Uma sátira para o tirano já ir dar o fora: Aboborização do Divino Cláudio de Sêneca no Brasil contemporâneo
Translation: Senecas’ Pumpkinification of the Divine Claudius
Resumo: Apresentamos aqui uma nova tradução do texto satírico de Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.), Apocolocyntosis Diui Claudii, vertida por nós para o português com o título de Aboborização do Divino Cláudio. A título elucidativo, trazemos algumas informações introdutórias sobre a vida do autor e sua obra (em especial acerca do texto aqui traduzido). Esclarecemos também nossos critérios tradutórios e os objetivos almejados por nossa tradução através desses critérios.
Palavras-chave: Sêneca; sátira; tradução; tradição clássica
Abstract: Here we present a new translation of the satirical text by Seneca (4 BC – 65 AD), Apocolocyntosis Diui Claudii, translated by us into Portuguese with the title of Pumpkinification of the Divine Claudius. In order to clarify our purposes, we bring some introductory information about the life of the author and his work (especially about the text translated here). We also specify the criteria followed by our translation and the objectives aimed by our translation through them.
Keywords: Seneca; Satire; Translation; Classical Tradition
A literatura clássica oferece-nos um verdadeiro manancial de autores e textos que abordam temas tão variados quanto a imoralidade dos pretensos “defensores da moral”, os crimes cotidianos dos ditos “cidadãos de bem”, as velhas tramoias da “nova política”, a estupidez ridícula de quem se autoproclama “o único filósofo vivo”. Denunciando os riscos por trás dessa retórica vazia, muitos autores e textos clássicos sugerem os tipos de cuidados que devemos ter com falsos moralistas e charlatães de toda espécie. Para ficarmos apenas em poucos exemplos, Platão, Aristófanes, Plauto e Cícero são alguns dos nomes que se destacam do interior dessa tradição clássica para nos colocar em alerta contra os possíveis engodos por trás de exibições espetaculares e declarações bombásticas.
Em diálogo aberto com esses pensadores, Lúcio Aneu Sêneca (4 a.C. – 65 d.C.) surge como um dos mais destacados espíritos de seu tempo: tendo atuado como advogado, estadista, conselheiro político, filósofo, dramaturgo e poeta, ele levou uma vida atribuladíssima e legou uma das mais ricas e complexas obras da Antiguidade, a qual se preservou praticamente completa. Sêneca também alcançou o mundo político com sua produção filosófica e literária, tendo ele ocupado cargos da magistratura e de conselheiro de Nero, este último desde a aclamação do imperador, em 54 d.C., até o momento em que se afastou da vida palaciana, em 62 d.C., provavelmente desgostoso por assistir os horrores daquele que outrora assessorara. Sêneca tornou-se uma das personagens mais influentes de Roma em uma época tirânica, carregando suas obras em reflexões sobre moral e virtude.
A obra de Sêneca é extensa. Nela figuramos diálogos filosóficos: Ad Marciam - De consolatione (40), De Ira (41), Ad Helviam matrem - De Consolatione (42), De Consolatione ad Polybium (44), De Brevitatae Vitae (49), De Constantia Sapientis (55), De Clementia (56), De Vita Beata (58), De Otio (62), De Beneficiis (59-63), De Tranquillitate Animi (63), De Providentia (64), De Superstitione (perdido, citado por Santo Agostinho, De Civitate Dei 6.10-6.11). Sêneca também escreveu epístolas, cartas que oferecem aconselhamento ao amigo Lucílio sobre a virtude (Epistulae morales ad Lucilium). Além disso, tem obras dramatúrgicas que, salvo Phoenissae, se conservaram praticamente na íntegra: Troades, Hercules Furens, Oedipus, Medea, Phaedra. Por fim, e o que mais nos interessa por aqui, Sêneca escreveu também uma sátira menipeia sobre a época em que viveu.
No dia 13 de outubro de 54 d.C., Agripina, mãe de Nero, teria envenenado o imperador Cláudio como parte de um plano de ascensão do filho ao poder, que contou com seus falsos lamentos no grandioso funeral, quando Cláudio foi sepultado e recebeu todas as honras adequadas ao cargo que ocupou (WALTZ, 2010, p. I). Como parte da apoteose, Sêneca compôs um elogio fúnebre pro forma que Nero leria (mas que não chegou até nós). Esse perspicaz texto senequiano, segundo Waltz (2010, p. II-III), teria arrancado risadas dos presentes, já que o imperador Cláudio era considerado um fantoche grotesco pelos romanos. Sobreviveu, porém, uma sátira menipeia de Sêneca que retrata a falsa apoteose do desdivinizado imperador que tornou mais do que verdadeiro o provérbio “convém nascer tanto rei quanto idiota”. Como a dissidência política é tempero fundamental do ofício satírico (as obras do indignado Juvenal, do obscuro Pérsio[3] et cetera.), expomos a voz discordante de Sêneca ao longo da obra em que o filósofo ridiculariza Cláudio[4], o responsável por seu exílio, de 41 a 49 d.C., na Córsega. Concomitantemente, Sêneca dá substância ao argumento que defende o novo e jovem príncipe Nero.
Combinando os mais baixos registros linguísticos com momentos ridículos de elevação pomposa, a sátira menipeia traz reflexões de forma e conteúdo que colocam em questão as certezas dos gêneros mais tradicionais de prosa e poesia. Essa mistura leva ao choque e o choque leva ao pensamento crítico por meio da reflexão suscitada. Operando dessa forma, o riso pode efetivamente converter-se em ferramenta de questionamento das estruturas sociais e dos preconceitos historicamente consolidados, na linha do que sugere Bakhtin (1987). A Apocolocyntosis recorre a esse gênero que se fizera notável pelo menos desde Varrão, cujas sátiras menipeias sobrevivem apenas em fragmentos dispersos (WALTZ, 2010, p. III). Há muito incômodo, por parte de eruditos e acadêmicos, em relação à Apocolocyntosis (a ponto de sua autoria ser questionada), embora essa sensibilidade de Sêneca à sátira nos pareça dever ser vivamente questionada: ele mesmo, em suas tragédias, parece exibir uma espécie de deleite em relação àquilo que constitui sua ironia trágica, mas não é por isso que lhes recusaremos a autoria senequiana.
Acreditamos ser evidente o interesse de resgatar essa obra numa nova tradução para o português, à luz dos mais terríveis eventos na história recente de nosso país. Uma vez que esse texto satírico de Sêneca já foi traduzido para nossa língua recentemente – no excelente trabalho proposto por Frederico de Sousa Silva em sua dissertação de mestrado em 2008 –, podemos nos valer de alguma liberdade na busca por opções tradutórias mais afinadas à realidade contemporânea e às questões aqui delineadas por nós. Nesse sentido, a tradução filológica e acadêmica de Silva (2008) oferece-nos a segurança necessária para saltos mais elevados e arriscados: uma vez que esse trabalho se encontra à disposição de todo e qualquer leitor interessado nas minúcias histórico-filológicas da obra de Sêneca, podemos ousar aqui com uma tradução que faça nosso autor falar nossa própria língua, para nosso próprio tempo. Para isso, utilizamos como base o texto latino estabelecido e traduzido por René Waltz, em edição da editora Les Belles Lettres, realizada a partir do manuscrito de Saint-Gall.
O resultado prático dessas considerações poderá ser conferido em seguida. Desde logo cumpre esclarecer o seguinte: optamos ao longo do texto por expressões tão coloquiais quanto possível para verter o latim de Sêneca, empregando aquelas que se revelassem mais próximas da língua portuguesa falada no Brasil em 2020; evitamos traduzir os pronomes pessoais de 2.ª pessoa do latim pelos equivalentes do português segundo a gramática tradicional (“tu” e “vós”), preferindo os pronomes de tratamento de 3.ª (“você” e “vocês”), ainda que nem sempre para o caso dos oblíquos átonos, como acontece com cada vez mais frequência inclusive na norma culta brasileira; buscamos algumas das expressões e locuções mais infames na cena contemporânea da política em nosso país, a fim de colocá-las em paralelo com certas passagens do texto latino, como “tá ok?”, “idiotas úteis”, “subir em cima do pé de goiaba” e “balbúrdia”, por exemplo.
Com isso, esperamos ter oferecido um texto capaz de recriar em nossa língua – para nosso contexto histórico específico – o riso ferino da sátira de Sêneca: colocando para funcionar criativamente os instigantes recursos desenvolvidos pelos séculos de tradição satírica na Antiguidade, buscamos indicar para quem nos leia os paralelos ridículos que nossa história recente tem inspirado com o que houve de pior no Império Romano. Fazemos isso na esperança de que nosso Cláudio dê o fora o quanto antes, ainda que seja preciso cuidado para não vir a ser substituído por um novo Nero. Para evitar essa catástrofe, acreditamos que o exemplo de Sêneca permaneça absolutamente fundamental para nós ainda hoje.
Aboborização do Divino Cláudio
Lúcio Aneu Sêneca
[1] I. 1 Em nome da memória, quero transmitir o que se passou no céu, no dia 3 antes dos idos de outubro[5] de um novo ano, início de um felicíssimo século, de forma imparcialíssima! Nem ressentimento nem reconhecimento ditarão minhas palavras.[6] Daí, se você perguntar sobre a fonte do que narro aqui, primeiramente saiba que, caso eu não queira, não respondo, não. Quem é obrigado?! Só sei que me tornei livre ao findar dos dias daquele que tornara verdadeiro o provérbio convém nascer tanto rei quanto idiota. 2. Se me agradar responder, direi o que me vier à boca. Quem é que vai exigir juramento de historiador?! Entretanto, se for necessário criar uma testemunha, questione aquele que viu Drusila[7] entrar no céu: ele te dirá que viu Cláudio fazer o mesmo percurso “em passos não iguais”![8] Quer queira quer não, é necessário ver tudo o que se passa no céu: ele é o guardador da Via Ápia, por onde, você sabe, o divino Augusto e Tibério César foram aos deuses. 3 Este, se interrogado a sós, narrará direitinho pra você, pois cara a cara, na presença de muitos, jamais há de soltar o verbo. É que, desde que jurou, no Senado, ter visto Drusila subir em cima do pé de goiaba, e como diante de tão bom anúncio ninguém acreditasse nele, o homem afirmou com palavras inflamadas que ficaria de bico calado, ainda que visse uma facada em pleno Fórum. Tudo o que ouvi dele, trago aqui com certeza e clareza: assim, que eu o tenha sempre são e salvo.
[2] II. 1 Já Febo havia abreviado à mais curta via a ascensão
da luz e os sombrios sonos cresciam em duração;
já Cíntia, vitoriosa, aumentava seu reino;
e o disforme Inverno arrancava os gratos adornos
do abonado Outono, enquanto – Baco envelhecendo –
o tardio apanhador arrancava as uvas derradeiras.[9]
2 Acho que eu poderia ser mais claro se tivesse dito: o mês era outubro; o dia, o terceiro dos idos de outubro. As horas não posso te dizer com certeza: mais facilmente se colocarão de acordo entre si os filósofos do que os relógios. Enfim, foi algo entre a sexta e a sétima hora. 3 “– Que deselegante!”, alguém diz, “não contentes em descrever apenas a aurora e o crepúsculo, todos os poetas se inquietam ainda com o meio-dia: como você pode passar por cima de uma hora tão boa?”
4 Já, pelo meio, Febo em seu carro dividira o dia
e mais perto da noite sacudia as rédeas gastas,
após levar a luz recurva em bem curvada via.
[3] III. 1 Cláudio começou a expulsar sua alma e não podia encontrar uma saída. Então Mercúrio,[10] que sempre se deleitou com a engenhosidade dele, chama à parte uma das três Parcas[11] e diz: “Crudelíssima mulher, pra quê torturar esse homem infeliz? Tão grande sofrimento jamais há de cessar? Sessenta e quatro anos se debatendo com tal alma! Por acaso, tal desejo moroso seria por inveja dele e da República? 2 Permita aos astrólogos dizerem, de vez em quando, pelo menos uma única verdade: desde que virou príncipe, todos os anos e todos os meses tratam de enterrá-lo. Mas também, não é de se admirar que errem e que ninguém tenha conhecido a hora dele: pra falar a verdade, no fundo ninguém imaginou que nasceria. Faça o que tem de ser feito: ‘Dá-lhe morte! Que reine um melhor em seu lugar!’[12]” 3 Mas aí vem uma delas, Cloto: “Por Hércules!”, diz, “eu queria adicionar-lhe um pouquinho a mais de tempo, pra que presenteasse com a cidadania os poucos que ainda faltam: prometeu que todos – Gregos, Gauleses, Hispanos, Bretões[13] – seriam vistos de toga! Mas se te apraz conservar em semente um punhado de estrangeiros e você ordena que assim seja feito, que assim seja!” 4 Então, ela abre uma caixinha e exibe três fusos: um era de Augurino, outro de Baba e o terceiro de Cláudio.[14] “A esses três”, diz, “dentro de um ano, a curtos intervalos de tempo, ordenarei que morram, de modo que ele não seja enviado sem companhia. Na verdade, não é bom pra ele, que se via sempre seguido por tantos milhares de homens, precedido por uns tantos e rodeado por outros quantos, do nada ser largado sozinho. Há de se contentar, por ora, com esses companheiros.”
[4] IV. 1 Cloto diz isso e, volvendo o fio sobre um fuso horrendo,
interrompe os tempos de rei de uma vida estúpida,
mas Láquesis, cingida no cabelo, ornada em seus fios,
coroando sua fronte e crina com os louros da Piéria[15],
a cândida trama assume de um novelo níveo,
a temperar com mão fecunda aquela, que assim trazida,
assume nova cor. As irmãs admiram os trabalhos:
a lã transmuta-se de pelo em precioso metal,
enquanto eras áureas descendem do fio formoso.
Nada as detém: afortunado velo conduzem;
e regozijam-se em encher as mãos: agradáveis que são os trabalhos.
Láquesis espontaneamente apressa a obra e, sem esforço,
os fios macios descendem do emaranhado fuso.
Eles superam a Títono e a Nestor,[16] superam em anos.
Febo apresenta-se com seu canto, auxilia e regozija-se pelo porvir,
alegre, ora maneja a lira, ora ministra os trabalhos.
O canto cativa e faz esquecer a labuta.
E, simultaneamente, louvam cítara e poemas fraternos, mais habituadas fiam as mãos e os destinos humanos
transcendem a excelente obra. “Não arrebatem, Parcas!”,
Febo diz, “Que ele supere o tempo de vida dos mortais
a mim similar no semblante e similar na beleza,
em canto e em voz jamais inferior.[17] Felizes séculos
aos abatidos oferecerá e das leis romperá o silêncio.
Qual Estrela da Manhã sacudindo os afastados astros,
qual Estrela Vespertina surgindo aos astros que retornam,
qual Aurora erubescente ao desatar das trevas
trazendo o dia, assim o luminoso Sol examina a terra
e atiça os primeiros raios já da barra:
tal César se faz presente, a tal Nero Roma já
contemplará. Flameja com fulgor seu reluzente
rosto e, com cabeleira derramada o formoso pescoço.[18]
2 Tal é o que diz Apolo. Por outro lado, Láquesis, a fim de que ela própria favorecesse o formosíssimo homem, bota a mão na massa e doa muitos anos a Nero. Para Cláudio, porém ordenam todos χαιρόντας, εὐφημοῦντας ἐκπέμπειν δόμων [alegrando-se e louvando expulsá-lo da morada]![19] E ele, deveras, deixou a alma sair em borbulhas e já não foi mais visto em vida. Exalou-se, com efeito, enquanto ouvia comediantes, pra você saber que não é sem motivo que tenho medo deles.[20] 3 Tal foi sua última nota ouvida entre os homens, quando então emitiu o maior estrondo por aquela parte, pela qual discursava com tanta facilidade: “Ai de mim, acho que me caguei!” Que ele o tenha feito, ignoro. O certo é que cagou tudo.
[5] V. 1 Aquilo que ocorreu posteriormente na Terra é supérfluo reproduzir. Na verdade, vocês sabem tudo direitinho: não há perigo que escape da memória aquilo que a alegria do povo registrou. Ninguém esquece a sua felicidade. No céu, o que ocorreu escutem: a boa-fé estará no rabo-preso de uma autoridade. 2 Anuncia-se a Júpiter a chegada de alguém de boa estatura, com cabelos bem grisalhos. Não sei o que ele ameaça de tanto que mexe a cabeça e arrasta o pé direito.[21] Questionaram-lhe de que nação era: não sei o que respondeu com barulho estranho e voz confusa. Não se compreende a língua dele: não é grego, nem romano, nem de nenhum povo conhecido. 3 Então Júpiter manda Hércules, que havia percorrido todo o globo terrestre e parecia ter visto todas as nações, ir e averiguar que criatura era aquela. Daí, Hércules à primeira vista fica muito perturbado, como se ainda não tivesse enfrentado todos os monstros: assim que viu a fuça daquela nova espécie, o passo bizarro, a voz que não era de nenhum bicho da terra, mas tal e qual soava alguma besta marinha – rouca e indistinta – imaginou ter caído no seu 13º trabalho. 4 Examinando com cuidado, a figura quase pareceu humana. Assim, aproximou-se e – o que foi facílimo pra um greguinho – disse:
“Τις πόθεν εἶς ανδρῶν; πόθι τοὶ πόλις ἠδὲ τοκῆες; [Quem és e donde vens dentre os homens? Qual é tua pólis e teus progenitores?]”[22]
Claúdio alegra-se: havia filólogos ali![23] Tem esperanças de que haverá um lugar pra suas histórias.[24] Por isso, ele mesmo, pra parecer um César que se expressa em verso homérico, disse:
“Ἰλιόθεν με φέρων ἄνεμος Κικόνεσσι πέλασσεν. [De Ílio afastou-me o vento, aproximando-me dos Cícones!]”[25]
Porém o verso seguinte era mais próximo da verdade e igualmente homérico:
“ἔνθα δ’ ἐγὼ πόλιν ἔπραθον, ὤλεσα δ’ αὐτούς. [Lá eu saqueei a cidade, destruí os que lá estavam.]”[26]
[6] VI. 1 E assim ele teria enganado Hércules,[27] o menos sagaz, se ali também não estivesse a Febre, a única que tinha abandonado seu santuário para vir com ele: deixara todos os outros deuses em Roma.[28] “Esse aí”, diz, “está contando mentira pura. Eu, que tantos anos vivi com ele, só te digo isto: nascido em Lyon, você está vendo um concidadão de Munácio.[29] O que te conto é que nasceu a dezesseis milhas de Viena,[30] um gaulês genuíno. Dessa maneira, exatamente como um verdadeiro gaulês deveria fazer, apossou-se de Roma. Isso eu te garanto: é nascido em Lyon, onde Licínio[31] reinou muitos anos. Você, porém, que por mais lugares calcou os pés do que um muleiro atarefado, deve conhecer os lyonenses e saber que entre o rio Xanto e o Ródano existem muitas milhares de milhas. 2 Com isso, Cláudio explode e vocifera o quanto pode com raiva. O que diz ninguém compreende. Ele, no entanto, ordena que Febre seja conduzida, com aquele gesto da mão soltinha, mas firme o bastante pois habituada a degolar as pessoas. Afinal, ele tinha decretado cortar sua cabeça: você imaginaria que eram todos dependentes dele, mas até o momento ninguém se importou.
[7] VII. 1 Hércules então disse: “Me ouve. Deixa de tagarelar. Você veio pra cá, onde o osso é duro de roer. Me dê depressa a verdade, antes que eu te arranque os disparates à força”. E, pra que fosse mais terrível, ele se faz de trágico e diz:
2 “Declara já o lugar em que tu, gerado, tens fama,
para que não caias por terra, sob minhas pauladas.
Este porrete muitas vezes destroçou ferozes reis.
O que, no momento, proferes com voz incerta?
Que pátria, que povo gerou tão volúvel criatura?
Explica a fundo. Quanto a mim, tendo atacado o reino
longínquo do trigêmeo rei,[32] donde, pelo mar Hespério,
conduzi para a cidade de Argos o conhecido rebanho,
vi pendurado acima de dois rios um pico,
que Febo sempre vê do outro lado da aurora,[33]
onde flui o Ródano vasto em água, rápido,
e o Arar, hesitante sobre o rumo de seu curso,[34]
tácito, banha com ondas mansas as margens.
É aquela terra ama-de-leite do teu espírito?”
3 Essas coisas diz com coragem e força, mas não está em seu juízo perfeito e teme um μώρου πληγήν [ataque de loucura]. Cláudio, quando viu o homem valente, compreendeu – esquecido das ninharias – que ninguém em Roma foi comparável a ele próprio, embora ali não tivesse o mesmo reconhecimento: afinal, um galo pode muitíssimas coisas em seu próprio monte de esterco.[35] 4 Assim, do que foi possível entender, parece que disse o seguinte: “Hércules, mais forte dos deuses, eu esperava que você estivesse comigo junto aos outros, e se alguém me pedisse fiador, eu daria o seu nome, já que me conhece muito bem. Agora, vou refrescar sua memória, pois eu era aquele que diante do seu templo, o dia inteiro, nos meses de julho e agosto, te consagrava a justiça, tá ok?[36] 5 Você sabe quanta miséria tolerei ali, enquanto ouvia dia e noite aqueles advogadozinhos de araque? Se você caísse no meio deles, por mais forte que pareça ser, ia preferir limpar os currais de Áugias: muito mais merda eu próprio tive que limpar. Mas, já que eu quero ...” […][37]
[8] VIII. 1 “Não é admirável aquilo que você atacou na Cúria: não há nada proibido pra você.[38] Apenas nos diga qual deus deseja que este se torne. Um Ἐπικούρειος θεὸς [deus epicureu] não pode ser: afinal, um desses οὑτε αὐτὸς πράγμα ἔχει οὑτε ἄλλοις [nem tem problemas, nem causa problemas pros outros].[39] Estoico? De que modo pode ser esférico, como disse Varrão, ‘sem cabeça, sem prepúcio’[40]? Há algo de deus estoico nele, agora vejo: não tem coração nem cabeça. 2 Se, por Hércules!, tivesse pedido esse benefício a Saturno, cujo mês costumava celebrar o ano todo – como se fosse o próprio príncipe das Saturnais[41] –, mesmo assim não o teria obtido. Muito menos junto a Júpiter, que, embora o tivesse em alta conta, acabou condenando por causa do incesto. Afinal, Silano – seu genro – foi morto e eu me pergunto: por que motivo?[42] Sua irmã, a mais graciosa das moças, a quem todos chamavam Vênus, ele preferiu chamar de Juno. ‘Por quê?’, você pergunta, ‘Por que sua irmã?’ Estúpido, estude: é permitido a metade em Atenas e em Alexandria por inteiro.[43] 3 ‘Porque em Roma’, você diz, ‘os ratos lambem farinha’.[44] E este aí por acaso quer nos endireitar o que é torto? Não sei o que você faz entre quatro paredes... com a sobrinha,[45] mas já ‘procura perscrutar o espaço do céu’[46]! Desejas fazer-se deus? Pouco é quem tem um templo na Bretanha,[47] para quem hoje cultuam os bárbaros e a quem suplicam como a um deus pela μώρου εὐιλάτου τύχην [fortuna de um idiota útil]?”
[9] IX. 1 Por fim, vem à mente de Júpiter que não é permitido, com particulares dentro da Cúria, examinar ou discutir a sentença dos morosos senadores. “Eu”, diz, “tinha permitido que o interrogassem e vocês fizeram daqui a casa-da-mãe-joana. Quero que preservem o regulamento da Casa. Este aí, quem quer que ele seja, o que pensará de nós?” 2 Com Cláudio dispensado, o primeiro a ser indagado é o pai Jano. Fora designado cônsul vespertino nas calendas de julho,[48] um homem tão sabedor de como se portar que sempre vê “ἅμα πρόσσω καὶ ὀπίσσω [simultaneamente atrás e adiante]”.[49] Ele, eloquentemente – como alguém que vivia no Fórum –, disse muitas coisas que o escrivão não conseguiu acompanhar, e, por isso, não as repito: é para não colocar palavras na boca dele. 3 Muito disse a respeito da magnitude dos deuses e que essa honra não deveria ser dada pra um fulano qualquer. “Antigamente”, diz, “era grande coisa fazer-se deus: agora vocês mandaram a farsa às favas. Assim, pra que não pareça que opino sobre esta pessoa ou esta matéria, declaro em alto e bom som que ninguém, após o dia de hoje, seja feito deus daqueles que ‘ἀρούρης καρπὸν ἔδουσιν [comem o fruto da terra]’,[50] ou daqueles que alimenta ‘ζείδωρον ἄρουραν [a abundante terra]’. Quem, contra essa decisão do Senado, for feito ou pintado deus, eu entregarei às Larvas[51] e, no próximo espetáculo, entre os novos gladiadores será causa de deleite que leve umas chibatadas.” 4 O próximo indagado por seu juízo é Diéspiter, filho de Vica Pota,[52] ele também cônsul designado, um pequeno banqueiro. Com esta ocupação se sustentava: costumava vender cidadanias.[53] Hércules se aproximou dele e tocou sua orelha.[54] Dessa forma, Diéspiter declara em alto e bom som essas palavras: 5 “Como o Divino Cláudio é consanguíneo do Divino Augusto, não menos que de sua avó, a Divina Augusta – que ele mesmo decretou ser uma deusa[55] –, e uma vez que ele supera em sabedoria de longe a todos os mortais e é alguém que na República se mostra capaz, como Rômulo, de ‘comer nabos ferventes’,[56] declaro que o Divino Cláudio, a partir do dia de hoje, seja um deus, assim como quem antes dele, através dessa ótima lei, tenha sido feito deus, e que isso seja adicionado às Metamorfoses de Ovídio.[57]” 6 Vários eram os juízos e Cláudio parecia vencer. Na verdade, Hércules – vendo seu ferro no fogo –, corria daqui pra lá e dizia: “Não me complique as coisas, só estou cuidando dos meus interesses. Depois, se quiser algo, na sua vez farei o mesmo: uma mão lava a outra.”
[10] X. 1 Então, o divino Augusto levantou-se de seu lugar e disse com suma eloquência seu discurso: “Eu”, diz, “tenho vocês, senadores, como testemunhas de que não disse palavra alguma desde que fui feito deus: sempre me ocupo com meus próprios assuntos. Mas não posso mais dissimular nem conter essa dor que a vergonha torna insuportável. 2 Foi para isso que criei paz na terra e no mar? Foi em prol disso que contive as guerras civis? Foi por causa disso que fundei a cidade por meio de leis, embelezei-a com obras a fim de que...? O que dizer, senadores, não encontro: todas as palavras são inferiores à minha indignação. Assim sendo, é preciso buscar refúgio no que disse Messala Corvino,[58] homem muitíssimo eloquente: ‘envergonha-me o poder’. 3 Este, que a vocês, senadores, parece não ser capaz de fazer mal sequer a uma mosca, tão fácil matava homens quanto um cão se senta. Mas o que eu direi de homens tantos e tais? Afinal, ele não tem tempo pra lamentar ruínas públicas com a depravação doméstica que o encara. Assim sendo, omitirei aquelas coisas e trarei apenas estas: pois mesmo que minha irmã não saiba grego, eu sei: ‘ἐγγίον γόνυ κνήμης [o joelho é mais próximo do que a canela]’.[59] 4 Este, que vocês estão vendo, por tantos anos escondido sob meu nome,[60] retribuiu-me o favor assim: matou as duas Júlias[61] – bisnetas minhas –, uma pelo ferro, a outra pela fome; além de um trineto, Lúcio Silano.[62] Este último você há de ter visto, Júpiter, talvez numa causa má, ainda que decerto numa causa sua, se você quiser ser justo.[63] Diga-me, ‘Divino’ Cláudio, por que é que, antes de conhecer as razões daqueles e daquelas que matou – antes mesmo que as escutasse –, você os condenou? Onde é que é costume fazer isso? No céu é que não é.
[11] XI. 1 Eis aí Júpiter, que por tantos anos está reinando e, certa vez, fraturou a perna de Vulcano, ao ‘ῥῖψε ποδὸς τετάγων ἀπὸ βηλοῦ θεσπεσίοιο [agarrá-lo pelo pé, lançando-o para além da soleira do céu]’.[64] E quando se irou contra sua mulher, suspendeu-a: por acaso a matou?[65] Mas você! Você matou Messalina, de quem eu era tão tio-avô quanto você próprio era tio. ‘Não sabia’, você afirma.[66] Que os deuses te desgracem: este aí é mais torpe por ter ignorado do que por ter matado. 2 Nos passos de Caio César – isto é, Calígula – este aí não deixa de seguir. Aquele matou o sogro; este, o genro. Caio vetou que chamassem de Magno o filho de Crasso; este devolveu-lhe o nome e arrancou-lhe a cabeça. Em uma única casa, ele matou Crasso, Magno, Escribônia, os Tristiões, Assarião – ainda que fossem nobres – e, em verdade, Crasso era tão imbecil que na verdade também poderia reinar. 3 Agora vocês querem fazê-lo deus? Vocês estão vendo o corpo dele, nascido de uma verdadeira cólera divina. Em suma, que ele diga três palavras depressa e pode me levar como escravo. 4 Agora, quem vai honrar este deus? Quem vai acreditar? Enquanto fizerem esse tipo de deuses, ninguém vai acreditar que vocês mesmos são deuses. Resumindo, senadores, se permaneci honestamente entre vocês, se a ninguém respondi de maneira mais dura, levem em conta minhas injúrias. Eu, em conformidade com meu juízo, declaro o seguinte.” E, de um tabletinho,[67] recitou: 5 “Posto que o divino Cláudio matou: seu sogro – Ápio Silano; seus dois genros – Magno Pompeu e Lúcio Silano; o sogro da filha – Crasso Frugi, um homem tão parecido com ele mesmo como um ovo parece com outro; Escribônia – a sogra de sua filha; sua própria esposa – Messalina; além de outros trinta mil, tão numerosos que os números não dão conta, gostaria que ele fosse severamente punido, que não lhe fosse dado o perdão dos fatos julgados e que viesse a ser banido o quanto antes: do céu, dentro de trinta dias, e do Olimpo, em três.” 6 Rapidamente a sentença foi despachada. Sem demora, Mercúrio, torcendo o pescoço de Cláudio, arrasta-o pro quinto dos infernos, “de onde negam que alguém retorne”.[68]
[12] XII. 1 Enquanto descem pela Via Sacra, Mercúrio interroga-se sobre o que seria aquele encontro de homens; porventura seria o funeral de Cláudio? E era o mais formoso e bem cuidado, uma vez que parecia ser do conhecimento de todos tratar-se do enterro de um deus: imenso bando de toda espécie de flautistas, corneteiros e músicos, reunidos em tamanha balbúrdia que até Cláudio podia ouvi-los. 2 Todos alegres, sorridentes: o povo romano enfim perambulava como um povo livre. Ágato e uns poucos advogados de fato choravam: no caso deles, era claramente de coração.[69] Os jurisconsultos saíam das trevas, pálidos, franzinos, agarrados a um fiozinho de vida, exatamente como quem acaba de ressuscitar. Um deles, ao ver os que se reuniam, enquanto os advogados choravam o próprio fado, aproximou-se e disse-lhes: “Eu bem que avisei pra vocês: as Saturnais não serão pra sempre.” 3 Cláudio, ao ver seu funeral, entendeu que tinha morrido. Na verdade, uma nênia ali era cantada, μεγάλωι χορίκωι [com prodigioso coro], em anapestos:[70]
“Espalhai choro!
Declarai pranto!
Ressoe em triste
clamor o Fórum:
morreu tão belo,
o sensato homem,
que nenhum outro
em todo o mundo
fora mais forte.
Célere ele
vencia na marcha
aos mais velozes,
e ele aos rebeldes
Partos vencia
e perseguia
Persas com dardos,
com mão precisa
tendia a corda
que atravessava
em leve corte
hostes hostis
e as costas tintas
dos frouxos Medas.
Ele aos Bretões,
além das praias
do mar notável,
e aos escudos
de azuis Brigantos,
mandou curvar
perante os ferros
de Roma e o próprio
Oceano treme
às novas leis
da mão de Roma.
Chorai o homem
que nenhum outro
pôde mais ágil
saber das causas,
tanto uma parte
ouvida sendo
quanto nenhuma.
Mas qual juiz
o ano todo
ouvirá lides?
A ti já cede
a sede dada
a quem dá leis
ao povo mudo,
o que de Creta
tem cem cidades.[71]
Socai os peitos
com palmas tristes,
ó advogados,
vendida raça!
E vós, poetas
novos, gemei
e vós, que – mal
lançado o dado –
abocanhastes
um grande lucro!”
[13] XIII. 1 Deleitava-se Cláudio com seus louvores e desejava assisti-los o dia todo. O Taltíbio dos deuses,[72] contudo, lança a mão sobre ele e arrasta-o com a cabeça encoberta, para que ninguém possa reconhecê-lo, e pelo campo de Marte, entre o Tibre e a via Tecta, desce aos infernos. 2 Adiantava-se já por caminho mais curto o liberto Narciso – a fim de receber seu patrono – e, vindo limpinho, como se acabasse de sair do banho, aproxima-se e diz: “O quê? Deuses junto a homens?”[73] “Rápido!”, diz Mercúrio, “Anuncie nossa chegada.” Dito isso, Narciso rapidamente se manda dali. 3 Todas as vias são ladeiras e é fácil vir abaixo. Assim, embora tivesse gota, em breve tempo Narciso chega à porta de Plutão, onde se deitava Cérbero, ou, como disse Horácio, “a besta de cem cabeças”.[74] Narciso perturbou-se um pouco (acostumado às delícias de ter um cachorrinho branco) porque viu aquele cão preto, peludo, que você seguramente também não gostaria de encontrar no escuro. E em alta voz diz: “Claudio virá!” 4 Com aplausos, cantores prosseguem: “Εὑρήκαμνεν, συγχαίρωμεν [Encontramo-lo, animemo-nos]!”.[75] Ali estavam Caio Sílio – cônsul designado –, o pretor Junco, Sexto Traulo, Marco Hélvio, Trogo, Cota, Vétio Valente, Fábio e os cavaleiros romanos que Narciso havia conduzido a juízo. Estava, no meio daquela multidão de cantores, o ator de pantomimas Mnester, que Cláudio tinha diminuído a mero enfeite. 5 Apressam-se junto a Messalina (rapidamente o rumor de que Cláudio tinha chegado espalhou-se): primeiro, os libertos – Políbio, Míron, Arpocra, Ampheo, Pheronacto –, todos aqueles que, pra ninguém ser pego de surpresa, foram despachados antes; depois, dois prefeitos – Justo Catônio e Rufrio Polião; depois, os amigos cônsules – Saturnino Lúsio, Pedo Pompeu, Lupo e Céler Asínio; por último, a filha do irmão, a filha da irmã, genros, sogros, sogras, todos plenamente consanguíneos. E, em fila, aproximam-se de Cláudio. 6 Quando Cláudio os viu, exclamou: “Πάντα φίλων πλήρη [Completamente rodeado de amigos]! Como vieram até aqui?” Então responde Pedo Pompeu: “O que está dizendo, você que é o mais sanguinário dos homens? Pergunta ‘como?’ Quem, na verdade, nos enviou pra cá senão você, ó assassino de todos os amigos? Vamos à justiça! Faço questão de te mostrar os tribunais.”
[14] XIV. 1 Conduziu-o então ao tribunal de Éaco: este buscava saber o que estava escrito, segundo a lei Cornélia, sobre assassinos. Pedo solicita que ele receba o nome de Cláudio e expõe assim a acusação: “Trinta e cinco senadores assassinados; duzentos e vinte e um cavaleiros romanos, além de outros ‘ὅσα ψάμαθός τε κόνις τε [tão numerosos quanto a areia ou a poeira]’.” 2 Cláudio não encontra advogado. Por fim, avança Públio Petrônio, seu velho colega, homem conhecedor da língua claudiana e solicita advogar em sua defesa. Não lhe é concedido. Pedo Pompeio acusa-o com grande clamor. O defensor começa a querer responder. Éaco, homem justíssimo, veta, com apenas uma parte ouvida, condena Cláudio e diz: “Αἱκε πάθοι τά τ’ ἔρεξε, δίκη κ’ἰθεία γένοιτο [Se sofres por teus próprios feitios, uma reta justiça há de ser feita].” 3 Imenso silêncio se faz. Todos estupefatos com a novidade do caso, atônitos, negavam que isso já tivesse sido feito. Para Cláudio, aquilo parecia mais injusto do que propriamente novo. 4 Discutiu-se por muito tempo sobre qual punição seria a mais adequada pra ele. Havia aqueles que diziam que Sísifo já teria feito o carreto por tempo suficiente; que Tântalo, se ninguém o socorresse, morreria de sede; enfim, que seria preciso frear a roda do miserável Íxion.[76] Não agradou que tais resoluções fossem dadas em benefício de qualquer um dos condenados veteranos pra que Cláudio jamais viesse a ter esperança de algo similar. 5 O que agradou mais foi a sugestão de que se inventasse uma nova pena, devendo ser imaginado pra ele um trabalho inútil e alguma espécie de desejo sem fim nem satisfação. Então Éaco ordena-o a divertir-se jogando dados com o copo furado. E imediatamente Cláudio já tinha começado a perseguir com afinco os dados fujões, sem de nada adiantar.[77]
[15] XV. 1 Pois a cada vez que lançava os dados no ressonante copo,
um e outro fugiam pelo fundo furado.
Quando, após recolhê-los, por ventura tentasse lançá-los juntos,
tal como um jogador e como quem sempre recorre aos dados,
tinha a esperança enganada: foge de novo de seus próprios dedos
o dado traiçoeiro e escapa num roubo eterno.
Da mesma forma, tal como o cume da montanha mal é tocado,
inúteis pesos são tirados dos ombros de Sísifo.
2 Apareceu, de súbito, Caio César Calígula e começou a reclamá-lo como escravo. Apresentou testemunhas, que o teriam visto, sob César, recebendo chicotadas, chibatadas e bofetadas. Ele é então oferecido a Caio César Calígula. Calígula presenteia Cláudio a Éaco. Este o traz até seu liberto Menandro, pra que seja posto à prova.[78]
Referências bibliográficas
BAKHTIN, M. A cultura popular na Idade Média e no Renascimento: o contexto de François Rabelais. Trad. Yara Frateschi Vieira. São Paulo: Editora Hucitec; Editora Universidade de Brasília, 1987.
BRISSON, L. Introdução à filosofia do Mito. São Paulo: Paulus, 2014.
SÉNÈQUE. L’Apocoloquintose du Divin Claude. Texte et traduction René Waltz. Paris: Les Belles Lettres, 2010.
SILVA, Frederico de Sousa. Apocolocintose do Divino Cláudio: Tradução, notas e comentários. 2008. 147 f. Dissertação (Mestrado em Letras Clássicas) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, São Paulo. 2008.
WALTZ, René. Introduction. In: SÉNÈQUE. L’Apocoloquintose du Divin Claude. Texte et traduction René Waltz. Paris: Les Belles Lettres, 2010, pp. I-X.
[3]: Aulo Pérsio Flaco foi um poeta satírico romano, de origem etrusca, e que teria vivido entre 34 d.C. e 62 d. C. Contemporâneo de Sêneca, também era adepto do estoicismo e sua obra foi traduzida integralmente para o português brasileiro apenas recentemente (Professor Fábio Cairolli, Editora Arché/Assimetria), dada à obscuridade da tarefa.
[4]: Tibério Cláudio César Augusto Germânico foi o quarto imperador da Dinastia Júlio-Claudiana, em Roma, parece ter vivido entre 10 a.C. e 54 d.C. O lyonense possuía diversas limitações, tanto físicas quanto sua famosa debilidade intelectual, apesar de que o imperador era considerado um estudante aplicado.
[5]: 13 de outubro de 54 d.C., data da morte de Cláudio.
[6]: Paródia das declarações de imparcialidade de historiadores: “enquanto o poeta pretendia transmitir uma tradição oral ultimamente fundada na autoridade das Musas, as filhas de Zeus e de Mnemosine (= Memória), sentiu-se a necessidade, especialmente entre os ‘historiadores’, de apoiar seus dizeres em um testemunho visual, direto ou indireto.” (BRISSON, 2014, p. 24).
[7]: Júlia Drusila, irmã de Calígula, com quem este queria se casar. Por 250.000 fundos, o senador Lívio Gêmeos teria afirmado ter visto a apoteose de Drusila (Dion, LIX. 11).
[8]: O autor da sátira aproxima aqui o verbo latino claudicare, “claudicar”, do nome do imperador Cláudio (que realmente era manco e claudicava).
[9]: Paródia da poesia pedante.
[10]: Afim ao deus grego, Hermes, Mercúrio é responsável por todo o tipo de trânsito de seres e transação de produtos, donde ser patrono de viajantes, comerciantes, mas também de ladrões.
[11]: As Parcas são divindades responsáveis pelo fado. Em número de três, com nomes significativos em grego antigo – Cloto [fiandeira], Láquesis [sorteadora] e Átropo [inviável] –, elas são representadas na mitologia clássica como as responsáveis por regular o fio da vida de cada um. Cloto fiava cada vida, Láquesis media a extensão do fio e Átropo o cortava.
[12]: Virgílio, Geórgicas IV. 90.
[13]: Alusão satírica às livres concessões de Cláudio, dando direito de cidadania aos provincianos (como ele mesmo).
[14]: Provável sátira à mudança no alfabeto (Augurini, Babae, Claudii) promovida por Cláudio.
[15]: Monte localizado na Grécia onde teriam nascido as nove Musas.
[16]: Títono, outro príncipe troiano como Anquises, ambos vítimas de Afrodite. No Hino homérico a Afrodite (218-238), Aurora pediu a Zeus que tornasse seu amante, Títono, imortal, esquecendo-se apenas de incluir a juventude eterna no pedido. Nestor é o velho sábio da Ilíada e Odisseia.
[17]: Com a imagem de um grotesco Nero de Suetônio (Nero 51) em mente e seu pretenso talento artístico comparado a Febo/ Apolo (Nero 20; 53), o deus solar da beleza e da música, o verso tem efeito cômico.
[18]: Para Sêneca, esse discurso é o de um cortesão bajulador, mas não excederia os limites comuns de tributos poéticos oferecidos a um novo princeps (WALTZ, 2010 p. 20).
[19]: Para Waltz (2010, p. 20) trata-se de citação irônica de Cresofonte, tragédia perdida de Eurípides (Cícero, Tusc. I. 115). O sentido original era que os amigos do morto se regozijam por ele ter deixado, enfim, a vida e suas misérias.
[20]: Comediantes foram levados ao Palácio após a morte de Cláudio per simulationem (Suetônio, Claud. 45).
[21]: Cláudio por Suetônio (Claud. 30) e por Dion Cássio (LX. 2.).
[22]: Na Odisseia, essas estruturas interrogativas são usadas sempre que um personagem questiona um estrangeiro sobre sua origem.
[23]: Crítica à mania de Cláudio falar em grego e citar Homero (Suetônio, Claud. 42).
[24]: Sobre as histórias escritas por Cláudio (Suetônio, Claud. 41 e 42).
[25]: Homero, Odisseia IX. 39.
[26]: Homero, Odisseia IX.40.
[27]: A ingenuidade de Hércules seria proverbial na antiguidade.
[28]: A deusa Februa, mãe de Marte, tinha altares sobre o Palatino, alusão provável à causa da morte oficial de Cláudio (atribuída à febre). Os outros deuses seriam mimados por Cláudio.
[29]: L. Munatius Plancus, fundador da Colônia romana de Lyon, em 43 a.C. (WALTZ, 2010). A estudiosa pontua que aqui o texto original foi alterado e esse nome surge apenas por conjecturas.
[30]: Antiga capital da Gália Narbonense, província do Império Romano que abrangia as atuais regiões de Provença e Languedoc (na França).
[31]: Procurador nomeado em Lugduno por Augusto. Dion Cássio (LIV. 21) relata que Licino exercera o cargo tiranicamente. Sêneca (Cartas a Lucílio XX. 119) e Marcial (VIII. 3) retratam-no como símbolo de riqueza.
[32]: Dos doze trabalhos, o décimo foi matar o gigante Gerião, monstro de três corpos, seis braços e seis asas, para tomar seus bois (Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.10).
[33]: A Colina de Fourvière, em cujo topo construíram Lyon, domina a confluência dos rios Saône e Rhône.
[34]: O atual rio Saône. César afirma sobre seu curso que era lento a ponto de os olhos não poderem discernir sua direção (César, de Bell. Gall. I. 12.1).
[35]: Jogo de palavras com gallum [gaulês].
[36]: Referência ao templo de Hércules em Tíbur, onde Cláudio muitas vezes exercia a justiça. Suetônio relata sua mania judiciária (Claud. 14-15).
[37]: Parte perdida do texto. Cláudio consegue se reconciliar com Hércules: graças ao herói, Cláudio obtém uma audiência com os deuses, numa sessão que imita as reuniões no Senado Romano.
[38]: Uma das divindades dirige-se a Hércules a respeito de Cláudio, uma vez que o herói grego agora parece favorável à divinização de Cláudio.
[39]: A ataraxia torna o deus epicureu indiferente e, por isso, incapaz de causar danos (ou qualquer outra coisa) aos outros. Cláudio, evidentemente, não poderia ser um.
[40]: Os estoicos identificam deus e a sabedoria à esfericidade do universo. Na passagem, Sêneca alude a uma sátira menipeia de Varrão em que se ironiza também o estoicismo.
[41]: Festividades romanas em dezembro, celebradas em honra ao deus Saturno. Similares a celebrações carnavalescas, as Saturnais viam a ordem social vigente ser quebrada e excessos serem cometidos. Segundo Suetônio (Cláudio, 32), o imperador teria oferecido muitas festas desse tipo o ano todo.
[42]: Junius Silanus, noivo de Otávia, filha de Cláudio. Caiu em desgraça após ser acusado por Vitélio de incesto com sua irmã Júnia Calvina: ele se matou no mesmo dia do casamento de Cláudio e Agripina, sobrinha do príncipe. Ao condenar Silano por incesto, Cláudio poderia ser visto como alguém que censurasse também o incesto de Júpiter e Juno (deuses irmãos).
[43]: Em Atenas, meios-irmãos por parte de pai podiam se casar (desde que não tivessem compartilhado o mesmo útero); em Alexandria, no Egito, os Ptolomeus costumavam desposar suas próprias irmãs.
[44]: Ditado colocado na boca de Cláudio como resposta ao que havia sido dito por Hércules: aqui, os ratos têm bem o que comer. Trata-se de um comentário irônico sobre a corrupção dos costumes em Roma, onde tudo passava a ser permitido.
[45]: Alusão ao casamento incestuoso de Cláudio com a sobrinha Agripina.
[46]: Alusão a um fragmento da peça Ifigênia, de Ênio: quod est ante pedes nemo spectat, caeli scrutantur plagas (Cícero, de Rep. I. 30) que recorda a fábula tradicional do astrólogo que cai num poço. O orador se indigna com a hipocrisia de Cláudio.
[47]: Cláudio ergueu um Templo em Camaloduno, na Bretanha, onde havia sido criado um colégio de sacerdotes para adorá-lo (Tácito, Ann. XIV. 31).
[48]: Trata-se de uma anedota romana: em Roma, a manhã era o único tempo dedicado aos negócios, enquanto a tarde era para o repouso; sendo assim, um “cônsul da tarde” é um cônsul ocioso. Jano assumirá o cargo no dia 1º de julho seguinte justamente por não fazer nada.
[49]: Homero, Ilíada III. 109. Expressão que se refere aqui às duas faces do deus Jano.
[50]: Homero, Ilíada, VI. 142. Os humanos.
[51]: Entre os antigos romanos, as Larvas eram um espírito malfazejo de um morto que vagueava entre os vivos para aterrorizá-los. Parecem ter alguma relação com as Fúrias gregas.
[52]: Antiga divindade itálica – Dies et pater –, pai da luz, posteriormente confundido com Júpiter. Já Vica Pota é a deusa das conquistas, mãe de Diéspiter. Ambos os deuses parecem ser genuinamente romanos.
[53]: Alusão ao tráfico de cidadanias, comum com Messalina, mãe de Britânico e ex-esposa de Cláudio. Tinha uma fama de promíscua, tida como “a Loba” pelo satírico Juvenal (Sat. VI).
[54]: Gesto familiar com que se convida uma pessoa a dizer a verdade, tendo em vista que – para alguns antigos – a sede da memória estaria no lóbulo da orelha.
[55]: Antônia, mãe de Cláudio, era sobrinha de Augusto. Seu pai, Druso, era filho de Lívia (a divina Augusta) e enteado de Augusto.
[56]: Sêneca faz alusão à gula de Cláudio.
[57]: Alusão às apoteoses de Rômulo, César e Augusto nas Metamorfoses de Ovídio.
[58]: Tácito (Ann. VI. 11) relata que, com a vastidão do Império, Augusto elegeu um magistrado para castigar os escravos e mantê-los sob controle. Messala Corvino foi o primeiro escolhido ao posto, mas em poucos dias deixou o cargo, alegando pouca afinidade com o ofício.
[59]: O provérbio indica que se passa a falar de coisas “mais próximas”, ou seja, de foro íntimo, doméstico.
[60]: Cláudio César Augusto.
[61]: Júlia, filha de Germânico e Júlia, filha de Druso, foram ambas vítimas das intrigas de Messalina: a primeira em 41 d.C. no processo de adultério que exilou Sêneca.
[62]: Silano era filho de Emília Lépida, neta de Júlia, filha de Augusto.
[63]: O orador, com astúcia, lembra que a condenação de Silano por incesto afetou indiretamente o próprio Júpiter.
[64]: Homero, Ilíada I. 591.
[65]: Homero, Ilíada XV. 18.
[66]: Tibério Cláudio Narciso deu, em nome de Cláudio, a ordem para matar Messalina. Cláudio estava à mesa quando soube que ela estava morta e se limitou a pedir uma bebida.
[67]: Em latim, a palavra é tabella, cujo significado mais direto é “pequeno quadro, placa ou superfície para escrita”. Aproveitando a curiosa proximidade entre essa tecnologia antiga de escrita e os modernos tablets, optamos, com fins cômicos, por um vocábulo em português que evocasse essa proximidade.
[68]: Catulo, III. 12.
[69]: Ágato é desconhecido. Tácito (Ann. XI. 5) relata que nunca houve coisa tão venal quanto a perfídia dos advogados do tempo de Cláudio. O imperador dava condições favoráveis a alguns, enquanto pressionava os juízes, desprestigiando-os.
[70]: Nênia é um canto fúnebre. O verso anapéstico é formado por três sílabas, as duas primeiras breves e a última longa, sendo característico de certos cantos lúgubres.
[71]: Referência a Minos, mitológico rei de Creta e um dos juízes do inferno, onde tinha assento para julgar as almas dos mortos.
[72]: Taltíbio, arauto de Agamêmnon, participou da Guerra de Tróia.
[73]: No momento em que Cláudio morria, Narciso estava nos banhos de Sinuessa, na Campânia, aliviando-se de problemas de gota. Suicidou-se a mando de Agripina e, por ser leal a Cláudio, revela aqui surpresa ao vê-lo no inferno, junto a homens (Tácito, Ann. XII. 66; Dion, LX. 34).
[74]: Horácio, Odes II. 13; 34.
[75]: Paródia dos festivais de culto a Ísis, onde é celebrado com semelhantes gritos o retorno do marido Osíris.
[76]: Todas essas são figuras tradicionais da mitologia clássica, condenadas a uma eternidade de suplícios por suas condutas criminosas. As fontes antigas narram de diferentes formas seus atos, embora pareça existir sempre um nexo entre os crimes cometidos e os castigos impostos. Além disso, é de se notar que o caráter perene de todos os castigos constitui o traço comum a todos eles. A passagem parece sugerir que o tribunal estaria pensando em transferir um dos castigos tradicionais a Cláudio, aliviando os criminosos mitológicos tradicionais.
[77]: O inusitado castigo é muito pior do que parece, pois diz respeito ao enigmático deus Amor, Cupido e suas setas, cujas chagas provocam a Libido: a Concupiscência, que orquestra crimes nefastos na obra trágica de Sêneca. O Desejo engendra crimes hediondos a qualquer tempo, posto que tiraniza o Tirano e subordina povos ao sabor de suas paixões. Tal Messias, tendo sujeitado um povo a perder seus parcos direitos, sua dignidade e suas vidas, agora, no Hades, experimenta a pavorosa sensação de eterno retorno do desejo e frustração, sendo assim, um ressentido vivo-morto através dos séculos.
[78]: Cláudio termina por servir como escravo de um escravo.