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Pensamento e Linguagem

Lev Semenovich Vygotsky · Pensamento e Linguagem

Pensamento e Linguagem

Lev Semenovich Vygotsky

Pensamento e Linguagem
Lev Semenovich Vygotsky (1896-1934)

Edição
Ridendo Castigat Mores

Versão para eBook
eBooksBrasil.org

Fonte Digital
www.jahr.org

“Todas as obras são de acesso gratuito. Estudei sempre por conta do Estado, ou melhor, da Sociedade que paga impostos; tenho a obrigação de retribuir ao menos uma gota do que ela me proporcionou.” — Nélson Jahr Garcia (1947-2002)

Copyright:
Autor: Lev S. Vygotsky
Edição eletrônica: Ed Ridendo Castigat Mores
(www.jahr.org)

Apresentação

Nélson Jahr Garcia

Vygotsky, um gênio da Psicologia. Quanto não poderia legar-nos se não tivesse partido tão jovem?

Agradeço ao Odair Furtado, professor de Psicologia da PUC-SP que, há vários anos, indicou-me esta obra como de leitura quase obrigatória. Aprendi a entender minha filha, criança ainda, compreendi melhor os adultos e a mim próprio inclusive.

Vygotsky estava preocupado em entender a relação entre as idéias que as pessoas desenvolvem e o que dizem ou escrevem. Não o fez apenas especulando em uma mesa de escritório, mas foi a campo, pesquisou, fez experiências. Extraiu conclusões como:

“A estrutura da língua que uma pessoa fala influencia a maneira com que esta pessoa percebe o universo ...”

Para aqueles que vêem na linguagem apenas um código aleatório, o autor responderia:

“Uma palavra que não representa uma idéia é uma coisa morta, da mesma forma que uma idéia não incorporada em palavras não passa de uma sombra.”

Vygotsky desenvolveu inúmeros conceitos fundamentais para que compreendamos a origem de nossas concepções e a forma como as exprimimos: “pensamento egocêntrico”, “pensamento socializado”, “conceito espontâneo”, “conceito científico”, “discurso interior”, “discurso exteriorizado”, e tantos outros.

Para quem se interessa por entender as ideologias, comunicação, aprendizagem, doutrinação, persuasão esta é uma obra básica e indispensável.

Prefácio

Este livro aborda o estudo de um dos mais complexos problemas da psicologia — a inter-relação entre o pensamento e a linguagem. Tanto quanto sabemos esta questão não foi ainda estudada experimentalmente de forma sistemática. Tentamos operar, pelo menos, uma primeira abordagem desta tarefa, levando a cabo estudos experimentais sobre um certo número de aspectos isolados do problema de conjunto. Os resultados conseguidos fornecem-nos uma parte do material sobre que se baseiam as nossas análises.

As análises teóricas e críticas são uma condição prévia necessária e um complemento da parte experimental e, por isso, ocupam uma grande parte do nosso livro. Houve que basear as hipóteses de trabalho que serviram de ponto de partida ao nosso estudo nas raízes genéticas do pensamento e da linguagem. Com vista a desenvolvermos este quadro teórico, revimos e analisamos acuradamente os dados existentes na literatura psicológica pertinentes para o estudo. Simultaneamente, sujeitamos a uma análise crítica as teorias mais avançadas do pensamento e da linguagem, na esperança de superarmos as suas insuficiências e evitarmos os seus pontos fracos na nossa busca de um caminho teórico por onde enveredar.

Como seria inevitável, a nossa análise invadiu alguns domínios que lhe eram chegados, tais como a lingüística e a psicologia da educação Na análise que realizamos do desenvolvimento dos conceitos científicos nas crianças, utilizamos a hipótese de trabalho relativa à relação entre o processo educacional e o desenvolvimento mental que havíamos elaborado noutra oportunidade fazendo uso de um corpo de dados diferente.

A estrutura deste livro é forçosamente complexa e multifacetada. No entanto, todas as suas partes se orientam para uma tarefa central: a análise genética das relações entre o pensamento e a palavra falada. O primeiro capitulo põe o problema e discute o método. Os segundo e terceiro capítulos são análises críticas das duas mais influentes teorias da linguagem e do pensamento, a de Piaget e a de Stern. No quarto capítulo tenta-se detectar as raízes genéticas do pensamento e da linguagem; este capítulo serve de introdução teórica à parte principal do livro, as duas investigações experimentais descritas nos dois capítulos seguintes. O primeiro estudo (capítulo 5o.) trata da evolução genérica geral dos significados durante a infância; o segundo (capítulo 6o.) é um estudo comparativo do desenvolvimento dos conceitos “científicos” e espontâneos da criança. O último capítulo tenta congregar os fios das nossas investigações e apresentar o processo total do pensamento verbal tal como surge à luz dos nossos dados.

Pode ser útil enumerar brevemente os aspectos da nossa obra que julgamos serem novos, exigindo, por conseguinte, uma nova e mais cuidada verificação. Além da nova formulação que demos ao problema e da parcial novidade do nosso método, o nosso contributo pode ser resumido como se segue:

(1) fornecemos provas experimentais de que os significados das palavras sofrem uma evolução durante a infância e definimos os passos fundamentais dessa evolução;

(2) descobrimos a forma singular como se desenvolvem os conceitos “científicos” das crianças, em comparação com os conceitos espontâneos e formulamos as leis que regem o seu desenvolvimento,

(3) demonstramos a natureza psicológica específica e a função lingüística do discurso escrito na sua relação com o pensamento e

(4) clarificamos por via experimental a natureza do discurso interior e as suas relações com o pensamento.

Não é do pelouro do autor fazer uma avaliação das suas próprias descobertas e da forma como as interpretou: isso caberá aos leitores e aos críticos.

O autor e os seus associados têm vindo a investigar os domínios da linguagem e do pensamento há já quase dez anos, durante os quais as hipóteses de que partiram foram revistas ou abandonadas por falsas. No entanto, a linha fundamental da nossa investigação não se desviou da direção tomada desde início. Compreendemos perfeitamente o quanto o nosso estudo é imperfeito, pois não é mais do que o primeiro passo numa nova via. No entanto sentimos que, ao descobrirmos o problema do pensamento e da linguagem como questão central da psicologia humana demos algum contributo para um progresso essencial. As nossas descobertas apontam o caminho a seguir por uma nova teoria da consciência, nova teoria essa que afloramos apenas no fim do nosso livro.

1. O problema e a abordagem

O estudo do pensamento e da linguagem é uma das áreas da psicologia em que é particularmente importante ter-se uma compreensão clara das relações inter-funcionais existentes. Enquanto não compreendermos a inter-relação entre o pensamento e a palavra, não poderemos responder a nenhuma das questões mais específicas deste domínio, nem sequer levantá-las. Por mais estranho que tal possa parecer, a psicologia nunca estudou sistematicamente e em pormenor as relações, e as inter-relações em geral nunca tiveram até hoje a atenção que merecem. Os modos de análise atomísticos e funcionais predominantes durante a última década tratavam os processos psíquicos de uma forma isolada. Os métodos de investigação desenvolvidos e aperfeiçoados tinham em vista estudar funções separadas, mantendo-se fora do âmbito da investigação a interdependência e a organização dessas mesmas funções na estrutura da consciência como um todo.

É verdade que todos aceitavam a unidade da consciência e a inter-relação de todas as funções psíquicas; partia-se da hipótese de que as funções isoladas operavam inseparavelmente, numa ininterrupta conexão mútua. Mas na velha psicologia, a premissa inquestionável da unidade combinava-se com um conjunto de pressupostos tácitos que a anulavam para todos os efeitos práticos. Tinha-se como ponto assente que a relação entre duas determinadas funções nunca variava: aceitava-se, por exemplo, que as relações entre a percepção e a atenção, entre a atenção e a memória e entre a memória e o pensamento eram constantes e, como constantes, podiam ser anuladas e ignoradas (e eram-no) no estudo das funções isoladas. Como as conseqüências das relações eram de fato nulas, via-se o desenvolvimento da consciência como determinado pelo desenvolvimento autônomo das funções isoladas. No entanto, tudo o que sabemos do desenvolvimento psíquico indica que a sua essência mesma é constituída pelas variações ocorridas na estrutura inter-funcional da consciência. A psicologia terá que considerar estas relações e as variações resultantes do seu desenvolvimento como problema fulcral, terá que centrar nelas o estudo, em vez de continuar pura e simplesmente a postular o inter-relacionamento geral de todas as funções. Para se conseguir um estudo produtivo da linguagem e do pensamento torna-se imperativo operar esta modificação de perspectiva.

Um relance sobre os resultados de anteriores investigações do pensamento e da linguagem mostrará que todas as teorias existentes desde a antigüidade até aos nossos dias, cobrem todo o leque que vai da identificação, da fusão entre o pensamento e o discurso num dos extremos, a uma quase metafísica separação e segregação de ambos, no outro. Quer sejam expressão de um destes extremos na sua forma pura, quer os combinem, quer dizer, quer tomem uma posição intermédia, sem nunca abandonarem, contudo, o eixo que une os dois pólos, todas as várias teorias do pensamento e da linguagem permanecem dentro deste círculo limitativo.

Podemos seguir a evolução da idéia da identidade entre o pensamento e o discurso desde as especulações da lingüística psicológica, segundo a qual o pensamento é “discurso menos som”, até as teorias dos modernos psicólogos e reflexionistas americanos, para os quais o pensamento é um reflexo inibido do seu elemento motor. Em todas estas teorias a questão da relação existente entre o pensamento e o discurso perde todo o seu significado. Se são uma e a mesma coisa, não pode surgir entre eles nenhuma relação. Aqueles que identificam o pensamento com o discurso limitam-se a fechar a porta ao problema. À primeira vista, os partidários do ponto de vista oposto parecem estar em melhor posição. Ao encararem o discurso como simples manifestação externa, como simples adereço que reveste o pensamento e ao tentarem libertar o pensamento de todas as suas componentes sensoriais, incluindo as palavras (como faz a escola de Wuerzburg), não se limitam a pôr o problema das relações existentes entre as duas funções, como tentam, também, à sua maneira, resolvê-lo. Na realidade, contudo, são incapazes de colocar a questão de uma maneira que permita dar-lhe uma solução real. Tendo tornado o pensamento e o discurso independentes e “puros” e tendo estudado cada uma destas funções isoladamente, são forçados a ver as relações entre ambas como uma conexão mecânica, externa, entre dois processos distintos, A análise do processo do pensamento verbal em dois elementos separados e basicamente diferentes impede todo e qualquer estudo das relações intrínsecas entre o pensamento e a linguagem.

O erro está pois nos métodos de análise adotados pelos investigadores precedentes. Para tratarmos com êxito da questão da relação entre o pensamento e a linguagem teremos que começar por nos perguntar a nós próprios, antes do mais, que método será mais suscetível de nos fornecer uma solução.

Dois métodos essencialmente diferentes de análise são possíveis no estudo das estruturas psicológicas. Parece-nos que um deles é responsável por todos os fracassos com que se defrontaram os anteriores investigadores do velho problema que, por nosso turno, estamos começando a abordar e que o outro método é a única via correta para perspectivar a questão.

O primeiro método analisa os conjuntos psicológicos complexos em elementos. Pode ser comparado à análise química da água em hidrogênio e oxigênio, elementos que, cada um de per si não possuem as propriedades do todo e possuem propriedades que não existem no todo. O estudante que utilizar este método na investigação de uma qualquer propriedade da água — por exemplo qual a razão por que a água apaga o fogo — verificara com surpresa que o hidrogênio arde e que o oxigênio alimenta o fogo. Estas descobertas não lhe serão de grande utilidade na resolução dos problemas. A psicologia enfia-se na mesma espécie de beco sem saída quando analisa o pensamento verbal nos elementos que o compõem — a palavra e o pensamento — e estuda cada um deles em separado. No decurso da análise as propriedades originais do pensamento verbal desapareceram. Nada resta ao investigador, senão indagar a interação mecânica dos dois elementos na esperança de reconstruir, de forma puramente especulativa, as evocadas propriedades do todo. Este tipo de análise desloca o problema para um nível de maior naturalidade; não nos fornece nenhuma base adequada para , estudarmos as multiformes relações concretas entre o pensamento e a linguagem que surgem no decurso do desenvolvimento e do funcionamento do discurso verbal em todos os seus aspectos Em vez de nos permitir examinar e explicar casos e frases específicas e determinar regularidades que ocorrem no decurso dos acontecimentos, este método produz generalidades relativas a todo e qualquer discurso e a todo e qualquer pensamento. Além disso, induz-nos em sérios erros ao ignorar a natureza unitária do processo em estudo, pois cinde em duas partes a unidade viva entre o som e o significado a que chamamos palavra e parte da hipótese de que essas duas partes só se mantêm unidas por simples ações mecânicas.

O ponto de vista segundo o qual o som e o significado são dois elementos separados com vidas separadas afetou gravemente o estudo de ambos os aspectos da linguagem, o fonético e o semântico. O estudo dos sons da fala como simples sons, independentemente da sua conexão com o pensamento, por mais exaustivo que seja, pouco terá a ver com a sua função como linguagem humana, na medida em que não dilucida as propriedades físicas e psicológicas específicas da linguagem falada, mas apenas as propriedades comuns a todos os sons existentes na natureza. Da mesma forma, se se estudarem os significados divorciados do discurso, aqueles resultarão forçosamente num puro ato de pensamento que se desenvolve e transforma independentemente do seu veículo material. Esta separação entre o significado e o som é grandemente responsável pela banalidade da fonética e da semântica clássicas. Também na psicologia infantil, se tem estudado separadamente os aspectos fonético e semântico do desenvolvimento da linguagem. Estudou-se com grande pormenor o desenvolvimento fonético; no entanto, os dados acumulados fraco contributo trouxeram à nossa compreensão do desenvolvimento lingüístico enquanto tal e a relação entre eles e as descobertas relativas à genética do pensamento continuam a ser essencialmente nulas.

Na nossa opinião, o outro tipo de análise, que podemos chamar análise em unidades, e a via correta a seguir.

Entendemos por unidade o produto da análise que, ao contrário dos elementos, conserva todas as propriedades fundamentais do todo e que não pode ser subdividido sem que aquelas se percam: a chave da compreensão das propriedades da água são as suas moléculas e não a sua composição atômica. A verdadeira unidade da análise biológica é a célula viva, que possui todas as propriedades básicas do organismo vivo.

Qual é a unidade do pensamento verbal que satisfaz estes requisitos fundamentais? Cremos que podemos encontrá-la no aspecto interno da palavra, no seu significado. Até à data, realizaram-se muito poucas investigações sobre o aspecto interno da linguagem, e as que se realizaram pouco nos podem dizer sobre o significado das palavras que não se aplique na mesma medida a outras imagens e atos do pensamento. A natureza do significado enquanto tal não é clara; no entanto, é no significado que o pensamento e o discurso se unem em pensamento verbal. É no significado, portanto, que poderemos encontrar a resposta às nossas perguntas sobre a relação entre o pensamento e o discurso.

A nossa investigação experimental, bem como a analise teórica nos indicam que, tanto a psicologia da Forma (Gestalt), como psicologia associacionista, têm seguido direções erradas na investigação da natureza intrínseca do significado das palavras. Uma palavra não se refere a um objeto simples, mas a um grupo ou a uma classe de objetos e, por conseguinte, cada palavra é já de si uma generalização. A generalização é um ato verbal de pensamento e reflete a realidade duma forma totalmente diferente da sensação e da percepção. Esta diferença qualitativa a se encontra implicada na proposição segundo a qual há um salto qualitativo não só entre a total ausência de consciência (na matéria inanimada) e a sensação, mas também entre a sensação e o pensamento. Temos todas as razões para supor que a distinção qualitativa entre a sensação e o pensamento é a presença no último de um reflexo generalizado da realidade, que é também a essência do significado das palavras e de que, por conseguinte, o significado é um ato de pensamento no sentido completo da expressão. Mas, simultaneamente, o significado é uma parte inalienável da palavra enquanto tal, pertencendo, portanto, tanto ao domínio da linguagem como ao do pensamento. Uma palavra sem significado é um som vazio, já não fazendo parte do discurso humano. Como o significado das palavras é, simultaneamente, pensamento e linguagem, constitui a unidade do pensamento .verbal que procurávamos Portanto, torna-se claro que o método a seguir na nossa indagação da natureza do pensamento verbal é a análise semântica — o estudo do desenvolvimento, do fundamento e da estrutura desta unidade, que contém o pensamento a linguagem inter-relacionados.

Este método combina as vantagens da análise e da síntese e permite adequado estudo dos todos complexos. Em jeito de ilustração tomemos outro aspecto ainda do nosso objeto de estudo, que também foi muito descurado no passado. A função primordial da linguagem é a comunicação, intercâmbio social. Ao estudar-se a linguagem por meio da análise em elementos, dissociou-se também esta função da função intelectual do discurso. Tratava-se ambas como se fossem duas funções separadas, embora paralelas, sem prestar atenção às suas inter-relações estruturais e evolutivas; contudo, o significado das palavras é unidade de ambas as funções da linguagem. É axioma da psicologia científica que a compreensão entre espíritos é impossível sem qualquer expressão mediadora. Na ausência de um sistema de signos, lingüísticos ou não, só é possível o mais primitivo e limitado tipo de comunicação. A comunicação por meio de movimentos expressivos, observada sobretudo entre os animais não é tanto comunicação mas antes uma difusão de afeto. O ganso atemorizado que de súbito se apercebe dum perigo e alerta todo o bando com os seus gritos não está dizendo aos restantes o que viu, antes está contaminando os outros com o seu medo.

A transmissão racional, intencional de experiências e de pensamentos a outrem exige um sistema mediador, que tem por protótipo a linguagem humana nascida da necessidade do intercâmbio durante o trabalho. Segundo a tendência dominante, a psicologia descreveu esta questão de uma forma demasiado simplificada, até muito recentemente. Partiu da hipótese de que o meio de comunicação era o signo (a palavra ou o som); de que, pela ocorrência simultânea, um som poderia ir-se associando com o conteúdo de qualquer experiência, passando a servir para transmitir o mesmo conteúdo a outros seres humanos.

No entanto, um estudo mais aturado da gênese do conhecimento e da comunicação nas crianças levou à conclusão de que a comunicação real exige o significado — isto é, a generalização — tanto quanto os signos. Segundo a penetrante descrição de Edward Sapir, o mundo da experiência tem que ser extremamente simplificado e generalizado antes de poder ser traduzido em símbolos. Só desta forma se torna possível a comunicação, pois a experiência pessoal habita exclusivamente a própria consciência do indivíduo e não é transmissível, estritamente falando. Para se tornar comunicável terá que subsumir-se em determinada categoria que, por convenção tácita, a sociedade humana encara como uma unidade. Pesquisar a verdadeira comunicação humana pressupõe uma atitude generalizadora, que constitui um estádio avançado da gênese do significado das palavras. As formas mais elevadas do intercâmbio humano só são possíveis porque o pensamento do homem, reflete a atualidade conceitualizada. É por isso que certos pensamentos não podem ser comunicados às crianças mesmo quando estas se encontram familiarizadas com as palavras necessárias a tal comunicação. Pode faltar o conceito adequado sem o qual não é possível uma compreensão total. Nos seus escritos pedagógicos, Tolstoy afirma que as crianças experimentam amiúde certas dificuldades para aprenderem uma palavra nova não pelo seu som, mas devido ao conceito a que a palavra se refere Há quase sempre uma palavra disponível — quando o conceito se encontra maduro.

A concepção do significado das palavras como unidade simultânea do pensamento generalizante e do intercâmbio social é de um valor incalculável para o estudo do pensamento e da linguagem. Permite-nos uma verdadeira análise genético-causal, um estudo sistemático das relações entre o desenvolvimento da capacidade intelectiva da criança e do seu desenvolvimento social.

Pode considerar-se como objeto de estudo secundário a relação mútua entre a generalização e a comunicação.

Virá talvez, a propósito mencionar aqui alguns dos problemas da área da linguagem que não exploramos especificamente no nosso estudo. O mais importante de todos é a relação entre o aspecto fonético da linguagem e o significado. Estamos em crer que os recentes e grandes passos em frente da lingüística se ficam em grande medida a dever a alterações operadas nos métodos de análise empregues no estudo da linguagem. A lingüística tradicional, com a sua concepção do som como elemento independente da linguagem, usava o som isolado como unidade de análise Em resultado disto, centrava-se na fisiologia e na acústica mais do que na psicologia do discurso. A lingüística moderna utiliza o fonema, a mais pequena unidade fonética indivisível pertinente para o significado, unidade essa que, portanto, é característica da linguagem humana distinta dos outros sons. A sua introdução como unidade de análise beneficiou a psicologia tanto como a lingüística. Os benefícios concretos a que se chegou com a aplicação deste método provam terminantemente o seu valor. Este método é essencialmente semelhante ao método de análise em unidades, distintas dos elementos, que utilizamos na nossa investigação.

A fertilidade do nosso método pode ficar patente também noutras questões relativas às relações entre as funções, ou entre a consciência como um todo e as suas partes. Uma breve referência a pelo menos uma destas questões indicará uma direção que o nosso estudo poderá vir a tomar futuramente, e assinalar o contributo do presente estudo. Estamos a pensar na relação entre o intelecto e o afeto. A sua separação como objetos de estudo é uma importante debilidade da psicologia tradicional pois que faz com que o processo de pensamento surja como uma corrente autônoma de “pensamentos que pensam por si próprios”, dissociada da plenitude da vida, das necessidades e interesses, das inclinações e dos impulsos pessoais de quem pensa. Tal pensamento dissociado terá que ser considerado quer como um epifenômeno sem significado, que não poderá alterar de maneira nenhuma a vida e a conduta de uma pessoa, quer como uma espécie de força primeira que influenciaria a vida pessoal de uma forma inexplicável, misteriosa. Fecha-se assim a porta à questão da causa e da origem dos nossos pensamentos, visto que a análise determinista exigiria uma clarificação das forças motrizes que orientam o pensamento por esta ou aquela via. Pela mesma razão, a velha abordagem impede qualquer estudo frutuoso do processo inverso: a influência do pensamento sobre o aspecto e a vontade.

A análise por unidades aponta a via para a resolução destes problemas de importância vital. Ela demonstra que existe um sistema dinâmico de significados em que o afetivo e o intelectual se unem, mostra que todas as idéias contém, transmutada, uma atitude afetiva para com a porção de realidade a que cada uma delas se refere. Permite-nos, além disso, seguir passo a passo a trajetórias entre as necessidades e os impulsos de uma pessoa e a direção específica tomada pelos seus pensamentos, e o caminho inverso, dos seus pensamentos ao seu comportamento e à sua atividade. Este exemplo deveria bastar para mostrar que o método utilizado neste estudo do pensamento e da linguagem é também uma ferramenta promissora para investigar a relação entre o pensamento verbal e a consciência como um todo e entre aquele e as outras funções essenciais desta última.