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Pensamento e Linguagem

Lev Semenovich Vygotsky · II

II

A descoberta de que o significado das palavras evolui tira o estudo do pensamento e da linguagem de um beco sem saída. Os significados das palavras passam a ser formações dinâmicas e não já estatísticas, transformam-se à medida que as crianças se desenvolvem e alteram-se também com as várias formas como o pensamento funciona.

Se os significados das palavras se alteram na sua natureza interna, então a relação entre o pensamento e a palavra também se modifica. Para compreender a dinâmica dessa relação, teremos que complementar a abordagem genética do nosso estudo principal com a análise funcional e examinar o papel do significado da palavra no processo de pensamento.

Consideremos o processo seguido pelo pensamento verbal desde o primitivo e difuso surgir dum pensamento até à sua formulação Neste momento pretendemos mostrar não a forma como os significados evoluem ao longo de dilatados intervalos de tempo, mas o modo como funcionam no processo vivo do pensamento verbal. A partir dessa análise funcional, poderemos mostrar também que, em cada fase do desenvolvimento do significado das palavras há uma relação particular entre o pensamento e a linguagem. Como a forma mais fácil de resolver os problemas funcionais consiste em examinar a forma mais elevada de determinada atividade poremos por um momento de parte o problema do desenvolvimento e consideraremos as relações entre o pensamento e a palavra no cérebro que já atingiu a maturidade.

A idéia diretriz da discussão que se segue pode ser reduzida à seguinte fórmula: a relação entre o pensamento e a palavra não é uma coisa mas um processo, um movimento contínuo de vaivém entre a palavra e o pensamento; nesse processo a relação entre o pensamento e a palavra sofre alterações que, também elas, podem ser consideradas como um desenvolvimento no sentido funcional. As palavras não se limitam a exprimir o pensamento: é por elas que este acede à existência. Todos os pensamentos tendem a relacionar determinada coisa com outra, todos os pensamentos tendem a estabelecer uma relação entre coisas, todos os pensamentos se movem, amadurecem, se desenvolvem, preenchem uma função, resolvem um problema. Esta corrente do pensamento flui como um movimento interno através de uma série de planos. Qualquer análise da interação entre o pensamento e a palavra terá de principiar por investigar os diferentes planos e fases que um pensamento percorre antes de se encarnar nas palavras.

A primeira coisa que qualquer estudo revela é a necessidade de estabelecer a distinção entre dois planos de discurso. Ambos os aspectos da linguagem, tanto o interno, significante, semântico, como o aspecto externo, fonético, têm as suas leis de movimento específicas, embora formem uma verdadeira unidade, mas que é uma unidade complexa e não homogênea. Alguns fatos do desenvolvimento lingüístico da criança indicam a existência de movimentos independentes nas esferas fonética e semântica. Apontaremos dois dos mais importantes.

Quando começa a dominar a fala exterior, a criança principia por uma palavra, passando depois a ligar dois ou três termos entre si; um pouco depois, progride das frases simples para outras mais complicadas, chegando por fim ao discurso coerente composto por uma série de frases dessas; por outras palavras, progride da parte para o todo. Relativamente ao significado em contrapartida, a primeira palavra da criança é uma frase completa. Semanticamente, a criança parte do todo, de um complexo significante e só mais tarde começa a dominar as unidades semânticas separadas, os significados das palavras e a subdividir o seu pensamento primitivamente indiferenciado nessas unidades. O seu aspecto externo e o aspecto semântico da linguagem desenvolvem-se em direções opostas — o primeiro do particular para o geral, da palavra para a frase e o outro do todo para o particular, da frase para a palavra.

Isto, em si, basta para mostrar como é importante distinguir o aspecto fonético do discurso do seu aspecto semântico. Como se movem em sentidos opostos, o seu desenvolvimento não é coincidente, mas isso não quer dizer que sejam independentes um do outro. Pelo contrário, a sua diferença é o primeiro estádio de uma estreita união.

De fato, o nosso exemplo revela a sua conexão interna tão claramente como a sua diferença. O pensamento das crianças, precisamente porque surge como um conjunto amorfo e indistinto, tem que encontrar a sua expressão numa palavra isolada; à medida que o seu pensamento se vai tornando mais diferenciado, a criança vai perdendo a possibilidade de se exprimir por meio de palavras isoladas e tem que construir um todo compósito. Inversamente, a progressão da linguagem em direção ao todo diferenciado numa frase, ajuda o pensamento da criança a progredir de conjuntos homogêneos para partes bem definidas. O pensamento e a palavra não são talhados no mesmo modelo: em certo sentido há mais diferenças do que semelhanças entre eles. A estrutura da linguagem não se limita a refletir como num espelho a estrutura do pensamento; é por isso que não se pode vestir o pensamento com palavras, como se de um ornamento se tratasse. O pensamento sofre muitas alterações ao transformar-se em fala. Não se limita a encontrar expressão na fala; encontra nela a sua realidade e a sua forma. Os processos evolutivos da fonética e da semântica são essencialmente idênticos, precisamente devido a seguirem sentidos inversos.

O segundo fato, que é tão importante como o primeiro, surge num período de desenvolvimento posterior. Piaget demonstrou que a criança utiliza orações subordinadas em que figuram porque, embora, etc., muito antes de compreender as estruturas significantes correspondentes a estas formas semânticas. A gramática precede a lógica. Também aqui, tal como nos nossos exemplos anteriores, a discrepância não exclui a unidade, antes lhe é necessária.

Nos adultos, a divergência entre o aspecto semântico e o aspecto fonético do discurso é ainda mais flagrante. A lingüística moderna que se guia pela psicologia, encontra-se familiarizada com este fenômeno, especialmente no que toca ao sujeito e ao predicado gramaticais e psicológicos. Por exemplo, na frase “o relógio caiu”, a ênfase e o significado podem variar com as situações. Suponhamos que noto que o relógio parou e pergunto, porque terá isto acontecido. A resposta é: “o relógio caiu”. O sujeito gramatical e psicológico coincidem: “o relógio” é a primeira idéia que existe na minha consciência; “caiu” é o que se diz do relógio. Mas se ouvir um barulho no quarto ao lado e indagar o que aconteceu, e receber a mesma resposta, o sujeito e o predicado psicológicos inverter-se-ão. Eu sabia que alguma coisa tinha caído — era disso que estávamos a falar. “O relógio” vem completar a idéia. Poder-se-ia trocar a frase por esta: “o que caiu foi o relógio”. Então o sujeito gramatical e o sujeito psicológico coincidiriam. No prólogo da sua peça O Duque Ernst von Schwaben, Uhland diz: “cenas sinistras desenrolar-se-ão perante os vossos olhares”. Psicologicamente, o sujeito é “desenrolar-se-ão”: o espectador sabe que vai ver o desenrolar de certos acontecimentos. A idéia adicional, o predicado, é “cenas sinistras”. Uhland queria dizer: “Aquilo que se desenrolará perante os vossos olhares é uma tragédia”. Qualquer parte de uma frase pode tornar-se o sujeito psicológico, a parte portadora da ênfase fundamental; por outro lado, por detrás de uma estrutura gramatical podem ocultar-se significados totalmente diferentes. O acordo entre o sujeito gramatical e o sujeito psicológico não é tão predominante como tendemos a presumir -- antes pelo contrário, é um requisito raramente satisfeito. Não são só o sujeito e o predicado que têm os seus duplos psicológicos, pois também o gênero, o número, o caso, o tempo, o modo, o grau gramaticais o possuem. Uma exclamação espontânea, que do ponto de vista gramatical é errada, pode ter encanto e valor estético. A correção absoluta só se consegue para lá da linguagem natural, na matemática. A nossa linguagem quotidiana oscila constantemente entre os ideais da harmonia matemática e os da harmonia imaginativa.

Vamos ilustrar a interdependência dos aspectos semânticos e gramaticais da linguagem citando dois exemplos que nos mostram que as variações da estrutura formal podem arrastar consigo alterações do significado de grande alcance.

Na tradução que fez da fábula “La Cigale et la Fourmi”[vi] de La Fontaine, Krylov substituiu a cigarra de La Fontaine por uma libelinha. Em francês, cigarra é uma palavra feminina, sendo portanto, adequada para simbolizar uma atitude leviana e despreocupada. A nuance perder-se-ia numa tradução literal, pois cigarra em russo, é masculino, Ao decidir-se por libelinha, que em russo é feminino, Krylov menosprezou a tradução literal em favor da forma gramatical necessária para dar o pensamento de La Fontaine[vii]

Tjutchev fez o mesmo na sua tradução do poema de Heine sobre um abeto e uma palmeira. Em alemão, abeto é uma palavra masculina e palmeira é uma palavra feminina, e o poema sugere o amor de um homem por uma mulher, mas em russo ambas árvores são femininas. Para manter a implicação, Tjutchev substituiu o abeto por um cedro, masculino. Lermontov, na sua tradução mais literal do mesmo poema, destituiu-o destes matizes poéticos e deu-lhe um significado essencialmente diferente, mais abstrato e mais generalizado. Um pormenor gramatical pode, em certas circunstâncias, modificar todo o propósito do que se diz.

Por detrás das palavras, há a gramática independente do pensamento, a sintaxe dos significados das palavras. A mais simples exclamação, não reflete uma correspondência rígida e constante entre som e significado, é, na realidade, muito pelo contrário, um processo. As expressões verbais não podem nascer completamente formadas, têm que se desenvolver gradualmente. Este complexo processo de transição do significado para o som tem também que se desenvolver e aperfeiçoar. A criança tem que aprender a distinguir entre a semântica e a fonética e a compreender a natureza da diferença entre uma e outra coisa. A princípio, começa por utilizar o pensamento e as formas verbais e os significados sem ter consciência deles como coisas distintas. Para a criança, a palavra é parte integrante do objeto que denota. Tal concepção parece ser característica da consciência lingüística primitiva. Todos conhecemos a velha história do rústico que afirmava que não lhe surpreendia que os sábios, com todos os instrumentos que possuíam, pudessem calcular o tamanho das estrelas e as suas trajetórias — o que lhe fazia espécie era como eles conseguiam saber o nome das estrelas. Algumas experiências simples mostram que as crianças em idade pré-escolar “explicam” o nome dos objetos pelos seus atributos. Segundo elas, um animal chama-se “vaca” porque tem cornos, bezerro, quando os seus cornos ainda são pequenos, cão”, porque é pequeno e não tem cornos; chama-se “carro” a determinado objeto porque não é animal. Quando se lhes pergunta se poderia trocar os nomes das coisas, chamando por exemplo, “tinta” a uma vaca e “vaca” à tinta, respondem que não, “porque a tinta é para escrever e a vaca dá leite”. Trocar os nomes significaria trocar as características específicas de cada objeto, tão inseparável é a conexão de ambos no espírito da criança. Numa experiência disse-se às crianças que em determinado jogo se chamaria “vaca” a um cão. Eis a seguir um exemplo típico de perguntas e respostas que ocorreram:

— Mas as vacas têm cornos?

— Têm.

— Mas então não te lembras que os cães é que são vacas? Ora vê bem: os cães têm cornos?

— Pois claro. Se são vacas, se lhes chamamos vacas, têm que ter cornos. Têm que ser uma espécie de vacas com corninhos.

Podemos ver pois como, para as crianças, é difícil separar o nome de um objeto dos seus atributos, que aderem ao nome mesmo quando este é transferido, como as coisas possuídas seguindo o seu dono.

A fusão dos dois planos da imagem, o plano semântico e o plano vocal, começa a desarticular-se à medida que a criança cresce e a distância entre um e outro vai aumentando gradualmente. Cada estádio no desenvolvimento das palavras implica uma inter-relação específica entre os dois planos. A capacidade da criança para comunicar através da linguagem encontra-se diretamente relacionada com a diferenciação dos significados das palavras no seu discurso e na sua consciência.

Para compreendermos isto teremos que recordar uma característica fundamental da estrutura dos significados das palavras. Na estrutura semântica de uma palavra estabelecemos a distinção entre referente e significado: correspondentemente, distinguimos o nominativo de uma palavra da sua função significante. Quando comparamos estas relações funcionais e estruturais nos diversos estádios de desenvolvimento, isto é, no estádio primitivo, no estádio intermédio e no estádio mais desenvolvido, deparamos com esta regularidade genética: a princípio só existe a função nominativa; e, semanticamente, só existe a referência objetiva; a independência entre a significação e a nomeação, assim como a independência entre o significado e a referência só surgem posteriormente e desenvolvem-se segundo as trajetórias que tentamos detectar e descrever.

Só quando este desenvolvimento se encontra completo é que a criança se torna totalmente capaz de formular o seu pensamento e compreender o pensamento dos outros. Até essa altura, a utilização que dá às palavras coincide com a que lhes dão os adultos na sua referência objetiva, mas não no seu significado.