Capítulo 4
O Ingênuo batizado.
O prior e o abade, tendo acorrido, perguntaram ao Ingênuo o que estava fazendo ali.
— Ora essa! Espero o batismo. Faz uma hora que estou dentro d’água. E não é nada direito me deixarem aqui a gelar.
— Meu querido sobrinho – disse-lhe carinhosamente o prior, – não é assim que se fazem batizados na Baixa Bretanha; veste a tua roupa e vem conosco.
Ouvindo tais palavras, a senhorita de St. Yves disse baixinho à companheira:
— Será que ele já vai vestir-se?
O hurão, no entanto, retrucou ao prior:
— Agora o senhor não me convencerá como da outra vez; desde então tenho estudado bastante e estou certo de que não se batiza de outra maneira. O eunuco da rainha Candace foi batizado num rio: desafio o senhor a que me mostre no livro que me deu se alguma vez se batizou a não ser assim. Ou não serei batizado, ou serei batizado no rio.
Não adiantou alegar que haviam mudado os costumes. O Ingênuo era cabeçudo, pois era bretão e hurão. Voltava sempre ao eunuco da rainha Candace. E, embora a senhorita sua tia e a senhorita de St. Yves, que o tinham observado dentre os salgueiros, estivessem no direito de dizer-lhe que não lhe competia citar semelhante homem, abstiveram-se de qualquer interferência, tamanha era a sua discrição. O próprio bispo veio falar-lhe, o que já era muito; mas não adiantou: o hurão discutiu com o bispo.
— Mostre-me – lhe disse ele – no livro que o tio me deu, um único homem que não se haja batizado no rio, e eu farei tudo o que o senhor quiser.
A tia, desesperada, havia notado que o sobrinho fizera uma reverência mais profunda à senhorita de St. Yves do que às outras pessoas, e que nem ao senhor bispo saudara com aquele respeito mesclado de cordialidade que testemunhara à formosa moça. A senhorita de Kerkabon tomou o partido de dirigir-se a esta naquele grande embaraço; pediu-lhe que usasse da sua influência para induzir o hurão a batizar-se à maneira dos bretões, não acreditando que o seu sobrinho jamais pudesse ser cristão se teimasse em ser batizado na água corrente.
A senhorita de St. Yves enrubesceu com o secreto prazer que sentia em ser encarregada de tão importante missão. Aproximou-se modestamente do Ingênuo e, apertando-lhe a mão com um nobre gesto, disse-lhe:
— Será que não fará nada por mim?
E, assim falando, baixava os olhos e erguia-os com enternecedora graça.
— Ah! farei tudo o que a senhorita quiser, tudo o que me ordenar: batismo de água, batismo de fogo, batismo de sangue; não há nada que eu possa recusar-lhe.
A senhorita de St. Yves teve a glória de conseguir com duas palavras o que não haviam conseguido nem as solicitações do prior, nem as sucessivas interrogações do bailio, nem as razões do senhor arcebispo. Ela sentiu o seu triunfo; mas não lhe avaliava ainda toda a extensão.
O batismo foi administrado e recebido com toda a decência, toda a pompa, toda a distinção possível. O tio e a tia cederam ao senhor padre de St. Yves e à sua irmã a honra de servir de padrinhos ao Ingênuo. A senhorita de St. Yves radiava de alegria de se ver madrinha. Não sabia ao que a sujeitava esse grande título; aceitou a honra sem lhe conhecer as fatais conseqüências.
Como nunca houve cerimônia que não fosse seguida de um bródio, sentaram-se à mesa ao sair do batismo. Os espirituosos da Baixa Bretanha objetaram que o vinho não deveria ser batizado. O senhor prior dizia que o vinho, segundo Salomão, alegra o coração do homem. O senhor bispo acrescentava que o patriarca Juda amarrava o seu jumento à vinha e mergulhava o manto no sangue da uva e que era uma triste coisa não ser possível fazer o mesmo na Baixa Bretanha, a que Deus negara as vinhas. Cada qual porfiava em dizer um gracejo sobre o batismo do Ingênuo e dirigir galanteios à madrinha. O bailio, sempre interrogante, perguntava ao hurão se este seria fiel às suas promessas.
— Como quer que eu falte às minhas promessas – disse o hurão, – quando as fiz entre as mãos da senhorita de St. Yves?
O hurão entusiasmou-se; bebeu à grande pela saúde da madrinha.
— Se eu tivesse sido batizado por suas mãos – disse ele, – a água fria que recebi sobre a nuca me teria queimado.
O bailio achou a frase muito poética; ignorava o quanto a alegoria é corriqueira no Canadá. A madrinha, essa, sentiu-se extremamente satisfeita.
— O Ingênuo recebera na pia batismal o nome de Hércules. O bispo não cessava de perguntar quem era esse padroeiro de quem nunca ouvira falar. O jesuíta, que era muito erudito, respondeu-lhe que se tratava de um santo que, fizera doze milagres. Havia, na verdade, um décimo-terceiro que valia os outros doze, mas não ficava bem a um jesuíta referi-lo: era o de haver transformado cinqüenta donzelas em mulheres, numa única noite. Um engraçado pôs-se a gabar entusiasticamente o referido milagre. Todas as damas baixaram os olhos; e julgaram, pelo aspecto do Ingênuo, que era este digno do santo de que trazia o nome.