Questões naturais — Prefácio do livro I
[1] 1. Lucílio, melhor dos homens[11], quanto há entre a filosofia e as outras artes[12], é quanto estimo haver, no interior da própria filosofia, entre aquela parte pertinente aos homens[13] e esta, pertinente aos deuses[14]. Esta última é mais elevada e mais ousada[15]; permitiu-se[16] algo grande[17]. Não se contentou com os olhos: suspeitou haver algo maior e mais belo que a natureza possuísse além do que é visível.
[2] 2. Em suma, há tanto entre as duas quanto entre deus e homem[18]: uma ensina o que se deva fazer nas terras[19]; a outra, o que ocorra no céu; uma dissipa nossos erros e aporta luz com a qual sejam discernidas as coisas ambíguas da vida; a outra [nos] retira [para] muito acima desse nevoeiro espesso no qual somos revolvidos[20] e, das trevas arrebatados, [nos] conduz até a [própria] fonte da luz[21].
[3] 3. Por isso, então, agradeço à natureza das coisas quando a vejo não desde aquela parte que é pública[22], mas quando penetrei seus aspectos mais secretos, quando aprendo qual é a matéria do universo, quem o [seu] autor ou guardião, o que é o deus, se [ele] se debruça inteiramente sobre si mesmo ou se de vez em quando também a nós lança um olhar, se faz cada dia alguma coisa ou se fez [de] uma só vez, se é parte do mundo ou o [próprio] mundo, se lhe é lícito ainda hoje decretar [algo novo] e derrogar alguma coisa da lei dos fados, ou se seria uma diminuição de [sua] majestade e uma confissão de erro ter feito coisa que haveria de ser mudada. <Porém>, é necessário que a mesma coisa agrade [sempre] àquele a quem nada senão o melhor pode agradar, nem por isso é menos livre ou, sequer[23], menos poderoso, pois ele próprio é a sua necessidade[24].
[4] 4. Se eu não tivesse acesso a estas coisas, não teria valido a pena nascer, pois que motivo haveria para que me alegrasse de ter sido posto no número dos vivos? Acaso para que filtrasse comidas e bebidas?[25] Para encher este corpo inconsistente e efêmero e [sempre] na iminência de perecer se não for repetidamente suplementado, para viver, enfim, como serviçal de um doente? Para temer a morte como única coisa para qual nascemos?[26] Subtrai esse inestimável bem, e a vida já não valerá o suficiente para que eu sue e me alvoroce.
[5] 5. Ah! Quão desprezível coisa é o homem se não se ergue acima das coisas humanas! Enquanto lutamos com nossas paixões[27], o que fazemos de magnífico, ainda que nos mostremos superiores? Vencemos monstros: que motivo há para que nos admiremos a nós mesmos[28] [apenas] por sermos diferentes dos piores? Não vejo nenhuma razão para que se compraza de si mesmo aquele que é o mais robusto num hospital[29].
[6] 6. Há um abismo entre vigor e boa saúde. Escapaste dos vícios da alma? Não tens rosto fingido, nem tua conversa é regulada de acordo com a vontade alheia? Nem carregas um coração dissimulado ou avareza que negue a si mesma o que quer que tolha a todos? Nem intemperança[30] que perde dinheiro torpemente e o recupera de modo ainda mais torpe? Nem tens ambição que te conduza às honrarias apenas através de coisas desonrosas? Até aqui, ainda não conseguiste nada. Escapaste de muitas coisas, mas de ti mesmo, ainda não. Pois esta tal virtude a que aspiramos[31] é engrandecida não porque é[32] um bem em si chegar a carecer[33] de males, mas porque expande [laxat] e prepara o espírito para o conhecimento das coisas celestes, e o torna digno de que chegue à comunhão <com> o deus.
[7] 7. [Só] então, quando, calcado todo mal, busca as alturas e chega ao seio íntimo da natureza, tem plenamente realizado o sumo bem do destino humano. Então, vagando entre os próprios astros, agrada-lhe rir dos pavimentos dos ricos e de toda a terra com seu ouro, e não me refiro apenas ao ouro que [a terra] trouxe para fora e entregou para a cunhagem de moedas[34], mas [também] àquele que, oculto, ela guarda para a avareza dos pósteros.
[8] 8. [O espírito] é incapaz de desprezar os pórticos e tetos reluzentes de marfim, os bosques podados e os rios desviados para dentro das propriedades privadas antes que tenha circundado o cosmo e, olhando do alto a Terra, (diminuta e, ademais, em sua maior parte coberta pelo mar e, mesmo na parte que aparece [acima do mar], largamente esquálida, ou abrasada pelo calor ou enrijecida pelo frio), tenha dito a si mesmo: ‘é isto aquele ponto que entre tantos povos a ferro e fogo é dividido!’[35]
[9] 9. Ah, quão ridículas são as fronteiras dos mortais! Que um dácio não saia para além do Istro, que os trácios encerrem com o Hemo o seu império, que aos partos o Eufrates seja barreira, que o Danúbio seja o limite entre o [território] sarmático e o romano, que o Reno dê termo à Germânia, que os Pireneus ergam seus cumes no meio entre Gálias e Hispânias, que entre Egito e Etiópia estenda-se uma vastidão inculta de areias...
[10] 10. Se alguém der às formigas o intelecto do ser humano, também elas não dividirão um metro quadrado em muitas províncias?[36] Quando tu tiveres te elevado àquelas coisas verdadeiramente grandes, quantas vezes vires um exército marchar com bandeiras erguidas e um soldado da cavalaria ora rodeando a retaguarda, ora explorando [o caminho] à frente, ora espalhar-se pelos flancos, como se se tratasse de algo grandioso, te agradará dizer ‘vai pelos campos o negro esquadrão’[37]. Esta é a deambulação de laboriosas formigas em limites estreitos. Que há entre elas e vós além da medida do exíguo corpinho?
[11] 11. Um ponto! é um ponto isto em que navegais[38], em que guerreais, em que dispondes reinos, minúsculos mesmo quando de um e outro lado o oceano lhes encontra. Acima, há espaços ingentes na possessão dos quais o espírito é admitido, mas apenas na condição de que carregue consigo o mínimo do corpo, apenas se limpou toda sujeira e surgiu brilhante, desimpedido e leve e, além disso, contente consigo.
[12] 12. Quando alcançou aquelas coisas, alimenta-se, cresce, como que liberto das correntes, retorna à origem, e tem esse argumento para a sua divindade: que as coisas divinas o deleitam, e as observa não como alheias, mas como suas. Pois, estando livre de inquietações, assiste o ocaso e o nascimento dos astros e suas tão diversas vias de harmonização[39]; observa onde cada estrela por primeiro revela sua luz às terras, onde é o cume dela, até onde desce. Espectador curioso, perscruta e investiga cada detalhe. Como não investigaria, [posto que] sabe que aquelas coisas lhe concernem?
[13] 13. É então que despreza as estreitezas de sua morada anterior. Pois quanto é que jaz desde os mais avançados litorais da Hispânia até, por exemplo, a Índia? O espaço de pouquíssimos dias, se um vento favorável conduzir o navio[40]. Por sua vez, aquela região celeste oferece uma jornada de trinta anos a um velocíssimo astro que nunca se detém, mas é uniformemente rápido. Ali finalmente aprende o que buscou por muito tempo. Ali começa a conhecer o deus. O que é o deus? A mente do universo. O que é o deus? Tudo o que vês e tudo o que não vês[41]. Assim, finalmente, sua grandeza lhe é devolvida, e nada pode ser imaginado maior do que ele, se sozinho é todas as coisas, se sustenta sua obra a partir de dentro e de fora.
[14] 14. O que há, portanto, entre a natureza do deus e a nossa? De nós, a melhor parte é o espírito: nele não há nenhuma parte além do espírito. Ele é todo razão, ao passo que, entrementes, um erro tão grande aprisiona as coisas dos mortais que as pessoas estimam que este [universo] (mais belo, mais ordenado e mais constante no propósito do que qualquer coisa particular) seja fortuito e volúvel ao acaso, e, por isso, tumultuoso, em meio a raios, nuvens, tempestades e outras coisas pelas quais as terras e as partes vizinhas a elas[42] são fustigadas.
[15] 15. Tampouco essa demência se limita ao vulgo, mas toca também os que professam sabedoria. Há aqueles que julgam que eles mesmos têm um espírito, ainda mais, previdente e capaz de administrar tanto as suas coisas como as alheias, que esse universo, porém, no qual também nós estamos, desprovido de plano seria arrastado por certa temeridade ou por uma natureza que não sabe o que faz.
[16] 16. Quanto vale para ti conhecer isto e determinar os limites das coisas: quanto pode o deus? se ele próprio cria a matéria ou faz uso de [matéria] dada? Qual dessas duas coisas é anterior à outra: a razão precede a matéria, ou a matéria [precede] a razão? O deus leva a cabo tudo quanto queira ou <em> muitas coisas o desamparam as coisas que deve manejar, <assim como> muitas coisas são defeituosamente fabricadas mesmo por um grande artífice, não porque lhe falte arte[43], mas porque aquilo em que ela é exercida muitas vezes é arredio à arte?
[17] 17. Examinar[44] essas coisas, aprendê-las, meditar sobre elas, não é saltar por sobre sua mortalidade e ser transferido para uma sorte melhor? Dizes: “em que essas coisas te são proveitosas?”[45]. Se em nenhuma outra coisa, nisso com certeza: mensurado o deus, saberei que tudo o mais é estreito.
Ὁ Διαφορεύς παρῆν
[9]: Veja-se Naturales Quaestiones, III, praef., Epistulae Morales 65, 15ss. e os já citados De Otio, III e Ad Heluiam, 20, 2.
[11]: Esse vocativo com que Sêneca se refere a Lucílio aqui parece importante, uma vez que o genitivo plural delimita o alcance do superlativo elogioso: primeiro, Sêneca limita o âmbito da comparação (os homens), por último, alça Lucílio à posição mais elevada dentro desse âmbito restrito. A ordem das palavras também destaca uir, que será logo a seguir contrastado com deus. Sêneca salienta que mesmo o que há de melhor entre os homens ainda não se compara à parte da natureza de que ele vai tratar, aos deuses. Não mantivemos a ordem usada por Sêneca para não dificultar a leitura, porém, também evitamos traduções mais livres, como “excelent man” (HINE, 2010, p. 136) ou “ottimo Lucilio” (PARRONI, 2008, p. 9), que perdem a ideia de comparação dentro de um campo delimitado. Essa estrutura de elogio restrito é a própria base da construção argumentativa de todo o prefácio: ser o melhor entre os homens é como ser o menos doente entre os enfermos de um hospital (v. parágrafo 5, abaixo).
[12]: Hine (2010, p. 136) traduz “between philosophy and other areas”, Díaz (2013, l. 9191), “entre la filosofía y las ciencias” e Parroni (2008, p. 9), “fra la filosofia e le altre discipline” (destaques nossos). O termo ars, correlato latino para o grego τέχνη, salienta o aspecto da ação, o pôr em prática um conhecimento que não seja meramente teórico, mas também a competência preexistente que possibilita a ação adequada. Por essa razão, evitamos acomodar o discurso de Sêneca à divisão contemporânea das disciplinas, em que a filosofia é tomada como disciplina eminentemente teórica. Sêneca debruça-se mais detidamente sobre os tipos de artes nas Ep. 87 e 88. Ali, o filósofo expõe uma hierarquia das artes em que aquelas relacionadas a trabalhos manuais, como a arte do cozinheiro, do condutor de navios e mesmo do médico (Ep. 87, 17), assim como as artes do pintor, do escultor, do marmorista e do lutador (Ep. 88, 18), ocupam o posto mais baixo, ao passo que as artes liberais ocupam o posto mais elevado abaixo da filosofia. Vale acrescentar um breve comentário sobre a tradução de interest. Seria possível traduzi-lo de forma mais simples por “difere”, entretanto, optamos por manter a metáfora espacial característica de Sêneca ao longo desse prefácio não só na repetição de interest em quid illis et nobis interest (par. 10) e quid ergo interest inter naturam dei et nostram? (par. 14), mas também em multum interest inter uires et bonam ualetudinem (par. 6). Ademais, “difere” é um termo mais neutro, isento de um juízo de valor, ao passo em que interest coloca um dos termos comparados como algo mais avançado ou mais elevado do que o outro.
[13]: Isto é, a ética, ou seja, grande parte da obra em prosa de Sêneca. A Ep. 89 é toda dedicada à explicação da divisão da filosofia estoica em três partes “a ética, a física e a lógica. A primeira forma o caráter, a segunda estuda a natureza, a terceira estuda o valor dos vocábulos, a estrutura do discurso e as formas de argumentação” (Ep. 89, 9). Todas as citações das Epistulae Morales são feitas aqui a partir da tradução de José A. Segurado e Campos (2004).
[14]: Isto é, a física. Conforme resume Algra (2013, p. 189), “pode-se afirmar que a teologia era a parte mais importante da física estoica e mesmo de toda a filosofia estoica. Mesmo os tratados estoicos exclusivamente consagrados à vida boa deviam ser baseados no esboço de uma visão geral do mundo, e essa forma ‘atenuada’ de física era globalmente limitada às questões teológicas: a exposição da ordem providencial e da afinidade entre o espírito do homem virtuoso e deus”.
[15]: Animosior: mais corajosa, mais aventurosa.
[16]: Permisit (per + mittere): a muito se aventurou, não se restringiu, permitiu-se ir além dos olhos.
[17]: O adjetivo multum está no singular: “se permitiu uma coisa grande!”. Não confundir com “muitas coisas” (multa).
[18]: Entre um deus e um homem ou entre o deus e o homem. A inexistência de artigo em latim deixa ambígua a construção. Num mundo politeísta, os estoicos falam de um deus único que, porém, não deve ser confundido com o Deus da tradição judaico-cristã. Imitamos aqui Merckel (2012, p. 5), que evita essa ambiguidade traduzindo as referências de Sêneca ao deus estoico, quando inequívocas, para o francês “le dieu”, contrastando assim tanto com “un dieu”, que se refere a um deus do panteão clássico, quanto com “Dieu” (com inicial maiúscula e sem artigo) que, na tradição Ocidental, normalmente se refere ao Deus da tradição judaico-cristã.
[19]: O plural de Sêneca pode se referir de modo genérico ao conjunto das pátrias, de modo que poderia simplesmente ser traduzido como “terra”, designando o planeta conhecido como um todo, em oposição ao caelum. Com efeito, essa foi a opção tradutória de Parroni (2008, p. 9, terra), Hine (2010, p. 136, Earth) e Díaz (2013, l. 9195, tierra). Porém, para dar esse mesmo sentido singular/coletivo, Sêneca poderia usar orbis terrarum (como de fato, fará um pouco adiante, no parágrafo 8), de modo que a opção por “terras” parece salientar uma pluralidade de costumes (νόμος) em contraste com a unidade na natureza (φύσις). Cf. Ep. 90, 3, em que Sêneca aponta como uma das consequências dos estudo da filosofia e da natureza a percepção de que, a despeito da aparente diversidade entre povos e classes, “a condição humana é a mesma para todos”.
[20]: A ordem das palavras somada à deliberada omissão da preposição (ad ou, mais provavelmente, in) gera uma ambiguidade sintática, porém, os dois sentidos convergem: inicialmente pensamos que multum supra... caliginem é aposto para altera e diz o lugar onde ela está. Mas quando chega o verbo no fim da frase percebemos que se trata do lugar para onde ela leva. Porém, parece que ambas as interpretações são válidas e ela nos leva “para junto de si” (ad) e “para dentro de si” (in).
[21]: Literalmente, “até ali donde reluz”, “até [o lugar] donde vem a luz”.
[22]: O latim publica poderia ser aqui traduzido por “comum” ou “banal”. Optamos, contudo, por seu cognato português por entender que seria relevante manter a oposição entre publica e secretiora presente no original.
[23]: As conjunções aditivas ac/atque e et são sinônimas, porém, há uma importante diferença no fato de que ac/atque é mais enfático. Uma boa forma de ilustrar a importância dessa diferença é tomarmos o célebre Catulo V, 1: uiuamus, mea lesbia, atque amemus. Podemos traduzir esse atque simplesmente por “e”, de modo que teríamos “viver” e “amar” meramente como duas ações concomitantes no mesmo nível. Contudo, assim perderíamos todo o efeito poético do verso, que consiste no fato de que Catulo acrescenta “amar” como um nível a mais, que vai além do mero “viver” e é um aprofundamento deste, de modo que temos uma gradação: “vivamos, minha Lésbia… mais do que isso, amemos!”. Do mesmo modo, aqui, ao usar ac e não meramente et (nec ob hoc minus liber est ac potens), Sêneca previne que o leitor pense: “Menos livre não, mas apenas menos poderoso”. Ela dá mais um nível de profundidade à negação e afirma que não, nem sequer menos poderoso ele se torna por causa disso.
[24]: Necessitas. A sua lei. A sua lógica.
[25]: Cf. em Hesíodo (Teogonia, 26) o vocativo usado pelas musas para dirigir-se ao poeta mortal: “Pastores rústicos, infâmias vis, ventres somente” (tradução de Christian Werner, 2013).
[26]: Uni: adjetivo modificando “morte”. O topos da morte única para todos e niveladora da condição dos mortais é frequente em Sêneca e na literatura latina em geral; cf. Ep. 91, 16; Ad Marciam, 20, 12; De ira, III, 43, 1; Troades, 434; NQ, II, 59, 4. Tosi (1996, p. 291) menciona também Claudiano (De raptu Proserpinae, II, 302), Plauto (Trinummus, 491-494) e Horácio (Odes, I, 4, 13ss., II, 3, 21-24; II, 18, 32-36). Acrescente-se ainda Catulo, V, 6. A tradução "temer a morte como" entende que a sequência introduz um predicativo do objeto. Outra possibilidade seria que se trata de um aposto predicativo, e teríamos algo como: "para temer a morte, a única coisa para a qual nascemos?". As duas interpretações são bastante diferentes, uma vez que a primeira pressupõe erro em crer que a morte seja a única coisa para a qual nascemos, ao passo que a segunda pressupõe apenas que é erro temê-la, admitindo-se que ela seja a única coisa para a qual nascemos. Independentemente de Sêneca, como estoico, ter uma concepção definida sobre a morte, seu discurso sobre ela deixa frequentemente a questão em aberto. Cf. por exemplo as palavras de encerramento da Ep. 65: “O que é a morte? Ou é termo ou é passagem. Não receio chegar ao termo, pois ficarei no mesmo estado de quem nunca nasceu; também não receio a passagem, pois em lugar algum estarei tão limitado quanto aqui!”. A essa passagem, Segurado Campos (2004) apõe a seguinte nota: “Não deverá ver-se aqui uma indecisão de Séneca ou um mal entendido ecletismo, mas apenas a obediência a um princípio da pedagogia estoica que, desde Crisipo, aconselhava a não contrariar frontalmente as convicções prévias dos discípulos, mas antes a, partindo desta e reinterpretando-as, levá-las gradualmente às posições da Escola”.
[27]: Quamdiu cum adfectibus conluctamur.
[28]: O pronome está duplamente enfatizado com a partícula -met e com o pronome adjetivo ipsos.
[29]: O trecho faz eco ao vocativo com que Sêneca se dirige a Lucílio: uirorum optime (dentre os os homens, o melhor, NQ I, praef. 1).
[30]: O latim luxuria poderia ser traduzido por seu cognato português “luxúria”. Entretanto, tendo em vista que o termo português sofreu especialização semântica, passando a referir-se quase sempre a excessos especificamente no âmbito sexual, optamos por traduzi-lo por “intemperança”, termo mais genérico que abarca excessos (luxos) em diversas áreas da vida.
[31]: Cognato de adfectibus, usado no parágrafo anterior.
[32]: Pelo uso do modo indicativo, Sêneca indica concordar que seja um bem em si carecer de males. O que ele nega é que seja essa a razão por que ela seja tão engrandecida.
[33]: O infinitivo perfectum salienta a ação de livrar-se dos males, a passagem de um estado (com males) para outro (sem males). Traduzi-lo meramente por nosso infinitivo (presente) seria perder esse sema da ação, da busca ativa (adfectamus) e dar a entender um estado natural de falta de males.
[34]: Literalmente, “deu à cunhagem [local onde se cunha] para ser estampado” (signandum monetae dedit).
[35]: A longa estrutura parentética está presente no original.
[36]: O topos do perspectivismo a partir da comparação entre homens e formigas aparece também na fábula 117 de Bábrio, cujo argumento implica que os homens estão para os deuses assim como as formigas estão para os homens.
[37]: Eneida IV, 404. Agmen é o termo latino que designa especificamente o exército marchando em fila por uma estrada. No contexto desse hemistíquio citado, Virgílio compara os soldados troianos em marcha justamente a formigas e é por isso que Sêneca o cita aqui: “Pelos portões da cidade os vereis apressados correrem / como formigas no ponto em que um monte de trigo saqueiam, / quando do inverno mais perto e a seus paços escuros o levam: vai pelos campos o negro esquadrão carregando pilhagem” (Eneida IV, 401-404, tradução de Carlos Alberto Nunes, 2014).
[38]: Punctum. Sêneca brinca com uma palavra latina que significa “mar”: pontus.
[39]: Literalmente, “as tão diversas rotas dos [astros] que se harmonizam”.
[40]: Como assinala Díaz (2013, l. 9863), este foi um dos trechos de autores clássicos que motivaram Cristóvão Colombo a buscar uma rota para as Índias pelo oeste.
[41]: Optamos por traduzir totum em sentido numeral: "tudo que". Contudo o termo também carrega um importante sentido de inteireza, "o todo", de modo que poderíamos igualmente traduzir o trecho como "o todo que vês e o todo que não vês", ou "o que vês como todo e o que não vês como todo".
[42]: Sêneca refere-se à atmosfera terrestre, onde ocorrem fenômenos meteorológicos.
[43]: Ars. Veja-se a discussão sobre o termo na nota 9.[9]
[44]: O termo latino inspicere (in + spicere*) traz a ideia de olhar para dentro, o que ecoa as palavras intraui e secretiora, usadas anteriormente (NQ, I, praef. 3) por Sêneca.
[45]: Sêneca põe essa mesma pergunta retórica na boca de Lucílio em Ep. 65, 15, em que discute justamente a validade do estudo da física.