Convulsões
Dançou-se pelo ano de 1724 no cemitério de Saint-Médard. Deram-se no local um sem número de milagres, de que nos dá amostra uma canção da duquesa de Maine:
Um engraxate à real, do pé esquerdo aleijado, teve por graça especial ser do direito privado
Como é sabido, as convulsões miraculosas continuaram até que foi posto um guarda no cemitério.
Em nome do rei veda-se entrar doravante a Deus neste lugar.
Os jesuítas, como se sabe, já não podendo fazer de tais milagres desde que seu Xavier esgotara as graças da Companhia ressuscitando nove mortos contados a dedo, lembraram-se, para balançar o crédito dos jansenistas, de estampar uma imagem de Jesus Cristo vestido de jesuíta. Como ainda é sabido, escreveu um burlão do partido jansenista em baixo da estampa:
Que jesuítas manhosos! De medo que vos amássemos, estes monges engenhosos vos vestiram à sua imagem.
Os jansenistas, a fim de melhor provar que jamais Cristo poderia tomar o hábito de jesuíta, puseram Paris de pernas para o ar e carrearam o mundo para sua banda. O conselheiro parlamentar Carré de Montgerou apresentou ao rei um relatório in-4 de todos esses milagres, atestados por milhares de testemunhas. Foi metido, como de direito, sob grades, onde se tratou de restabelecer-lhe o cérebro pelo regime. Mas a verdade sobrepaira a todas as perseguições: os milagres se perpetuaram durante trinta anos a fio, sem solução de continuidade. Chamava-se sóror Rosa, sóror Iluminada, sóror Prometida, sóror Confita: açoitavam-nas até o sangue, e no dia seguinte estavam como se nada houvesse acontecido. Vergastavam-lhe o estômago bem encouraçado, bem estofado, sem sequer sentirem. Punham-nas ao fogo, o rosto emplastado de pomadas, e nada de queimar. Enfim, como todas as artes se aperfeiçoam, terminou-se por fincar-lhes espadas nas carnes e por crucificá-las. Chegou-se até a crucificar um teólogo famoso [24] , tudo para convencer o mundo do ridículo de certa bula, o que se poderia ter feito sem tanto custo. Nesse em meio jesuítas e jansenistas uniram-se contra o Espírito dos leis, e contra... e contra... e contra ...e contra... E temos o ousio, depois de tudo isso, de escarnicar dos lapões, dos samoiedas e dos negros!