História de Jenni ou o Ateu e o Sábio
ou o Sábio e o Ateu
por Mr. Sherloc Traduzida pelo senhor de La Caille
Voltaire
Apresentação
Nélson Jahr Garcia
A “História de Jenni” foi escrita por Voltaire nos seus últimos anos de vida. O mesmo escritor crítico, irônico e sarcástico tornou-se mais severo. Já havia sido criticado com veemência, por suas idéias e comentários desairosos ao clero, especialmente os jesuítas, aos nobres e reis. Foi preso e depois perseguido por toda a Europa, mesmo quando enaltecido pelo indiscutível valor de seus conceitos, não deixou de sofrer perseguições.
Nesta obra Voltaire debruça sua língua viperina sobre a “religião revelada” e os dogmas do catolicismo. Mas a carga maior de veneno recai sobre o ateísmo de D’Holbach. Veja-se com que peso desfere seu ataque a ateus e supersticiosos:
A crença num Deus remunerador das boas ações, punidor das más, perdoador das faltas leves, é pois a crença mais útil ao gênero humano; é o único freio dos poderosos, que cometem insolentemente os crimes públicos; é o único freio dos homens que cometem disfarçadamente os crimes secretos. Não vos digo, meus amigos, que junteis, a essa crença necessária, superstições que a desonrariam e que até poderiam torná-la funesta: o ateu é um monstro que só devorará para apaziguar a fome; o supersticioso é outro monstro que estraçalhará os homens por dever. Sempre notei que se pode curar um ateu, mas jamais se cura radicalmente a um supersticioso; o ateu é um homem de talento que se engana, mas que pensa por si mesmo; o supersticioso é um tolo brutal que jamais teve senão as idéias dos outros.
Voltaire, como em outros textos, revela uma aparente ambiguidade quando se refere aos judeus, mas apenas aparente. Se critica os judeus da História, pelos crimes e males cometidos; por outro lado os defende como seres humanos. Dois trechos são significativos:
— E mesmo que ele fosse judeu – respondeu o nosso amigo com o seu sangue-frio habitual, – fica-lhe bem, senhor Caracucarador, assar pessoas porque pertencem a uma raça que habitava outrora um pequeno cantão pedregoso próximo ao deserto da Síria? Que lhe importa que um homem tenha ou não tenha prepúcio e que comemore a páscoa na lua cheia de abril ou no domingo seguinte?
Desertos tão horrendos, tão inabitáveis, que esses animais ferozes chamados judeus se julgaram no paraíso terrestre quando passaram, daqueles lugares de horror, para um recanto de terra onde se podiam cultivar algumas jeiras.
Tema recorrente, em Voltaire, é o canibalismo que, em sua época ainda era prática encontradiça em diversas culturas. Se sempre se referiu ao costume de forma satírica, agora o faz com sarcasmo virulento:
Freind mostrou-se muito bem impressionado com essa máxima; mas observou que o costume de devorar mulheres era indigno de tão brava gente e que, com tantas virtudes, não deviam ser antropófagos.
O chefe das montanhas perguntou-nos então o que fazíamos com os nossos inimigos, depois de os matar.
—Nós os enterramos – respondi-lhe.
—Quer isto dizer – retrucou – que os dais de comer aos vermes. Nós queremos a primazia; nossos estômagos são uma sepultura mais honrosa.
O texto merece ser lido com especial carinho, contém uma síntese e soma das idéias filosóficas que Voltaire desenvolveu durante toda uma vida com extraordinário gênio e competência que, infelizmente, muitos dos que viveram seu tempo não foram capazes de compreender.