2. Tradução e notas
a) Nota sobre a tradução
Nosso objetivo nessa tradução foi produzir uma versão do texto acessível ao leitor iniciante em tragédia grega, embora buscássemos também produzir uma versão que pudesse ser proveitosa para os leitores mais experientes graças a algumas de suas soluções de tradução.
A opção pela prosa justifica-se pela necessidade de evitar impedimentos formais que são próprios da poesia e que limitariam a possibilidade de expressão e paráfrase do sentido que buscamos em nossa leitura da obra. Contudo, uma vez que o original é um texto poético, sabemos que, ao fazer essa escolha, sacrificamos o aspecto formal da poesia, que necessariamente traz consigo uma camada de significado para a qual, em nossa versão, não há tentativa de preservação.
Acrescentamos entre parênteses indicações cênicas que não estão presentes no original, mas que tornam mais clara e fluida a leitura do texto dramático. A numeração dos versos se encontra ao longo do texto marcada entre colchetes: [5], [10], [15] etc. As notas ao longo da tradução esclarecem episódios obscuros da mitologia e do enredo. Também colocamos notas indicando as fontes de soluções tomadas de empréstimo de outras traduções.
Esta tradução foi elaborada a partir do texto estabelecido por Lloyd-Jones e N. G. Wilson em Sophoclis Fabulae (1990). Foram consultados os seguintes comentários textuais que elucidam passagens do texto grego: Kamerbeek (1970), Easterling (1982b), Flávio de Oliveira (Sófocles, 2009) e Jebb (2010). Quando nas notas nos referimos pelo nome a um desses comentadores, trata-se do comentário referente ao verso em questão.
c) Tradução
(Prólogo)
A cena se passa diante da casa em que a família de Héracles habita na cidade de Tráquis. Dejanira entra em cena. A velha ama se aproxima.
DEJANIRA[26]
Um provérbio existe entre os homens, há muito tempo revelado: não se pode compreender a ventura da vida[27] dos mortais até que a pessoa esteja morta, nem se lhe é boa nem se lhe é ruim[28]. Eu, porém, sei a minha e, antes de ir ao Hades[29], bem sei que a tenho malfadada e pesada. [5] Eu que, enquanto na casa de meu pai, Eneu, no Plêuron[30], tive a mais aflitiva angústia nupcial que mulher etólia alguma jamais teve. Pois eu tinha como pretendente um deus-rio, falo de Aqueloo[31], que em três formas me pedia ao meu pai: [10] uma vez veio como encorpado[32] touro; outra vez, como luzidia serpente sinuosa; e mais outra, como um homem de testa táurea, e das suas espessas barbas, nascentes de água de fonte jorravam. Eu, enquanto esperava por esse pretendente, [15] infeliz, rezava sempre para que eu morresse antes de algum dia ser levada a semelhante leito. Mas, no último momento e para o meu alívio, o glorioso veio, o filho de Zeus e Alcmena: [20] tendo se batido com aquele em disputa, liberta-me. Mas, o desenrolar da batalha, eu não seria capaz de contar pois não sei, mas quem quer que fosse espectador, sem se aterrorizar pela visão, esse poderia contar. Porque eu jazia atordoada pelo horror, com receio de que a beleza me trouxesse dor. [25] Mas Zeus, árbitro da batalha[33], dispôs bem o fim, se é que foi bem. Pois unida a Héracles, esposa eleita, eu nutro, sempre, medo a partir de medo, preocupada no âmago com ele. Sucessiva, a noite traz e a noite afasta o tormento. [30] Geramos filhos, aos quais ele, como o lavrador que lavra uma terra distante, vê somente ao semear e uma vez ao colher. Essa é a ventura da vida que, tanto à casa quanto de casa, sempre, leva o meu esposo a serviço de alguém. [35] E agora que ele superou essas contendas, é agora que mais estou temerosa. Desde que ele pôs fim à vida de Ífito[34], nós, nesta Tráquis[35], expulsos do lar, habitamos a casa de um homem estrangeiro; Héracles, por onde anda, [40] ninguém sabe. Mas uma coisa é certa para mim: sua ausência me causa excruciantes preocupações com ele. E estou próxima de saber se alguma desgraça lhe aconteceu, pois por não pouco tempo, mas já há dez meses e mais outros cinco, ele permanece sem ser anunciado. [45] E há algo terrível; digo por causa da natureza da pequena tábua com palavras inscritas que ele me deixou antes de partir: por causa dela, eu sempre rezo aos deuses para que mantenham afastada a desgraça[36].
VELHA AMA
Senhora Dejanira, muitas vezes eu já te vi chorar lamentações cheias de lágrimas [50] pela partida de Héracles. Mas agora, se convém instruir àqueles que são livres com conselhos de escravas, e caso me seja permitido falar sobre a tua situação, já que és rica em filhos, por que não envia algum em busca do teu esposo? [55] E é mais razoável que seja Hilo, se ele se preocupa com o pai e a sua boa reputação. Aqui perto ele próprio move os passos rápidos na casa, então, se eu pareço falar algo de oportuno, está em tuas mãos fazer uso do homem e de minhas palavras[37]. [60]
(Hilo, um dos filhos de Héracles e Dejanira, entra em cena)
DEJANIRA
Ó rebento, ó meu filho, mesmo de alguém de baixa estirpe — ora! — nascem boas palavras: essa mulher, embora seja uma escrava, descobriu palavras livres!
HILO
Quais? Explica-me, mãe, se são explicáveis!
DEJANIRA
Não te informares sobre onde está teu pai, com ele já há tanto tempo longe, [65] é uma desonra para ti.
HILO
Mas eu sei — se se pode acreditar em rumores.
DEJANIRA
Em que lugar da terra, filho, ouviste que ele está?
HILO
Dizem que ele passou todo o último ano de lavra, do princípio ao fim, em trabalho pesado, servo de uma mulher lídia[38]. [70]
DEJANIRA
Se até mesmo isso ele suportou, pode-se ter ouvido de tudo.
HILO
Seja como for, ele está livre; assim eu ouvi.
DEJANIRA
Então onde dizem que ele está vivo ou morto?
HILO
Dizem que em terra eubeia, na cidade de Êurito[39]: marcha contra ela, ou ainda está prestes a fazê-lo. [75]
DEJANIRA
Pois, por acaso sabes, meu filho, que ele me deixou oráculos confiáveis sobre essa terra?
HILO
Quais oráculos, mãe? Não sei do que estás falando.
DEJANIRA
Dizem que ou ele está prestes a atingir o fim da vida ou, vencida essa contenda, levar a bom termo [80] o restante da ventura da vida. Então, filho, com esse destino jazendo na balança, não pretendes ajudá-lo, já que ou estamos salvos, se ele se salva, ou então caímos em ruína junto? [85]
HILO
Irei, mãe, e, se soubesse sobre o dito desses oráculos divinos, já estaria lá. Até agora a sorte que lhe coube não nos dava razão para nos preocuparmos com nosso pai nem ter medo em demasia. Mas agora que compreendo, absolutamente nada deixarei [90] de fazer para saber de toda a verdade sobre a sua situação.
DEJANIRA
Vai agora, meu filho, pois, mesmo tarde, saber do sucesso não falha em trazer benefício.
(Saem Hilo e a velha ama, entra em cena o coro de mulheres de Tráquis)
(Párodo)
CORO
A ti que a cintilante noite decaindo gera e acalenta, quando estás incandescente. [95] A ti, Sol, Sol, peço isto: anuncia o filho de Alcmena! Onde — diz para mim! Diz para mim! —, onde, onde vive, ó radioso brilho flamejante? Ele está no estreito do mar [100] ou no continente dividido[40]? Fala tu que és o mais poderoso no olho luminoso!
Pois soube que, de peito cheio de saudade, a disputada Dejanira, sempre, como ave inquieta, [105] jamais deita, lágrima desfeita, a saudade dos olhos; mas, ao se voltar ao inesquecível medo pelo seu homem, da jornada, com peso no peito se consome pela cama enviuvada, [110] esperando destino desastroso.
Como se vê o vai e vem das ondas prenhes de ondas no vasto mar, através do incansável Noto ou do Bóreas[41]; [115] assim, ao cadmogênito[42], onda procria, e onda avoluma o vai e vem das várias penas da vida, tormentosa como o mar cretense, mas um dos deuses sempre [120] o afasta sem falta[43] da casa de Hades.
Que disso tu te lamentes, sou favorável, mas direi algo que se opõe: acho que não deves desgastar a boa esperança, [125] pois uma sina sem dores o Crônida que tudo coordena não impõe aos mortais. Pena e alegria, para todos, em círculo se sucedem, [130] como os giros dos caminhos celestes da Ursa[44].
Não se mantém para os mortais nem cintilante noite nem desgraça nem riqueza, mas de repente se vai[45] e [135] vem-lhe tanto o ganhar quanto o perder. Por isso, também digo a ti que és rainha: sempre te mantenhas na esperança! Pois quem viu Zeus ser assim desatento com seus filhos? [140]
Referências bibliográficas
Texto grego
SOPHOCLIS Fabvlae. Ed. Lloyd-Jones e Wilson. New York, New York: Oxford University Press, 1990.
Comentários ao texto
EASTERLING, P. E. Commentary. In. SOPHOCLES. Trachiniae (P. E. Easterling, ed.). Cambridge [Inglaterra]: Cambridge University Press, 1982a. pp. 71-233.
JEBB, R. C. Sophocles: The Plays and Fragments, v. 5. With Critical Notes, Commentary and Translation in English Prose. Richard Claverhouse Jebb ed. Cambridge University Press. Cambridge, 2010 [1892].
KAMERBEEK, J. C. The Plays of Sophocles: Commentaries. Part II: The Trachiniae. Leiden: Brill, 1970.
SÓFOCLES. As traquínias (F. R. de Oliveira, apres., trad. e comentário filológico). Campinas, São Paulo: Editora da Unicamp, 2009.
SOPHOCLES. Trachiniae (P. E. Easterling, ed.). Cambridge: Cambridge University Press, 1982.
Lexicografia
LIDDELL, H. G. & SCOTT, R. A Greek-English Lexicon. (Nova York: Clarendon Press Oxford, 1996). Perseus Digital Library: http://www.perseus.tufts.edu/hopper/search. (Acesso em: 2020-2022).
MALHADAS, D; DEZOTTI, M; NEVES, M. H. de M. Dicionário grego-português. São Paulo: Mnema, 2022.
Referências
EASTERLING, P. E. “Introduction”. In. SOPHOCLES. Trachiniae (P. E. Easterling, ed.). Cambridge [Inglaterra]: Cambridge University Press, 1982b. pp. 1-23.
GANTZ, T. Early Greek Myth: A Guide to Literary and Artistic Sources. Baltimore/ London, 1993.
KAMERBEEK, J. C. “Introduction.” in The Plays of Sophocles – Commentaries. Part II: The Trachiniae. Leiden: Brill, 1970.
LEVETT, B. Sophocles: Women of Trachis. (Duckworth Companions to Greek and Roman Tragedy). Bloomsbury Publishing, 2004.
PAOLI, B. “Zeus, o Carvalho, Duas Pombas e um Centauro”. In: SÓFOCLES. As Traquínias. Tragédias completas. Tradução de Jaa Torrano. São Paulo: Ateliê Editorial; Mnema, 2022. pp. 31-38.
WHITMAN, C. H. Sophocles: A Study of Heroic Humanism. Cambridge: Harvard University Press, 1951.
WINNINGTON-INGRAM, R. R. Sophocles: an interpretation. Cambridge: Cambridge University Press, 1980.
[26]: O nome “Dejanira” (Δηιάνειρα) significa “matadora de homens” e, segundo Levett (2004, pp. 31-31), versões anteriores do mito apresentavam Dejanira como uma figura ativa e guerreira, uma amazona; já a versão de Sófocles apresenta uma personagem completamente passiva. Esse contraste é interessante se a compararmos com outras personagens de tragédia conhecidas pela sua agressividade aos maridos: Clitemnestra (Agamemnon, de Ésquilo), e Medeia (da peça homônima de Eurípides). Levett (2004, pp. 85-6) observa que as duas últimas são apresentadas como transgressoras de valores vigentes, como personagens monstruosas e fantásticas, fora da realidade; mas que, por outro lado, Sófocles cria uma personagem mais humana, que evita extremos e aceita os valores vigentes, e, mesmo assim, causa a destruição de sua família.
[27]: “Ventura da vida” traduz αἰών que significa (i) tempo de vida; (ii) era, geração; (iii) vida, destino, porção; no sentido de o destino de alguém, o seu tempo de vida como um todo; como, por exemplo, Dejanira diz nas linhas seguintes, só é possível conhecer o αἰών, se é uma vida boa ou ruim, depois de a pessoa estar morta, depois de o seu tempo de vida ter terminado.
[28]: Remete às palavras de Sólon a Creso em Heródoto, Histórias, I, 32.
[29]: “Antes de ir ao Hades”, isto é, antes de morrer. A Casa de Hades é o mundo dos mortos, reino do deus Hades.
[30]: Plêuron, uma importante cidade na região montanhosa da Etólia, oeste da Grécia. A cidade estava situada entre o rio Aqueloo e o rio Eveno. Nos mitos gregos, Eneu, pai de Dejanira, era um nobre importante ou rei desta cidade.
[31]: Aqueloo era um deus-rio relacionado à água doce e à fertilidade. Ovídio, nas Metamorfoses IX (1ss.), nos traz a batalha do ponto de vista do perdedor, que, neste período, tinha se tornado um exemplo de amante desafortunado. O maior rio da Grécia leva seu nome.
[32]: “Encorpado” traduz ἐναργής; significa “na forma corpórea”, “claro”, “aparente”, também era a palavra usada para se referir a um deus aparecendo em sua forma própria, e a sonhos (cf. Kamerbeek, 1970, p. 32).
[33]: “Zeus, árbitro da batalha”, Ζεύς ἀγώνιος, um epíteto atribuído a qualquer deus que presida jogos. O nome de um deus seguido de um epíteto que o caracterize geográfica, funcional ou ritualmente, ou de algum outro modo, não é incomum e não se trata de uma referência a outro deus, apenas de especificação de acordo com o lugar de culto ou da função que ele está exercendo naquele contexto.
[34]: Ífito é um dos filhos de Êurito. Ele é um dos irmãos de Íole (cf. versos 250ss.).
[35]: Tráquis era uma cidade situada entre o Monte Eta e o golfo de Mália. A família de Héracles foi expulsa de Tirinto por ele ter matado Ífito.
[36]: Sobre o prólogo, Kamerbeek (1970, p.10) afirma: “Although its function is indubitably expositive in the narrower sense, it is much more than that. It shows the central figure of the play seeing herself and appearing to the audience in the perspective of her past life and at grips with the fearful present situation from which the tragic action will proceed. Deianeira’s words give the impression of coming from her inner nature”. Kamerbeek (1970, p. 12) também destaca a ironia inerente a esse prólogo: a esposa amorosa que deseja o retorno seguro do marido, mas que irá, ela própria, ser causadora de sua destruição.
[37]: Segundo Kamerbeek (1970, p. 10), a situação de um filho que sai em busca do pai remete à aventura de Telêmaco na Odisseia.
[38]: A mulher lídia é a rainha Ônfale. Héracles foi vendido por Zeus como escravo para purificação pelo assassinato injusto do Ífito (v. 250ss.). Matar alguém deixa uma mancha sobre o assassino que exige diferentes graus de purificação ritual, maior quanto mais injusto ou criminoso fosse o ato.
[39]: Ecália é a cidade de Êurito e ficava localizada na ilha da Eubeia; uma de suas extremidades situava-se às margens opostas do golfo de Mália.
[40]: Estreito do mar/continente dividido: uma referência a lugares e mares longínquos, mas de identificação geográfica obscura para nós. Uma das hipóteses sugere que o estreito do mar diz respeito aos estreitos do Mar Negro no oriente, e o continente dividido, aos Pilares de Héracles, no extremo ocidente daquele mundo, fazendo referência ao movimento do Sol (Kamerbeek, 1970, p. 49).
[41]: Noto e Bóreas são nomes de ventos que correm em direções opostas, seu choque deixa o mar revolto.
[42]: Héracles nasceu na cidade de Tebas, que foi fundada por Cadmo. Cadmogênito, Καδμογενής, significa: nascido na cidade de Cadmo.
[43]: “Afasta sem falta” retiro da tradução de Flávio de Oliveira (Oliveira [Sófocles], 2009). O grego ἀναμπλάκητον… ἐρύκει tem uma ambiguidade que essa tradução traz para o português: Héracles é retirado do problema (i) fisicamente ileso e (ii) moralmente ileso.
[44]: A Constelação da Ursa Maior, visível durante o ano todo no hemisfério norte, faz um caminho circular através do céu nesse período.
[45]: De repente se vai: ἄφαρ βέβακε. Essa expressão ecoa no primeiro estásimo da peça, em outra situação de mudança de sorte, quando Dejanira era o prêmio na batalha entre Héracles e Aqueloo. Terminada a batalha, ela é afastada de sua mãe:
E a bela moça graciosa jazia em distante colina, esperando quem o marido seria. Eu falo como quem viu, mas a
disputada face da noiva, penosa, espera. E de repente se vai [ἄφαρ βέβακε] de sua mãe, como novilha solitária.
ἁ δʼ εὐῶπις ἁβρὰ / τηλαυγεῖ παρʼ ὄχθῳ / ἧστο, τὸν ὃν προσμένουσʼ ἀκοίταν. / ἐγὼ δὲ θατὴρ μὲν / οἷα φράζω·
/ τὸ δʼ ἀμφινείκητον ὄμμα νύμφας / ἐλεινὸν ἀμμένει <τέλος>· / κἀπὸ ματρὸς ἄφαρ βέβαχ’, / ὥστε πόρτις ἐρήμα.
(524-30) Com emenda de Zielinski: θατὴρ por μάτηρ: ἐγὼ δὲ θατὴρ μὲν οἷα φράζω, lit.: “falo como espectador” (cf. edição de Easterling [Sophocles], 1982).