Se a virtude pode ser ensinada
Da tradução — Maria Aparecida de Oliveira Silva
O texto grego que serviu de referência à presente tradução foi editado por Max Pohlenz no terceiro volume de Plutarchi Moralia, em Leipzig, e reimpresso pela Teubner em 1972 com o título An virtus doceri possit nas páginas 123–127. Dada a brevidade do tratado, alguns estudiosos levantam a hipótese de que o texto esteja incompleto. Porém, entendemos que o texto segue o aspecto aporético do diálogo platônico no qual claramente se inspira: Mênon. É interessante perceber que a preocupação plutarquiana com quem está preparado para ensinar a virtude é a mesma expressa por Platão em seu diálogo Mênon, que, por sua natureza aporética, não traz a resposta para essa questão. Nesse sentido, Plutarco segue seu mestre, coloca a questão, suscita reflexões, mas não oferece uma resposta conclusiva. Roskam (2011, p. 209) chama a atenção para o fato de Plutarco destacar o choque entre ideais filosóficos e pragmatismo político, que as Vidas de Plutarco são geralmente caracterizadas por uma abordagem problematizadora que mostra um interesse notável em dilemas éticos, mas que prefere levantar questões a respondê-las, bem ao estilo platônico.
A tradução do texto seguiu a sintaxe grega na medida em que a versão em língua portuguesa se torna inteligível e fluente. Já as passagens cuja compreensão literal do grego se fazem ininteligíveis e de difícil compreensão ora receberam notas explicativas ora foram aproximadas ao nosso código linguístico com expressões conhecidas em nosso tempo. Os conceitos relacionados com a educação grega, ou à paideia, seguem os utilizados por Platão, uma vez que Plutarco retoma o diálogo estabelecido por Sócrates para discuti-lo com base nas inquietações de seu tempo.
§ 1
[1] [439a] Sobre a virtude, deliberamos e levantamos uma questão, se é possível ensinar a prudência, a prática da justiça e o bem viver[8]; depois, ficamos admirados que as obras dos oradores, timoneiros, músicos, arquitetos e camponeses são incontáveis, [439b] enquanto os homens nobres se nomeiam e se chamam somente de Centauros[9], Gigantes[10] e Ciclopes[11]. Mas uma obra irreprovável, voltada para a virtude e a pureza, não é possível encontrar, nem mesmo um caráter sem mescla da paixão, nem uma vida sem o toque do mal. Mas se, de fato, a natureza produz por si mesma algo belo, este se torna obscuro com algo que lhe é muito alheio, como um grão que se mistura com uma planta selvagem e impura?[12] Os homens aprendem a tocar um instrumento, a dançar, a ler as letras, a trabalhar a terra e a cavalgar; e o que é impressionante? Eles aprendem a calçar-se e a vestir-se, e lhes ensinam como servir o vinho e a preparar seu alimento; [439c] não é possível fazer isso proveitosamente sem aprendizado, é por causa dele que existe tudo isso, que é o bem viver; mas isso é possível sem aprendizado, sem razão nem habilidade, de modo espontâneo?
§ 2
[2] Homens, por que, ao afirmarmos que a virtude não pode ser ensinada, nós a tornamos inexistente? Pois se o aprendizado é a origem dela, a interdição do aprendizado é a sua destruição. Contudo, como afirma Platão[13], não é pela dissimetria e a desarmonia do pé na lira que irmão guerreia com irmão, nem amigo diverge de amigo, nem cidades tomadas de ódio por outras cidades cometem e sofrem males [439d] extremos umas por causa das outras; nem mesmo pode contar-se sobre a revolta ocorrida na pólis pela alteração do som de uma vogal, “Telquinas” deve ser lida dos dois modos[14], nem que em uma casa tenha havido divergência entre marido e esposa por um fio de tecido ou por sua urdidura; mas, no entanto, quem não aprendeu a manejar um tear, nem um livro ou uma lira, embora isso não lhe cause nenhum grande dano, pelo menos, porque se envergonha de ser ridículo (pois “a ignorância” Heráclito[15] afirma que “é melhor esconder”[16]); mas pensa que manejará bem a casa, o casamento, a política e a magistratura, sem sequer ter aprendido corretamente a ser tolerante com a esposa, nem com o escravo, nem com seu concidadão, nem com o comandado, nem com o comandante? Diógenes[17] deu um soco em um pedagogo de um menino que comia muito à mesa, e atribuiu corretamente o erro [439e] não ao aprendiz, mas a quem não lho havia ensinado. Então, não é possível usar prato e taça juntos com habilidade, sem que se tenha aprendido direito, a começar da infância; como Aristófanes[18], “não rir demais, nem ser guloso, nem manter os pés cruzados”[19], enquanto é possível ter uma participação irrepreensível na casa, na cidade, no casamento, no seu modo de vida e na magistratura, mas sem sequer ter aprendido como precisam comportar-se uns com os outros? Quando Aristipo[20] foi indagado por alguém: “ora, tu estás em todos os lugares?”, ele sorriu e disse: “então, estou indo à ruína com a passagem de barco[21] se estou em todos os lugares.” Por quê, então? Tu mesmo não poderias me dizer também “se os [439f] homens não se tornam melhores com o aprendizado, e que o pagamento dos pedagogos os leva à ruína?” Pois eles são os primeiros que os recebem desde a lactância; tal como as amas de leite moldam seus corpos com as mãos[22], assim regram seu caráter com os costumes e colocam neles uma marca primeira de virtude. E um lacônio, ao ser indagado sobre o que lhe ofereciam os pedagogos, ele disse: “Faço coisas belas, agradáveis às crianças”.[23] Contudo, o que os pedagogos ensinam? A andar com suas cabeças baixas pelos caminhos, a tocar com um só dedo [440a] o peixe salgado, mas com os dois o peixe fresco, o pão e as carnes, a sentar-se de tal modo, a trajar o manto de outro modo[24].
§ 3
[3] O que então? Quem diz que a arte médica é apropriada a erupções cutâneas e unhas, mas não à pleurisia, febre ou inflamação do cérebro? Em que difere de quem diz que a escola, as leituras e os conselhos são úteis para deveres insignificantes e infantis, mas que, para grandes e importantes, existem a irracionalidade e o acaso? Pois assim como é ridículo quem afirma que se deve remar antes de aprendê-lo, que se pode pilotar um barco mesmo sem tê-lo aprendido; portanto, quem admite que as outras artes são adquiridas com o aprendizado, mas retira a virtude disso, parece agir de modo contrário aos citas. Pois os citas, como ele afirma[25], cegam seus escravos para que não lhes retirem a nata do leite[26]; mas ele concede razão, [440b] como um olho, para as artes subservientes e auxiliares, enquanto retira a virtude. Embora o estratego Ifícrates[27], quando perguntou e afirmou a Cálias, filho de Cabrias[28]: “Quem és? Arqueiro? Peltasta? Cavaleiro? Hoplita?” Ele disse: “Nenhum desses, mas quem comanda todos eles”.[29] Portanto, ridículo é quem diz que a arte de usar o arco, ou de lutar com armadura pesada, ou de manipular a funda, ou de montar um cavalo pode ser ensinada, mas que a arte da estratégia e do comando do exército acontece por acaso e a qualquer um, mesmo sem que as aprenda. Portanto, é ainda mais ridículo quem propõe que somente a prudência não pode ser ensinada, sem a qual não há utilidade nem proveito nas demais artes. Mas se ela é guia e ornato de todas e estabelece ordem para [440c] o que é útil a cada um,***[30] por exemplo, que alegria pode-se ter em um banquete, ainda que os escravos estejam bem treinados e tenham aprendido
a cortar a carne, assar bem e servir o vinho,[31]
se não houver disposição nem ordem nos servidores? ***[32]
Referências bibliográficas
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Ὁ Διαφορεύς παρῆν
[8]: No parágrafo 439C, Plutarco grafa τὸ εὖ βιοῦν (tò eû bioûn), enquanto neste escreve τὸ εὖ ζῆν (tò eû zên), que traduzimos por “o bem viver”. De acordo com Chantraine (s.v., 1968), o verbo ζῆν (zên) significa “ser vivente”, o que nos leva a pensar no ser humano como um animal da natureza, como uma cria dela. Já o verbo βιῶναι (biônai) significa “viver desta ou daquela maneira, passar sua vida”, o que nos faz refletir sobre o modo de vida do ser humano, embora Chantraine chame a atenção para o fato do substantivo βίος (bíos) poder ser traduzido por “maneira de viver” ou “modo de vida” e, algumas vezes, aparecer relacionado também aos animais em geral. Em outro tratado, Plutarco critica o filósofo que não se interessa por medicina, pela saúde física do corpo, conforme lemos a seguir: “Pois és um filósofo por natureza e não suportas um filósofo que não é um médico amador, também te irritas se pensa que a ele convém observar a geometria, a dialética e a música, porque deseja investigar e aprender o que há de mal e bom na morada* que é o seu corpo”. (Φιλόσοφος γὰρ εἶ τὴν φύσιν, ὦ Μοσχίων, καὶ τῷ μὴ φιλιατροῦντι χαλεπαίνεις φιλοσόφῳ, καὶ ἀγανακτεῖς εἰ μᾶλλον αὑτὸν οἴεται προσήκειν γεωμετρίας καὶ διαλεκτικῆς καὶ μουσικῆς ὁρᾶσθαι μεταποιούμενον ἢ ζητεῖν καὶ μανθάνειν βουλόμενον ὅττι τοι ἐν μεγάροισι κακόν τ’ ἀγαθόν τε τέτυκται τῷ σώματι.) (Preceitos de saúde, 122D). *(Homero, Odisseia, IV.92).
[9]: Os Centauros eram seres meio homem e meio cavalo, com quatro patas de cavalo e dois braços humanos, que comiam carne crua e viviam nas florestas da Tessália. Dentre eles, dois destacavam-se: Quíron e Folo, por serem hospitaleiros, amigos dos homens e não violentos; portanto, é a eles que se referem os que se nomeiam como Centauros. O mais célebre de todos, Quíron era imortal por ser filho de Crono e de Fílira, uma Oceanida, e tinha essa forma porque Crono metamorfoseou-se em cavalo para engendrá-la; era o mais famoso também por sua sabedoria, figurava em algumas listas dos Sete Sábios da Grécia antiga e foi responsável pela educação de Aquiles, o grande herói homérico.
[10]: Seres gerados a partir do sangue escorrido da mutilação causada por Crono em Urano, que os engendrou nas entranhas de Geia. Os Gigantes foram gerados para vingar a morte dos Titãs, que Zeus aprisionara no Tártaro, e cada um deles recebera atributos semelhantes aos dos Deuses Olímpicos para enfrentá-los com as mesmas capacidades. O combate contra os Gigantes, vencido por deuses e heróis, é conhecido por Gigantomaquia.
[11]: Filhos de Urano e de Geia, irmãos dos Gigantes, pertencem à primeira geração divina. Distinguem-se por terem um só olho no meio da testa, extrema força e habilidade manual. Foram eles que deram o raio, o trovão e o relâmpago para Zeus, como agradecimento por sua libertação do Tártaro; também o elmo invisível a Hades e o tridente a Posídon, sendo que estes presentes possibilitaram a vitória dos deuses contra os Titãs.
[12]: Em outro tratado, Plutarco repete a ideia da mistura do puro com o selvagem e escreve: “Pois, penso, tais como tantas sementes selvagens, por haver semelhança em seu aspecto e tamanho, estão misturadas com o trigo, há dificuldade em fazer a separação (pois ou não caem pela estreiteza dos seus furos, ou caem juntos pelos furos mais largos), assim a bajulação, porque se mistura com todo tipo de sentimento, todo tipo de movimentação, também de necessidade e hábito da amizade, é difícil de ser distinguida” (Como distinguir o bajulador do amigo, 51A). Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (2016).
[13]: Plutarco repete esse exemplo em outro tratado: “Todavia, não é por causa da dissimetria do pé na lira, como Platão dizia, que cidades divergem de cidades, amigos de amigos, agem e sofrem do modo mais vergonhoso, mas por desafinação às leis e à justiça” (καίτοι οὐ διὰ τὴν τοῦ ποδὸς πρὸς τὴν λύραν ἀμετρίαν, ὡς Πλάτων ἔλεγε, καὶ πόλεις πόλεσι καὶ φίλοι φίλοις διαφερόμενοι τὰ αἴσχιστα δρῶσί τε καὶ πάσχουσιν, ἀλλὰ διὰ τὴν περὶ τὰ νόμιμα καὶ δίκαια πλημμέλειαν.) (Da falsa modéstia, 534E). Plutarco retoma um pensamento expresso por Platão, que escreveu o seguinte: “Mas não é por causa da dissimetria no pé da lira que um irmão guerreia contra irmão e cidades contra cidades com desmedida e desarmonia, causam dissensões ao guerrear e atacar umas às outras, fazem e sofrem males extremos” (ἀλλ’ οὐ διὰ τὴν ἐν τῷ ποδὶ πρὸς τὴν λύραν ἀμετρίαν, καὶ ἀδελφὸς ἀδελφῷ καὶ πόλεις πόλεσιν ἀμέτρως καὶ ἀναρμόστως προσφερόμεναι στασιάζουσι καὶ πολεμοῦντες τὰ ἔσχατα δρῶσιν καὶ πάσχουσιν.) (Clitófon, 407c-d).
[14]: Telquines era o nome dado a um dos povos que habitavam a ilha de Rodes. Plutarco grafa a palavra Τελχινας (Telkhinas) sem acento, na forma do acusativo masculino plural, para destacar as duas formas de sua pronúncia quanto à vogal tônica, que podia ser “télquines” ou “telquínes”.
[15]: Nascido na cidade de Éfeso, situada na Ásia Menor, Heráclito era um filósofo pré-socrático que influenciou diversos pensadores, entre eles Platão.
[16]: Fr. 95 D-K, também citado em Da audição, 43D: “pois logo nem ‘a ignorância é melhor esconder’, como afirma Heráclito, mas colocá-la à frente de todos e dela cuidar” (τάχα μὲν γὰρ οὐδ’ “ἀμαθίην κρύπτειν ἄμεινον,” ὥς φησιν Ἡράκλειτος, ἀλλ’ εἰς μέσον τιθέναι καὶ θεραπεύειν). Em outro tratado, faz o seguinte uso do fragmento: “Simônides, o poeta, Sósio Senecião, ao ver um estrangeiro, em um banquete, reclinado, em silêncio, não falando nada, disse: ‘homem, se não és tolo, fazes uma coisa sábia, mas se és um sábio, uma tola’, pois a ‘ignorância é melhor’, como afirma Heráclito, ‘esconder’” (Σιμωνίδης ὁ ποιητής, ὦ Σόσσιε Σενεκίων, ἔν τινι πότῳ ξένον ἰδὼν κατακείμενον σιωπῇ καὶ μηδενὶ διαλεγόμενον, ‘ὦ ἄνθρωπ›’ εἶπεν, ‘εἰ μὲν ἠλίθιος εἶ, σοφὸν πρᾶγμα ποιεῖς· εἰ δὲ σοφός, ἠλίθιον.’ ‘ἀμαθίην γὰρ ἄμεινον’ ὥς φησιν Ἡράκλειτος ‘κρύπτειν’). (Assuntos de banquete, 644F).
[17]: Não sabemos qual Diógenes.
[18]: Comediógrafo ateniense do século IV a.C., poeta Comédia Antiga.
[19]: Reprodução deste verso aristofânico: “nem ser guloso, nem rir demais, nem manter dois pés cruzados” (οὐδ’ ὀψοφαγεῖν οὐδὲ κιχλίζειν οὐδ’ ἴσχειν τὼ πόδ’ ἐναλλάξ.) (Nuvens, 983). A situação pode levar-nos a imaginar uma situação em que as pernas estão cruzadas ou os pés cruzados em forma de xis. Aristófanes conta que: “Na casa do professor de ginástica, os meninos deviam sentar-se com as pernas esticadas para frente, para não mostrar nenhuma indecência aos estranhos” (ἐν παιδοτρίβου δὲ καθίζοντας τὸν μηρὸν ἔδει προβαλέσθαι τοὺς παῖδας, ὅπως τοῖς ἔξωθεν μηδὲν δείξειαν ἀπηνές·) (Nuvens, 973-974); do mesmo modo que: “Não mudas teu manto assim da mão esquerda para a direita?” (Οὐ μεταβαλεῖς θοἰμάτιον ὧδ’ ἐπιδέξια;) (Aves, 1568).
[20]: Não dispomos de mais informações sobre essa personagem.
[21]: Em grego τὸ ναῦλον (tò naûlon) é o nome dado à “passagem de barco”. Foi introduzido no latim como naulum e com o mesmo significado, conforme depreendemos deste verso de Juvenal: “é uma loucura, depois de tudo, perder a passagem de barco” (furor est post omnia perdere naulum) (Sátiras, VII.97), que parece ter sido uma ironia corrente para criticar o valor alto da passagem, usada quando o viajante naufragava, pois perdia seus bens e sua vida.
[22]: Platão prescreve: “E as [fábulas] que forem escolhidas, persuadiremos as amas e as mães a contar às crianças, e a moldar suas almas com as fábulas muito mais que os seus corpos com as mãos” (τοὺς δ’ ἐγκριθέντας πείσομεν τὰς τροφούς τε καὶ μητέρας λέγειν τοῖς παισίν, καὶ πλάττειν τὰς ψυχὰς αὐτῶν τοῖς μύθοις πολὺ μᾶλλον ἢ τὰ σώματα ταῖς χερσίν·) (República, 377c). Sobre esse costume, Plutarco aconselha: “Tal como é necessário moldar os membros do corpo dos filhos logo no nascimento, para que eles cresçam eretos e aprumados, do mesmo modo, convém regrar os costumes dos filhos desde o início” (ὥσπερ γὰρ τὰ μέλη τοῦ σώματος εὐθὺς ἀπὸ γενέσεως πλάττειν τῶν τέκνων ἀναγκαῖόν ἐστιν, ἵνα ταῦτ’ ὀρθὰ καὶ ἀστραβῆ φύηται, τὸν αὐτὸν τρόπον ἐξ ἀρχῆς τὰ τῶν τέκνων ἤθη ῥυθμίζειν προσήκει.) (Da educação das crianças, 3E). Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (2015).
[23]: De outro modo, Plutarco reproduz essa anedota: “De modo que um pedagogo lacônio não se expressa mal, porque fará a criança sentir prazer com as coisas belas e se envergonhar com as vergonhosas, não há nada melhor que isso nem mais belo fim que mostrar uma educação conveniente a um homem livre” (ὥστε μὴ κακῶς εἰπεῖν τὸν Λάκωνα παιδαγωγόν, ὅτι ποιήσει τὸν παῖδα τοῖς καλοῖς ἥδεσθαι καὶ ἄχθεσθαι τοῖς αἰσχροῖς, οὗ μεῖζον οὐδέν ἐστιν οὐδὲ κάλλιον ἀποφῆναι τέλος ἐλευθέρῳ προσηκούσης παιδείας.) (Da virtude moral, 452D).
[24]: Em seu tratado sobre como educar as crianças, Plutarco expressa a preocupação dos antigos com ordenação das mãos na sua alimentação: “Em geral, não é absurdo habituar crianças a receber os alimentos com a mão direita e condená-las, caso estendam a esquerda, e não terem nenhuma preocupação em ouvir palavras exemplares e legítimas?” (τὸ δ’ ὅλον πῶς οὐκ ἄτοπον τῇ μὲν δεξιᾷ συνεθίζειν τὰ παιδία δέχεσθαι τὰς τροφάς, κἂν εἰ προτείνειε τὴν ἀριστεράν, ἐπιτιμᾶν, μηδεμίαν δὲ ποιεῖσθαι πρόνοιαν τοῦ λόγων ἐπιδεξίων καὶ νομίμων ἀκούειν;) (Da educação das crianças, 3E). Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (2015). Em outro tratado escreve: “Ensinemos as crianças a calçar sapatos, vestir-se, beber com a mão direita e segurar o pão com a esquerda” (τοὺς δὲ παῖδας καὶ ὑποδεῖσθαι καὶ περιβάλλεσθαι διδάσκομεν καὶ τῇ δεξιᾷ λαμβάνειν τοῦ ὄψου τῇ δ’ ἀριστερᾷ κρατεῖν τὸν ἄρτον) (Da sorte, 99D).
[25]: Referência a Heródoto, historiador, nascido em Halicarnasso, em 420 a.C., e morto em Túrio, em 480 a.C. A ausência de citação direta do nome do autor, como Plutarco faz com os demais neste tratado, pode indicar que o texto herodotiano, ou este episódio em específico, era conhecido por seus alunos, visto que os tratados eram utilizados em suas aulas de Filosofia no sul da Itália e em Roma.
[26]: Processo que Heródoto narra assim: “E os citas cegam todos os seus escravos por causa do leite que bebem, e o fazem do modo que se segue. Visto que usam canudos, pegam os feitos de ossos, muito semelhantes aos das flautas, e os introduzem na cavidade dos genitais das éguas e sopram com suas bocas, e enquanto uns sopram, outros as ordenham; e contam que eles fazem isso por causa do seguinte: quando as veias da égua recebem o ar, elas ficam cheias e suas tetas jorram o leite. E depois que eles ordenham o leite, eles o vertem em uma vasilha côncava de madeira, e colocam os cegos em volta de cada uma das vasilhas em que batem o leite; e retiram a parte do leite que fica na superfície, que eles acreditam que é a mais valiosa, e depois retiram a outra da parte mais baixa” (Τοὺς δὲ δούλους οἱ Σκύθαι πάντας τυφλοῦσι τοῦ γάλακτος εἵνεκεν τοῦ πίνουσι, ποιεῦντες ὧδε. Ἐπεὰν φυσητῆρας λάβωσι ὀστείνους, αὐλοῖσι προσεμφερεστάτους, τούτους ἐσθέντες ἐς τῶν θηλέων ἵππων τὰ ἄρθρα φυσῶσι τοῖσι στόμασι, ἄλλοι δὲ ἄλλων φυσώντων ἀμέλγουσι· φασὶ δὲ τοῦδε εἵνεκα τοῦτο ποιέειν· τὰς φλέβας πίμπλασθαι φυσωμένας τῆς ἵππου καὶ τὸ οὖθαρ κατίεσθαι. Ἐπεὰν δὲ ἀμέλξωσι τὸ γάλα, ἐσχέαντες ἐς ξύλινα ἀγγεῖα κοῖλα καὶ περιστήσαντες κατὰ τὰ ἀγγεῖα τοὺς τυφλοὺς δονέουσι τὸ γάλα, καὶ τὸ μὲν αὐτοῦ ἐπιστάμενον ἀπαρύσαντες ἡγέονται εἶναι τιμιώτερον, τὸ δ’ὑπιστάμενον ἧσσον τοῦ ἑτέρου.) (Histórias, IV.2), tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva (2019). Os citas retiravam a nata que ficava na parte superior e o queijo que se sedimentava no fundo da vasilha.
[27]: Estratego ateniense, 419-353 a.C., a quem é atribuída a reforma na infantaria ateniense com a introdução de uma tropa ligeira, os peltastas.
[28]: Não dispomos de mais informações sobre essas personagens.
[29]: Com algumas variações, Plutarco cita essas anedotas em dois outros tratados, nos quais registra: “Alguém perguntou a Ifícrates, o estratego, como que o colocando à prova, quem era ele? ‘pois não era hoplita, nem arqueiro, nem peltasta’. E ele lhe disse: ‘quem faz uso deles e comanda a todos eles’” (Ἠρώτα τις Ἰφικράτην τὸν στρατηγόν, ὥσπερ ἐξελέγχων, τίς ἐστιν; “οὔτε γὰρ ὁπλίτης οὔτε τοξότης οὔτε πελταστής.” κἀκεῖνος “ὁ τούτοις,” ἔφη, “πᾶσιν ἐπιτάττων καὶ χρώμενος.”) (Da sorte, 99E) e “E um orador perguntou-lhe na Assembleia: ‘Quem és que tanto te preocupas? Se cavaleiro, ou hoplita, ou arqueiro, ou peltasta?’ Ele disse: ‘Nenhum desses, mas quem sabe comandar a todos eles’” (Ῥήτορος δέ τινος ἐπερωτῶντος αὐτὸν ἐν ἐκκλησίᾳ ’τίς ὢν μέγα φρονεῖς; πότερον ἱππεὺς ἢ ὁπλίτης ἢ τοξότης ἢ πελταστής;’ ‘οὐδείς’ ἔφη ‘τούτων, ἀλλ’ ὁ πᾶσι τούτοις ἐπιστάμενος ἐπιτάττειν.’) (Ditos de reis e generais, 187B).
[30]: Lacuna no manuscrito.
[31]: Homero, Odisseia, XV.323.
[32]: Há discussão se o tratado encerra sua argumentação ou se ocorreu uma lacuna.