Pular para o conteúdo

O Ingênuo

Voltaire · Capítulo 18

Capítulo 18

Ela liberta o noivo e um jansenista.

Ao clarear do dia, corre a Paris, munida da ordem do ministro. Difícil pintar o que lhe ia no coração durante aquela viagem. Imagine-se uma alma. virtuosa e nobre, humilhada com o seu opróbrio, embriagada de paixão, lacerada pelos remorsos de haver traído o seu amado, cheia da alegria de libertar aquele a quem adora. Suas amarguras, suas lutas, seu triunfo lhe partilhavam todas as reflexões. Não era mais aquela jovem simples a quem uma educação provinciana acanhara as idéias. O amor e a desgraça a tinham formado. Tantos progressos fizera nela o sentimento como os fizera a razão no espírito do seu desventurado noivo. As moças aprendem a sentir com muito mais facilidade do que os homens a pensar. A sua aventura era mais instrutiva que quatro anos de convento.

Seu traje era de extrema singeleza. Considerava com horror os adereços com que se apresentara a seu funesto benfeitor; deixara os brincos para a companheira, sem ao menos lançar-lhes um olhar. Confusa e encantada, idolatrando o Ingênuo e odiando a si mesma; chega enfim à porta

“Desse horrível castelo, palácio da vingança, Que freqüentemente conteve o crime e a inocência.”

Quando foi para descer da carruagem, faltavam-lhe as forças; tiveram de ajudá-la; ela entrou, com o coração palpitante, os olhos úmidos, a fisionomia consternada. Apresentam-na ao governador; ela quer falar-lhe, sua voz expira; mostra a sua ordem, articulando a custo algumas palavras. O governador, que estimava o prisioneiro, mostrou-se muito satisfeito com a liberação. Seu coração não estava endurecido como o de alguns honrados carcereiros seus confrades, que, só pensando nos proventos que lhe traz a guarda dos cativos, baseando as rendas nas suas vítimas e vivendo da desgraça alheia, sentiam em segredo uma horrenda alegria com as lágrimas dos desgraçados.

Mandou trazer o prisioneiro a seu gabinete. Os dois enamorados dão com os olhos um no outro e desmaiam. A bela St. Yves permaneceu longo tempo sem movimento e sem vida: o outro logo se refez.

— Pelo que vejo, é a senhora sua esposa – disse-lhe o – governador. – O senhor não me havia dito que era casado. Sei que é à sua generosa interferência que deve o senhor a liberdade.

— Ah! eu não sou digna de ser sua esposa – disse a bela St. Yves com voz trêmula, e desmaiou de novo.

Quando voltou a si, apresentou, sempre trêmula, o certificado da gratificação e a promessa, por escrito, de uma companhia. O Ingênuo, tão espantado como enternecido, despertava de um sonho para cair em outro.

—.Por que fui encerrado aqui? Como pudeste libertar-me? Onde estão os monstros que me perseguiram? Tu és uma divindade baixada do céu em meu auxílio.

A bela St. Yves baixava o olhar, depois fitava o amado, enrubescia, e logo desviava os olhos úmidos de pranto. Contou-lhe afinal tudo o que sabia e tudo o que experimentara, exceto aquilo que desejaria ocultar a si mesma para sempre e que qualquer outro que não o Ingênuo, mais acostumado ao mundo e mais a par dos costumes da Corte, teria logo adivinhado.

— Será possível que um miserável como esse bailio tenha tido o poder de arrebatar-me a liberdade? Ah! bem vejo que com os homens acontece o mesmo que com os mais desprezíveis animais: todos podem causar dano. Mas será possível que um monge, um jesuíta confessor do rei, tenha contribuído para o meu infortúnio tanto quanto o bailio, sem que eu possa imaginar sob que pretexto me perseguiu esse detestável tratante? Fez-me passar por jansenista? E como te foste lembrar de mim? Eu não o merecia, eu não passava então de um selvagem. E pudeste, sem conselho, sem auxílio, ir até Versalhes! Lá apareceste, e quebram-se as minhas cadeias! Há, pois, na beleza e na virtude um invencível encanto que faz tombarem as portas de ferro e abrandarem os corações de bronze!

A esta palavra virtude, escaparam soluços à bela St. Yves. Não sabia o quanto era virtuosa no crime de que se acusava.

O Ingênuo assim continuou:

— Ó anjo que rompeste os meus grilhões, se tiveste bastante influência (o que eu ainda não compreendo) para obrigar a me fazerem justiça, intercede para que também a façam a um velho que me ensinou a pensar, como tu me ensinaste a amar. A desgraça nos uniu; estimo-o como a um pai; não posso viver sem ele, como não posso viver sem ti.

— Que eu vá. pedir ao mesmo homem que...!

— Sim, quero dever tudo a ti, e só a ti: escreve a esse homem poderoso, cumula-me de teus benefícios, termina o que começaste, completa os teus prodígios.

Sentia que devia fazer tudo quanto exigia o seu amado. Quis escrever, a mão não obedecia. Três vezes começou a carta, três vezes a rasgou. Afinal escreveu. E os dois noivos se retiraram após haver abraçado o velho mártir da graça eficaz.

A feliz e desolada St. Yves sabia onde morava o irmão; para lá se dirigiu; seu noivo tomou um apartamento na mesma casa.

Mal haviam chegado, seu protetor enviou-lhe a ordem de soltura de Gordon, e marcou-lhe encontro para o dia seguinte. Assim, a cada ação honesta e generosa que praticava, a desonra era o seu preço. Execrava esse costume de vender a desgraça e a felicidade dos homens. Entregou a ordem de soltura ao Ingênuo e recusou o encontro com um benfeitor com quem não mais poderia avistar-se sem morrer de dor e vergonha. O Ingênuo só poderia separar-se dela para ir libertar um amigo. Correu sem demora. E cumpriu esse dever, refletindo sobre os estranhos acontecimentos deste mundo e admirando a corajosa virtude de uma rapariga a quem dois infelizes deviam mais que a vida.