Crítica
Não pretendo falar dessa crítica de escoliastas, que se limita a substituir por outra pior uma frase de um escritor antigo que antes se entendia muito bem. Não me refiro às críticas de lei que, na medida das forças humanas, devassaram os mais recônditos escaninhos da história e da filosofia antigas. Viso às criticas que descambam para a sátira.
Um amador de letras lia certa vez Tasso comigo. Antolhou-se-lhe esta estância:
Chiama gli abitator dell’ombre eterne
il rauco suon della tartarea tromba.
Treman le spaziose atre caverne;
e l’aer cieco a quel rumor rimbomba:
nè sì stridendo mai dalle superne
regioni dei cielo il folgor piomba;
nè sì scossa giammai trema la terra,
Leu em seguida ao acaso várias estâncias dessa força e harmonia.
— Ora! – exclamou – então é isso o que o seu Boileau chama farfalhice? Então é assim que pretende rebaixar um grande homem que viveu cem anos antes dele para melhor entronar outro grande homem que viveu dezesseis séculos antes, e que teria ele próprio rendido justiça a Tasso?
Console-se. Vejamos as óperas de Quinault.
Logo à abertura do livro deparou-se-nos com que nos abespinharmos com a crítica. Dando com os olhos na tradução do admirável poema Armida, lemos:
Sidonie
La haine est affreuse et barbare,
l’amour contraint les cours dont il s’empare
à souffrir des maux rigoureux.
Si votre sort est en votre puissance,
faltes choix de l’indifférence:
elie assure un repos heureux.
Armide
Non, non, il ne m’est pas possible
de passer de mon trouble en un état paisible;
mon coeur ne se peut plus calmer;
Renaud m’offense trop, il n’est que trop aimable;
c’est pour moi désormais un choix indispensable
de le haïr ou de l’aimer.
Lemos de fio a pavio a peça Armida, na qual o gênio de Tasso recebe novos encantos das mãos de Quinault.
— Veja só, – observo a meu amigo – no entanto é este Quinault que Boileau sempre se esforçou por fazer ver como o mais reles escrevinhador. Chegou a meter na cabeça de Luís XIV que esse escritor gracioso, comovente, patético, elegante, outro mérito não tinha além do que tomava de empréstimo ao músico Lulli.
— Compreende-se. Boileau não invejava o músico, porém invejava o poeta. Que pensar de um homem que, para rimar um verso em aut, denigre ora Boursault, ora Hénault, ora Quinault, conforme esteja bem ou mal com esses senhores?
“Mas, para que não se arrefece a sua repugnância da injustiça, ponha a cabeça à janela, veja aquela bela fachada do Louvre, por que se imortalizou Perrault. Este homem de invulgar habilidade era irmão de um acadêmico sapientíssimo, com quem Boileau tivera uma disputa eis o quanto bastou para levar a tacha de arquiteto ignorante.”
Depois de breve sisma, prossegue meu amigo com um Suspiro:
— Assim é a natureza humana – Em suas Mémoires, acha o duque de Sully de inquinar de maus ministros o cardeal de Ossat e o secretário de estado Villeroi Tudo fez Louvois para deslustrar o grande Colbert.
— Não se agatanhavam pessoalmente – reparo. – Trata-se de uma estupidez restrita quase exclusivamente à literatura, à cavilação e à teologia.
“Tivemos um homem de mérito: Lamotte, que compôs estâncias belíssimas:
Quelque fois au feu qui la charme
résiste une jeune beauté,
et contre elle-même elle s’arme
d’une pénible fermeté.
Hélas! cette contrainte extrême
la prive du vice qu’elle aime,
pour fuir la honte qu’elle hait.
La sévérité n’est que faste,
et l’honneur de passer pour chaste
la résout à l’être en effet.
En vain ce sévère stoïque,
sous mille défauts abattu,
se vante d’une âme héroïque
toute vouée à la vertu:
ce n’est point la vertu qu’il aime;
mais son coeur, ivre de lui-même,
voudrait usurper les autels,
et par sa sagesse frivole
il ne veut que parer l’idole
qu’il offre an culte des mortels.
Les champs de Pharsale et d’Arbelle
ont vu triompher deux vainqueurs,
l’un et l’autre digne modèle
que se proposent les grands coeurs.
Mais le succès a fait leur gloire;
et, si te sceau de la victoire
n’eût consacré ces demi-dieux,
Alexandre, aux yeux du vulgaire,
n’aurasit été qu’un téméraire,
et César qu’un seditieux.
“Este autor” – continuo – “foi um sábio que por mais de uma vez emprestou o encanto dos versos à filosofia. Escrevesse sempre estâncias desse quilate e teria sido o maior dos poetas líricos. Sem embargo, foi justamente quando produzia desses primores que dele disse um contemporâneo:
Um certo pato, caça de galinheiro.
“Em outro lugar:
De seus versos a enfadonha – beleza.
“Em outro:
...Só vejo um senão: falta a essas odes descavalgar o verso a Quinault para atingir a perfeição.
“E, nesse ciscar de imperfeições, em tudo encontra secura e quebra de harmonia.
“Quer ver as odes que anos depois escreveu esse mesmo censor que julgava Lamotte de cátedra e o difamava como inimigo? Leia:
Cette influence souveraine
n’est pour lui qu’une ilustre chaîne
qui l’attache au bonheur d’autrui;
tous les brillants qui l’embellisent,
tons les talents qui l’ennoblissent,
sont en lui, mais non pas à lui.
Il n’est rien que te temps n’absorbe, ne dévore,
et les faits qu’on ignore
sont bien peu différents des faits non avenus.
La bonté qui brille en elle
de ses charmes les plus doux
est une image de celle
qu’elle voit briller en vous.
Et, par vous seule enrichie,
sa politesse, affranchie
des moindres obscurités
est la lueur réfléchie
de vos sublimes clartés.
Ils ont vu par la bonne foi
de leurs peuples troublés d’effroi
la crainte heureusement déçue,
et déracinée à jamais
la haine si souvent reçue
en survivance de la paix.
Dévoile à ma vue empressée
ces déités d’adoption,
synonymes de la pensée,
symboles de l’abstraction.
N’est ce pas une fortune,
quand d’une charge commune
deux moities portent le faix,
que la moindre le réclame,
et que du bonheur de l’âme
le corps seul fasse les frais?
— Não era preciso – convém meu judicioso amante das letras – dar coisas tão detestáveis para modelo àqueles a quem tão azedamente criticava. Antes deixasse em paz seu adversário com seu mérito e ficasse ele com o que tivesse. Mas, que quer você? O genus irritabile vatum é doença da mesma bilis que o atormentava outrora. O público perdoa essas tacanhezas às pessoas de talento porque não quer senão se divertir. Ele vê, numa alegoria intitulada Plutão, juizes condenados a ser esfolados e a sentar-se nos infernos em um banco coberto com as próprias peles em vez de flores de lis. Pouco importa ao leitor que os juizes o mereçam ou não, que tenha ou não razão o autor que os cita perante Plutão. Lê esses versos unicamente por prazer. Se lhe agradam, não quer mais. Se lhe desagradam, põe de lado a alegoria e não daria um passo para fazer confirmar ou cassar a sentença.
“As inimitáveis tragédias de Racine foram todas criticadas, e pessimamente: porque as criticaram rivais. Certo, os artistas são juizes de arte competentes, porém quase sempre lhes falta integridade.
“Excelente crítico seria o artista senhor de bom cabedal de ciência e de bom gosto, isento de prejuízos e inveja. O que é difícil encontrar.”