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História de Jenni

Voltaire · Capítulo 9

Capítulo 9

Sobre o ateísmo

Birton: — Por Deus, senhor! Não vos saireis tão bem no artigo da bondade como no referente ao poder e à indústria; falarei primeiro dos enormes defeitos deste globo, que são precisamente o oposto dessa tão gabada indústria; em seguida vos farei ver os crimes e males perpétuos dos habitantes, e julgareis do paternal afeto que, na vossa opinião, lhes dedica o Senhor.

Começo por vos dizer que os naturais de Glocestershire, minha terra, quando fazem nascer cavalos nos seus haras, criam-nos em belas pastagens, dão-lhes depois uma boa estrebaria, e aveia e feno com fartura; mas dizei-me, que alimento e que abrigo tinham esses pobres americanos do norte, quando os descobrimos passados tantos séculos. Tinham de correr trinta a quarenta milhas para conseguir o que comer. Toda a costa boreal do nosso antigo mundo definha mais ou menos sob a mesma necessidade; e, desde a Lapônia sueca até os mares setentrionais do Japão, cem povos arrastam a sua vida, tão curta quão insuportável, numa miséria terrível, em meio das neves eternas.

Os mais belos climas estão continuamente expostos a flagelos destruidores. Aí marchamos sobre acesos abismos recobertos de terrenos férteis, que são ciladas de morte. Não há outros infernos sem dúvida; e esses infernos se abriram milhentas vezes sob nossos passos.

Falam-nos de um dilúvio universal, fisicamente impossível, e de que riem todas as pessoas sensatas; mas ao menos consolam-nos dizendo que somente durou dez meses: devia ele ter apagado esses fogos que depois destruíram tantas cidades florescentes. Informa-nos o vosso Santo Agostinho que um só terremoto, na Líbia, abrasou e subverteu cem cidades inteiras; esses vulcões abalaram toda a bela Itália. Para cúmulo de males, nem os tristes habitantes das zonas glaciais se acham isentos desses pegos subterrâneos; os islandeses, sempre ameaçados, vêem, pela frente, a fome, e, à direita e à esquerda, cem pés de flama e cem pés de gelo no seu monte Hecla: pois todos os grandes vulcões ficam situados naquelas horríveis montanhas.

E não nos venham dizer que essas montanhas de duas mil toesas de altura não são nada em relação à terra, que tem três mil léguas de diâmetro; que são como as granulações da casca de uma laranja sobre a redondeza desse fruto; que se acham na razão de um pé para três mil. Ai! que somos nós então, se as altas montanhas só fazem sobre a terra a figura de um pé sobre três mil e de quatro polegadas sobre nove mil pés? Somos portanto animais absolutamente imperceptíveis; e no entanto vemo-nos esmagados por tudo o que nos cerca, embora a nossa infinita pequenez, tão vizinha do nada, nos devesse colocar ao abrigo de todos os acidentes. Após essa infinidade de cidades destruídas, reconstruídas e novamente destruídas como formigueiros, que diremos desses mares de areia que atravessam o meio da África e cujas vagas ardentes, amontoadas pelos ventos, engoliram exércitos inteiros? De que servem esses vastos desertos ao lado da velha Síria? Desertos tão horrendos, tão inabitáveis, que esses animais ferozes chamados judeus se julgaram no paraíso terrestre quando passaram, daqueles lugares de horror, para um recanto de terra onde se podiam cultivar algumas jeiras.

E ainda não basta que o homem, essa nobre criatura, tenha sido tão mal alojado, tão mal vestido, tão mal alimentado durante séculos. Nasce, entre a urina e a matéria fecal, para respirar dois dias; e, durante esses dois dias, compostos de enganadoras esperanças e de aborrecimentos reais, o seu corpo, formado com uma arte inútil, está à mercê de todos os males que resultam dessa mesma arte; vive entre a peste e a sífilis; a fonte de seu ser se acha envenenada; não há quem possa reter na memória a lista de todas as doenças que nos perseguem; e o médico das urinas na Suíça, pretende curá-las todas!

Enquanto Birton assim falava, o auditório se mostrava atento e impressionado. “Vejamos – dizia consigo Paruba – como o nosso doutor se sairá desta.” O próprio Jenni deixou escapar em voz baixa: “Palavra, ele tem razão; tolo fui eu em me impressionar com os discursos de meu pai.” O senhor Freind deixou passar essa onda, que agitava todas as imaginações, e depois disse:

Um jovem teólogo responderia com sofismas a essa torrente de tristes verdades e vos citaria S. Basílio e S. Cirilo, que não têm o que fazer aqui; quanto a mim, senhores, confessarei sem rodeios que há muito mal físico sobre a face da terra; não lhe subestimo a existência; mas o sr. Birton exagerou-a demasiado. Reporto-me a vós, meu caro Paruba: este clima foi feito para os americanos, e não é assim tão mau, já que nem vós, nem os vossos compatriotas, jamais quisestes deixá-lo. Os esquimós, os islandeses, os lapões, os ostíacos, os samoiedos, igualmente jamais quiseram abandonar o seu. Os rangíferes, os renas, que Deus lhes deu para os alimentar, vestir e carregar, morrem quando transportados para outras zonas. Os próprios lapões também morrem em climas um pouco meridionais; o clima da Sibéria é demasiado quente para eles: sentir-se-iam abrasados na paragem em que nos achamos.

É claro que Deus fez cada espécie de animais e de vegetais para o local onde se perpetuam. Os negros, essa espécie de homens tão diferente da nossa, nasceram de tal modo para a sua pátria, que milhares desses negros animais se suicidaram, quando a nossa bárbara cupidez os transportou alhures. O Camelo e o avestruz vivem constantemente nas areias da África: o touro e suas companheiras movimentam-se nas regiões férteis em que a relva continuamente se renova para seu sustento; a canela e o cravo só crescem na Índia, o trigo só é bom nos poucos países em que Deus o fez nascer. Temos outros alimentos, em toda a vossa América, desde a Califórnia até o estreito de Lemaire; não podemos cultivar a vinha em nossa fértil Inglaterra; nem tampouco na Suécia e no Canadá. Eis por que aqueles que, em certos países, fundam os seus ritos religiosos em pão e vinho, não fizeram mais que consultar o seu clima; bem fazem eles em agradecer a Deus o alimento e a bebida que auferem da sua bondade; e vós, americanos, fareis bem em lhe dar graças, pelo vosso milho, a vossa mandioca e a vossa farinha. Deus, por toda a terra, proporcionou os órgãos e faculdades dos animais, desde o homem ao caracol, aos locais onde lhes deu vida: não acusemos sempre a Providência quando tantas vezes lhe devemos ações de graças.

Consideremos os flagelos, as inundações, os vulcões, os terremotos. Se não reparais senão nessas calamidades, se só reunis um medonho conjunto de todos os incidentes que entravaram algumas engrenagens da máquina deste universo, Deus é um tirano; se atentais em seus inumeráveis benefícios, Deus é um pai. Vós me citais Santo Agostinho, o retórico, que, no seu livro dos milagres, fala de cem cidades destruídas ao mesmo tempo na Líbia; mas considerai que esse africano, que passou a vida a contradizer-se, prodigava em seus escritos a figura da ênfase: tratava os terremotos como a graça eficaz e a danação eterna de todas as criancinhas mortas sem batismo. Não disse ele, no seu trigésimo-sétimo sermão, ter visto na Etiópia uma raça de homens providos de um grande olho no meio da fronte, como os ciclopes, e povos inteiros sem cabeça?

Nós, que não somos doutores da Igreja, não devemos ficar muito além nem muito aquém da verdade: essa verdade é que, dentre cem mil casas, pode-se contar quando muito uma destruída cada século pelos fogos necessários à formação deste globo.

Tão necessário é o fogo ao universo inteiro que, se não fora ele, não haveria na terra nem animais, nem vegetais, nem minerais: não haveria nem sol nem estrelas no espaço. Esse fogo, espalhado por debaixo da primeira crosta da terra, obedece às leis gerais estabelecidas pelo próprio Deus; impossível que disso não resultem alguns desastres particulares: não se pode dizer que um artesão seja mau operário quando uma máquina imensa, construída por ele só, vem durando há tantos séculos sem desarranjar-se. Se um homem tivesse inventado uma máquina hidráulica que regasse e fertilizasse toda uma província, haveríeis de censurar-lhe que a água que ele vos propinou afogasse alguns insetos?

Já vos provei que a máquina do mundo é obra de um ser soberanamente inteligente e poderoso: vós, que sois inteligentes, deveis admirá-lo; vós, que sois cumulados de seus benefícios, deveis amá-lo.

Mas os infelizes, direis, condenados a sofrer toda a vida, acabrunhados de moléstias incuráveis, podem acaso admirá-lo e amá-lo? Eu vos direi, meus amigos, que essas doenças tão cruéis vêm quase todas por culpa nossa, ou por culpa dos nossos pais, que abusaram do seu corpo, e não por culpa do grande artífice. Quase não se conheciam outras enfermidades além da decrepitude, em toda a América setentrional, antes de que para cá houvéssemos trazido essa água de morte a que chamamos eau-de-vie [7] e, e que traz mil males diversos a quem quer que a beba em demasia. O contágio secreto das Caraíbas, a quem vós, os jovens, chamais de pox, não passava de uma leve indisposição cuja origem, ignorávamos e de que nos curávamos em dois dias com guaiaco ou caldo de tartaruga; a incontinência dos europeus transplantou para o resto do mundo esse incômodo, que tomou entre nós um caráter tão funesto e se transformou em tão abominável flagelo. Lemos que vieram a morrer desse mal o papa Júlio II, o papa Leão X, um arcebispo de Mogúncia chamado Benneberg e o rei de França Francisco I.

A varíola, originada na Arábia Felix, era tão somente uma fraca erupção, uma ebulição passageira e sem perigo, uma simples depuração do sangue: tornou-se mortal na Inglaterra, como em tantos outros climas; nossa cupidez a trouxe para este mundo; ela o despovoou.

Cumpre lembrar que, no poema de Milton, esse tolo do Adão pergunta ao anjo Gabriel se viverá por muito tempo. “Sim – respondeu-lhe o anjo, – se observares a grande regra: Nada em excesso.” Observai todos essa regra, meus amigos; acaso vos atreveríeis a exigir que Deus vos fizesse viver sem dor durante séculos inteiros, em recompensa da vossa gula, da vossa embriaguez, da vossa incontinência, do vosso abandono a infames paixões que corrompem o sangue e abreviam fatalmente a vida?

Aprovei tal resposta; Paruba ficou muito satisfeito com ela; mas Birton não se abalou; e notei pelos olhos de Jenni, que este ainda se achava bastante indeciso. Birton replicou como segue:

Já que vos servistes de lugares-comuns de envolta com algumas reflexões novas, empregarei também um lugar comum ao qual jamais se respondeu senão com ficções e verbiagem. Se existisse mesmo um Deus tão poderoso e tão bom, não teria ele posto o mal na terra; não teria devotado as suas criaturas ao sofrimento e ao crime. Se ele não pôde impedir o mal, é impotente, se o pôde e não o quis, é bárbaro.

Só temos anais de cerca de oito mil anos, conservados entre os brâmanes; só os temos de uns cinco mil anos entre os chineses; o que conhecemos é de ontem; mas, nesse ontem, tudo é horror. Degolamos de um extremo a outro da terra, e fomos bastante imbecis para dar o nome de grandes homens, de heróis, de semideuses, de deuses até, àqueles que mataram o maior número de seus semelhantes.

Restavam na América duas grandes nações civilizadas que começavam a gozar das doçuras da paz: chegam os espanhóis e massacram doze milhões desses nativos; partem à caça de homens, como cães; e Fernando, rei de Castela, concede uma pensão a esses cães, por terem-no tão bem servido. Os heróis vencedores do novo mundo, que massacram tantos inocentes desarmados e nus, mandam servir à mesa assados de homens e mulheres, nádegas, braços e panturrilhas ensopadas. Mandam assar num braseiro o rei Guatimozin do México; correm ao Peru, a converter o rei Atabalipa. Um chamado Almagro, padre, filho de padre, condenado à forca na Espanha por ter sido ladrão de estrada, vai, com um chamado Pizarro, comunicar ao rei, por voz de um outro padre, que um terceiro padre, chamado Alexandre VI, manchado de incestos, de assassínios e de homicídios, dera, por sua livre vontade, próprio motu, e por seus plenos poderes, não só o Peru, mas a metade do novo mundo ao rei de Espanha; que Atabalipa deve imediatamente submeter-se, sob pena de incorrer na indignação dos apóstolos S. Pedro e S. Paulo. E, como esse rei não entendesse a língua latina mais do que o padre que lia a bula, foi logo declarado incréu e herético: mandaram queimar Atabalipa, como fizeram com Guatimozin; trucidaram o seu povo, e tudo isso para roubar uma terra amarela endurecida, que só serviu para despovoar e empobrecer a Espanha: pois lhe fez negligenciar a verdadeira terra que sustenta os homens quando cultivada.

Com efeito, meu caro sr. Freind, se o ser fantástico e ridículo a que chamam Diabo tivesse querido fazer homens à sua imagem e semelhança, acaso os teria formado de outro modo? Deixai, pois, de atribuir a um Deus uma obra tão abominável.

Esta tirada colocou toda a assembléia do lado de Birton. Eu via Jenni triunfar em segredo; até a jovem Paruba se sentiu tomada de horror ante o padre Almagre, o padre que lera a bula em latim, o padre Alexandre Vi, todos os cristãos que haviam cometido tão inconcebíveis crimes por devoção e para roubar ouro. Confesso que tremi pelo amigo Freind; desesperava da sua causa; eis no entanto como ele respondeu, sem perturbar-se.:

Meus amigos, lembrai-vos sempre de que existe um Ser supremo; eu vo-lo provei, e concordastes comigo, e, após ter sido forçados a confessar que ele existe, vós vos esforçastes por lhe achar imperfeições, vícios e maldades.

Longe estou de vos afiançar, como certos arrazoadores, que os males particulares formam o bem geral. Essa extravagância é demasiado ridícula. Convenho com pesar em que existe muito mal moral e mal físico; mas, já que a existência de Deus é certa, também é certo que esses males todos não podem impedir que Deus exista. Ele não pode ser mau; pois que interesse teria em sê-lo? Há males terríveis, meus amigos: pois bem! não lhes aumentemos o número. É impossível que Deus não seja bom; mas os homens são perversos; fazem um detestável uso da liberdade que esse Grande Ser lhes deu e lhes deve ter dado, isto é, o poder de executarem suas próprias vontades, sem o que não passariam de puras máquinas formadas por um ser mau, para serem por ele quebradas.

Todos os espanhóis esclarecidos concordam em que um pequeno número de seus antepassados abusou dessa liberdade até a prática de crimes que fazem fremir a natureza. Dom Carlos, segundo do nome (de quem possa o senhor arquiduque ser sucessor!) reparou o quanto pôde as atrocidades a que se entregaram os espanhóis sob Fernando e sob Carlos Quinto.

Meus amigos, se existe o crime na face da terra, aqui também existe a virtude.

Birton: — Ah! ah! ah! a virtude! Engraçado, isto. Por Deus! Eu bem queria saber que cara tem a virtude, e onde encontrá-la.

A estas palavras, não me contive e interrompi por minha vez a Birton: — “Vós a encontrareis no sr. Freind, no bom Paruba, em vós mesmo, quando tiverdes limpado o coração dos vícios que os recobrem.” Ele corou, Jenni também; depois Jenni baixou os olhos, e pareceu sentir remorsos. O pai olhou-o com alguma compaixão e prosseguiu nos seguintes termos:

Sim, meus caros amigos, se houve crimes, sempre houve virtudes. Atenas, Se viu Anitos, viu também Sócrates; Roma, se teve Silas, também teve Catões; Calígula, Nero, horrorizaram o mundo com as suas atrocidades; mas Tito, Trajano Antonino Pio, Marco Aurélio consolaram-no com a sua beneficência: o meu Sherloc dirá em poucas palavras ao bom Paruba quem eram esses a que me refiro. Tenho felizmente o meu Epicteto aqui no bolso: esse Epicteto não passava de um escravo, mas, pelos seus sentimentos, era igual a Marco Aurélio. Escutai, e possam todos aqueles que se arvoram em doutrinadores escutar o que Epicteto diz a si mesmo: Foi Deus quem me criou, eu o trago em mim; ousaria desonrá-lo com pensamentos infames, com ações criminosas, com desejos indignos? A sua vida foi conforme as suas palavras. Marco Aurélio, no trono da Europa e de duas outras partes de nosso hemisfério, não pensou diversamente de Epicteto; jamais se humilhou este da sua baixeza, jamais se deslumbrou da sua grandeza; e, quando escreveram seus pensamentos, fizeram-no para si mesmos e para seus discípulos, e não para serem louvados nos jornais. E, na vossa opinião, Locke, Newton, Tillotson, Penn, Clarke, aquele a que chamam the man of Ross, e tantos outros da nossa ilha e fora da nossa ilha, que eu vos poderia citar, não foram modelos de virtude? Falastes das guerras tão cruéis quão injustas de que tantas nações se tornaram culpadas, descrevestes as abominações dos cristãos no México e no Peru, podeis acrescentar a isso a noite de S. Bartolomeu na França e os morticínios da Irlanda; mas não há povos inteiros que sempre tiveram horror ao derramamento de sangue? Os brâmanes não deram sempre tal exemplo ao mundo? E, sem sair do país onde nos achamos, não temos aqui perto a Pensilvânia, onde os nossos primitivos, que desfiguram em vão com o nome de quakers, sempre detestaram a guerra? Não temos a Carolina, onde o grande Locke ditou as suas leis? Nessas duas pátrias da virtude, todos os cidadãos são iguais, todas as consciências são livres, todas as religiões são boas, desde que se adore a um Deus; todos os homens são ali irmãos. Vistes como, à simples menção de um descendente de Penn, os habitantes das montanhas azuis, que podiam exterminar-vos, logo largaram as armas. Eles sentiram o que é a virtude, e vós vos obstinais em ignorá-lo! Se a terra tanto produz venenos como alimentos salutares, ides acaso alimentar-vos unicamente de veneno?

Birton: — Ah! senhor, para que tantos venenos? Se Deus tudo fez, os venenos são obra sua; ele é o senhor de tudo; ele faz tudo; ele dirige a mão de Cromwell que assina a morte de Carlos I; ele conduz o braço do carrasco que lhe corta a cabeça; não, não posso admitir um Deus homicida.

Freind: — Nem eu tampouco. Escutai, peço-vos; haveis de convir comigo em que Deus governa o mundo por meio de leis gerais. Segundo essas leis, Cromwell, monstro de fanatismo e de hipocrisia, decidiu a morte de Carlos I, por seu interesse, que todos os homens necessariamente amam e que nem todos interpretam do mesmo modo. Segundo as leis do movimento estabelecidas pelo próprio Deus, o carrasco cortou a cabeça desse rei. Mas sem dúvida Deus não assassinou Carlos I por um ato particular da sua vontade. Deus não foi nem Cromwell, nem Jeffrys, nem Ravaillac, nem Balthazar Gérard, nem o irmão pregador Jacques Clément. Deus não comete, nem ordena, nem permite o crime; mas fez o homem, e fez as leis do movimento; essas leis eternas do movimento são igualmente executadas pela mão do homem caridoso que socorre o pobre e pela mão do celerado que degola seu irmão. Da mesma forma que Deus não extingue o sol e não afunda a Espanha no mar, para punir Cortez, Almagro e Pizarro, que inundaram de sangue humano a metade de um hemisfério, assim também não envia um bando de anjos a Londres, nem faz baixarem do céu cem mil tonéis de vinho de Borgonha, para causar prazer a seus queridos ingleses quando estes praticam uma boa ação. Sua providência geral seria ridícula se baixasse em cada momento a cada indivíduo; e tão palpável é essa verdade que Deus puniu imediatamente a um criminoso, com um golpe teatral da sua onipotência: deixa brilhar o seu sol sobre os bons e sobre os maus. Se alguns celerados morrem imediatamente após seus crimes, aconteceu-lhes isso por obra das leis gerais que presidem o mundo. Li no grande livro de um frenchman chamado Méseray que Deus fizera morrer o nosso grande Henrique V de uma fístula no ânus porque ele ousara sentar-se no trono do rei cristianíssimo; não, ele morreu por que as leis gerais emanadas da onipotência tinham de tal modo arranjado a matéria que a fístula no ânus acabaria com a vida daquele herói Todo o mal físico de uma ação má é efeito das leis gerais impostas pela mão de Deus à matéria; todo o mal moral da ação criminosa é efeito da liberdade de que o homem abusa.

Enfim, sem nos perdermos no nevoeiro da metafísica, lembremo-nos que está demonstrada a existência de Deus; não há que discutir quanto à sua existência. Tirai Deus ao mundo, e acaso se tornará mais legítimo o assassínio de Carlos I? Mais caro vos será o seu carrasco? Deus existe, é justo. Sede pois justos.

Birton: — E vós, sr. Freind, que falais tão bem, não lestes o livro intitulado O Bom-Senso?

Freind: — Sim, eu o li, e não sou daqueles que condenam tudo em seus adversários. Há nesse livro verdades bem expostas, mas prejudicadas por um grande defeito. O autor quer continuamente destruir o Deus de Scot, de Albert, de Boaventura, o Deus dos ridículos escolásticos e dos monges. Notai que não ousa dizer uma palavra contra o Deus de Sócrates, de Platão, de Epicteto, de Marco Aurélio, contra o Deus de Newton e de Locke, contra o meu Deus, ouso dizê-lo. Perde o tempo a deblaterar contra superstições absurdas e abomináveis cujo ridículo e horror todas as pessoas sensatas hoje reconhecem. É como se se escrevesse contra a natureza porque os turbilhões de Descartes a desfiguraram; é como se se dissesse que o bom gosto não existe porque a maioria dos autores não tem gosto nenhum. Aquele que escreveu o livro do Bom-Senso julga haver atacado a Deus, e com isso demonstra absoluta falta de bom-senso: só escreveu contra certos padres antigos e modernos. Julga haver aniquilado o senhor por ter repetido que ele foi muitas vezes servido por velhacos.

Birton: — Escutai, nós poderíamos aproximar-nos. Eu poderia respeitar o senhor se me entregásseis os servos. Amo a verdade; mostrai-ma, e eu a seguirei.