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Dicionário Filosófico

Voltaire · S

S

Salomão

Teria sido Salomão rico como se disse?

Afiançam os Paralipômenos que o “melk” Davi, seu pai, deixou-lhe cerca de vinte milhões de nossa moeda corrente, segundo o cálculo mais modesto. Não há tal soma de dinheiro corrente em toda a terra e é muito difícil que Daví tivesse podido amealhar tamanho tesouro no pequeno país da Palestina.

Salomão, segundo o terceiro livro dos Reis, tinha quarenta mil coudelarias para os cavalos de suas carruagens. Quando mesmo cada coudelaria não contivesse mais que dez cavalos, isso somaria apenas o número de quatrocentos mil que, juntos a seus doze mil cavalos de sela, teria feito quatrocentos e doze mil cavalos de batalha. É muito para um “melk” judeu que jamais praticou a guerra. Essa magnificência não tem exemplo num país que apenas produzia asnos e onde hoje não existe outra montaria. Mas parece que os tempos mudaram. É verdade que um príncipe tão sábio, que tinha mil mulheres, podia ter também quatrocentos e doze mil cavalos, quando mais não fosse para levá-las a passeio ou ao longo do lago de Genezaré ou de Sodoma, ou à torrente de Cedrão, que é um dos sítios mais deliciosos da terra, embora, na verdade, essa torrente esteja seca durante nove meses do ano e o terreno seja um tanto rochoso.

Mas teria esse sábio Salomão realmente escrito as obras que lhe atribuem? É verossímil, por exemplo, que seja o autor da égloga intitulada Cântico dos Cânticos?

Pode ser que um monarca que possuía mil mulheres dissesse a uma delas: “Que ela me beije com um beijo de sua boca, pois seus seios são melhores do que o vinho”. Um rei e um pastor, quando se trata de beijar na boca, podem se exprimir da mesma maneira. É verdade que é muito estranho haver-se pretendido que foi a moça quem assim falou elogiando os seios do amante.

Não negarei que um rei galante tenha podido fazer que sua amante dissesse: – “Meu bem amado é como um ramilhete de mirra, ele morará em meus seios”. Não entendo muito bem o que significa esse ramilhete de mirra; mas enfim, quando a bem amada diz ao bem amado que lhe passe a mão direita sobre o pescoço e a abrace com a direita, entendo muito bem.

Poder-se-ia pedir algumas informações ao autor do Cântico quando diz: “Vosso umbigo é como uma taça na qual há sempre algo que beber; vosso ventre é como um alqueire de trigo; vossos seios são como duas crias de cervo e vosso nariz é como a torre do monte Líbano”.

Confesso que as églogas de Virgílio são de outro estilo; mas cada um tem o seu, e um judeu não é obrigado a escrever como Virgílio.

É aparentemente um belo efeito de eloquência oriental dizer: “Nossa irmã é ainda pequena, ela não tem seios. Que faremos de nossa irmã? Se é um muro, construamos sobre ele; se é uma porta, fechemo-la”.

Belas coisas, belas anedotas para Salomão, o mais sábio dos homens... Era, dizem, seu epitálamo para o seu casamento com a filha do faraó; é porém natural que o genro do faraó deixe sua bem amada durante a noite para ir passear em seu jardim das nogueiras, que a rainha corra sozinha, descalça, atrás dele, que seja espancada pelos guardas da cidade e que estes lhe tirem a roupa?

Poderia a filha de um rei ter dito: “Eu sou morena, mas sou bela como as peliças de Salomão”? Tais expressões poder-se-iam atribuir a um pastor, porquanto ao cabo de contas não há grande relação entre peliças e a beleza de uma moça. Mas, enfim, as peliças de Salomão poderiam ter sido admiradas em seu tempo, e um judeu do povo, que fazia versos à amante, poderia ter dito, em seu linguajar judeu, que jamais rei algum tivera roupas de pele tão bonitas como as dela; quanto ao rei Salomão, deveria estar muito entusiasmado com suas peliças para compará-las à amante: se um rei de nossos dias compusesse um tal epitálamo para o seu casamento com a filha de um rei vizinho não passaria, com toda certeza, pelo melhor poeta de seu reino.

Vários rabinos sustiveram que não só essa pequena égloga voluptuosa não era do Salomão, mas que também não era autêntica. Teodoro de Mopsueste tinha idêntica opinião, e o célebre Grótio chama ao Cântico dos Cânticos obra libertina, flagitiosus; contudo ela está consagrada, e é considerada como uma perpétua alegoria dos esponsais de Jesus Cristo com sua igreja. É preciso não esquecer que a alegoria é um pouco forte, nem se sabe que poderia a igreja deduzir do ponto em que o autor diz que sua irmã não tem seios, e que, se é um muro, é preciso construir sobre ela.

O livro da Sabedoria tem um tom mais sério; porém não pertence mais a Salomão do que o Cântico dos Cânticos. Atribui-se comumente a Jesus, filho de Siraque, outros a Fílon de Biblos; mas, seja quem for o autor, parece que no seu tempo ainda não existia o Pentateuco, porque ele diz no capítulo 10 que Abraão quis imolar Isaque no tempo do dilúvio, e, por outro lado, fala do patriarca José como de um rei do Egito.

Os Provérbios foram atribuídos a Isaías, a Elzias, a Sobna, a Eliacin, a Joaquê e a vários outros. Mas, quem quer que seja que compilou essa coletânea, de sentenças orientais, não há o menor viso de verdade em que tenha sido um rei quem se deu a tal trabalho. Teria ele dito que “O terror do rei é como o rugido de um Leão?” É assim que fala um súdito ou um escravo, que a cólera do seu senhor faz tremer. Teria Salomão falado tanto da mulher impudica? Teria dito: “Não olheis o vinho quando se afigura claro e sua cor brilha através do copo”?

Ponho francamente em dúvida a existência de copos no tempo de Salomão: é uma invenção muito recente; toda a antigüidade bebia em taças de madeira ou de metal; e essa única passagem indica que essa obra foi elaborada por um judeu de Alexandria muito tempo depois de Alexandre.

Resta o Eclesiastes, que Grótio pretende ter sido escrito sob o reinado de Zorobabel. Sabe-se perfeitamente com que liberdade o autor do Eclesiastes se exprime; sabe-se que ele disse que: “Os homens nada têm mais do que as bestas; que mais vale nunca ter nascido, do que existir; que não existe nenhuma outra vida; que a única coisa boa em tudo isso é podermos diverti-nos com aquela a quem amamos”.

Pode ser que Salomão tenha feito tais discursos a algumas de suas mulheres; pretende-se tratar-se de objeções; porém essas máximas, de ar um tanto libertino, nem de leve se parecem a objeções, e entender num autor o contrário do que ele diz é zombar da humanidade.

Aliás, vários padres pretenderam que Salomão tenha feito penitência; assim, pode-se perdoá-lo.

Porém, que esses livros tenham ou não sido escritos por um judeu, que nos importa? Nossa religião cristã alicerceia-se sobre a judaica, mas não sobre todos os livros que os judeus escreveram. Por que será o Cântico dos Cânticos mais sagrado para nós do que as fábulas do Talmude? Porque, diz-se, nós o incluímos no cânon dos hebreus. E que é esse cânon? Uma coletânea de obras autênticas. Essa é boa! Uma obra, por ser autêntica, é divina? Uma história dos reis de Judá e de Siquêm, por exemplo, será algo mais que uma história? Eis um estranho preconceito. Nós abominamos os judeus, e queremos que tudo o que por eles foi escrito e por nós recolhido traga o sinete da Divindade. Jamais se viu contradição tão palpável.

Sensação

As ostras têm, diz-se, dois sentidos; as toupeiras, quatro; os outros animais, como os homens, cinco. Algumas pessoas admitem um sexto, mas é evidente que a sensação voluptuosa de que pretendem falar reduz-se ao sentimento do tato e que cinco sentidos constituem o nosso quinhão. É nos impossível imaginar ou desejar mais que isso.

Pode ser que em outros planetas existam sentidos de que não fazemos a mínima idéia; pode ser que o número de sentidos aumente de planeta em planeta e que o ser que tem sentidos inúmeros e perfeitos seja o termo de todos os seres.

Mas, nós outros com os nossos cinco órgãos, qual é o nosso poder? Sentimos sempre contra nossa vontade, e jamais por que o desejemos; é-nos impossível deixar de ter a sensação que a nossa natureza nos destina quando o objeto nos fere. O sentimento está em nós mas não depende de nós. Nós o recebemos; e como o recebemos? Sabe-se perfeitamente que não há nenhuma relação entre o ar agitado e as palavras que me cantam e a impressão que essas palavras gravam no meu cérebro.

Admiramo-nos do pensamento; mas o sentimento é igualmente maravilhoso. Um poder divino lampeja na sensação do último dos insetos como no cérebro de Newton. Contudo, que milhares de animais morram à vossa vista, não vos inquietareis pelo que possa vir a ser a sua faculdade de sentir, embora tal faculdade seja obra do Ser dos seres; vós os olhais como máquinas da natureza, nascidas para morrer e dar lugar a outras.

Como e por que a sua sensação deveria subsistir quando eles já não existem? Que necessidade teria o autor de tudo o que existe de conservar as propriedades cujo sujeito está destruído? Equivaleria a dizer que o poder da planta chamada sensitiva de retrair suas folhas subsiste mesmo quando a planta deixa de existir. Perguntareis sem dúvida como, se a sensação dos animais morre com eles, o pensamento do homem jamais perecerá. Não posso responder a essa questão, não sei o bastante para resolvê-la. Só o autor eterno da sensação e do pensamento sabe como a concede e como a conserva.

Toda a antigüidade afirmou que nada existe em nosso entendimento que não tenha passado por nossos sentidos. Descartes, nos seus romances, pretendia que tivéssemos idéias metafísicas antes de conhecer os seios de nossa ama; uma faculdade de teologia proscreveu esse dogma, não porque fosse um erro, mas porque era uma novidade; em seguida adotou esse erro, porque fora destruído por Locke, filósofo inglês, e era necessário que o inglês errasse. Enfim, depois de haver mudado tantas vezes de princípios, ela tornou a proscrever essa antiga verdade, que os sentidos são as portas do entendimento. Fez como esses governos sobrecarregados de dívidas que ora dão livre curso a certas cédulas e ora as interdizem; mas desde muito tempo que ninguém quer saber das cédulas dessa faculdade.

Todas as faculdades do mundo jamais impedirão os filósofos de ver que nós começamos por sentir e que nossa memória não é senão uma sensação contínua. Um homem que nascesse privado dos seus cinco sentidos seria privado de toda idéia, se pudesse viver. As noções metafísicas não nos chegam senão pelos sentidos: pois como medir um círculo ou um triângulo se não se viu ou tocou um círculo e um triângulo? Como conceber uma idéia mesmo imperfeita do infinito sem estabelecer limites? E como estabelecer limites sem os ter visto ou sentido?

A sensação envolve todas as nossas faculdades, disse um grande filósofo [66] .

Que concluir de tudo isso? Vós que ledes, que pensais, concluí.

Sonhos

Somnia, quae mentes ludunt volitantibus umbris, non delubra deum nec ab oethere nurnina mittunt, sed sibi quisque facit [67] .

Mas como, estando todos os sentidos mortos no sono, existe um sentido que vive? Como, nossos olhos não vendo mais, vossos ouvidos nada entendendo, vedes, contudo, e ouvis em vossos sonhos? O cão está na caça, em sonho; late, segue a presa. O poeta faz versos dormindo; o matemático vê figuras; o metafísico raciocina bem ou mal: temos exemplos contundentes.

Serão esses os únicos órgãos da máquina que funcionam? É a alma pura que, subtraída ao império dos sentidos, usufrui dos seus direitos em liberdade?

Se os órgãos, por si sós, produzem os sonhos à noite, por que não produzirão também, sós, as idéias de dia? Se a alma pura, tranqüila, no repouso dos sentidos, agindo por si própria é a causa única, o sujeito único de todas as idéias que tendes dormindo, por que serão essas idéias quase sempre irregulares, desarrazoadas, incoerentes? Como! É no momento em que essa alma está menos turbada que ela tem mais perturbações em todas as suas imaginações! Ela está livre e é louca! Se houvesse nascido com idéias metafísicas como o dizem tantos escritores que sonham de olhos abertos, suas idéias puras e luminosas do Ser, do infinito, de todos os primeiros princípios deveriam despertar em si com a maior energia quando o corpo está adormecido: nunca se seria bom filósofo senão em sonho.

Seja qual for o sistema que abraceis, sejam quais forem os esforços vãos que façais para provar a vós mesmos que a memória agita o vosso cérebro, que vosso cérebro agita vossa alma, é mister convirdes em que todas as vossas idéias vos acodem durante o sono, sem vós e apesar de vós: vossa vontade não intervêm aí. É portanto certo que podeis pensar sete ou oito horas seguidas sem ter a mínima vontade de pensar, sem mesmo estar seguro de que pensais. Ponderai isto tudo: procurai adivinhar o que vem a ser o complexo do animal.

Os sonhos foram sempre um grande objeto de superstição; nada mais natural. Um homem vivamente comovido pela doença de sua amante sonha que a vê morrer; ela morre no. dia seguinte: portanto, os deuses predisseram-lhe a sua morte.

Um general do exército sonha que vence uma batalha; ganha-a, com efeito: os deuses o advertiram de que seria vencedor.

Não se levam em consideração senão os sonhos que foram confirmados; esquecem-se os outros. Os sonhos participam grandemente da história antiga, tal como os oráculos.

Assim traduz a Vulgata o fim do versículo 26 do cap. 19 do Levítico: “Não observareis os sonhos”. Mas o termo sonho não existe no hebraico e seria muito estranho que se reprovasse a observação dos sonhos no próprio livro em que se diz que José se tornou o benfeitor do Egito e de sua família mediante a explicação de três sonhos.

A explicação dos sonhos era uma coisa tão comum que a gente não se limitava a essa prática: era preciso ainda adivinhar algumas vezes o que outro homem sonhara. Nabucodonosor, tendo olvidado um sonho que tivera, ordenou aos seus magos a sua adivinhação, e os ameaçou de morte caso não chegassem a bom fim; mas o judeu Daniel, que era da escola dos magos, salvou-lhes a vida adivinhando o sonho do rei, com a respectiva interpretação. Essa história e muitas outras poderiam servir para provar que a lei dos judeus não proibia a oneiromancia, isto é, a ciência dos sonhos.

Superstição

(Capítulo extraído de Cícero, Sêneca e Plutarco)

Quase tudo o que vai além da adoração de um Ser Supremo e da submissão do coração às suas ordens eternas é superstição. O perdão aos crimes acompanhado de certas cerimônias é uma das mais perigosas.

Et nigras mactant pecudes, et manibu divis inferias mittunt [68] . Ah! nimium faciles qui tristia crimina coedis fluminea tolli posse putatis aqua! [69] .

Pensais que Deus olvidará vosso homicídio se vos banhardes num rio, se imolardes um cordeiro preto e se se pronunciarem sobre vós algumas palavras. Um segundo homicídio vos será pois perdoado ao mesmo preço, e assim um terceiro, e cem mortes não vos custarão mais do que cem cordeiros negros e cem abluções! Fazei melhor, miseráveis humanos: nada de mortes e nada de cordeiros negros.

Que infame idéia imaginar que um sacerdote de Isis e de Cíbele, tocando címbalos e castanholas, vos reconciliará com a Divindade! E quem é pois esse sacerdote de Cibele, esse eunuco errante que vive de vossas fraquezas, para se arvorar intermediário entre o Céu e vós outros? Que espécie de patentes recebeu ele de Deus? Recebe de vós algum dinheiro para balbuciar algumas palavras, e credes que o Ser dos seres ratificará as palavras desse charlatão?

Há superstições inocentes: dançais nos dias de festa em honra de Diana ou de Pomona, ou de qualquer desses deuses secundários de que está repleto o vosso calendário: pois podeis continuar. A dança é muito agradável, é útil ao corpo, alegra a alma, não faz mal a ninguém; não acrediteis porém que Pomona e Virtuna se comovam por haverdes saltado em sua honra e que vos puniriam se o não houvésseis feito. Não existem outra Pomona nem outra Virtuna que a enxada e a pá do jardineiro. Não sejais tão imbecil a ponto de acreditar que vosso jardim se queimará por haverdes deixado de dançar a pírrica ou a cordácia.

Existe provavelmente uma superstição perdoável e mesmo reconfortante para a virtude: é a de colocar entre os deuses os grandes homens que foram benfeitores do gênero humano. Melhor sem dúvida seria olhá-los simplesmente como homens veneráveis e sobretudo procurar imitá-los. Venerai sem culto um Sólon, um Tales, um Pitágoras; não adoreis porém um Hércules por ter limpado as estrebarias de Augias e por ter-se deitado com cinqüenta mulheres numa noite.

Guardai-vos de instituir um culto para certos patifes que não têm outro mérito que a ignorância, a vivacidade e a sordidez; que fizeram um dever e uma gloria do ócio e da glotonaria: esses que quando muito foram completamente inúteis durante sua vida, merecerão por acaso a apoteose depois da morte?

Lembrai-vos de que os tempos mais supersticiosos foram sempre os dos crimes mais horríveis.