Capítulo 7
O que aconteceu na América
Deparou-se-nos à direita, no litoral, uma habitação muito bem edificada. Era uma casa baixa, cômoda e limpa, entre uma granja espaçosa e um vasto estábulo, tudo cercado de um parque onde vicejavam todos os frutos da região. A propriedade pertencia a um velho que nos convidou a desembarcar, para visitá-la. Não tinha aspecto de inglês, e vimos logo, pelo sotaque, que se tratava de um estrangeiro. Deitamos âncora; descemos; o bom do homem recebeu-nos cordialmente, e ofereceu-nos a melhor refeição que se possa fazer no novo mundo.
Discretamente lhe insinuamos nosso desejo de saber a quem devíamos a bondade de tal recepção.
— Sou – disse ele – um desses a quem chamais selvagens. Nasci numa das montanha. azuis que bordam esta região, e que daqui avistais no ocidente. Quando menino, fui mordido por uma cascavel, numa dessas montanhas; estava abandonado, ia morrer. Mas o pai do lorde Baltimore de hoje, encontrando-me, entregou-me aos cuidados de seu médico, e a ele devi a minha salvação. Em breve retribui o que lhe devia; pois lhe salvei a vida durante um combate com uma horda vizinha. Como recompensa, deu-me ele esta casa, onde vivo feliz.
Perguntou-lhe o senhor Freind se ele não era da mesma religião de Lorde Baltimore.
— Eu? – disse ele. – Eu sou da minha. Porque há de querer o senhor que eu seja da religião de um outro homem?
Essa curta e enérgica resposta nos fez refletir um pouco.
— Tendes então – lhe disse eu – o vosso Deus e a vossa lei?
— Sim – respondeu-nos, com uma segurança que nada tinha de altivez. – Lá está o meu Deus (e apontou para o céu) e aqui a minha lei (e pôs a mão no coração).
Disse-me o sr. Freind, cheio de admiração:
— Essa pura natureza sabe mais sobre o assunto do que todos os bacharéis que discutiram conosco em Barcelona.
Estava ansioso por saber, se possível, alguma notícia certa acerca de seu filho Jenni. Era um peso que o oprimia. Perguntou se não tinham ouvido falar daquele bando de jovens que tanto estardalhaço fizera pelas redondezas.
— Como? Se me falaram neles?! – exclamou o velho.
— Mas eu próprio os vi, hospedei-os em casa, e ficaram tão satisfeitos com a minha recepção, que partiram com uma de minhas filhas.
Imaginai qual não foi o choque e o terror de meu amigo, ao ouvir tais palavras. Não pode deixar de exclamar, no primeiro impulso:
Como! Então foi raptada por meu filho?!
Bom inglês – retrucou o velho, – não te incomodes; estimo muito que aquele que partiu de minha casa com minha filha seja teu filho; pois é belo, bem proporcionado e parece corajoso. Não, ele não raptou a minha querida Paruba; pois deves saber que Paruba é o seu nome, porque Paruba é o meu. Se ele houvesse raptado a minha Paruba, seria um roubo; e os meus cinco filhos machos, que estão a caçar pela vizinhança, a quarenta ou cinqüenta milhas daqui, não teriam suportado essa afronta. É um grande pecado roubar o bem alheio. A minha filha foi por sua própria vontade com esses jovens; quis visitar o país; é uma pequena satisfação que não se deve recusar a uma criatura da sua idade. Esses viajantes ma devolverão em menos de um mês, tenho certeza, pois assim me prometeram.
Tais palavras me teriam feito rir, se a dor em que eu via absorto o meu amigo também não me houvesse penetrado a alma.
À noite, quando estávamos prestes a partir, aproveitando o vento, chega um dos filhos de Paruba, sem fôlego, com a palidez, o horror e o desespero estampado no rosto.
— Que tens, meu filho? De onde vens? Eu te supunha na caça. Que te aconteceu? Foste fendo por algum animal selvagem?
Não, meu pai, não fui ferido, mas estou morrendo. Mas de onde vens, mais uma vez te pergunto, meu caro filho?
— Venho de quarenta milhas de distância, mas estou morto.
O pai, trêmulo, obriga-o a descansar. Dão-lhe estimulantes; apressuramo-nos em torno dele, os seus irmãozinhos, as suas irmãzinhas, o sr. Freind, eu e nossos criados. Depois que se refez, lançou-se ao pescoço do bom velho Paruba.
— Ah! – disse ele soluçando. – A minha irmã Paruba é prisioneira de guerra, e provavelmente vai ser devorada.
A estas palavras, o velho Paruba caiu por terra. O senhor Freind, que também era pai, sentiu um aperto nas entranhas. Afinal Paruba filho nos relatou que um bando de jovens ingleses muito estouvados atacara por passatempo os habitantes da montanha azul.
— Levavam consigo – disse ele – uma bela mulher e sua criada; e não sei como é que minha irmã se encontrava em tal companhia. A bela inglesa foi morta e comida; minha irmã foi feita prisioneira e será igualmente devorada. Venho aqui procurar auxílio contra os habitantes da montanha azul; quero matá-los, comê-los por minha vez, tomar-lhes minha irmã, ou morrer.
Foi então a vez do senhor Freind desmaiar; mas o hábito de dominar-se sustentou-o.
Deus me deu um filho – disse-me ele. – Retomará o filho e o pai, quando for chegado o momento de executar seus eternos desígnios. Meu amigo, sou tentado a crer que Deus age às vezes por meio de uma providência particular, submetida às suas leis gerais, visto que pune na América os crimes cometidos na Europa e que a celerada Clive-Hart morreu como devia. Talvez o soberano fabricador de tantos mundos haja arranjado as coisas de modo que os grandes males cometidos em um globo sejam algumas vezes expiados nesse mesmo globo. Não ouso acreditá-lo, mas desejo-o; e assim acreditaria, se essa idéia não fosse contrária a todas as regras da boa metafísica.
Após reflexões tão tristes sobre tão fatais aventuras, muito comuns na América, Freind tomou incontinenti o seu partido, como costumava.
— Tenho – disse ele a seu hospedeiro – um bom navio, bem aprovisionado; remontemos o golfo com a maré, o mais perto possível das montanhas azuis. Meu mais urgente empenho é agora salvar a vossa filha. Vamos ter com os vossos antigos compatriotas; direis a eles que lhes venho trazer o cachimbo da paz e que sou neto de Penn: este nome bastará.
A esse nome de Penn, tão venerado em toda a América boreal, o bom Paruba e seu filho sentiram-se tomados do mais profundo respeito e da mais grata esperança. Embarcamos, velejamos e, em trinta e seis horas, já estávamos desembarcando nas proximidades de Baltimore.
Apenas nos achávamos à vista dessa praça, então quase deserta, quando divisamos de longe um numeroso bando de habitantes das montanhas azuis, que desciam para a planície com maças, machados e esses mosquetões que os europeus tão tolamente lhes haviam vendido para conseguir peles. Já se ouviam terríveis gritos. De outro lado, avançavam quatro cavaleiros, seguidos de alguns homens a pé. Essa pequena tropa nos tomou por gente de Baltimore que lhes fosse dar combate: Os cavaleiros correm para nós a toda brida, com o sabre em punho. Nossos companheiros preparavam-se para os receber. O senhor Freind, depois de olhar fixamente os cavaleiros, estremeceu um instante; mas, retomando logo o sangue-frio, disse-nos com voz comovida:
— Não se movam, meu amigos; deixem-me agir sozinho. Avança com efeito sozinho, sem armas, a passo lento, ao encontro da tropa. Vemos, num ápice, o chefe abandonar as rédeas de seu cavalo, lançar-se por terra, e tombar prosternado. Lançamos um grito de espanto; aproximamo-nos: era o próprio Jenni que banhava de lágrimas os pés do pai, o qual o enlaçava com suas mãos trêmulas. Nenhum dos dois podia falar. Birton e os dois jovens cavaleiros que o acompanhavam apearam do cavalo. Mas Birton, conservando o seu caráter, disse-lhe:
— Oh! meu caro Freind, eu não te esperava por aqui. Fomos feitos para as aventuras. Francamente, muito prazer em ver-te.
Freind, sem se dignar responder-lhe, voltou-se para o exército das montanhas azuis, que avançava. E encaminhou-se na sua direção apenas com Paruba, que servia de intérprete.
— Compatriotas – disse-lhes Paruba, – eis aqui o descendente de Penn, que vos traz o cachimbo da paz.
A estas palavras, respondeu o mais antigo do povo, erguendo as mãos e os olhos ao céu.
— Um filho de Penn! Que eu lhe beije os pés e as mãos, e as partes sagradas da geração. Possa ele fazer uma longa raça de Penn! Que os Penn vivam para sempre! O grande Penn é o nosso manitu, o nosso Deus. Foi quase o único europeu que não nos enganou, que não se apoderou de nossas terras à força. Comprou a região que lhe cedemos; pagou-a liberalmente; manteve a concórdia entre nós; trouxe remédios para as poucas doenças que nos comunicava o nosso contato com europeus; ensinou-nos artes que ignorávamos. Jamais fumamos contra ele nem contra seus filhos o cachimbo da guerra; para os Penn, só temos o cachimbo da adoração.
Tendo assim falado em nome de seu povo, correu com efeito a beijar as mãos e os pés do senhor Freind; mas absteve-se de chegar às partes sagradas quando lhe disseram que isso não era costume na Inglaterra e que cada terra tem as suas cerimônias.
Freind mandou trazer imediatamente de bordo umas três dúzias de presuntos, outros tantos pastelões e frangos recheados e duzentos garrafões de vinho de Pontac. Jenni e seus companheiros tomaram parte no festim; mas Jenni preferia achar-se a cem pés abaixo da terra. O pai não lhe dizia palavra; e tal silêncio ainda mais lhe aumentava a vergonha.
Birton, a quem tudo era igual, mostrava uma estouvada alegria. Antes de começarem a comer, disse Freind ao bom Paruba: “Só nos falta aqui uma estimada criatura, a vossa filha.” Imediatamente o comandante das montanhas azuis a mandou buscar; não lhe tinham feito nenhum ultraje; ela abraçou o pai e o irmão como se voltasse de um passeio.
Aproveitei-me da liberdade do repasto para indagar porque motivo haviam os guerreiros das montanhas azuis matado o devorado a senhora Clive-Hart, e nada tinham feito à filha de Paruba.
— É porque somos justos – respondeu o comandante. – Essa orgulhosa inglesa era do bando que nos atacou, matou um dos nossos por trás, com um tiro de pistola. Nada fizemos a Paruba ao saber que era filha de um dos nossos antigos camaradas e que aqui só viera divertir-se; a cada qual pelo que faz.
Freind mostrou-se muito bem impressionado com essa máxima; mas observou que o costume de devorar mulheres era indigno de tão brava gente e que, com tantas virtudes, não deviam ser antropófagos.
O chefe das montanhas perguntou-nos então o que fazíamos com os nossos inimigos, depois de os matar.
— Nós os enterramos – respondi-lhe.
— Quer isto dizer – retrucou – que os dais de comer aos vermes. Nós queremos a primazia; nossos estômagos são uma sepultura mais honrosa.
Birton divertiu-se em sustentar a opinião das montanhas azuis. Disse que o costume de levar o próximo para a panela ou para o espeto era o mais antigo, e o mais natural, pois já o haviam encontrado assente em ambos os hemisférios; que estava por conseguinte provado tratar-se de uma idéia inata; que tinham saído à caça de homens antes de ir à caça de animais, pela razão de que era mais fácil matar um homem do que matar um lobo; que, se os judeus, nos seus livros por tanto tempo ignorados, imaginaram que um chamado Caim matou um chamado Abel, talvez fosse apenas para o comer; que esses próprios judeus confessam claramente haver-se alimentado várias vezes de carne humana; que, segundo os melhores historiadores, os judeus devoraram as carnes sangrentas dos romanos assassinados por eles no Egito, em Chipre, na Ásia, quando das suas revoltas contra os imperadores Trajano e Adriano.
Deixamo-lo dizer esses duros gracejos, cujo fundo podia infelizmente ser verdadeiro, mas que nada tinham do aticismo grego e da urbanidade romana.
O bom Freind, sem lhe responder, dirigiu a palavra aos nativos. Paruba interpretava-o frase a frase. Jamais o grave Tillotson falou com tanta energia. Jamais o insinuante Smalridge teve graças tão tocantes. O grande segredo está em demonstrar com eloqüência. Ele lhes demonstrou, pois, que esses festins, onde é servida a carne de nossos semelhantes, são repastos de abutres, e não de homens; que esse execrável costume inspira uma ferocidade destrutiva do gênero humano; que era a razão pela qual não conheciam eles nem as consolações da sociedade nem o cultivo da terra. Afinal juraram pelo seu grande Manitu que não mais comeriam nem homens nem mulheres.
Freind, em uma só conversação, tornou-se o seu legislador: era Orfeu que dominava os tigres. Os jesuítas, por mais que se atribuam milagres em suas Cartas curiosas e edificantes, que raramente são uma coisa ou outra, jamais igualarão a nosso amigo Freind.
Após haver cumulado de presentes os senhores das montanhas, trouxe a bordo, de volta para casa, o velho Paruba, bem como o jovem Paruba e sua irmã; os outros irmãos prosseguiram a caçada, para as bandas da Carolina. Jenni, Birton e seus camaradas também vinham a bordo, O sábio Freind persistia no método de não dirigir a mínima censura a seu filho quando este fazia alguma das suas. Deixava-o examinar-se e devorar seu próprio coração, como diz Pitágoras. No entanto, tomou três vezes a carta que lhe haviam mandado da Inglaterra e, enquanto a relia, olhava para o filho, que sempre baixava os olhos; e no rosto do jovem liam-se o respeito e o arrependimento.
Quanto a Birton, estava tão alegre e desenvolto como se voltasse do teatro: era um caráter mais ou menos ao gosto do falecido conde de Rochester, extremo no deboche, na bravura, nas idéias, nas expressões, na filosofia epicurista, sem nunca estar ligado a coisa alguma, senão às coisas extraordinárias, de que logo se aborrecia; com essa sorte de espírito que toma as verossimilhanças por demonstrações; mais sábio, mais eloqüente do que nenhum jovem da sua idade, mas sem nunca se dar ao trabalho de aprofundar coisa alguma.
Ao sr. Freind, escapou dizer-me, enquanto jantava conosco a bordo:
— Na verdade, meu amigo, espero que Deus há de inspirar melhores costumes a esses jovens, que o terrível exemplo da Clive-Hart os possa corrigir.
Tendo ouvido essas palavras, disse-lhe Birton, em tom um pouco desdenhoso:
— Fazia muito que eu não estava nada contente com essa malvada Clive-Hart: não me importo mais com ela do que com uma franga gorda que houvessem mandado para o espeto. Mas, falando sério, achais que exista, não sei onde, um ser continuamente ocupado em punir todas as más mulheres e todos os homens perversos que povoam e despovoam os quatro cantos do nosso pequeno mundo? Esqueceis que a nossa detestável Maria, filha de Henrique VIII, foi feliz até a morte? E no entanto fizera morrer, nas chamas, mais de oitocentos cidadãos e cidadãs, sob o pretexto de que não acreditavam nem na transubstanciação nem no papa. Seu pai, quase tão bárbaro quanto ela, e seu marido, mais profundamente mau, viveram nos prazeres. O papa Alexandre VI, mais criminoso do que eles todos, foi também o mais afortunado: todos os seus crimes lhe saíram bem, e ele morreu aos setenta e dois anos, poderoso, rico, cortejado por todos os reis. Onde está, pois, o Deus justo e vingador? Não, por Deus! não existe Deus.
O senhor Freind, com um ar austero, mas tranqüilo, retrucou-lhe:
— Quer-me parecer que não devíeis jurar pelo próprio Deus que esse mesmo Deus não existe. Atentai em que Newton e Locke jamais pronunciaram esse nome sagrado senão com um ar de recolhimento e adoração secreta que foi notado por todo o mundo.
— Pox! – exclamou Birton. – Pouco me importa a cara que dois homens tenham feito. Que cara teria Newton quando comentava o Apocalipse? E que careta fazia Locke quando narrava a conversação de um papagaio com o príncipe Maurício?
Então Freind pronunciou estas belas palavras de ouro, que se gravaram em meu coração: Esqueçamos os sonhos dos grandes homens, e lembremo-nos das verdades que eles nos ensinaram.
Essa resposta provocou uma disputa regular, mais interessante que a conversação com o bacharel de Salamanca. Meti-me a um canto e anotei tudo quanto se disse. O público cercou os dois contendores: o velho Paruba, o seu filho, e principalmente a sua filha, e os companheiros de Jenni, escutavam, com o pescoço estendido, os olhos fixos; e Jenni, de cabeça baixa, com os cotovelos sobre os joelhos, as mãos sobre os olhos, parecia mergulhado na mais profunda meditação. Eis a polêmica, palavra por palavra.