jurídico pode significar também “o tribunal”, “o processo” ou mesmo “o julgamento”.
[7]: “Outros” (ἄλλοι) reforça a ausência, eventualmente estratégica, de menções a Platão e aos demais autores da primeira metade do séc. IV a.C. que criaram escritos socráticos.
[8]: Sócrates nomeia a manifestação do divino que o guia de daimonion (veja ἐγὼ δὲ τοῦτο δαιμόνιον καλῷ no §24°), classificando-a como uma das formas legítimas de comunicação com os deuses, tanto quanto outras – se não mais.
[9]: Em grego consta o pronome αὐτὸν, que, na tradução, foi substituído por um nome próprio para evitar ambiguidade.
[10]: “Benevolente”, aqui, é a tradução de φιλοφρονεῖσθαι, que também pode significar “servir aos amigos”.
[11]: Esta mesma referência aparece também em X. Mem. II 4. Há diferenças sensíveis entre a resposta do Oráculo à consulta de Querefonte, tal como relatado por Xenofonte e por Platão. Em Pl. (Ap. 21a) lê-se “Ele perguntou, de fato, se havia alguém mais sábio do que eu. Ora, a Pítia responde que ninguém era mais sábio.” ἤρετο γὰρ δὴ εἴ τις ἐμοῦ εἴη σοφώτερος. ἀνεῖλεν οὖν ἡ Πυθία μηδένα σοφώτερον εἶναι (similar em Pl. Chrm. 153b). As diferentes proposições do Oráculo revelam também as diferenças entre as abordagens filosóficas de Xenofonte e Platão (cf. DANZIG, 2003 e DORION, 2006).
[12]: A comparação entre Sócrates e Licurgo não é estranha ao estilo e ao pensamento de Xenofonte. Ao escrever a Constituição dos Lacedemônios, Xenofonte demonstra o destaque que dá tanto à figura de Licurgo na formação da sociedade espartana, como à construção da imagem do homem sábio que permeia toda a sua obra.
[13]: Este argumento é largamente discutido em X. Oec. I 6.
[14]: Ζητέω (“investigar”; o sentido mais básico seria “buscar”), aqui, e ἐπισκοπέω “examinar” (Ap. 15) são verbos utilizados com frequência tanto por Xenofonte como por Platão ao retratar os discursos de Sócrates.
[15]: εὐεργεσίας “benefícios” e χάριτας “gratidão” são expressões carregadas de sentido em Xenofonte, ligadas à definição de felicidade e sabedoria e até mesmo à capacidade de governar, de ensinar ou de gerir os bens e a casa (cf. O’CONNOR, 2010).
[16]: Sócrates refere-se ao período do cerco que Atenas sofreu durante a Guerra do Peloponeso contra Esparta.
[17]: A educação, ou paideia (παιδεία), possui especial importância também para Xenofonte. Seu principal texto sobre a educação, a Ciropedia (“A educação de Ciro”), dialoga diretamente com o que implica o argumento socrático do que se trata educar. Na Ciropedia, Xenofonte constrói o argumento de que a origem (γένεσις) de alguém é inescapável, mas a sua natureza (φύσις) é modelável através da educação (παιδέια), e, mais importante, um líder é aquele capaz de através da educação dos outros evitar as várias formas de στάσις.