Catecismo Chinês
(Ou diálogos de Cu Su, discípulo de Cong-fu-tseu, com o príncipe Cu, filho do rei de Lou, tributário do imperador çhinês Gnenvã, 417 anos antes da nossa era. Traduzido em latim pelo padre Fouquet ex-jesuíta. Encontra-se o manuscrito na biblioteca do Vaticano, número 42.759).
C.
Que devo entender quando me dizem que adore o céu (Chang ti)? C. S.
Não se trata do céu material que vemos, que não é outra coisa senão ar, composição de todas as emanações da terra. Imenso disparate seria adorar vapores. C.
Pois não me surpreenderia. Parece-me que os homens cometeram disparates ainda maiores. C. S.
De fato. Mas vós estais destinado a governar. Cumpre-vos ser sábio. C.
Há tantos povos que adoram o céu e os planetas! C. S.
Os planetas não passam de mundos como o nosso. Temos tanto motivo para adorar a areia e o barro da Lua, por exemplo, como a Lua para se pôr de joelhos diante da areia e do barro da Terra. C.
Que se quer dizer quando se fala: O céu e a terra, acenda ao céu, seja digno do céu? C. S.
Diz-se tremenda asneira. Não existe céu: cada planeta é circundado como que de uma casca chamada atmosfera, e gira no espaço em torno de seu sol. Cada sol é centro de porção de planetas que o acompanham espaço em fora. Não existe alto nem baixo, subida nem descida. Compreendeis que se habitantes da Lua dissessem que se sobe para a Terra, que era preciso tornar-se digno da Terra, diriam um absurdo. Da mesma forma proferimos uma frase sem nexo quando dizemos ser necessário fazer-se digno do céu. É como se disséssemos: é preciso tornar-se digno do ar, digno da constelação do Dragão, digno do espaço. C.
Creio compreender. Devemos adorar somente o Deus que criou o céu e a terra. C. S.
Isso! Só Deus merece ser adorado. Mas quando dizemos que Deus fez o céu e a terra, piamente proferimos uma grande ingenuidade. Porque, se por céu entendemos o espaço portentoso em que Deus acendeu tantos sóis e fez girar tantos mundos, é mais ridículo dizer o céu o a terra do que dizer as montanhas e um grão de areia. Infinitamente menor que um grão de areia é o nosso globo perto desses quintilhões de mundos, em meio aos quais desaparecemos. Tudo o que podemos fazer é juntar nossa débil voz ao coro dos seres incontáveis que no abismo da amplidão rendem homenagem a Deus. C.
Então enganaram-nos quando nos disseram que Fo desceu do quarto céu e se nos apresentou sob a forma de um elefante branco? C. S.
Isso são histórias que os bonzos contam às crianças e aos velhos. Não devemos adorar senão o autor eterno de todos os seres. C.
Mas como pôde um ser fazer os outros? C. S.
Olhai aquela estrela – Acha-se a um trilhão e quinhentos bilhões de lis [12] do nosso minúsculo globo. Dela projetam-se raios que vêm formar em nossos olhos dois ângulos iguais pelo vértice. Os mesmos ângulos formam nos olhos de todos os animais. Não vedes nisso um desígnio evidente? Não vedes nisso uma lei admirável? Ora, quem faz uma obra senão um obreiro? Quem elabora leis senão um legislador? Existe pois um obreiro, um legislador eterno. C.
Mas quem fez esse obreiro? Como é ele? C. S.
Meu príncipe, passeando ontem pelos arredores do palácio mandado construir pelo rei vosso pai, ouvi dois grilos conversando, um dos quais dizia: – Que palácio formidável! – Sim, – disse o outro – com toda a minha presunção confesso que deve ser alguém mais poderoso que os grilos o autor de tal prodígio. Mas nem imagino quem seja. Vejo que há de existir, mas não sei quem é. C.
Confesso serdes um grilo mais entendido que eu. O que me agrada em vós é não pretenderdes saber o que ignorais. Segundo diálogo C. S.
Então convindes haja um ser todo poderoso, existente por si próprio, supremo artesão de toda a natureza? C.
Sim. Mas se existe por si mesmo nada pode demarcá-lo, está em toda parte. Acha-se então em toda a matéria, em todas as partes de mim mesmo? C. S.
Por que não? C.
Nesse caso eu próprio seria parte da divindade. C. S.
Não me parece certa a conclusão. Este caco de vidro é de todos os lados penetrado pela luz. Entanto será ele luz? Não; é simplesmente areia. Tudo está em Deus, não resta dúvida: o que tudo anima em tudo deve estar. Deus não é como o imperador da China, que mora em um palácio e transmite suas ordens por calao. Desde que exista, necessário é que sua existência encha todo o espaço e todas as suas obras. E já que está em vós é uma advertência contínua para que nada façais que vos possa envergonhar em sua presença. C.
Que fazer para ousar olhar-se a si mesmo sem repugnância e sem pejo diante do ser supremo? C. S.
Ser justo. C.
Que mais? C. S.
Ser justo. C.
Mas diz a seita de Lao Quium não existir justiça nem injustiça, vício nem virtude. C. S.
Diz a seita de Lao Quium não existir saúde nem doença? C.
Não, ela não diria tamanho absurdo. C. S.
Absurdo tão grande e mais funesto é pensar não existir saúde nem moléstia da alma, virtude nem vício. Os que disseram ser tudo a mesma coisa são monstros. Será a mesma coisa criar o filho ou esmagá-lo em cima de uma pedra? Assistir à mãe ou cravar-lhe um punhal no coração? C.
Fazeis-me estremecer. Eu execro a seita de Lao Quium. Mas são tantos os matizes do justo e do injusto! As vezes fica-se perplexo. Quem saberá precisamente o que é permitido e o que não o é? Quem será capaz de estabelecer seguramente as fronteiras que separam o bem do mal? Que norma me dais para discerni-los? C. S.
As normas de Cong-fu-tseu, meu mestre: “Vive como ao morrer desejarias ter vivido. Trata o próximo como queres que ele te trate”. C.
Confesso que tais máximas devem ser o código do gênero humano. Mas que me importará ao morrer ter bem vivido? Que ganharei com isso? Acaso, ao se quebrar, se sentirá feliz aquele relógio por haver bem soado as horas? C. S.
Aquele relógio não sente, não pensa Não pode ter remorsos, ao passo que vós os tendes quando vos sentis culpado. C.
E se, após cometer muitos crimes, vier a não mais os sentir? C. S.
Nesse caso seria preciso reprimir-vos. E ficai certo que entre os homens que não gostam de ser oprimidos alguém haveria que vos tolheria as mãos. C.
Quer dizer que Deus, que está neles, consentiria que fossem maus depois de tê-lo permitido a mim? C. S.
Deus vos galardoou com a razão: que dela não abuseis nem vós nem eles. Não somente seríeis infeliz nesta vida, como ainda quem vos disse não o seríeis em outra? C.
Quem vos disse existir outra vida? C. S.
Na dúvida, procedei como se existisse. C.
Se eu tivesse certeza de que não existe? C. S.
Desafio-vos. Terceiro diálogo C.
Mas para poder ser punido ou recompensado quando deixar de existir, forçoso é que subsista em mim algo que sinta e que pense. Ora, se antes de nascer nada de mim havia que sentisse ou pensasse, como haverá depois que morrer? Que poderia ser essa parte inconceptível de mim mesmo? Subsistirá o zumbido daquela abelha à sua morte? Subsistirá a vegetação desta planta a seu desarraigamento? Vegetação não é uma palavra de que nos servimos para exprimir a maneira inexplicável como quis o Ser Supremo que a planta absorvesse os sucos da terra? Tal e qual, alma é uma palavra inventada para exprimir pobremente e obscuramente os princípios essenciais da vida humana. Todos os animais se movem. A esse poder de mover-se chamamos força ativa. Mas não existe um ser distinto – força ativa. Temos paixões, memória, razão. Porém razão, memória, paixões não são, é claro, coisas a parte. Não são seres em nós existentes. Não são indivíduos de existência própria: são termos genéricos por nós inventados para expressarmos nossas idéias. Alma – memória, razão, paixões – não passa pois de uma palavra. Quem anima a natureza de movimento? Deus. Quem faz vegetar as plantas? Deus. Quem dá vida aos animais? Deus. Quem gera o pensamento humano? Deus.
Se a alma humana fosse um anãozinho que habitasse o nosso corpo, governando-nos os movimentos e as idéias, não denotaria isso impotência e artifício indignos do eterno artesão do mundo? Não seria ele capaz de fazer átomos por si próprios dotados de movimento e pensamento? Ensinastes-me grego, fizestes-me ler Homero. Reputo Vulcano um ferreiro divino quando faz trípodas de ouro que se apresentam sozinhas perante o conselho dos deuses. Vil charlatão parecer-me-ia porém se houvesse escondido no corpo das trípodas um moleque que, sem que ninguém percebesse, as fizesse mover-se.
Criaram frios sonhadores a fantasia de atribuir o movimento dos astros a gênios que incessantemente os impelissem espaço em fora. Mas Deus não poderia ver-se reduzido a tão mísero recurso. Em uma palavra, para que duas molas quando basta uma? Não ousareis negar tenha Deus o poder de animar o ente pouco conhecido a que chamamos matéria. Por que então haveria de recorrer a outro agente?
Mais: que seria essa alma que tão liberalmente dais ao nosso corpo? De onde veio? Quando? Seria preciso plantar-se tempo sem tempo o Criador do universo a coca da união de homem e mulher, observando atentamente o instante em que saísse um germe do corpo do homem e entrasse no corpo da mulher para então enviar-lhe às pressas uma alma? E se o germe morresse, que seria da alma? Teria sido criada inutilmente, ou esperaria outra oportunidade.
Estranha ocupação para o senhor do mundo. Tanto mais que não se veria abarbado apenas com as cópulas da espécie humana: precisaria ter olhos para a reprodução de todos os animais, porque todos os animais têm memória, idéias, paixões. E se para criar sentimentos, memória, idéias, paixões fosse necessária uma alma, cumpriria a Deus afanar-se incessantemente a forjar almas para elefantes, pulgas, mochos, peixes, bonzos.
Que idéia teríeis do arquiteto de tantos milhões de mundos apeado a fazer cavilhas invisíveis da manhã à noite a fim de perpetuar sua obra?
Aí tendes ínfima parte das razões que me fazem duvidar da existência da alma. C. S.
Raciocinais de boa fé. E vosso sincero parecer, errôneo embora, há de ser grato ao Ser Supremo. Podeis enganar-vos, mas não o procurais. Sois, pois, desculpável. Mas vede que não me propusestes senão dúvidas, e dúvidas tristes. Admiti verossimilhanças mais consoladoras. É duro ser aniquilado; esperai viver. Sabeis que um pensamento não é matéria, nada tem que ver com a matéria: por que há de ser tão difícil crerdes que Deus vos haja inoculado um princípio divino que – indissolúvel – escape é morte? Ousareis dizer impossível terdes uma alma? Não, certamente. E sendo possível, não será muito provável? Enjeitareis um sistema tão belo e tão necessário ao gênero humano? Por somenos impedimentos? C.
Grato ser-me-ia abraçar tal sistema, de vez que me fosse provado. Não sou. senhor de ver o que não enxergo. Sempre me impressionou a idéia grandiosa de que Deus tudo criou, em tudo está, tudo penetra, a tudo inspira vida e movimento. E se, estando em toda a natureza, se acha em todas as partículas do meu ser, não vejo que necessidade tenho de uma alma. Para que um pequeno ente subalterno, quando sou animado do próprio Deus? De que me serviria essa alma? Nossas próprias idéias, não somos nós quem as elaboramos: acodem-nos não raro a despeito de nós mesmos; temo-las enquanto dormimos. Tudo em nós se opera sem a nossa intervenção. Por mais que a alma dissesse ao sangue e aos espíritos animais: Circulai, peço-vos, de tal ou tal maneira, eles circulariam eternamente e impassivelmente da forma que Deus lhes ditou. Prefiro ser máquina de um Deus que se me evidencia a sê-la de uma alma de cuja existência duvido. C. S.
Pois bem! Se vos anima o próprio Deus, nunca profaneis com crimes a sua presença. E se vos deu uma alma, que essa alma jamais o ofenda. Num sistema como noutro tendes vontade. Sois livre, dispondes do poder de fazer o que quiserdes; usai desse poder para servir a Deus que vo-lo outorgou. Bom é que sejais filósofo: necessário que sejais justo. Sê-lo-eis ainda mais quando crerdes possuir uma alma imortal.
Dignai-vos responder-me: não é verdade ser Deus a suma justiça? C.
Sem dúvida. E ainda que fosse possível deixar de sê-la (o que é uma blasfêmia) eu mesmo quereria proceder com eqüidade. C. S.
Quando estiverdes no trono, não é verdade ser vosso dever recompensar as ações virtuosas e punir as culposas? Quereríeis que Deus não fizesse o que vós mesmo fareis? Sabeis que há e sempre haverá nesta vida virtudes infelizes e crimes impunes. Necessário é pois que bem e mal encontrem seu julgamento em outra existência. Foi esta idéia tão simples, tão natural, tão geral que gerou em tantas nações a crença da imortalidade da alma e da justiça divina, que a julgará quando se despir do despojo mortal. Haverá sistema mais razoável, mais conforme à Divindade e mais útil ao gênero humano? C.
Por que então muitas nações não o abraçaram? Sabeis haver em nossa província coisa de duzentas famílias de antigos sinús [13] que habitaram outrora parte da Arábia Pétrea. Pois nem eles nem seus avitos jamais creram a alma imortal. Têm seus Cinco Livros, como nós temos nossos Cinco Quings [14] . Li-lhes a tradução; suas leis, necessariamente semelhantes às de todos os outros povos, ordenam-lhes respeitar os pais, não furtar, não mentir, não cometer o adultério nem o homicídio. Não lhes falam, porém, de recompensas e castigos em outra vida. C. S.
Se essa idéia ainda não se desenvolveu nesse pobre povo, desenvolver-se-á sem dúvida algum dia. Demais, que nos importa uma insignificante e miserável nação quando babilônios, egípcios, hindus, todos os povos civilizados admitiram esse dogma tão salutar? Se estivésseis doente, refugaríeis um remédio aprovado por todos os chineses só porque meia dúzia de bárbaros das montanhas não o tomariam? Deus concedeu-vos a razão, e diz-vos a razão que a alma deve ser imortal. É o próprio Deus que vo-lo diz, portanto. C.
Mas como poderei ser recompensado ou punido quando já não for eu mesmo, quando nada existir do que constitui a minha pessoa? Tão somente por força da memória é que sou sempre eu mesmo. Ora, a memória, perdê-la-ei na derradeira doença. Haverá então um milagre depois de minha morte que ma restitua, para que eu retorne à existência? C. S.
Nesse caso um príncipe que houvesse decapitado a família para reinar, tiranizado os súditos, eximir-se-ia de culpa dizendo a Deus: – Não fui eu, eu perdi a memória, vós vos equivocais, eu já não sou a mesma pessoa. – Julgais que Deus se daria por achado com semelhante sofisma? C.
Pois bem. Seja, rendo-me. Se praticaria o bem por mim próprio, fá-lo-ei igualmente para comprazer ao Ser Supremo. Eu pensava bastar minha alma ser justa nesta vida para ser feliz em outra. Vejo que tal opinião é boa para os povos e para os príncipes, mas o culto de Deus me preocupa. Quarto diálogo C. S.
Que achais de esquisito em nosso Chu Quing, esse primeiro livro canônico tão respeitado por todos os imperadores chineses? Para servir de exemplo ao povo trabalhais um campo com as próprias mãos reais e dele ofertais as primícias a Chang-ti, a Tien, ao Ser Supremo. A ele sacrificais quatro vezes ao ano. Sois rei e pontífice. Prometeis a Deus todo o bem que estiver em vosso poder. Não há nisso algo que repugne? C.
Sei que Deus não tem nenhuma necessidade de nossos sacrifícios e de nossas preces. Nós é que temos precisão de nos sacrificarmos e de orar. O culto de Deus não foi estabelecido por ele, mas por nós. Muito me apraz orar, e quero sobretudo que minhas orações não sejam ridículas. Porque se me ponho a gritar que “a montanha do Chang-ti é uma montanha gorda, é que não se deve olhar para as montanhas gordas,” [15] e faço fugir o Sol e apagar a Lua, seriam essas algarvias do agrado do Ser Supremo, úteis a meus súdito e a mim mesmo?
Não suporto principalmente a demência das seitas. De um lado vejo Lao Tseu concebido pela união do céu e da terra e cuja mãe o carregou no ventre durante oitenta anos. Não tenho mais fé em sua doutrina do aniquilamento e da renúncia universal que nos cabelos brancos com que nasceu ou na vaca preta que montou para ir pregar sua doutrina.
Não creio mais no deus Fo, ainda que tenha tido por pai um elefante branco e prometa a vida eterna.
Mais que tudo me desagrada serem tais fantasias continuamente pregadas pelos bonzos, que seduzem o povo para governá-lo. Fazem-se respeitáveis por mortificações que repugnam à natureza. Uns se privam toda a vida dos alimentos mais salutares, como se não se pudesse agradar a Deus senão com um mau regime. Outros põem argolas de ferro no pescoço, o que por vezes lhes dá um ar digníssimo. Enterram cravos nas coxas, como se fossem tábuas. E o povo segue-os em chusma. Se um rei decreta um édito que os desagrada, dizem-vos friamente que tal édito não se encontra no comentário do deus Fo, e que mais vale obedecer a Deus que aos homens. Como remediar tão extravagante e nociva doença popular? Sabeis ser a tolerância o princípio do governo da China como de todos os povos da Ásia. Não vos parece, porém, funesta semelhante indulgência, quando expõe um império a ser transtornado por opiniões fanáticas? C. S.
Que o Chang-ti me livre de querer desenvolver em vós o espírito de tolerância, virtude tão respeitável, que é para a alma o que é para o corpo a liberdade de saciar a fome. Permite a lei natural a cada um crer o que quiser, como se alimentar do que bem entender. O médico não pode matar os clientes por não terem observado a dieta prescrita. Não assiste ao príncipe o direito de mandar prender os súdito que não pensarem como ele. Mas cumpre-lhe prevenir perturbações, e se for sábio, facílimo lhe será extirpar as superstições. Sabeis o que se passou com Daão, sexto rei da Caldéia, há cerca de quatro mil anos? C.
Não. Dar-me-eis prazer contando-mo. C. S.
Os sacerdotes caldeus adoravam as solhas do Eufrates. Diziam que uma solha memorável – Oanés – ensinara-lhes outrora a teologia, que essa solha era imortal, tinha três pés de comprido e um pequeno crescente na cauda. Por amor de Oanés era proibido comer solhas. Levantou-se grande barulho entre os teólogos a fim de saber se a solha Oanés era macho ou fêmea Os dois partidos se excomungaram reciprocamente e por não poucas vezes chegou-se a vias de fato. Eis o que fez o rei Daão para pôr termo à referta.
Ordenou a ambas as facções um rigoroso jejum de três dias, findo o qual chamou à sua presença os partidários da solha fêmea, que assistiram a seu jantar. Mandou trazer uma solha de três pês de comprimento, em cuja cauda fizera desenhar um crescente.
— É este o vosso deus? – perguntou aos doutores.
— Sim, majestade. Tem o crescente na cauda e seguramente há de ter ovas.
Ordenou o rei que se abrisse a solha, que se evidenciou macho.
—.Estais vendo não ser o vosso deus, pois não tem ovas, – concluiu o rei. E comeu-a com seus sátrapas, com grande regozijo dos teólogos das ovas, que viam frito o deus dos adversários.
Em seguida mandou virem os doutores do outro partido. Mostrou-lhes um deus de três pés de longo, com um crescente na cauda e que tinha ovas. Afirmaram os doutores ser o deus Oanés, e que era macho. Como da primeira vez, o rei mandou fritá-lo e viu-se que era fêmea. Então, evidenciando-se ambos os partidos igualmente tolos, e como não tivessem almoçado, disse-lhes o bom rei Daão que não tinha senão solhas para dar-lhes de jantar. E os doutores comeram-nas gulosamente, fossem fêmeas ou machos. Terminou a guerra civil, todos bendisseram o rei e de então em diante toda gente fez servir à mesa quantas solhas lhe aprouvesse. C.
Muito simpatizo com o rei Daão. Prometo imitá-lo na primeira ocasião que se apresentar. Sem violências, hei de impedir o quanto possa que se adorem Fos e solhas.
Sei que existem em Pegú e Tonquim pequenos deuses e talapões que dizem fazer baixar a lua no minguante e predizer claramente o futuro, isto é, verdadeiramente o que não existe, porque o futuro não existe. No que de mim depender, vedarei aos talapões virem ao meu império inventar o futuro e arriar à lua.
Que humilhação haver seitas que vão de cidade em cidade a propagar seus mitos, como charlatães vendendo suas drogas! Que opróbrio para o espírito humano presumirem naçõezinhas insignificantes ser a verdade exclusividade sua, e que o vasto império da China chafurde no erro! Então não seria o Ser Supremo senão o deus da ilha Formosa ou de Bornéu? Abandonaria o resto do mundo ? Meu caro Cu Su, ele é o pai de todos os homens. A todos permite comer solhas. Ser virtuoso é a mais digna homenagem que se lhe possa render. Um coração puro é o mais sublime dos templos, como dizia o grande imperador Hiao. Quinto diálogo C. S.
De vez que amais a virtude, como a praticareis quando fordes rei?
Não sendo injusto nem para com meus vizinhos nem para com meu povo. C. S.
Não basta não fazer o mal. Devereis praticar o bem. Dareis o que comer aos pobres empregando-os em trabalhos úteis, e não presenteando-os com a ociosidade. Embelezareis as estradas reais, abrireis canais, construireis edifícios públicos, estimulareis as artes, premiareis o mérito em que quer que se manifeste, perdoareis as faltas involuntárias. C.
A isso chamo não ser injusto. Trata-se de deveres. C. S.
Pensais como verdadeiro rei. Mas há o rei e o homem, a vida pública e a vida privada. Logo vos casareis. Quantas esposas contais ter? C.
Tenho que uma dúzia será o suficiente. Mais poderia furtar-me ao trabalho. Não gosto desses reis que têm trezentas esposas e setecentas concubinas, e milhares de eunucos para servi-las. Essa mania de eunucos sobretudo parece-me um tremendo ultraje à natureza humana. Que se capem, quando muito, os galos. Com isso ficam melhores de comer. Nunca se viram, porém, eunucos na panela. Para que mutilá-los? Tem o dalai lama cinqüenta eunucos para cantarem em seu pagode. Gostaria de saber se é grato ao Chang-ti ouvir as vozes de taquara rachada desses cinqüenta desmembrados.
Acho também muito ridículos esses bonzos que não se casam. Gabam-se de ser mais sábios que os demais chineses. Pois bem! Que façam então filhos sábios. Boa moda essa honrar o Chang-ti privando-o de adoradores! Singular maneira de servir o gênero humano, dando-lhe o exemplo da própria extinção! Dizia o bom pequeno lama Stelca ed isant Errepi [16] que todo padre devia fazer o maior número de filhos possível. Ele próprio dava o exemplo e foi muito útil em seu tempo. Por mim casarei todos os lamas e bonzos e lamizas e bonzas que tiverem vocação para esta santa obra. Serão melhores cidadãos, e com isso creio prestar grande benefício ao reino de Lou. C. S.
Oh que excelente príncipe teremos! Fazeis-me chorar de alegria. Mas certamente não tereis só mulheres e súdito. Porque afinal não se pode passar a vida a lavrar éditos e fabricar filhos. Sem dúvida tereis amigos? C.
Já os tenho, e bons. Advertem-me de meus defeitos e eu tomo a liberdade de apontar-lhes os seus. Consola-me e eu os consolo. A amizade é o bálsamo da vida, bálsamo superior ao do químico Erueil [17] e até aos saquetes do grande Ranoud [18] . Admira-me não se haver feito da amizade um preceito de religião. Desejaria inseri-lo em nosso ritual. C. S.
Preservai-vos de semelhante arbitrariedade. A amizade já é sagrada por si mesma. Nunca a forceis. O coração precisa ser livre. Se fizésseis da amizade um preceito, um mistério, um rito, uma cerimônia, milhares de bonzos, pregando e escrevendo suas tolices, cobririam esse sentimento de ridículo. Não deveis expô-lo a semelhante profanação.
Mas como procedereis em relação aos vossos inimigos? Vinte vezes recomenda Cong-fu-tseu que os amemos. Não vos parece um pouco difícil? C.
Amar os próprios inimigos? Se é tão comum! C. S.
Como o entendeis? C.
Como é de mister, creio; Fiz o aprendizado da guerra sob o príncipe de Décon [19] contra o príncipe de Vis Brunck. Quando um inimigo era ferido e caía em nossas mãos; tratávamo-lo como se fosse nosso irmão. Muitas vezes demos o próprio leito a inimigos feridos e prisioneiros, dormindo-lhes ao pé sobre peles de tigre estendidas no chão. Servíamo-los nós mesmos. Que mais quereríeis? Que os amássemos como se ama às amantes? C. S.
Muito me edifica tudo o que dissestes, e desejaria que todas as nações vos compreendessem. Porque me afirmam haver povos assaz impertinentes para dizer que nós não conhecemos a verdadeira virtude, que nossas boas ações não passam de pecados esplêndidos, que necessitamos das lições de seus talapões para que nos ensinem bons princípios. Coitados! Mal aprenderam a ler e escrever e já querem ensinar aos próprios mestres! Sexto diálogo C. S.
Não vos repetirei todos os lugares comuns que há cinco ou seis mil anos se repisam entre nós acerca de todas as virtudes. Há virtudes que não o são senão para nós mesmos, como a prudência para guiar a alma, a temperança para governar o corpo – meros preceitos de política e higiene. Verdadeiras virtudes são as virtudes úteis à sociedade: fidelidade, magnanimidade, beneficência, tolerância, etc. Graças aos céus não há avó entre nós que não ensine aos netos todas essas virtudes. Elas constituem o cimento da nossa juventude, na cidade como na aldeia. Há contudo uma grande virtude que começa a ser esquecida, o que é deplorável. C.
Qual é? Vamos, dizei-me, eu tomarei a peito realentá-la. C. S.
A hospitalidade. Essa virtude tão social, esse sagrado liame entre os homens, que começa a relaxar-se desde que temos tavernas. Ao que dizem, veio-nos essa perniciosa instituição de certos selvagens do Ocidente. Parece que esses miseráveis não têm casas para acolher os viajores. Que prazer receber na grande cidade de Lou, na linda praça de Honchã, na casa de Qui, um generoso estrangeiro recém chegado de Samarcande, para quem me tornaria de então em diante um homem sagrado e a quem todas as leis – divinas e humanas – obrigariam a receber-me em sua casa quando eu viajasse pela Tartária e a ser meu amigo íntimo!
Os bárbaros de que vos falava só recebem os forasteiros quando pagos, e ainda assim em achavascados cochicholos. Vendem caro esse acolho miserável. Apesar de tudo ouço dizer que essa pobre gente se presume superior a nós e se vangloria de ter moral mais pura. Querem que seus pregadores falem melhor que Cong-fu-tseu. Enfim pretendem ensinar-nos justiça por venderem mau vinho nas estradas reais, suas mulheres saírem como loucas pelas ruas e dançarem enquanto as nossas cultivam bichos de seda. C.
Acho plausível a hospitalidade e pratico-a com prazer. Mas receio o abuso. Existem, nas cercanias do grande Tibete, povos que vivem pessimamente alojados, amantes de andejar, que sem motivo algum seriam capazes de palmilhar o mundo de ponta a ponta. Entanto, se fordes ao grande Tibete desfrutar entre eles do direito da hospitalidade, não vos darão cama nem comida. Coisas tais podem fazer desgostar da polidez. C. S.
O mal é pequeno e fácil de remediar, não se recebendo senão pessoas bem recomendadas. Não há virtude que não ofereça seus riscos. Por isso mesmo é belo abraçá-las.
Quão santo e sábio é o nosso Cong-fu-tseu! Não há virtude que não inspire. Em suas sentenças está a felicidade dos homens. Eis uma que me vem à memória – a qüinquagésima terceira:
Recompensai os benefícios com benefícios e jamais vos vingueis das injúrias.
Qual a máxima, qual a lei dos povos do Ocidente comparável a moral tão pura? Em quantos passos preceitua Cong-fu-tseu a humildade! Se os homens praticassem esta virtude jamais haveria querelas sobre a terra. C.
Li tudo o que escreveram Cong-fu-tseu e os árabes dos séculos passados a respeito da humildade. Mas ninguém me parece tê-la definido com exatidão. Talvez seja pouca humildade atrever-me a increpá-los, mas tenho pelo menos a humildade de confessar não os haver compreendido. Dizei-me, que pensais dessa virtude? C. S.
Obedecer-vos-ei humildemente. Reputo a humildade a modéstia da alma, porque a modéstia exterior não passa de civilidade. Ser humilde não é negar a si próprio uma superioridade que se possa ter adquirido sobre outrem. Um bom médico não pode deixar de reconhecer saber mais que seu cliente em delírio. Força é que um professor de astronomia admita ser mais ciente que seus discípulos. Não podendo negá-lo, não deve todavia presumir-se. Humildade não é abjeção: é corretivo do amor próprio, como a modéstia o é do orgulho. C.
Pois bem! É no exercício de todas essas virtudes e no culto de um Deus simples e universal que quero viver, longe dos delírios dos sofistas e das ilusões dos falsos profetas. No trono, o amor ao próximo será minha virtude, o amor a Deus minha religião. Desprezarei o deus Fo e Lao Tseu e Vichnú, que tantas vezes se encarnou entre os hindus, e Samonocodom, que baixou do céu para fazer de escaravelho entre os siameses, e os camis, vindos da lua ao Japão.
Desgraçado do povo suficientemente cretino e bárbaro para pensar existir um Deus exclusivamente para o recanto do mundo em que habita! É uma blasfêmia. Se a luz do sol alumia todos os olhos, não iluminaria a luz de Deus mais que uma mísera nação num canto do globo! Que blasfêmia! Que dislate! A Divindade fala ao coração de todos os homens, e de extremo a extremo do mundo devem uní-los os laços da caridade. C. S.
O sábio filho o rei de Lou! Falastes como que inspirado pelo próprio Chang-ti. Sereis um príncipe digno. Fui vosso mestre, agora sou vosso discípulo.