Capítulo 5
Pretende-se casar Jenni
Relembro ainda a dor e indignação que experimentara o venerável Freind ao saber que o seu querido Jenni se achava nas prisões do Santo Ofício, em Barcelona; pois podeis acreditar que foi tomado de transporte ainda mais violento, quando soube dos excessos daquele desgraçado filho, das suas orgias, das suas dissipações, da sua maneira de atender aos credores e do perigo, em que se achava,, de ir para a forca. Mas Freind conteve-se. É uma coisa espantosa o domínio que esse homem exerce sobre si mesmo. A razão governa-lhe o coração, como um bom amo ao criado. Faz tudo a propósito, e age prudentemente com a mesma celeridade com que atuam os imprudentes. “Não é ocasião – disse ele – para pregar sermões a Jenni; é preciso tirá-lo do precipício.”
Na véspera recebera o nosso amigo uma importante soma, da herança de George Hubert, seu tio. Vai ele próprio procurar o nosso grande cirurgião Cheselden. Felizmente o encontramos; vamos juntos à casa do credor ferido. O senhor Freind manda-lhe examinar o ferimento; não era mortal. Dá ao paciente os cem guinéus e mais cinqüenta à guisa de indenização; pede-lhe perdão por seu filho; exprime-lhe a sua dor com tanto sentimento e verdade que aquele pobre homem, que estava no leito, abraça-o chorando e quer devolver-lhe o dinheiro. Esse espetáculo espantava e comovia o jovem senhor Cheselden, que começa a adquirir grande reputação e cujo coração é tão bondoso como hábeis a sua mão e seu golpe de vista. Eu estava emocionado, fora de mim; nunca venerara e amara tanto a nosso amigo.
Perguntei-lhe, na volta, se não mandaria chamar o filho, para lhe exprobrar as faltas. “Não – disse ele, – quero que ele as reconheça antes que eu fale nelas. Vamos cear nós dois, veremos o que posso fazer de melhor. Os exemplos corrigem muito mais do que as censuras.”
Enquanto não chegava a hora da ceia, fui ter com Jenni; encontrei-o, como julgo se ache qualquer homem após o seu primeiro crime, pálido, com o olhar perdido, a voz rouca e entrecortada, o espírito perturbado, e dando respostas desconexas ao que lhe diziam. Contei-lhe afinal o que seu pai acabara de fazer. Ele permaneceu imóvel, olhou-me fixamente, e depois desviou a face um instante, para verter algumas lágrimas. Tirei bons augúrios desta cena; e tive grandes esperanças de que Jenni ainda viria a ser um homem às direitas Ia abraçá-lo, quando entrou a senhora Clive-Hart, em companhia de um dos estroinas seus amigos, chamado Birton.
— E então? – disse a dama a rir. – É verdade que mataste um homem hoje? Devia ser algum aborrecido; é bom livrar o mundo dessa espécie de gente. Quando te vier vontade de matar outro, peço-te que dês preferência a meu marido; pois ele me aborrece furiosamente.
Eu contemplava aquela mulher da cabeça aos pés. Era bela, mas pareceu-me ter qualquer coisa de sinistro na fisionomia. Jenni não ousava responder e baixava os olhos porque eu me achava presente.
— Que é que tens, meu amigo? – indagou Birton. – Até parece que praticaste algum mal; pois eu venho remir os teus pecados. Olha, eis aqui um livrinho que acabo de comprar no Lintot; ele prova, como dois e dois são quatro, que não há nem Deus, nem vício, nem virtude: isso é consolador. Vamos beber.
Ante essas estranhas palavras, retirei-me o mais depressa possível. Fiz ver discretamente ao senhor Freind o quanto necessitava o filho da sua presença e dos seus conselhos. “O mesmo penso eu – disse aquele bom pai, – mas comecemos por lhe pagar as dívidas.” Todas foram liquidadas na manhã seguinte. Jenni veio lançar-se a seus pés. Pois acreditais que o pai não lhe fez censura alguma? Abandonou-a à própria consciência, dizendo-lhe apenas: “Meu filho, lembra-te de que não há felicidade sem virtude.”
Em seguida fez casar Boca Bermeja com o bacharel de Catalunha, pelo qual tinha ela uma secreta inclinação, apesar das lágrimas que derramara por Jenni; pois tudo isso se combina maravilhosamente nas mulheres. Dizem que é nos seus corações que todas as contradições se reúnem. Sem dúvida é porque foram originariamente formadas de uma costela nossa.
O generoso Freind pagou o dote do casal; deixou bem colocados todos os seus novos conversos, graças à proteção de milorde Peterborou: pois não basta assegurar a salvação dos outros; é preciso fazê-los viver.
Tendo despachado todas essas boas ações com aquele ativo sangue-frio que sempre me espantava, concluiu que não havia outro partido para recolocar o filho no reto caminho, senão casá-lo com uma criatura de bom nascimento, que tivesse beleza, caráter, inteligência, e até um pouco de riqueza; pois era o único meio de afastar Jenni dessa detestável Clive-Hart e dos perdidos que ele freqüentava.
Tinha eu ouvido falar na senhora Primerose, jovem herdeira, criada por milady Hervey, sua parenta. Milorde Peterborou introduziu-me em casa de milady Hervey. Vi Miss Primerose e achei-a capaz de satisfazer a todos os desígnios de meu amigo Freind. Jenni, em meio à sua vida desregrada, dedicava profundo respeito e mesmo ternura ao pai. Agora, o que mais o sensibilizava é que o pai não lhe fazia nenhuma censura ao passado. Suas dívidas saldadas sem avisá-lo, sábios conselhos dados a propósito e sem reprimendas, mostras de amizade escapadas de tempos em tempos, sem nenhuma familiaridade que as pudesse aviltar, tudo isso penetrava Jenni, que nascera com sentimento e bastante inteligência. Todas as razões tinha eu para crer que a fúria de suas desordens acabaria cedendo aos encantos de Primerose e às admiráveis virtudes de meu amigo.
O próprio milorde Peterborou apresentou primeiro o pai e depois Jenni em casa de milady Hervey. Notei que a extrema beleza de Jenni causou logo uma impressão profunda no coração de Primerose; pois vi-a baixar os olhos, erguê-los e enrubescer. Jenni apenas se mostrou polido, e Primerose confessou a milady Hervey que desejaria muito que essa polidez fosse amor.
Pouco a pouco o nosso belo jovem foi descobrindo todo o mérito daquela incomparável moça, embora estivesse subjugado pela infame Clive-Hart. Achava-se como aquele indiano convidado por um anjo a colher um fruto celeste, e retido pelas garras de um dragão. Sufoca-me, neste instante, a lembrança do que vi. Minhas lágrimas molham o papel. Quando houver recobrado a calma, retomarei o fio de minha história.