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Aboborização do Divino Cláudio (Latim–Português)

Sêneca

rolo estático · Pedra Angular

Autor
Sêneca
Tradutor
Camila Machado Reis, Rafael Guimarães Tavares Silva
Edição de base
Sénèque, L’Apocoloquintose du Divin Claude, texte et traduction René Waltz, Paris: Les Belles Lettres, 2010, segundo os tradutores (nota 79)
Idioma
lat, por
Ano do original
c. 54 d.C.
URN
urn:cts:latinLit:phi1017.phi011.pa-por2
Licença
CC-BY-NC-4.0
Fonte
Reis, Camila Machado; Silva, Rafael Guimarães Tavares. Uma sátira para o tirano já ir dar o fora: Aboborização do Divino Cláudio de Sêneca no Brasil contemporâneo. Codex: Revista de Estudos Clássicos, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 331-356, 2020. ISSN 2176-1779. DOI 10.25187/codex.v8i1.32928.
Identificador
seneca-apocoloquintose-lat-pt-reis-2020
Markdown
../livros/FILOSOFIA/Latim/Interlineares_Latim/Estoicismo_Latino/Seneca/Apocoloquintose/Seneca_Apocoloquintose_lat-pt_Reis_2020.md
Endereço por URN
https://pedraangular.app.br/urn/?urn:cts:latinLit:phi1017.phi011.pa-por2 (uma passagem: acrescente :216a, :1.1…)
Como citar
SÊNECA. Aboborização do Divino Cláudio (Latim–Português). Tradução de Camila Machado Reis, Rafael Guimarães Tavares Silva. Pedra Angular (org. Διαφορεύς), versão 1.0.0. DOI: 10.5281/zenodo.23068915. URN: urn:cts:latinLit:phi1017.phi011.pa-por2. Disponível em: https://pedraangular.app.br/rolo/seneca-apocoloquintose-lat-pt-reis-2020.html. Acesso em: [data do acesso].
BibTeX (Zotero, LaTeX)
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Aboborização do Divino Cláudio (Latim–Português)

§ 1

Latim

[1] I. 1 Quid actum sit in caelo ante diem III idus Octobris anno nouo, initio saeculi felicissimi, uolo memoriae tradere. Nihil nec offensae nec gratiae dabitur. Haec ita uera; si quis quaesiuerit unde sciam, primum, si noluero, non respondebo. Quis coacturus est? Ego scio me liberum factum, ex quo suum diem obiit ille, qui verum prouerbium fecerat, aut regem aut fatuum nasci oportere. 2 Si libuerit respondere, dicam quod mihi in buccam uenerit. Quis unquam ab historico iuratores exegit? Tamen, si necesse fuerit auctorem producere, quaerito ab eo qui Drusillam euntem in caelum uidit: idem Claudium uidisse se dicet iter facientem “non passibus aequis”.[80] Velit nolit, necesse est illi omnia uidere quae in caelo aguntur: Appiae uiae curator est, qua scis et diuum Augustum et Tiberium Caesarem ad deos isse. 3 Hunc si interrogaueris, soli narrabit. Coram pluribus nunquam uerbum faciet: nam ex quo in senatu iurauit se Drusillam uidisse caelum ascendentem et illi pro tam bono nuntio nemo credidit, quod uiderit uerbis conceptis affirmauit se non indicaturum, etiam si in medio foro hominem occisum uidisset. Ab hoc ego quae tum audiui certa clara affero, ita illum saluum et felicem habeam.

Português

[1] I. 1 Em nome da memória, quero transmitir o que se passou no céu, no dia 3 antes dos idos de outubro[5] de um novo ano, início de um felicíssimo século, de forma imparcialíssima! Nem ressentimento nem reconhecimento ditarão minhas palavras.[6] Daí, se você perguntar sobre a fonte do que narro aqui, primeiramente saiba que, caso eu não queira, não respondo, não. Quem é obrigado?! Só sei que me tornei livre ao findar dos dias daquele que tornara verdadeiro o provérbio convém nascer tanto rei quanto idiota. 2. Se me agradar responder, direi o que me vier à boca. Quem é que vai exigir juramento de historiador?! Entretanto, se for necessário criar uma testemunha, questione aquele que viu Drusila[7] entrar no céu: ele te dirá que viu Cláudio fazer o mesmo percurso “em passos não iguais”![8] Quer queira quer não, é necessário ver tudo o que se passa no céu: ele é o guardador da Via Ápia, por onde, você sabe, o divino Augusto e Tibério César foram aos deuses. 3 Este, se interrogado a sós, narrará direitinho pra você, pois cara a cara, na presença de muitos, jamais há de soltar o verbo. É que, desde que jurou, no Senado, ter visto Drusila subir em cima do pé de goiaba, e como diante de tão bom anúncio ninguém acreditasse nele, o homem afirmou com palavras inflamadas que ficaria de bico calado, ainda que visse uma facada em pleno Fórum. Tudo o que ouvi dele, trago aqui com certeza e clareza: assim, que eu o tenha sempre são e salvo.

§ 2

Latim

[2] II. 1 Iam Phoebus breuiore uia contraxerat ortu

Lucis et obscuri crescebant tempora somni,

Iamque suum uictrix augebat Cynthia regnum,

Et deformis Hiems gratos carpebat honores

Diuitis Autumni, iussoque senescere Baccho

Carpebat raras serus uindemitor uuas.

2 Puto magis intellegi si dixero: mensis erat October, dies III idus Octobris. Horam non possum certam tibi dicere: facilius inter philosophos quam inter horologia conueniet. Tamen inter sextam et septimam erat. 3 - Nimis rustice! Adquiescunt omnes poetae, non contenti ortus et occasus describere, ut etiam medium diem inquietent: tu sic transibis horam tam bonam?’

4 Iam medium curru Phoebus diuiserat orbem

Et propior nocti fessas quatiebat habenas,

Obliquo flexam deducens tramite lucem.

Português

[2] II. 1 Já Febo havia abreviado à mais curta via a ascensão

da luz e os sombrios sonos cresciam em duração;

já Cíntia, vitoriosa, aumentava seu reino;

e o disforme Inverno arrancava os gratos adornos

do abonado Outono, enquanto – Baco envelhecendo –

o tardio apanhador arrancava as uvas derradeiras.[9]

2 Acho que eu poderia ser mais claro se tivesse dito: o mês era outubro; o dia, o terceiro dos idos de outubro. As horas não posso te dizer com certeza: mais facilmente se colocarão de acordo entre si os filósofos do que os relógios. Enfim, foi algo entre a sexta e a sétima hora. 3 “– Que deselegante!”, alguém diz, “não contentes em descrever apenas a aurora e o crepúsculo, todos os poetas se inquietam ainda com o meio-dia: como você pode passar por cima de uma hora tão boa?”

4 Já, pelo meio, Febo em seu carro dividira o dia

e mais perto da noite sacudia as rédeas gastas,

após levar a luz recurva em bem curvada via.

§ 3

Latim

[3] III. 1 Claudius animam agere coepit nec inuenire exitum poterat. Tum Mercurius, qui semper ingenio eius delectatus esset, unam e tribus Parcis seducit et ait: ‘quid, femina crudelissima, hominem miserum torqueri pateris? Nec unquam tam diu cruciatus cesset? Annus sexagesimus et quartus est, ex quo cum anima luctatur. Quid huic et reipublicae inuides? 2. Patere mathematicos aliquando uerum dicere, qui illum, ex quo princeps factus est, omnibus annis, omnibus mensibus efferunt. Et tamen non est mirum si errant et horam eius nemo nouit: nemo enim umquam illum natum putauit. Fac quod faciendum est: “dede neci, melior uacua sine regnet in aula.”3 Sed Clotho: ‘ego mehercules’ inquit ‘pusillum temporis adicere illi uolebam, dum hos pauculos qui supersunt ciuitate donaret: constituerat enim omnes Graecos, Gallos, Hispanos, Britannos togatos uidere. Sed quoniam placet aliquos peregrinos in semen relinqui et tu ita iubes fieri, fiat.’ 4 Aperit tum capsulam et tres fusos profert: unus erat Augurini, alter Babae, tertius Claudii. ‘Hos, inquit, tres uno anno exiguis interuallis temporum diuisos mori iubebo, nec illum incomitatum dimittam. Non oportet enim eum, qui modo se tot milia hominum sequentia uidebat, tot praecedentia, tot circumfusa, subito solum destitui. Contentus erit his interim conuictoribus.’

Português

[3] III. 1 Cláudio começou a expulsar sua alma e não podia encontrar uma saída. Então Mercúrio,[10] que sempre se deleitou com a engenhosidade dele, chama à parte uma das três Parcas[11] e diz: “Crudelíssima mulher, pra quê torturar esse homem infeliz? Tão grande sofrimento jamais há de cessar? Sessenta e quatro anos se debatendo com tal alma! Por acaso, tal desejo moroso seria por inveja dele e da República? 2 Permita aos astrólogos dizerem, de vez em quando, pelo menos uma única verdade: desde que virou príncipe, todos os anos e todos os meses tratam de enterrá-lo. Mas também, não é de se admirar que errem e que ninguém tenha conhecido a hora dele: pra falar a verdade, no fundo ninguém imaginou que nasceria. Faça o que tem de ser feito: ‘Dá-lhe morte! Que reine um melhor em seu lugar!’[12]” 3 Mas aí vem uma delas, Cloto: “Por Hércules!”, diz, “eu queria adicionar-lhe um pouquinho a mais de tempo, pra que presenteasse com a cidadania os poucos que ainda faltam: prometeu que todos – Gregos, Gauleses, Hispanos, Bretões[13] – seriam vistos de toga! Mas se te apraz conservar em semente um punhado de estrangeiros e você ordena que assim seja feito, que assim seja!” 4 Então, ela abre uma caixinha e exibe três fusos: um era de Augurino, outro de Baba e o terceiro de Cláudio.[14] “A esses três”, diz, “dentro de um ano, a curtos intervalos de tempo, ordenarei que morram, de modo que ele não seja enviado sem companhia. Na verdade, não é bom pra ele, que se via sempre seguido por tantos milhares de homens, precedido por uns tantos e rodeado por outros quantos, do nada ser largado sozinho. Há de se contentar, por ora, com esses companheiros.”

§ 4

Latim

[4] IV. 1 Haec ait et turpi conuoluens stamina fuso,

Abrupit stolidae regalia tempora uitae.

At Lachesis, redimita comas, ornata capillos,

Pieria crinem lauro frontemque coronans,

Candida de niueo subtemina uellere sumit,

Felici moderanda manu, quae ducta colorem

Assumpsere nouum. Mirantur pensa sorores:

Mutatur uilis pretioso lana metallo;

Aurea formoso descendunt saecula filo.

Nec modus est illis: felicia uellera ducunt

Et gaudent implere manus: sunt dulcia pensa.

Sponte sua festinat opus nulloque labore

Mollia contorto descendunt stamina fuso:

Vincunt Tithoni, uincunt et Nestoris annos.

Phoebus adest cantuque iuuat gaudetque futuris

Et laetus nunc plectra mouet, nunc pensa ministrat.

Detinet intentas cantu fallitque laborem;

Dumque nimis citharam fraternaque carmina laudant,

Plus solito neuere manus humanaque fata

Laudatum transcendit opus. ‘Ne demite, Parcae’

Phoebus ait; ‘uincat mortalis tempora uitae

Ille mihi similis uultu similisque decore

Nec cantu nec uoce minor. Felicia lassis

Saecula praestabit legumque silentia rumpet.

Qualis discutiens fugientia Lucifer astra

Aut qualis surgit redeuntibus Hesperus astris,

Qualis, cum primum tenebris Aurora solutis

Induxit rubicunda diem, Sol aspicit orbem

lucidus et primos a carcere concitat axes,

Talis Caesar adest, talem iam Roma Neronem

Aspiciet. Flagrat nitidus fulgore remisso

Vultus et adfuso ceruix formosa capillo.’

2 Haec Apollo. At Lachesis, quae et ipsa homini formosissimo faueret, fecit illud plena manu et Neroni multos annos de suo donat. Claudium autem iubent omnes χαιρόντας, εὐφημοῦντας ἐκπέμπειν δόμων. Et ille quidem animam ebulliit, et ex eu desiit uiuere uideri. Exspirauit autem dum comoedos audit, ut scias me non sine causa illos timere. 3 Vltima uox eius haec inter homines audita est, cum maiorem sonitum emisisset illa parte qua facilius loquebatur: ‘Vae me, puto, concacaui me.’ Quod an fecerit, nescio; omnia certe concacauit.

Português

[4] IV. 1 Cloto diz isso e, volvendo o fio sobre um fuso horrendo,

interrompe os tempos de rei de uma vida estúpida,

mas Láquesis, cingida no cabelo, ornada em seus fios,

coroando sua fronte e crina com os louros da Piéria[15],

a cândida trama assume de um novelo níveo,

a temperar com mão fecunda aquela, que assim trazida,

assume nova cor. As irmãs admiram os trabalhos:

a lã transmuta-se de pelo em precioso metal,

enquanto eras áureas descendem do fio formoso.

Nada as detém: afortunado velo conduzem;

e regozijam-se em encher as mãos: agradáveis que são os trabalhos.

Láquesis espontaneamente apressa a obra e, sem esforço,

os fios macios descendem do emaranhado fuso.

Eles superam a Títono e a Nestor,[16] superam em anos.

Febo apresenta-se com seu canto, auxilia e regozija-se pelo porvir,

alegre, ora maneja a lira, ora ministra os trabalhos.

O canto cativa e faz esquecer a labuta.

E, simultaneamente, louvam cítara e poemas fraternos, mais habituadas fiam as mãos e os destinos humanos

transcendem a excelente obra. “Não arrebatem, Parcas!”,

Febo diz, “Que ele supere o tempo de vida dos mortais

a mim similar no semblante e similar na beleza,

em canto e em voz jamais inferior.[17] Felizes séculos

aos abatidos oferecerá e das leis romperá o silêncio.

Qual Estrela da Manhã sacudindo os afastados astros,

qual Estrela Vespertina surgindo aos astros que retornam,

qual Aurora erubescente ao desatar das trevas

trazendo o dia, assim o luminoso Sol examina a terra

e atiça os primeiros raios já da barra:

tal César se faz presente, a tal Nero Roma já

contemplará. Flameja com fulgor seu reluzente

rosto e, com cabeleira derramada o formoso pescoço.[18]

2 Tal é o que diz Apolo. Por outro lado, Láquesis, a fim de que ela própria favorecesse o formosíssimo homem, bota a mão na massa e doa muitos anos a Nero. Para Cláudio, porém ordenam todos χαιρόντας, εὐφημοῦντας ἐκπέμπειν δόμων [alegrando-se e louvando expulsá-lo da morada]![19] E ele, deveras, deixou a alma sair em borbulhas e já não foi mais visto em vida. Exalou-se, com efeito, enquanto ouvia comediantes, pra você saber que não é sem motivo que tenho medo deles.[20] 3 Tal foi sua última nota ouvida entre os homens, quando então emitiu o maior estrondo por aquela parte, pela qual discursava com tanta facilidade: “Ai de mim, acho que me caguei!” Que ele o tenha feito, ignoro. O certo é que cagou tudo.

§ 5

Latim

[5] V. 1 Quae in terris postea sint acta superuacuum est referre. Scitis enim optime, nec periculum est ne excidant quae memoriae gaudium publicum impresserit: nemo felicitatis suae obliuiscitur. In caelo quae acta sint audite: fides penes auctorem erit. 2 Nuntiatur Ioui uenisse quendam bonae staturae, bene canum; nescio quid illum minari, assidue enim caput mouere; pedem dextrum trahere. Quaesisse se cuius nationis esset: respondisse nescio quid perturbato sono et uoce confusa. Non intellegere se linguam eius: nec Graecum esse nec Romanum nec ullius gentis notae. 3 Tum Iuppiter Herculem, qui totum orbem terrarum pererrauerat et nosse uidebatur omnes nationes, iubet ire et explorare quorum hominum esset. Tum Hercules primo aspectu sane perturbatus est, ut qui etiam non omnia monstra timuerit: ut uidit noui generis faciem, insolitum incessum, uocem nullius terrestris animalis sed qualis esse marinis beluis solet, raucam et implicatam, putauit sibi tertium decimum laborem uenisse. 4 Diligentius intuenti uisus est quasi homo. Accessit itaque et quod facillimum fuit Graeculo, ait: Τις πόθεν εἶς ανδρῶν; πόθι τοὶ πόλις ἠδὲ τοκῆες;

Claudius gaudet esse illic philologos homines: sperat futurum aliquem historiis suis locum. Itaque, et ipse Homerico uersu Caesarem se esse significans ait:

Ἰλιόθεν με φέρων ἄνεμος Κικόνεσσι πέλασσεν.

Erat autem sequens uersus uerior, aeque Homericus:

ἔνθα δ› ἐγὼ πόλιν ἔπραθον, ὤλεσα δ› αὐτούς.

Português

[5] V. 1 Aquilo que ocorreu posteriormente na Terra é supérfluo reproduzir. Na verdade, vocês sabem tudo direitinho: não há perigo que escape da memória aquilo que a alegria do povo registrou. Ninguém esquece a sua felicidade. No céu, o que ocorreu escutem: a boa-fé estará no rabo-preso de uma autoridade. 2 Anuncia-se a Júpiter a chegada de alguém de boa estatura, com cabelos bem grisalhos. Não sei o que ele ameaça de tanto que mexe a cabeça e arrasta o pé direito.[21] Questionaram-lhe de que nação era: não sei o que respondeu com barulho estranho e voz confusa. Não se compreende a língua dele: não é grego, nem romano, nem de nenhum povo conhecido. 3 Então Júpiter manda Hércules, que havia percorrido todo o globo terrestre e parecia ter visto todas as nações, ir e averiguar que criatura era aquela. Daí, Hércules à primeira vista fica muito perturbado, como se ainda não tivesse enfrentado todos os monstros: assim que viu a fuça daquela nova espécie, o passo bizarro, a voz que não era de nenhum bicho da terra, mas tal e qual soava alguma besta marinha – rouca e indistinta – imaginou ter caído no seu 13º trabalho. 4 Examinando com cuidado, a figura quase pareceu humana. Assim, aproximou-se e – o que foi facílimo pra um greguinho – disse:

“Τις πόθεν εἶς ανδρῶν; πόθι τοὶ πόλις ἠδὲ τοκῆες; [Quem és e donde vens dentre os homens? Qual é tua pólis e teus progenitores?]”[22]

Claúdio alegra-se: havia filólogos ali![23] Tem esperanças de que haverá um lugar pra suas histórias.[24] Por isso, ele mesmo, pra parecer um César que se expressa em verso homérico, disse:

“Ἰλιόθεν με φέρων ἄνεμος Κικόνεσσι πέλασσεν. [De Ílio afastou-me o vento, aproximando-me dos Cícones!]”[25]

Porém o verso seguinte era mais próximo da verdade e igualmente homérico:

“ἔνθα δ’ ἐγὼ πόλιν ἔπραθον, ὤλεσα δ’ αὐτούς. [Lá eu saqueei a cidade, destruí os que lá estavam.]”[26]

§ 6

Latim

[6] VI. 1 Et imposuerat Herculi minime uafro, nisi fuisset illic Febris, quae fano suo relicto sola cum illo uenerat; ceteros omnes deos Romae reliquerat. ‘Iste, inquit, mera mendacia narrat. Ego tibi dico, quae cum illo tot annis uixi: Luguduni natus est, Munati municipem uides. Quod tibi narro, ad sextum decimum lapidem natus est a Vienna, Gallus germanus. Itaque, quod Gallum facere oportebat, Romam cepit. Hunc ego tibi recipio Luguduni natum, ubi Licinus multis annis regnauit. Tu autem, qui plura loca calcasti quam ullus mulio perpetuarius, Lugudunenses scire debes et multa milia inter Xanthum et Rhodanum interesse.’ 2 Excandescit hoc loco Claudius et quanto potest murmure irascitur. Quid diceret nemo intellegebat; ille autem Febrim duci iubebat, illo gestu solutae manus, et ad hoc unum satis firmae, quo decollare homines solebat. Iusserat illi collum praecidi: putares omnes illius esse libertos, adeo illum nemo curabat.

Português

[6] VI. 1 E assim ele teria enganado Hércules,[27] o menos sagaz, se ali também não estivesse a Febre, a única que tinha abandonado seu santuário para vir com ele: deixara todos os outros deuses em Roma.[28] “Esse aí”, diz, “está contando mentira pura. Eu, que tantos anos vivi com ele, só te digo isto: nascido em Lyon, você está vendo um concidadão de Munácio.[29] O que te conto é que nasceu a dezesseis milhas de Viena,[30] um gaulês genuíno. Dessa maneira, exatamente como um verdadeiro gaulês deveria fazer, apossou-se de Roma. Isso eu te garanto: é nascido em Lyon, onde Licínio[31] reinou muitos anos. Você, porém, que por mais lugares calcou os pés do que um muleiro atarefado, deve conhecer os lyonenses e saber que entre o rio Xanto e o Ródano existem muitas milhares de milhas. 2 Com isso, Cláudio explode e vocifera o quanto pode com raiva. O que diz ninguém compreende. Ele, no entanto, ordena que Febre seja conduzida, com aquele gesto da mão soltinha, mas firme o bastante pois habituada a degolar as pessoas. Afinal, ele tinha decretado cortar sua cabeça: você imaginaria que eram todos dependentes dele, mas até o momento ninguém se importou.

§ 7

Latim

[7] VII.1 Tum Hercules: ‘Audi me, inquit, tu desine fatuari. Venisti huc, ubi mures ferrum rodunt. Citius mihi uerum, ne tibi alogias excutiam.’ Et quo terribilior esset, tragicus fit et ait: 2 ‘Exprome propere sede qua genitus cluas,

Hoc ne peremptus stipite ad terram accidas:

Haec claua reges saepe mactauit feros.

Quid nunc profatu uocis incerto sonas?

Quae patria, quae gens mobile eduxit caput?

Edissere. Equidem regna tergemini petens

Longinqua regis, unde ab Hesperio mari

Inachiam ad urbem nobile aduexi pecus,

Vidi duobus imminens fluuiis iugum,

Quod Phoebus ortu semper obuerso uidet,

Vbi Rhodanus ingens amne praerapido fluit

Ararque, dubitans quo suos cursus agat,

Tacitus quietis adluit ripas uadis.

Estne illa tellus spiritus altrix tui?’

3 Haec satis animose et fortiter; nihilo minus mentis suae non est et timet μώρου πληγήν[81]. Claudius, ut uidit uirum ualentem, oblitus nugarum, intellexit neminem Romae sibi parem fuisse, illic non habere se idem gratiae: gallum in suo sterquilino plurimum posse. 4. Itaque, quantum intellegi potuit, haec uisus est dicere: ‘’Ego te, fortissime deorum Hercule, speraui mihi adfuturum apud alios, et si qui a me notorem petisset, te fui nominaturus, qui me optime nosti. Nam, si memoria repetis, ego eram qui tibi ante templum tuum ius dicebam totis diebus mense Iulio et Augusto. 5. Tu scis quantum illic miseriarum tulerim, cum causidico audirem diem et noctem, in quos si incidisses, ualde fortis licet tibi uidearis,maluisses cloacas Augeae purgare: multo plus ego stercoris exhausi.

Sed quoniam uolo [...]

Português

[7] VII. 1 Hércules então disse: “Me ouve. Deixa de tagarelar. Você veio pra cá, onde o osso é duro de roer. Me dê depressa a verdade, antes que eu te arranque os disparates à força”. E, pra que fosse mais terrível, ele se faz de trágico e diz:

2 “Declara já o lugar em que tu, gerado, tens fama,

para que não caias por terra, sob minhas pauladas.

Este porrete muitas vezes destroçou ferozes reis.

O que, no momento, proferes com voz incerta?

Que pátria, que povo gerou tão volúvel criatura?

Explica a fundo. Quanto a mim, tendo atacado o reino

longínquo do trigêmeo rei,[32] donde, pelo mar Hespério,

conduzi para a cidade de Argos o conhecido rebanho,

vi pendurado acima de dois rios um pico,

que Febo sempre vê do outro lado da aurora,[33]

onde flui o Ródano vasto em água, rápido,

e o Arar, hesitante sobre o rumo de seu curso,[34]

tácito, banha com ondas mansas as margens.

É aquela terra ama-de-leite do teu espírito?”

3 Essas coisas diz com coragem e força, mas não está em seu juízo perfeito e teme um μώρου πληγήν [ataque de loucura]. Cláudio, quando viu o homem valente, compreendeu – esquecido das ninharias – que ninguém em Roma foi comparável a ele próprio, embora ali não tivesse o mesmo reconhecimento: afinal, um galo pode muitíssimas coisas em seu próprio monte de esterco.[35] 4 Assim, do que foi possível entender, parece que disse o seguinte: “Hércules, mais forte dos deuses, eu esperava que você estivesse comigo junto aos outros, e se alguém me pedisse fiador, eu daria o seu nome, já que me conhece muito bem. Agora, vou refrescar sua memória, pois eu era aquele que diante do seu templo, o dia inteiro, nos meses de julho e agosto, te consagrava a justiça, tá ok?[36] 5 Você sabe quanta miséria tolerei ali, enquanto ouvia dia e noite aqueles advogadozinhos de araque? Se você caísse no meio deles, por mais forte que pareça ser, ia preferir limpar os currais de Áugias: muito mais merda eu próprio tive que limpar. Mas, já que eu quero ...” […][37]

§ 8

Latim

[8] VIII. 1 ‘’...Non mirum quod in curiam impetum fecisti: nihil tibi clausi est. Modo dic nobis qualem deum istum fieri uelis. Ἐπικούρειος θεὸς non potest esse: οὑτε αὐτὸς πράγμα ἔχει οὑτε ἄλλοις. Stoicus? Quomodo potest rotundus esse, ut ait Varro, “sine capite, sine praeputio”? Est aliquid in illo Stoici dei, iam uideo: nec cor nec caput habet. 2 Si mehercules a Saturno petisset hoc beneficium, cuius mensem toto anno celebrauit Saturnalicius princeps, non tulisset illud, nedum ab Ioue, quem, quantum quidem in illo fuit, damnauit incesti. Silanum enim generum suum occidit, oro, propter quid? Sororem suam, festiuissimam omnium puellarum, quam omnes Venerem uocarent, maluit Iunonem uocare. ‘Quare, inquis, quaero enim, sororem suam?’ Stulte, stude: Athenis dimidium licet, Alexandriae totum. 3 Quia Romae, inquit, mures molas lingunt, hic nobis curua corriget? Quid in cubiculo suo faciat nescio et; iam “caeli scrutatur plagas”! Deus fieri uult: parum est quod templum in Britannia habet, quod hunc nunc barbari colunt et ut deum orant μώρου εὐιλάτου τύχην ?’

Português

[8] VIII. 1 “Não é admirável aquilo que você atacou na Cúria: não há nada proibido pra você.[38] Apenas nos diga qual deus deseja que este se torne. Um Ἐπικούρειος θεὸς [deus epicureu] não pode ser: afinal, um desses οὑτε αὐτὸς πράγμα ἔχει οὑτε ἄλλοις [nem tem problemas, nem causa problemas pros outros].[39] Estoico? De que modo pode ser esférico, como disse Varrão, ‘sem cabeça, sem prepúcio’[40]? Há algo de deus estoico nele, agora vejo: não tem coração nem cabeça. 2 Se, por Hércules!, tivesse pedido esse benefício a Saturno, cujo mês costumava celebrar o ano todo – como se fosse o próprio príncipe das Saturnais[41] –, mesmo assim não o teria obtido. Muito menos junto a Júpiter, que, embora o tivesse em alta conta, acabou condenando por causa do incesto. Afinal, Silano – seu genro – foi morto e eu me pergunto: por que motivo?[42] Sua irmã, a mais graciosa das moças, a quem todos chamavam Vênus, ele preferiu chamar de Juno. ‘Por quê?’, você pergunta, ‘Por que sua irmã?’ Estúpido, estude: é permitido a metade em Atenas e em Alexandria por inteiro.[43] 3 ‘Porque em Roma’, você diz, ‘os ratos lambem farinha’.[44] E este aí por acaso quer nos endireitar o que é torto? Não sei o que você faz entre quatro paredes... com a sobrinha,[45] mas já ‘procura perscrutar o espaço do céu’[46]! Desejas fazer-se deus? Pouco é quem tem um templo na Bretanha,[47] para quem hoje cultuam os bárbaros e a quem suplicam como a um deus pela μώρου εὐιλάτου τύχην [fortuna de um idiota útil]?”

§ 9

Latim

[9] IX. 1 Tandem Ioui uenit in mentem, priuatis intra curiam morantibus, nec sententiam dicere licere nec disputare. ‘’Ego, inquit. P. C., interrogare uobis permiseram, uos mera mapalia fecistis. Volo ut seruetis disciplinam curiae. Hic, qualiscumque est, quid de nobis existimauit?’ 2 Illo dimisso, primus interrogatur sententiam Ianus pater. Is designatus erat in kal. Iulias postmeridianus consul, homo quantumuius uafer, qui semper uidet άμα πρόσσω χαι οπίσσω. Is multa diserte, quo in foro uiuat, dixit, quae notarius persequi non potuit, et ideo non refero, ne aliis uerbis ponam quae ab illo dicta sunt. 3 Multa dixit de magnitudine deorum; non debere hunc uulgo dari honorem. ‘’Olim, inquit, magna res erat deum fieri: iam Fabam mimum fecisti. Itaque ne uidear in personam, non in rem dicere sententiam, censeo ne quis post hunc diem deus fiat ex his qui ἀρούρης καρπὸν ἔδουσιν aut ex his, quos alit ζείδωρον ἄρουραν. Qui contra hoc senatus consultum deus fictus dictus pictusue erit, eum dedi Laruis et proximo munere inter nouos auctoratos ferulis uapulare placet.’’ 4 Proximus interrogatur sententiam Diespiter, Vicae Potae filius, et ipse designatus consul, nummulariolus: hoc quaestu se sustinebat, uendere ciuitatulas solebat. Ad hunc belle accessit Hercules et auriculam illi tetigit. Censet itaque in haec uerba: 5 ‘’Cum Diuus Claudius et Diuum Augustum sanguine contingat nec minus Diuam Augustam auiam suam, quam ipse deam esse iussit, longeque omnes mortales sapientia antecellat sitque e re publica esse aliquem qui cum Romulo possit ‘feruentia rapa uorare’, censeo uti Diuus Claudius ex hac die deus sit ita uti ante eum quis optimo iure factus sit, eamque rem ad Metamorphosis Ouidi adiciendam.’’ 6 Variae erant sententiae, et uidebatur Claudius sententiam uincere. Hercules enim, qui uideret ferrum suum in igne esse, modo huc modo illuc cursabat et aiebat: ‘’Noli mihi inuidere, mea res agitur; deinde tu si quid uolueris, in uicem faciam: manus manum lauat.’’

Português

[9] IX. 1 Por fim, vem à mente de Júpiter que não é permitido, com particulares dentro da Cúria, examinar ou discutir a sentença dos morosos senadores. “Eu”, diz, “tinha permitido que o interrogassem e vocês fizeram daqui a casa-da-mãe-joana. Quero que preservem o regulamento da Casa. Este aí, quem quer que ele seja, o que pensará de nós?” 2 Com Cláudio dispensado, o primeiro a ser indagado é o pai Jano. Fora designado cônsul vespertino nas calendas de julho,[48] um homem tão sabedor de como se portar que sempre vê “ἅμα πρόσσω καὶ ὀπίσσω [simultaneamente atrás e adiante]”.[49] Ele, eloquentemente – como alguém que vivia no Fórum –, disse muitas coisas que o escrivão não conseguiu acompanhar, e, por isso, não as repito: é para não colocar palavras na boca dele. 3 Muito disse a respeito da magnitude dos deuses e que essa honra não deveria ser dada pra um fulano qualquer. “Antigamente”, diz, “era grande coisa fazer-se deus: agora vocês mandaram a farsa às favas. Assim, pra que não pareça que opino sobre esta pessoa ou esta matéria, declaro em alto e bom som que ninguém, após o dia de hoje, seja feito deus daqueles que ‘ἀρούρης καρπὸν ἔδουσιν [comem o fruto da terra]’,[50] ou daqueles que alimenta ‘ζείδωρον ἄρουραν [a abundante terra]’. Quem, contra essa decisão do Senado, for feito ou pintado deus, eu entregarei às Larvas[51] e, no próximo espetáculo, entre os novos gladiadores será causa de deleite que leve umas chibatadas.” 4 O próximo indagado por seu juízo é Diéspiter, filho de Vica Pota,[52] ele também cônsul designado, um pequeno banqueiro. Com esta ocupação se sustentava: costumava vender cidadanias.[53] Hércules se aproximou dele e tocou sua orelha.[54] Dessa forma, Diéspiter declara em alto e bom som essas palavras: 5 “Como o Divino Cláudio é consanguíneo do Divino Augusto, não menos que de sua avó, a Divina Augusta – que ele mesmo decretou ser uma deusa[55] –, e uma vez que ele supera em sabedoria de longe a todos os mortais e é alguém que na República se mostra capaz, como Rômulo, de ‘comer nabos ferventes’,[56] declaro que o Divino Cláudio, a partir do dia de hoje, seja um deus, assim como quem antes dele, através dessa ótima lei, tenha sido feito deus, e que isso seja adicionado às Metamorfoses de Ovídio.[57]” 6 Vários eram os juízos e Cláudio parecia vencer. Na verdade, Hércules – vendo seu ferro no fogo –, corria daqui pra lá e dizia: “Não me complique as coisas, só estou cuidando dos meus interesses. Depois, se quiser algo, na sua vez farei o mesmo: uma mão lava a outra.”

§ 10

Latim

[10] X. 1 Tunc diuus Augustus surrexit sententiae suae loco dicendae et summa facundia disseruit: ‘Ego, inquit, P.C., uos testes habeo, ex quo deus factus sum, nullum me uerbum fecisse. Semper meum negotium ago. Sed non possum amplius dissimulare et dolorem, quem grauiorem pudor facit, continere. 2 In hoc terra marique pacem peperi? Ideo ciuilia bella compescui, ideo legibus Vrbem fundaui, operibus ornaui, ut...Quid dicam, P.C., non inuenio: omnia infra indignationem uerba sunt. Confugiendum est itaque ad Messalae Coruini, disertissimi uiri, illam sententiam: “Pudet imperii”. 3 Hic, P.C., qui uobis non posse uidetur muscam excitare, tam facile homines occidebat quam canis excidit. Sed quid ego de tot ac talibus uiris dicam? Non uacat deflere publicas clades intuenti domestica mala. Itaque illa omittam, haec referam; nam, etiam si † sormea † graece nescit, ego scio: ἐγγίον γόνυ κνήμης. 4 Iste quem uidetis, per tot annos sub meo nomine latens, hanc mihi gratiam rettulit, ut duas Iulias proneptes meas occideret, alteram ferro, alteram fame, unum abnepotem L. Silanum: uideris, Iuppiter, an in causa mala; certe in tua, si aequus futurus es. Dic mihi, diue Claudi: quare quemquam ex his quos quasque occidisti, antequam de causa cognosceres, antequam audires, damnasti? Hoc ubi fieri solet? In caelo non fit.

Português

[10] X. 1 Então, o divino Augusto levantou-se de seu lugar e disse com suma eloquência seu discurso: “Eu”, diz, “tenho vocês, senadores, como testemunhas de que não disse palavra alguma desde que fui feito deus: sempre me ocupo com meus próprios assuntos. Mas não posso mais dissimular nem conter essa dor que a vergonha torna insuportável. 2 Foi para isso que criei paz na terra e no mar? Foi em prol disso que contive as guerras civis? Foi por causa disso que fundei a cidade por meio de leis, embelezei-a com obras a fim de que...? O que dizer, senadores, não encontro: todas as palavras são inferiores à minha indignação. Assim sendo, é preciso buscar refúgio no que disse Messala Corvino,[58] homem muitíssimo eloquente: ‘envergonha-me o poder’. 3 Este, que a vocês, senadores, parece não ser capaz de fazer mal sequer a uma mosca, tão fácil matava homens quanto um cão se senta. Mas o que eu direi de homens tantos e tais? Afinal, ele não tem tempo pra lamentar ruínas públicas com a depravação doméstica que o encara. Assim sendo, omitirei aquelas coisas e trarei apenas estas: pois mesmo que minha irmã não saiba grego, eu sei: ‘ἐγγίον γόνυ κνήμης [o joelho é mais próximo do que a canela]’.[59] 4 Este, que vocês estão vendo, por tantos anos escondido sob meu nome,[60] retribuiu-me o favor assim: matou as duas Júlias[61] – bisnetas minhas –, uma pelo ferro, a outra pela fome; além de um trineto, Lúcio Silano.[62] Este último você há de ter visto, Júpiter, talvez numa causa má, ainda que decerto numa causa sua, se você quiser ser justo.[63] Diga-me, ‘Divino’ Cláudio, por que é que, antes de conhecer as razões daqueles e daquelas que matou – antes mesmo que as escutasse –, você os condenou? Onde é que é costume fazer isso? No céu é que não é.

§ 11

Latim

[11] XI. 1 “Ecce Iuppiter, qui tot annos regnat, uni Volcano crus fregit, quem ῥῖψε ποδὸς τετάγων ἀπὸ βηλοῦ θεσπεσίοιο. Et iratus fuit uxori et suspendit illam: numquid occidit? Tu Messalinam, cuius aeque auunculus maior eram quam tuus, occidisti. “Nescio” inquis. Di tibi malefaciant: adeo istuc turpius est quod nes cisti quam quod occidisti. 2 C. Caesarem non desiit mortuum persequi. Occiderat ille socerum: hic et generum. Gaius Crassi filium uetuit Magnum uocari: hic nomen illi reddidit, caput tulit. Occidit in una domo Crassum, Magnum, Scriboniam, †Tristonias, Assarionem, † nobiles tamen, Crassum uero tam fatuum ut etiam regnare posset. 3 Hunc nunc deum facere uultis ? Videte corpus eius dis iratis natum. Ad summam, tria uerba cito dicat et seruum me ducat. 4 Hunc deum quis colet? quis credet? Dum tales deos facitis, nemo uos deos esse credet. Summa rei, P.C., si honeste inter uos gessi, si nulli durius respondi, uindicate iniurias meas. Ego pro sententia mea hoc censeo.” Atque ita ex tabella recitauit: 5 “Quandoquidem diuus Claudius occidit socerum suum Appium Silanum, generos duos Magnum Pompeium et L. Silanum, socerum filiae suae Crassum Frugi, hominem tam similem sibi quam ouo ouum, Scriboniam socrum filiae suae, uxorem suam Messalinam et ceteros quorum numerus iniri non potuit, placet mihi in eum seuere animaduerti nec illi rerum iudicandarum uacationem dari eumque quam primum exportari et caelo intra triginta dies excedere, Olympo intra diem tertium.” 6 Pedibus in hanc sententiam itum est. Nec mora, Cyllenius illum collo obtorto trahit ad inferos, “Vnde negant redire quemquam”.

Português

[11] XI. 1 Eis aí Júpiter, que por tantos anos está reinando e, certa vez, fraturou a perna de Vulcano, ao ‘ῥῖψε ποδὸς τετάγων ἀπὸ βηλοῦ θεσπεσίοιο [agarrá-lo pelo pé, lançando-o para além da soleira do céu]’.[64] E quando se irou contra sua mulher, suspendeu-a: por acaso a matou?[65] Mas você! Você matou Messalina, de quem eu era tão tio-avô quanto você próprio era tio. ‘Não sabia’, você afirma.[66] Que os deuses te desgracem: este aí é mais torpe por ter ignorado do que por ter matado. 2 Nos passos de Caio César – isto é, Calígula – este aí não deixa de seguir. Aquele matou o sogro; este, o genro. Caio vetou que chamassem de Magno o filho de Crasso; este devolveu-lhe o nome e arrancou-lhe a cabeça. Em uma única casa, ele matou Crasso, Magno, Escribônia, os Tristiões, Assarião – ainda que fossem nobres – e, em verdade, Crasso era tão imbecil que na verdade também poderia reinar. 3 Agora vocês querem fazê-lo deus? Vocês estão vendo o corpo dele, nascido de uma verdadeira cólera divina. Em suma, que ele diga três palavras depressa e pode me levar como escravo. 4 Agora, quem vai honrar este deus? Quem vai acreditar? Enquanto fizerem esse tipo de deuses, ninguém vai acreditar que vocês mesmos são deuses. Resumindo, senadores, se permaneci honestamente entre vocês, se a ninguém respondi de maneira mais dura, levem em conta minhas injúrias. Eu, em conformidade com meu juízo, declaro o seguinte.” E, de um tabletinho,[67] recitou: 5 “Posto que o divino Cláudio matou: seu sogro – Ápio Silano; seus dois genros – Magno Pompeu e Lúcio Silano; o sogro da filha – Crasso Frugi, um homem tão parecido com ele mesmo como um ovo parece com outro; Escribônia – a sogra de sua filha; sua própria esposa – Messalina; além de outros trinta mil, tão numerosos que os números não dão conta, gostaria que ele fosse severamente punido, que não lhe fosse dado o perdão dos fatos julgados e que viesse a ser banido o quanto antes: do céu, dentro de trinta dias, e do Olimpo, em três.” 6 Rapidamente a sentença foi despachada. Sem demora, Mercúrio, torcendo o pescoço de Cláudio, arrasta-o pro quinto dos infernos, “de onde negam que alguém retorne”.[68]

§ 12

Latim

[12] XII. 1 Dum descendunt per uiam Sacram, interrogat Mercurius quid sibi uelit ille concursus hominum, num Claudii funus esset. Et erat omnium formosissimum et impensa cura, plane ut scires deum efferri. Tubicinum, cornicinum, omnis generis aenatorum tanta turba, tantus conuentus, ut etiam Claudius audire posset. 2 Omnes laeti, hilares: populus Romanus ambulabat tamquam liber. Agatho et pauci causidici plorabant, sed plane ex animo. Iurisconsulti e tenebris procedebant, pallidi, graciles, uix animam habentes, tamquam qui tum maxime reuiuiscerent. Ex his unus, cum uidisset capita conferentes et fortunas suas deplorantes causidicos, accedit et ait: “Dicebam uobis: non semper Saturnalia erunt.” 3 Claudius, ut uidit funus suum, intellexit se mortuum esse. Ingenti enim μεγάλωι χορίκωι nenia cantabatur anapaestis:

“Fundite fletus!

Edite planctus!

Resonet tristi

Clamore forum:

Cecidit pulchre

Cordatus homo,

Quo non alius

Fuit in toto Fortior orbe.[82]

Ille citato

Vincere cursu

Poterat Celeres,

Ille rebelles

Fundere Parthos

Leuibusque sequi

Persida telis,

Certaque manu

Tendere neruum,

Qui praecipites

Vulnere paruo

Figeret hostes

Pictaque Medi

Terga fugacis.

Ille Britannos

Vltra noti

Litora ponti[83]

Et caeruleos

Scuta brigantas

Dare Romuleis

Colla catenis

Iussit et ipsum

Noua Romanae

Iura securis

Tremere Oceanum.

Deflete uirum,

Quo non alius

Potuit citius

Discere causas,

Vna tantum

Parte audita,

Saepe et neutra.

Quis nunc iudex

Toto lites

Audiet anno?

Tibi iam cedet

Sede relicta

Qui dat populo

Iura silenti,

Cretaea tenens

Oppida centum. Caedite maestis

Pectora palmis

O causidici,

Venale genus!

Vosque, poetae

Lugete, noui,

Vosque in primis

Qui concusso

Magna parastis

Lucra fritillo!

Português

[12] XII. 1 Enquanto descem pela Via Sacra, Mercúrio interroga-se sobre o que seria aquele encontro de homens; porventura seria o funeral de Cláudio? E era o mais formoso e bem cuidado, uma vez que parecia ser do conhecimento de todos tratar-se do enterro de um deus: imenso bando de toda espécie de flautistas, corneteiros e músicos, reunidos em tamanha balbúrdia que até Cláudio podia ouvi-los. 2 Todos alegres, sorridentes: o povo romano enfim perambulava como um povo livre. Ágato e uns poucos advogados de fato choravam: no caso deles, era claramente de coração.[69] Os jurisconsultos saíam das trevas, pálidos, franzinos, agarrados a um fiozinho de vida, exatamente como quem acaba de ressuscitar. Um deles, ao ver os que se reuniam, enquanto os advogados choravam o próprio fado, aproximou-se e disse-lhes: “Eu bem que avisei pra vocês: as Saturnais não serão pra sempre.” 3 Cláudio, ao ver seu funeral, entendeu que tinha morrido. Na verdade, uma nênia ali era cantada, μεγάλωι χορίκωι [com prodigioso coro], em anapestos:[70]

“Espalhai choro!

Declarai pranto!

Ressoe em triste

clamor o Fórum:

morreu tão belo,

o sensato homem,

que nenhum outro

em todo o mundo

fora mais forte.

Célere ele

vencia na marcha

aos mais velozes,

e ele aos rebeldes

Partos vencia

e perseguia

Persas com dardos,

com mão precisa

tendia a corda

que atravessava

em leve corte

hostes hostis

e as costas tintas

dos frouxos Medas.

Ele aos Bretões,

além das praias

do mar notável,

e aos escudos

de azuis Brigantos,

mandou curvar

perante os ferros

de Roma e o próprio

Oceano treme

às novas leis

da mão de Roma.

Chorai o homem

que nenhum outro

pôde mais ágil

saber das causas,

tanto uma parte

ouvida sendo

quanto nenhuma.

Mas qual juiz

o ano todo

ouvirá lides?

A ti já cede

a sede dada

a quem dá leis

ao povo mudo,

o que de Creta

tem cem cidades.[71]

Socai os peitos

com palmas tristes,

ó advogados,

vendida raça!

E vós, poetas

novos, gemei

e vós, que – mal

lançado o dado –

abocanhastes

um grande lucro!”

§ 13

Latim

[13] XIII. 1 Delectabatur laudibus suis Claudius et cupiebat diutius spectare. Inicit illi manum Talthybius deorum et trahit capite obuoluto, ne quis eum possit agnoscere, per campum Martium, et inter Tiberim et uiam tectam descendit ad inferos. 2 Antecesserat iam compendiaria Narcissus libertus ad patronum excipiendum, et uenienti nitidus, ut erat a balineo, occurrit et ait: “Quid di ad homines? - Celerius! inquit Mercurius, et uenire nos nuntia.” Dicto citius Narcissus euolat. 3 Omnia procliuia sunt, facile descenditur. Itaque quamuis podagricus esset, momento temporis peruenit ad ianuam Ditis, ubi iacebat Cerberus uel, ut ait Horatius, “belua centiceps”. Pusillum perturbatur (subalbam canem in deliciis habere adsueuerat) ut illum uidit canem nigrum, uillosum, sane non quem uelis tibi in tenebris occurrere. Et magna uoce “Claudius, inquit, ueniet!” 4 Cum plausu procedunt cantantes Ἐυρέαμεν, συγχαίρωμεν. Hic erat C. Silius consul designatus, Iuncus praetorius, Sex. Traulus, M. Heluius, Trogus, Cotta, Vettius Valens, Fabius, equites romani quos Narcissus duci iusserat. Medius erat in hac cantantium turba Mnester pantomimus, quem Claudius decoris causa minorem fecerat. 5 Ad Messalinam (cito rumor percrebuit Claudium uenisse) conuolant primi omnium liberti Polybius, Myron, Harpocras, Ampheus, Pheronaotus, quos Claudius omnes, necubi imparatus esset, praemiserat, deinde praefecti duo lustus Catonius et Rufrius Pollio, deinde amici Saturninus Lusius et Pedo Pompeius et Lupus et Celer Asinius consulares, nouissime fratris filia, sororis filia, generi, soceri, socrus, omnes plane consanguinei et agmine facto Claudio occurrunt. 6 Quos cum uidisset Claudius, exclamat Πάντα φίλων πλήρη! Quomodo huc uenistis uos?’ Tum Pedo Pompeius: ‘Quid dicis, homo crudelissime? Quaeris quomodo? Quis enim nos alius huc misit quam tu, omnium amicorum interfector? In ius eamus: ego tibi hic sellas ostendam.’

Português

[13] XIII. 1 Deleitava-se Cláudio com seus louvores e desejava assisti-los o dia todo. O Taltíbio dos deuses,[72] contudo, lança a mão sobre ele e arrasta-o com a cabeça encoberta, para que ninguém possa reconhecê-lo, e pelo campo de Marte, entre o Tibre e a via Tecta, desce aos infernos. 2 Adiantava-se já por caminho mais curto o liberto Narciso – a fim de receber seu patrono – e, vindo limpinho, como se acabasse de sair do banho, aproxima-se e diz: “O quê? Deuses junto a homens?”[73] “Rápido!”, diz Mercúrio, “Anuncie nossa chegada.” Dito isso, Narciso rapidamente se manda dali. 3 Todas as vias são ladeiras e é fácil vir abaixo. Assim, embora tivesse gota, em breve tempo Narciso chega à porta de Plutão, onde se deitava Cérbero, ou, como disse Horácio, “a besta de cem cabeças”.[74] Narciso perturbou-se um pouco (acostumado às delícias de ter um cachorrinho branco) porque viu aquele cão preto, peludo, que você seguramente também não gostaria de encontrar no escuro. E em alta voz diz: “Claudio virá!” 4 Com aplausos, cantores prosseguem: “Εὑρήκαμνεν, συγχαίρωμεν [Encontramo-lo, animemo-nos]!”.[75] Ali estavam Caio Sílio – cônsul designado –, o pretor Junco, Sexto Traulo, Marco Hélvio, Trogo, Cota, Vétio Valente, Fábio e os cavaleiros romanos que Narciso havia conduzido a juízo. Estava, no meio daquela multidão de cantores, o ator de pantomimas Mnester, que Cláudio tinha diminuído a mero enfeite. 5 Apressam-se junto a Messalina (rapidamente o rumor de que Cláudio tinha chegado espalhou-se): primeiro, os libertos – Políbio, Míron, Arpocra, Ampheo, Pheronacto –, todos aqueles que, pra ninguém ser pego de surpresa, foram despachados antes; depois, dois prefeitos – Justo Catônio e Rufrio Polião; depois, os amigos cônsules – Saturnino Lúsio, Pedo Pompeu, Lupo e Céler Asínio; por último, a filha do irmão, a filha da irmã, genros, sogros, sogras, todos plenamente consanguíneos. E, em fila, aproximam-se de Cláudio. 6 Quando Cláudio os viu, exclamou: “Πάντα φίλων πλήρη [Completamente rodeado de amigos]! Como vieram até aqui?” Então responde Pedo Pompeu: “O que está dizendo, você que é o mais sanguinário dos homens? Pergunta ‘como?’ Quem, na verdade, nos enviou pra cá senão você, ó assassino de todos os amigos? Vamos à justiça! Faço questão de te mostrar os tribunais.”

§ 14

Latim

[14] XIV. 1 Ducit illum ad tribunal Aeaci. Is lege Cornelia, quae de sicariis lata est, quaerebat. Postulat nomen eius recipiat, edit subscriptionem: occisos senatores XXXV, equites romanos CCXXI, ceteros ὅσα ψάμαθός τε κόνις τε. 2 Aduocatum non inuenit. Tandem procedit P. Petronius, uetus conuictor eius, homo claudiana lingua disertus, et postulat aduocationem. Non datur. Accusat Pedo Pompeius magnis clamoribus. Incipit patronus uelle respondere. Aeacus, homo iustissimus, uetat et illum, altera tantum parte audita, condemnat et ait: Αἱκε πάθοι τά τ’ἔρεξε, δίκη κ’ἰθεία γένοιτο. 3 Ingens silentium factum est. Stupebant omnes nouitate rei attoniti; negabant hoc umquam factum. Claudio magis iniquum uidebatur quam nouum. 4 De genere poenae diu disputatum est, quid illum pati oporteret. Erant qui dicerent Sisyphum diu laturam fecisse, Tantalum siti periturum nisi illi succurreretur, aliquando Ixionis miseri rotam sufflaminandam: non placuit ulli ex ueteribus missionem dari, ne uel Claudius umquam simile speraret. 5 Placuit nouam poenam constitui debere, excogitandum illi laborem irritum et alicuius cupiditatis speciem sine effectu. Tum Aeacus iubet illum alea ludere pertuso fritillo. Et iam coeperat fugientes semper tesseras quaerere et nihil proficere.

Português

[14] XIV. 1 Conduziu-o então ao tribunal de Éaco: este buscava saber o que estava escrito, segundo a lei Cornélia, sobre assassinos. Pedo solicita que ele receba o nome de Cláudio e expõe assim a acusação: “Trinta e cinco senadores assassinados; duzentos e vinte e um cavaleiros romanos, além de outros ‘ὅσα ψάμαθός τε κόνις τε [tão numerosos quanto a areia ou a poeira]’.” 2 Cláudio não encontra advogado. Por fim, avança Públio Petrônio, seu velho colega, homem conhecedor da língua claudiana e solicita advogar em sua defesa. Não lhe é concedido. Pedo Pompeio acusa-o com grande clamor. O defensor começa a querer responder. Éaco, homem justíssimo, veta, com apenas uma parte ouvida, condena Cláudio e diz: “Αἱκε πάθοι τά τ’ ἔρεξε, δίκη κ’ἰθεία γένοιτο [Se sofres por teus próprios feitios, uma reta justiça há de ser feita].” 3 Imenso silêncio se faz. Todos estupefatos com a novidade do caso, atônitos, negavam que isso já tivesse sido feito. Para Cláudio, aquilo parecia mais injusto do que propriamente novo. 4 Discutiu-se por muito tempo sobre qual punição seria a mais adequada pra ele. Havia aqueles que diziam que Sísifo já teria feito o carreto por tempo suficiente; que Tântalo, se ninguém o socorresse, morreria de sede; enfim, que seria preciso frear a roda do miserável Íxion.[76] Não agradou que tais resoluções fossem dadas em benefício de qualquer um dos condenados veteranos pra que Cláudio jamais viesse a ter esperança de algo similar. 5 O que agradou mais foi a sugestão de que se inventasse uma nova pena, devendo ser imaginado pra ele um trabalho inútil e alguma espécie de desejo sem fim nem satisfação. Então Éaco ordena-o a divertir-se jogando dados com o copo furado. E imediatamente Cláudio já tinha começado a perseguir com afinco os dados fujões, sem de nada adiantar.[77]

§ 15

Latim

[15] XV. 1 Nam quotiens missurus erat resonante fritillo,

Vtraque subducto fugiebat tessera fundo;

Cumque recollectos auderet mittere talos,

Lusuro similis semper semperque petenti,

Decepere fidem: refugit digitosque per ipsos

Fallax adsiduo dilabitur alea furto.

Sic, cum iam summi tanguntur culmina montis,

Irrita Sisyphio uoluuntur pondera collo.

2 Apparuit subito C. Caesar et petere illum in seruitutem coepit. Producit testes, qui illum uiderant ab illo flagris, ferulis, colaphis uapulantem. Adiudicatur C. Caesari. Caesar illum Aeaco donat. Is Menandro liberto suo tradidit, ut a cognitionibus esset.

Português

[15] XV. 1 Pois a cada vez que lançava os dados no ressonante copo,

um e outro fugiam pelo fundo furado.

Quando, após recolhê-los, por ventura tentasse lançá-los juntos,

tal como um jogador e como quem sempre recorre aos dados,

tinha a esperança enganada: foge de novo de seus próprios dedos

o dado traiçoeiro e escapa num roubo eterno.

Da mesma forma, tal como o cume da montanha mal é tocado,

inúteis pesos são tirados dos ombros de Sísifo.

2 Apareceu, de súbito, Caio César Calígula e começou a reclamá-lo como escravo. Apresentou testemunhas, que o teriam visto, sob César, recebendo chicotadas, chibatadas e bofetadas. Ele é então oferecido a Caio César Calígula. Calígula presenteia Cláudio a Éaco. Este o traz até seu liberto Menandro, pra que seja posto à prova.[78]

[5]: 13 de outubro de 54 d.C., data da morte de Cláudio.

[6]: Paródia das declarações de imparcialidade de historiadores: “enquanto o poeta pretendia transmitir uma tradição oral ultimamente fundada na autoridade das Musas, as filhas de Zeus e de Mnemosine (= Memória), sentiu-se a necessidade, especialmente entre os ‘historiadores’, de apoiar seus dizeres em um testemunho visual, direto ou indireto.” (BRISSON, 2014, p. 24).

[7]: Júlia Drusila, irmã de Calígula, com quem este queria se casar. Por 250.000 fundos, o senador Lívio Gêmeos teria afirmado ter visto a apoteose de Drusila (Dion, LIX. 11).

[8]: O autor da sátira aproxima aqui o verbo latino claudicare, “claudicar”, do nome do imperador Cláudio (que realmente era manco e claudicava).

[9]: Paródia da poesia pedante.

[10]: Afim ao deus grego, Hermes, Mercúrio é responsável por todo o tipo de trânsito de seres e transação de produtos, donde ser patrono de viajantes, comerciantes, mas também de ladrões.

[11]: As Parcas são divindades responsáveis pelo fado. Em número de três, com nomes significativos em grego antigo – Cloto [fiandeira], Láquesis [sorteadora] e Átropo [inviável] –, elas são representadas na mitologia clássica como as responsáveis por regular o fio da vida de cada um. Cloto fiava cada vida, Láquesis media a extensão do fio e Átropo o cortava.

[12]: Virgílio, Geórgicas IV. 90.

[13]: Alusão satírica às livres concessões de Cláudio, dando direito de cidadania aos provincianos (como ele mesmo).

[14]: Provável sátira à mudança no alfabeto (Augurini, Babae, Claudii) promovida por Cláudio.

[15]: Monte localizado na Grécia onde teriam nascido as nove Musas.

[16]: Títono, outro príncipe troiano como Anquises, ambos vítimas de Afrodite. No Hino homérico a Afrodite (218-238), Aurora pediu a Zeus que tornasse seu amante, Títono, imortal, esquecendo-se apenas de incluir a juventude eterna no pedido. Nestor é o velho sábio da Ilíada e Odisseia.

[17]: Com a imagem de um grotesco Nero de Suetônio (Nero 51) em mente e seu pretenso talento artístico comparado a Febo/ Apolo (Nero 20; 53), o deus solar da beleza e da música, o verso tem efeito cômico.

[18]: Para Sêneca, esse discurso é o de um cortesão bajulador, mas não excederia os limites comuns de tributos poéticos oferecidos a um novo princeps (WALTZ, 2010 p. 20).

[19]: Para Waltz (2010, p. 20) trata-se de citação irônica de Cresofonte, tragédia perdida de Eurípides (Cícero, Tusc. I. 115). O sentido original era que os amigos do morto se regozijam por ele ter deixado, enfim, a vida e suas misérias.

[20]: Comediantes foram levados ao Palácio após a morte de Cláudio per simulationem (Suetônio, Claud. 45).

[21]: Cláudio por Suetônio (Claud. 30) e por Dion Cássio (LX. 2.).

[22]: Na Odisseia, essas estruturas interrogativas são usadas sempre que um personagem questiona um estrangeiro sobre sua origem.

[23]: Crítica à mania de Cláudio falar em grego e citar Homero (Suetônio, Claud. 42).

[24]: Sobre as histórias escritas por Cláudio (Suetônio, Claud. 41 e 42).

[25]: Homero, Odisseia IX. 39.

[26]: Homero, Odisseia IX.40.

[27]: A ingenuidade de Hércules seria proverbial na antiguidade.

[28]: A deusa Februa, mãe de Marte, tinha altares sobre o Palatino, alusão provável à causa da morte oficial de Cláudio (atribuída à febre). Os outros deuses seriam mimados por Cláudio.

[29]: L. Munatius Plancus, fundador da Colônia romana de Lyon, em 43 a.C. (WALTZ, 2010). A estudiosa pontua que aqui o texto original foi alterado e esse nome surge apenas por conjecturas.

[30]: Antiga capital da Gália Narbonense, província do Império Romano que abrangia as atuais regiões de Provença e Languedoc (na França).

[31]: Procurador nomeado em Lugduno por Augusto. Dion Cássio (LIV. 21) relata que Licino exercera o cargo tiranicamente. Sêneca (Cartas a Lucílio XX. 119) e Marcial (VIII. 3) retratam-no como símbolo de riqueza.

[32]: Dos doze trabalhos, o décimo foi matar o gigante Gerião, monstro de três corpos, seis braços e seis asas, para tomar seus bois (Pseudo-Apolodoro, Biblioteca 2.5.10).

[33]: A Colina de Fourvière, em cujo topo construíram Lyon, domina a confluência dos rios Saône e Rhône.

[34]: O atual rio Saône. César afirma sobre seu curso que era lento a ponto de os olhos não poderem discernir sua direção (César, de Bell. Gall. I. 12.1).

[35]: Jogo de palavras com gallum [gaulês].

[36]: Referência ao templo de Hércules em Tíbur, onde Cláudio muitas vezes exercia a justiça. Suetônio relata sua mania judiciária (Claud. 14-15).

[37]: Parte perdida do texto. Cláudio consegue se reconciliar com Hércules: graças ao herói, Cláudio obtém uma audiência com os deuses, numa sessão que imita as reuniões no Senado Romano.

[38]: Uma das divindades dirige-se a Hércules a respeito de Cláudio, uma vez que o herói grego agora parece favorável à divinização de Cláudio.

[39]: A ataraxia torna o deus epicureu indiferente e, por isso, incapaz de causar danos (ou qualquer outra coisa) aos outros. Cláudio, evidentemente, não poderia ser um.

[40]: Os estoicos identificam deus e a sabedoria à esfericidade do universo. Na passagem, Sêneca alude a uma sátira menipeia de Varrão em que se ironiza também o estoicismo.

[41]: Festividades romanas em dezembro, celebradas em honra ao deus Saturno. Similares a celebrações carnavalescas, as Saturnais viam a ordem social vigente ser quebrada e excessos serem cometidos. Segundo Suetônio (Cláudio, 32), o imperador teria oferecido muitas festas desse tipo o ano todo.

[42]: Junius Silanus, noivo de Otávia, filha de Cláudio. Caiu em desgraça após ser acusado por Vitélio de incesto com sua irmã Júnia Calvina: ele se matou no mesmo dia do casamento de Cláudio e Agripina, sobrinha do príncipe. Ao condenar Silano por incesto, Cláudio poderia ser visto como alguém que censurasse também o incesto de Júpiter e Juno (deuses irmãos).

[43]: Em Atenas, meios-irmãos por parte de pai podiam se casar (desde que não tivessem compartilhado o mesmo útero); em Alexandria, no Egito, os Ptolomeus costumavam desposar suas próprias irmãs.

[44]: Ditado colocado na boca de Cláudio como resposta ao que havia sido dito por Hércules: aqui, os ratos têm bem o que comer. Trata-se de um comentário irônico sobre a corrupção dos costumes em Roma, onde tudo passava a ser permitido.

[45]: Alusão ao casamento incestuoso de Cláudio com a sobrinha Agripina.

[46]: Alusão a um fragmento da peça Ifigênia, de Ênio: quod est ante pedes nemo spectat, caeli scrutantur plagas (Cícero, de Rep. I. 30) que recorda a fábula tradicional do astrólogo que cai num poço. O orador se indigna com a hipocrisia de Cláudio.

[47]: Cláudio ergueu um Templo em Camaloduno, na Bretanha, onde havia sido criado um colégio de sacerdotes para adorá-lo (Tácito, Ann. XIV. 31).

[48]: Trata-se de uma anedota romana: em Roma, a manhã era o único tempo dedicado aos negócios, enquanto a tarde era para o repouso; sendo assim, um “cônsul da tarde” é um cônsul ocioso. Jano assumirá o cargo no dia 1º de julho seguinte justamente por não fazer nada.

[49]: Homero, Ilíada III. 109. Expressão que se refere aqui às duas faces do deus Jano.

[50]: Homero, Ilíada, VI. 142. Os humanos.

[51]: Entre os antigos romanos, as Larvas eram um espírito malfazejo de um morto que vagueava entre os vivos para aterrorizá-los. Parecem ter alguma relação com as Fúrias gregas.

[52]: Antiga divindade itálica – Dies et pater –, pai da luz, posteriormente confundido com Júpiter. Já Vica Pota é a deusa das conquistas, mãe de Diéspiter. Ambos os deuses parecem ser genuinamente romanos.

[53]: Alusão ao tráfico de cidadanias, comum com Messalina, mãe de Britânico e ex-esposa de Cláudio. Tinha uma fama de promíscua, tida como “a Loba” pelo satírico Juvenal (Sat. VI).

[54]: Gesto familiar com que se convida uma pessoa a dizer a verdade, tendo em vista que – para alguns antigos – a sede da memória estaria no lóbulo da orelha.

[55]: Antônia, mãe de Cláudio, era sobrinha de Augusto. Seu pai, Druso, era filho de Lívia (a divina Augusta) e enteado de Augusto.

[56]: Sêneca faz alusão à gula de Cláudio.

[57]: Alusão às apoteoses de Rômulo, César e Augusto nas Metamorfoses de Ovídio.

[58]: Tácito (Ann. VI. 11) relata que, com a vastidão do Império, Augusto elegeu um magistrado para castigar os escravos e mantê-los sob controle. Messala Corvino foi o primeiro escolhido ao posto, mas em poucos dias deixou o cargo, alegando pouca afinidade com o ofício.

[59]: O provérbio indica que se passa a falar de coisas “mais próximas”, ou seja, de foro íntimo, doméstico.

[60]: Cláudio César Augusto.

[61]: Júlia, filha de Germânico e Júlia, filha de Druso, foram ambas vítimas das intrigas de Messalina: a primeira em 41 d.C. no processo de adultério que exilou Sêneca.

[62]: Silano era filho de Emília Lépida, neta de Júlia, filha de Augusto.

[63]: O orador, com astúcia, lembra que a condenação de Silano por incesto afetou indiretamente o próprio Júpiter.

[64]: Homero, Ilíada I. 591.

[65]: Homero, Ilíada XV. 18.

[66]: Tibério Cláudio Narciso deu, em nome de Cláudio, a ordem para matar Messalina. Cláudio estava à mesa quando soube que ela estava morta e se limitou a pedir uma bebida.

[67]: Em latim, a palavra é tabella, cujo significado mais direto é “pequeno quadro, placa ou superfície para escrita”. Aproveitando a curiosa proximidade entre essa tecnologia antiga de escrita e os modernos tablets, optamos, com fins cômicos, por um vocábulo em português que evocasse essa proximidade.

[68]: Catulo, III. 12.

[69]: Ágato é desconhecido. Tácito (Ann. XI. 5) relata que nunca houve coisa tão venal quanto a perfídia dos advogados do tempo de Cláudio. O imperador dava condições favoráveis a alguns, enquanto pressionava os juízes, desprestigiando-os.

[70]: Nênia é um canto fúnebre. O verso anapéstico é formado por três sílabas, as duas primeiras breves e a última longa, sendo característico de certos cantos lúgubres.

[71]: Referência a Minos, mitológico rei de Creta e um dos juízes do inferno, onde tinha assento para julgar as almas dos mortos.

[72]: Taltíbio, arauto de Agamêmnon, participou da Guerra de Tróia.

[73]: No momento em que Cláudio morria, Narciso estava nos banhos de Sinuessa, na Campânia, aliviando-se de problemas de gota. Suicidou-se a mando de Agripina e, por ser leal a Cláudio, revela aqui surpresa ao vê-lo no inferno, junto a homens (Tácito, Ann. XII. 66; Dion, LX. 34).

[74]: Horácio, Odes II. 13; 34.

[75]: Paródia dos festivais de culto a Ísis, onde é celebrado com semelhantes gritos o retorno do marido Osíris.

[76]: Todas essas são figuras tradicionais da mitologia clássica, condenadas a uma eternidade de suplícios por suas condutas criminosas. As fontes antigas narram de diferentes formas seus atos, embora pareça existir sempre um nexo entre os crimes cometidos e os castigos impostos. Além disso, é de se notar que o caráter perene de todos os castigos constitui o traço comum a todos eles. A passagem parece sugerir que o tribunal estaria pensando em transferir um dos castigos tradicionais a Cláudio, aliviando os criminosos mitológicos tradicionais.

[77]: O inusitado castigo é muito pior do que parece, pois diz respeito ao enigmático deus Amor, Cupido e suas setas, cujas chagas provocam a Libido: a Concupiscência, que orquestra crimes nefastos na obra trágica de Sêneca. O Desejo engendra crimes hediondos a qualquer tempo, posto que tiraniza o Tirano e subordina povos ao sabor de suas paixões. Tal Messias, tendo sujeitado um povo a perder seus parcos direitos, sua dignidade e suas vidas, agora, no Hades, experimenta a pavorosa sensação de eterno retorno do desejo e frustração, sendo assim, um ressentido vivo-morto através dos séculos.

[78]: Cláudio termina por servir como escravo de um escravo.

[80]: Paródia de Virgílio, na Eneida (II. 724), quando Iulo tenta acompanhar os rápidos passos do pai. Sêneca brinca com non aequis e o fato de Cláudio claudicar.

[81]: Paródia da locução trágica (Sófocles, Ajax 278).

[82]: Quebra com dipódico. Teria relação com o hábito de Sêneca misturar versos dipodais com tetrápodes em suas tragédias.

[83]: Quebra com dipódico. A nênia, ao invés de 30 tetrápodes possui 29 tetrápodes e 2 dípodes.

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