Capítulo 15
A bela St. Yves resiste a propostas delicadas.
A bela St. Yves, mais apaixonada ainda que o seu namorado, foi ter com o senhor de St. Pouange, em companhia da amiga que a hospedava, ambas ocultas nos seus chales. A primeira pessoa que viu à porta foi o abade de St. Yves, seu irmão, que se retirava. Assustou-se, mas a devota amiga tranqüilizou-a.
— Exatamente porque falaram contra ti é que é preciso que fales. Fica certa de que neste país os acusadores têm sempre razão se a gente não se apressa em confundi-los. De resto, ou eu me engano muito ou a tua presença causará maior efeito que as palavras de teu irmão.
Por pouco que a gente a encoraje, uma mulher que ama sabe ser intrépida. A St. Yves apresenta-se à audiência. Sua juventude, seus encantos, seus brandos olhos, umedecidos de algumas lágrimas, atraíram todos os olhares. Cada cortesão do subministro esqueceu por um momento o ídolo do poder para contemplar o da beleza. St. Pouange fe-la entrar num gabinete; ela falou com emoção e graça. St. Pouange sentiu-se comovido. Ela tremia, ele tranqüilizou-a.
— Volte esta noite – disse-lhe ele. – Seus assuntos merecem um demorado exame. Aqui há muita gente. As audiências são despachadas muito às pressas. Tenho de lhe falar a fundo de tudo o que lhe toca.
E depois de elogiar-lhe a beleza e os sentimentos, recomendou-lhe que voltasse às sete horas da noite.
Não faltou à entrevista; a devota amiga também a acompanhou desta vez, mas conservou-se na sala, a ler Le Pédagogue Chrétien, enquanto St. Pouange e a. bela St. Yves se achavam no gabinete contíguo.
— Acredita que o seu irmão me veio pedir uma carta-de-prego contra a senhorita? Eu de bom grado expediria uma para mandá-lo de volta à Bretanha.
— Ah, Senhor! Muito liberal deve ser o governo em cartas-de-prego, para que as venham solicitar do fundo do reino, como pensões. Longe estou de pedir uma contra meu irmão. Tenho muitas queixas dele, mas respeito a liberdade dos homens; peço a de um homem a quem quero desposar, de um homem a quem deve o Rei a conservação de uma província, que pode servi-lo utilmente e que é filho de um oficial morto a seu serviço. De que é ele acusado? Como o puderam tratar tão cruelmente, sem ouvi-lo?
Mostrou-lhe então o subministro a carta do jesuíta espião e a do pérfido bailio.
Como! Há tais monstros na terra? E querem obrigar-me a desposar o ridículo filho de um homem ridículo e mau?! E é sob tais informes que se decidem aqui os destinos dos cidadãos?!
Lançou-se de joelhos, pediu entre soluços a liberdade do bravo que a adorava. Seus atrativos, naquele estado, se evidenciaram com maior encanto. Tão bela estava, que St. Pouange, perdendo qualquer escrúpulo, insinuou-lhe que ela havia de conseguir tudo se começasse por lhe dar as primícias do que reservava a seu noivo. A St. Yves, aterrada e confusa, fingiu muito tempo não compreendê-lo; foi preciso explicar-se mais claramente. Uma frase largada a princípio com certa reserva, provocava outra mais forte, seguida de uma terceira mais expressiva. Não apenas a revogação da carta-de-prego lhe foi oferecida, mas recompensas, dinheiro, honrarias, posições. E, quanto mais ele prometia, mais aumentava o desejo de não ser recusado.
A St. Yves chorava, arquejante, meio tombada num sofá, mal acreditando no que via e no que ouvia. St. Pouange, por sua vez, lançou-se-lhe aos pés. Atrativos não lhe faltavam, e bem poderia não espantar um coração menos prevenido. Mas St. Yves adorava o seu amado e julgava um crime horrível traí-lo para o servir. St. Pouange redobrava os rogos e promessas. Afinal tresvariou a ponto de declarar que era aquele o único meio de tirar da prisão o homem pelo qual tomava ela tão violento e apaixonado interesse. A estranha entrevista prolongava-se indefinidamente. A devota da antecâmara, lendo o seu Pédagogue Chrétien, pensava: “Meu Deus! Que podem eles estar fazendo há duas horas? Nunca monsenhor de St. Pouange me deu tão longa audiência; com certeza ele recusou tudo a essa pobre moça, visto que até agora ela lhe está rogando”.
Enfim a sua companheira saiu do gabinete, desvairada, sem poder falar, a refletir profundamente sobre o caráter dos grandes e dos semigrandes que tão levianamente sacrificam a liberdade dos homens e a honra das mulheres.
Não disse palavra durante todo o caminho. Chegada à casa da amiga, desabafou e contou-lhe tudo. A devota fez grandes sinais da cruz.
— Minha querida, devemos consultar amanhã o padre Tout-à-tous, nosso diretor; goza de muito crédito junto ao senhor de St. Pouange; confessa várias criadas de sua casa; é um homem pio e complacente, que também dirige damas de qualidade. Abandona-te a ele, é assim que faço; e sempre me dei muito bem com isso. Nós, pobres mulheres, temos necessidade de ser conduzidas por um homem.
— Pois bem, minha querida amiga, irei amanhã falar com o padre Tout-à-tous.