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Zadig

Voltaire · V Os Generosos

V Os Generosos

Chegou a época de uma grande festa que se celebrava de cinco em cinco anos. Era costume em Babilônia proclamar solenemente, ao cabo de cinco anos, qual o cidadão que havia praticado a ação mais generosa. Os grandes e os magos serviam de juízes. O primeiro sátrapa, que regia a cidade, expunha as mais belas ações que haviam ocorrido sob o seu govêrno. Procedia-se à votação; o rei pronunciava a sentença.

Dos quatro cantos da terra, vinha gente assistir a essa solenidade. O vencedor recebia das mãos do monarca uma taça de ouro guarnecida de pedrarias, e o rei lhe dizia estas palavras: “Recebei este prêmio da generosidade, e queiram os deuses conceder-me muitos súbditos que se assemelhem a vós!”

Chegado o memorável dia, sentou o rei no seu trono, cercado dos grandes, dos magos e dos deputados de todas as nações que compareciam a essa justa, onde a glória não era conquistada com a rapidez dos cavalos, nem com a força física, mas tão somente com a virtude. O primeiro sátrapa relatou em voz alta as ações que podiam fazer jus à inestimável recompensa. Não falou da magnanimidade com que Zadig devolvera a fortuna ao invejoso: não era ação que merecesse concorrer ao prêmio.

Apresentou primeiro um juiz que, tendo feito um cidadão perder considerável processo devido a um equívoco de que não lhe cabia responsabilidade alguma, lhe dera no entanto todos os seus bens, que eram do valor do que o outro havia perdido.

Depois um jovem que, loucamente enamorado da moça com quem ia casar, não hesitara em cedê-la a um amigo prestes a expirar de amor por ela; e ainda concorrera com o dote.

E finalmente um soldado que, na guerra de Hircânia, dera ainda maior exemplo de generosidade. Soldados inimigos procuravam raptar-lhe a sua querida, que ele defendia valentemente, quando lhe vieram dizer que outros hircanianos, a alguns passos dali, se apoderavam de sua mãe: deixou, em lágrimas, a bem-amada e correu a livrar a mãe; voltou em seguida para aquela a quem amava, e encontrou-a moribunda. Quis matar-se; a mãe lhe fez ver que ele era o seu único arrimo, e o soldado teve a coragem de suportar a vida.

As simpatias dos juízes inclinavam-se para esse soldado, quando o rei tomou a palavra e disse:

— Sua ação e a dos outros são belas; mas não me espantam; todavia o que ontem fez Zadig me deixou verdadeiramente admirado. Há poucos dias, privara eu de minha graça a meu ministro e favorito Coreb. Queixava-me dele com violência, e todos os cortesãos me asseguravam que fora demasiado brando; cada qual se empenhava em dizer o pior possível de Coreb. Perguntei a Zadig o que pensava, e ele ousou falar bem do desvalido. Confesso que vi, nas nossas histórias, exemplos de quem indenizasse um erro com a própria fortuna, quem cedesse a noiva, ou preferisse a mãe ao objeto de seu amor; mas nunca li que um cortesão haja falado vantajosamente de um ministro em desgraça, contra o qual ainda estivesse encolerizado o soberano. Concedo vinte mil moedas de ouro a cada um cujas generosas ações acabam de ser relatadas; mas entrego a taça a Zadig.

— Sire — disse este, — é Vossa Majestade quem merece a taça, pois foi quem praticou a ação mais inaudita: sendo rei, não vos indignastes por haver vosso escravo contrariado as vossas paixões.

Admiraram ao rei e a Zadig. O que cedera seus bens, o que casara a noiva com o amigo, o que preferira a salvação da mãe à da mulher a quem amava, receberam os presentes do monarca; tiveram seu nome escrito no livro dos generosos. Zadig ganhou a taça. O rei adquiriu a reputação de bom príncipe, que não conservou por muito tempo. Tal dia foi comemorado com festas mais longas do que o previa a lei, e ainda é lembrado em toda a Ásia. Zadig dizia: “Eis-me enfim feliz!” Mas enganava-se.

Vi o Ministro

Perdera o rei seu primeiro ministro. Escolheu Zadig para substituí-lo. Todas as belas damas de Babilônia aplaudiram a escolha, pois desde a fundação do império não houvera um ministro tão jovem. Todos os cortesãos ficaram descontentes; o invejoso chegou a escarrar sangue, e seu nariz aumentou prodigiosamente. Depois de agradecer ao rei e à rainha, Zadig foi também agradecer ao papagaio:

— Belo pássaro, foste tu quem me salvou a vida e quem me fez primeiro ministro: a cadela e o cavalo de suas Majestades me haviam feito bastante mal, mas tu me fizeste bem. Eis do que depende o destino dos homens! Mas — acrescentou ele, — tão estranha felicidade talvez se acabe dentro em breve.

— Sim — respondeu o papagaio. O que não deixou de impressionar a Zadig. No entanto, como era bom físico e não acreditasse que os papagaios tivessem o dom da profecia, logo se tranqüilizou e pôs-se a exercer o ministério da melhor forma possível.

Fez pesar sobre todos o sagrado poder das leis, e a ninguém fez sentir o peso de sua própria dignidade. Não interferiu nos votos do divã, e cada vizir podia ter sua opinião sem lhe cair no desagrado. Quando julgava uma causa, não era ele quem julgava, era a lei, mas, quando esta era demasiado severa, sabia-a temperar, e, se não havia leis sobre a matéria, a sua eqüidade as criava tais que poderiam ser tomadas pelas do próprio Zoroastro.

Foi dele que herdaram as nações este grande princípio: antes arriscar-se a salvar um culpado que condenar um inocente. Acreditava que as leis eram feitas para socorrer os cidadãos, tanto quanto para os intimidar. Seu principal talento consistia em deslindar a verdade, que todos os homens procuram obscurecer.

Logo nos primeiros dias de sua administração, pôs à prova esse inestimável dom. Morrera na Índia um famoso negociante de Babilônia; constituíra herdeiros seus dois filhos varões, em partes iguais, depois que houvessem casado a irmã, e deixava ainda trinta mil moedas de ouro àquele dentre dois filhos que ficasse provado ter-lhe mais amor. O velho erigiu-lhe um túmulo, o segundo aumentou com uma parte da própria herança o dote da irmã. “É o mais velho diziam todos — o que mais ama a seu pai; o mais moço mais amor à irmã; é ao mais velho que pertencem as trinta mil moedas”.

Zadig mandou chamar a ambos separadamente. Disse ao mais velho:

— Teu pai não morreu; curou-se de sua doença e está de regresso a Babilônia.

— Louvado seja Deus — respondeu o jovem. — Mas eis aí um túmulo que me custou bastante caro!

Zadig disse em seguida a mesma coisa ao mais moço.

— Louvado seja Deus — respondeu este. — Vou devolver a meu pai tudo o que tenho; mas desejaria que ele deixasse com minha irmã o que lhe dei por dote.

— Não devolverás nada — disse Zadig e terás as trinta mil moedas: és tu que tens mais amor a teu pai.

Uma jovem muito rica prometera casamento a dois magos e, depois de haver recebido, por alguns meses, doutrinação de um e outro, viu-se em estado de gravidez. Ambos queriam desposá-la.

Tomarei para marido — declarou ela — aquele que me pôs em condições de dar um cidadão ao Império.

— Fui eu que fiz essa boa obra — disse um.

— Fui eu que tive essa vantagem — afiançou o outro.

— Pois bem — concluiu ela, — reconhecerei como pai da criança aquele que lhe puder dar melhor educação.

Nasceu-lhe um menino. Cada um dos magos quer encarregar-se da sua educação. A causa é levada perante Zadig, que manda chamar os dois litigantes.

— Que ensinarás a teu pupilo? — pergunta ele ao primeiro.

— Ensinar-lhe-ei — diz o doutor — as oito partes da oração, e dialética, astrologia, demonomania, e o que vêm a ser a substância e o acidente, o abstrato e o concreto, as mônadas e a harmonia preestabelecida.

— Eu — diz o segundo — procurarei torná-lo justo e digno de ter amigos.

Zadig pronunciou-se:

— Sejas ou não pai da criança, desposarás a sua mãe

Vii Demandas e Audiências

Assim mostrava ele todos os dias a sutileza de seu gênio e a bondade de sua alma; admiravam-no e, no entanto, o amavam. Passava pelo mais afortunado dos homens; todo o Império estava cheio de seu nome; todas as mulheres o traziam de olho; todos os cidadãos lhe celebravam a justiça; tinham-no os sábios como um oráculo; os próprios sacerdotes confessavam que ele sabia mais que o velho arquimago Yebor. Longe se estava agora de o processar por causa de grifos; só se acreditava no que lhe parecia crível.

Havia em Babilônia uma grande querela que, tendo começado há coisa de mil e quinhentos anos, ainda dividia o Império em duas seitas irreconciliáveis: pretendia uma que jamais se deveria entrar no templo de Mitra a não ser com o pé esquerdo; abominava a outra tal costume, e só entrava com o pé direito. Estava o universo com os olhos pregados nos dois pés, e toda a cidade agitada e suspensa. Zadig entrou no templo saltando de pés juntos, e em seguida provou, numa eloqüente oração, que ao Deus do céu e da terra, que não faz exceção de pessoa, tanto lhe importa a perna esquerda como a perna direita.

O invejoso e a mulher acharam que no seu discurso não havia figuras suficientes, nem que fizera devidamente dançar os montes e as colinas. “É seco e sem inspiração — diziam. Não se lhe vê nem o mar fugir, nem tombarem as estrelas, nem o sol fundir-se como cera; falta-lhe o bom estilo oriental”. Zadig contentava-se em ter o estilo da razão. Todo o mundo concordou com ele, não porque estivesse no bom caminho, não porque fosse razoável, ou amável, mas porque era o primeiro vizir.

Com igual felicidade se resolveu o grande processo entre os magos brancos e os magos negros. Sustentavam os brancos que era uma impiedade voltar-se, quando se orava a Deus, para o Levante; asseguravam os negros que Deus tinha horror às preces dos homens que se voltavam para o Poente. Zadig ordenou que cada qual se voltasse para onde bem lhe parecesse.

Achou meio de expedir, pela manhã, os negócios particulares e os gerais; destinava o resto do dia ao embelezamento de Babilônia; mandava representar tragédias que faziam chorar e comédias que faziam rir, o que de há muito passara de moda, mas a que o seu discernimento dera novo crédito. Não pretendia saber mais que os artistas; recompensava-os com benefícios e distinções, e não se enciumava em segredo com o seu talento. À noite, divertia muito ao rei, e principalmente à rainha. Dizia o rei: “o grande ministro!”, e a rainha: “o amável ministro!” e ambos acrescentavam: “Que pena se o tivessem enforcado!”

Jamais um homem na sua posição foi obrigado a conceder tantas audiências às damas. A maioria vinha falar-lhe de complicações que não tinham, para arranjarem alguma com ele. A mulher do invejoso foi das primeiras que se apresentaram; jurou-lhe por Mitra, pelo Zend-Avesta, e pelo fogo sagrado, que fora contra o procedimento do marido; confiou-lhe depois que este era um ciumento, um brutal; deu-lhe a entender que os deuses o puniam recusando-lhe os preciosos efeitos desse fogo sagrado só pelo qual é o homem semelhante aos imortais; acabou por deixar cair a liga; Zadig apanhou-a com a ordinária polidez, mas não a prendeu ao joelho da dama; e essa pequena falta, se o era, foi causa dos mais tremendos infortúnios. Zadig não pensou mais no caso, e a mulher do invejoso pensou muito.

Outras damas se apresentavam todos os dias. Rezam os anais secretos de Babilônia que ele sucumbiu uma vez, mas muito se espantou de o fazer sem volúpia e enlaçar a amante distraidamente. Aquela a quem dera, quase sem o notar, testemunhos da sua proteção, era uma camareira da rainha Astartéia. Essa terna babilônia dizia consigo mesma, para se consolar: “Que de negócios não terá esse homem na cabeça, para que sempre ande pensando neles, até quando pratica o amor!” No instante em que muitas pessoas não dizem patavina e outras só pronunciam palavras sagradas, Zadig exclamara de súbito: “A rainha!” Julgou a babilônia que ele afinal voltara a si num bom momento e que lhe dizia: “Minha rainha!” Mas Zadig, sempre absorto, pronunciou o nome de Astartéia. A dama que, naquelas felizes circunstâncias, interpretava tudo em proveito seu, imaginou que aquilo queria dizer: “Tu és mais linda que a rainha Astartéia!” Saiu do serralho de Zadig cheia de belos presentes. Foi contar a aventura à invejosa, que era sua íntima amiga; esta se sentiu cruelmente ofendida com a preferência. Ele nem se dignou — disse ela — prender-me esta liga, que eu aliás — não quis mais usar. — Oh! Imagina! — disse a feliz à invejosa. — Essas tuas ligas são idênticas às da rainha! São feitas pela mesma costureira?“ A invejosa ficou absorta em cismas, nada respondeu e foi consultar seu marido, o invejoso.

No entanto, Zadig se dava conta de suas contínuas distrações durante as audiências e julgamentos; não sabia a que atribuí-las: era esse o seu único cuidado.

Teve um sonho: parecia-lhe estar deitado a princípio sobre ervas secas, entre as quais algumas espinhosas, que o incomodavam, e que depois repousava brandamente num leito de rosas, de onde saia uma serpente que o feria no coração com sua língua aguda e peçonhenta. “Ai! — dizia ele, — bem sei que estive por muito tempo deitado naquelas ervas secas e espinhentas e agora me acho num leito de rosas; mas que significará a serpente?”

Viii o Ciúme

A desgraça de Zadig originou-se da própria ventura, e principalmente de seu mérito. Avistava-se todos os dias com o rei e Astartéia, sua augusta esposa. O encanto da conversação do primeiro ministro era redobrado por esse desejo de agradar que está para o espírito como o ornamento para a beleza; sua juventude e graça causaram insensivelmente em Astartéia uma impressão de que esta a princípio não se apercebeu. Sua paixão crescia no seio da inocência. Astartéia entregava-se sem escrúpulo e sem temor ao prazer de ver e escutar a um homem tão caro a seu esposo e ao Estado; não cessava de o elogiar perante o rei; falava dele às damas de companhia, que ainda acrescentavam os louvores; tudo concorria para lhe aprofundar no coração a frecha que ela não sentia. Fazia presentes a Zadig, nos quais entrava mais galanteria do que supunha; julgava não lhe falar senão como rainha satisfeita de seus serviços, e suas expressões eram, algumas vezes, as de uma mulher sensível.

Astartéia era muito mais bonita do que aquela Semira que tanto odiava aos caolhos, e do que aquela outra mulher que quisera cortar o nariz ao esposo. A familiaridade de Astartéia, suas ternas frases, de que começava a corar, seus olhares, queria desviar, e que se fixavam nos dele, acenderam no coração de Zadig uma flama que o espantou. Lutou; pediu socorro à filosofia, que sempre lhe valera; mas só lhe obteve luzes, não recebendo em troca nenhum alívio. O dever, a gratidão, a soberana majestade violada, apresentavam-se-lhe aos olhos como deuses vindicativos; lutava e triunfava; mas essa vitória que era preciso renovar a todo momento, custava-lhe gemidos e lágrimas. Não mais ousava falar à rainha com aquela doce liberdade que tais encantos tivera para ambos; seus olhos cobriam-se de uma nuvem; suas palavras eram constrangidas e incoerentes; baixava as pálpebras; e quando, sem querer, o seu olhar se voltava para Astartéia, encontrava o da rainha turbado de lágrimas, de onde partiam raios; pareciam dizer um ao outro: “Nós nos adoramos, e temos medo do amor; ardemos os dois num fogo que condenamos.”

Zadig retirava-se desvairado da sua presença, com um peso no coração, que não mais podia suportar; na violência da sua agitação, não pôde evitar que o amigo Cador lhe descobrisse o segredo, como um homem que, tendo agüentado por muito tempo uma dor profunda, deixa enfim revelar-se o seu mal, por um grito que lhe arranca um acesso mais agudo e pelo suor que poreja a fronte.

— Já desvendei — lhe disse Cador — os sentimentos que a ti mesmo procuravas ocultar; as paixões têm sinais que não enganam. Por aí verás, meu caro Zadig, já que eu li no teu coração, se o próprio rei não irá descobrir um sentimento que o ofende. Não tem ele outro defeito senão o de ser o mais ciumento dos homens. Resistes à tua paixão com mais força do que a rainha combate a sua, porque és filósofo e porque és Zadig. Astartéia é mulher; deixa falar seus olhares com tanto maior imprudência por ainda não se julgar culpada. Infelizmente tranqüilizada pela sua inocência, negligencia as aparências necessárias. Tremerei por ela enquanto não tiver nada que se censurar. Se estivessem ambos em cumplicidade, saberiam enganar todos os olhos: uma paixão nascente e combatida logo se revela; um amor satisfeito sabe ocultar-se.

Zadig fremiu à idéia de trair o rei seu benfeitor; e nunca foi tão fiel ao príncipe como quando se viu culpado para com ele de um crime involuntário. Contudo, tantas vezes pronunciava a rainha o nome de Zadig, tal rubor lhe cobria a fronte ao dizê-lo; ora se mostrava tão animada, ora tão interdita, quando lhe falava em presença do rei; caía em tão profundas cismas depois que Zadig se retirava, que o rei se sentiu inquieto. Acreditou tudo o que via, e imaginou tudo o não via. Observou principalmente que as babuchas de sua mulher eram azuis, e que as babuchas de Zadig eram azuis, que as fitas da touca de sua mulher eram amarelas, e que o barrete de Zadig era amarelo: indícios terríveis para um príncipe suscetível. No seu espírito envenenado, transformaram-se as suspeitas em certezas.

Os escravos dos reis e das rainhas são outros tantos espias de seus corações. Descobriram logo que Astartéia amava e que Moabdar sentia ciúmes. O invejoso fez a invejosa enviar ao rei a sua liga, que se assemelhava à da rainha. Por cúmulo da desgraça, essa liga era azul, O monarca não pensou senão na maneira de vingar-se. Resolveu uma noite mandar envenenar a rainha, e enforcar Zadig ao raiar do dia. A ordem foi transmitida a um impiedoso eunuco, executor das suas vinganças. Achava-se então na câmara do rei um anãozinho que era mudo, mas não surdo. Toleravam-no sempre em toda parte: era testemunha de tudo o que se passava de mais secreto, como um animal doméstico. Esse pequeno mudo era muito devotado à rainha e a Zadig. Ouviu, com tanta surpresa quanto horror, a sentença de morte. Mas como prevenir essa terrível ordem, que dentro em poucas horas seria executada? Escrever, não sabia; mas aprendera a desenhar e fazia retratos com muita parecença. Passou uma parte da noite a rabiscar o que desejaria dizer à rainha. O desenho representava o rei furioso, a um canto do quadro; um cordão azul e um vaso sobre uma mesa, com ligas azuis e fitas amarelas; a rainha, no meio do quadro, expirante entre os braços de suas mulheres, e Zadig estrangulado a seus pés. O horizonte representava um sol nascente, para indicar que a horrível execução se efetuaria aos primeiros raios da aurora. Logo que terminou o trabalho, correu a uma camareira de Astartéia, despertou-a, e deu-lhe a entender que era preciso levar imediatamente o quadro à rainha.

Em meio à noite, batem à porta de Zadig; acordam-no; entregam-lhe um bilhete da rainha; pensa que está sonhando; abre o papel com mão tremente. Qual não foi a sua surpresa, e quem lhe poderia exprimir a consternação e desespero, ao ler as seguintes palavras: “Foge imediatamente, senão te arrancam a vida. Foge, Zadig, ordeno-te em nome do nosso amor e das minhas fitas amarelas. Eu não era culpada; mas sinto que vou morrer criminosa.”

Zadig mal teve forças de falar. Mandou chamar Cador e, sem nada lhe dizer, mostrou-lhe o bilhete. Cador forçou-o a obedecer e a tomar logo o caminho de Mênfis. “Se te atreves a ir falar com a rainha, apressas a sua morte; se falares ao rei, da mesma forma prejudicarás a rainha. Encarrego-me do seu destino; segue o teu. Espalharei o boato de que partiste para a Índia Em breve me encontrarei contigo e te comunicarei o que houver sucedido em Babilônia”.

Cador, no mesmo instante, mandou trazer dois dromedários dos mais rápidos a uma porta secreta do palácio; fez com que Zadig montasse tendo até de ampará-lo, pois parecia prestes a entregar a alma. Um só criado o acompanhou; em breve Cador, transido de espanto e angústia, perdeu de vista o amigo.

O ilustre fugitivo, chegando ao alto de uma colina de onde se avistava Babilônia, volveu o olhar para o palácio da rainha, e desfaleceu; só recuperou os sentidos para derramar lágrimas e desejar a morte. Enfim, depois, de se haver ocupado do deplorável destino da mais amável entre as mulheres e a primeira rainha do mundo, voltou o pensamento para si mesmo e exclamou: “Que coisa é então a vida humana? De que me serviste, ó virtude? Duas mulheres me enganaram indignamente; a terceira, que não é culpada, e mais bela que as outras, vai perder a vida. Todo o bem que pratiquei foi sempre para mim uma fonte de maldições, e só fui elevado ao cúmulo da grandeza para tombar no mais horrível precipício do infortúnio. Se eu tivesse sido mau como tantos outros, seria hoje feliz como eles”. Acabrunhado por essas funestas reflexões, cobertos os olhos pelo véu da dor, a palidez da morte nas faces, e a alma abismada no mais sombrio desespero, se guia ele a caminho do Egito.

Ix a Mulher Batida

Zadig orientava-se pelas estrelas. A constelação de Orion e o brilhante astro de Sírio guiavam-no para o pólo de Canope. Admirava esses vastos globos de luz que não parecem a nossos olhos mais que fracas centelhas, ao passo que a terra, que em verdade é apenas um imperceptível ponto na natureza, afigura-se à nossa cupidez uma coisa tão grande e tão nobre. Via então os homens tais como são na realidade: insetos a se entredevorarem num pequeno átomo de lama. Essa imagem verdadeira parecia aniquilar suas desventuras, retraçando-lhe o nada da sua existência e a de Babilônia. Sua alma arrebatava-se até o infinito e contemplava, liberta dos sentidos, a imutável ordem do universo. Mas quando, em seguida, de volta a si mesmo e penetrando de novo em seu coração, pensava em Astartéia sacrificada por sua causa, o universo desaparecia a seus olhos, e ele apenas via, em toda a natureza, Astartéia moribunda e Zadig desgraçado.

Enquanto se entregava a esse fluxo e refluxo de sublime filosofia e dor acabrunhante, ia avançando pelas fronteiras do Egito; e já seu fiel criado se achava na primeira localidade,em busca de alojamento. Enquanto isso, Zadig passeava pelos jardins dos arredores. Senão quando avistou, não longe estrada real, uma mulher que gritava por socorro e um homem furioso que a perseguia. Já o homem a alcançava e ela, caída, enlaçava-lhe os joelhos. O homem enchia-a de pancadas e censuras. Pela violência do egípcio e pelos reiterados perdões que lhe pedia a dama, viu Zadig que ele era ciumento e ela infiel. Mas, depois de atentar naquela mulher, que era de impressionante beleza e até se assemelhava um pouco à infeliz Astartéia, sentiu-se tomado de compaixão por ela e aversão ao egípcio. “Acode-me! — bradou ela a Zadig, entre soluços. — Arranca-me das mãos do mais bárbaro dos homens, salva-me a vida!”

A esses clamores, Zadig lançou-se entre ela e aquele bárbaro. Tinha algum conhecimento da língua egípcia, e assim lhe falou:

— Se tens alguma humanidade, conjuro-te a respeitar a beleza e a fraqueza. Podes assim ultrajar uma obra-prima da Criação, que jaz a teus pés e só tem por defesa as lágrimas?

— Ah! Ah! — exclamou o possesso. Com que então também a amas? É de ti que tenho de vingar-me.

Dizendo tais palavras, deixa a dama, que segurava pelos cabelos, e, empunhando a lança, tenta matar o estrangeiro. Este, que não perdera o sangue frio, evitou facilmente o golpe de um furioso. Segurou a lança perto da ponta. Quer um retirá-la, o outro arrancá-la. A lança parte-se. O egípcio puxa da espada; Zadig também. Atacam-se. Lança este cem golpes precipitados, apara-os aquele com destreza. A dama, sentada na relva, reajusta os cabelos e olha-os. O egípcio era o mais robusto, Zadig o mais ágil. Batia-se o último como um homem cuja cabeça conduzia o braço, e o primeiro como um arrebatado, cuja cólera cega lhe guiava ao acaso os movimentos. Zadig desarma-o. E como o egípcio, mais furioso, procura arremeter contra ele, Zadig segura-o, domina-o, fá-lo cair e, apontando-lhe a espada contra o peito, oferece poupar-lhe a vida. O egípcio, fora de si, arranca o punhal e fere Zadig no mesmo instante em que o vencedor lhe perdoava. Zadig, indignado, lhe mergulha a espada no peito; O egípcio lança um grito horrível e morre, debatendo-se.

Zadig avança então para a dama e lhe diz respeitosamente:

— Foi ele que me obrigou a matá-lo; estais vingada, e livre do homem mais violento que já vi na minha vida. Que quereis agora de mim, senhora?

— Que morras, celerado, que morras; mataste o meu amor; eu quisera estraçalhar-te o coração.

— Na verdade, senhora que tínheis um esquisito amor; ele vos batia com toda a força e queria tirar-me a vida, por me haverdes pedido socorro.

— Quisera que ele me batesse ainda — tornou a dama, aos gritos. — Eu bem que o merecia, pois lhe dei motivos para ciúmes. Quem dera que ele me batesse e que tu estivesses no seu lugar!

Zadig, mais surpreso e encolerizado do que nunca estivera em sua vida, retrucou:

— Senhora, com toda a vossa beleza, merecíeis que eu vos batesse por minha vez, tão incoerente sois; mas não me darei a esse trabalho.

Dito isto, montou no camelo e dirigiu-se para a cidade. Mal dera alguns passos, volta-se ao estrépito que faziam quatro correios de Babilônia. Vinham a toda brida. Um deles, ao ver a mulher, exclamou: “É ela mesma; assemelha-se à descrição que nos fizeram”. Sem dar atenção ao morto, apoderaram-se logo da dama, a qual não cessava de gritar para Zadig: “Socorrei-me outra vez, generoso estrangeiro! Perdoai-me por me haver queixado de vós. Socorrei-me, que serei vossa até o túmulo”. A Zadig, passara-lhe todo e qualquer desejo de se bater por ela. “Arranja-te com outros — respondeu-lhe, a mim é que não me pegas mais!”

Aliás, estava ferido, perdia sangue e necessitava socorro; e a vista dos quatro babilônios, provavelmente enviados pelo rei Moabdar, enchia-o de inquietação. Avança às pressas para a aldeia, sem atinar por que motivo vinham quatro correios de Babilônia apoderar-se daquela egípcia, mas ainda muito mais espantado com o caráter da referida dama.