Antigos hábitos dos lacedemônios
Texto grego da edição de W. Nachstädt.[10] Tradução de Maria Aparecida de Oliveira Silva. A nota ao título identifica os lacedemônios.[11]
§ 1
[1] [236f] O mais velho, que mostra as portas a cada um dos que entram nas sissítias[12], diz: “Por essas portas, não sai nenhuma palavra”[13].
§ 2
[2] O chamado caldo negro era muito aprovado junto a eles, já que os mais velhos não precisavam sequer de um pequeno de pedaço de carne, que a deixavam para os jovens, conta-se que graças a isso, Dionísio[14], o tirano da Sicília[15], comprou um cozinheiro lacônico e ordenou-lhe que preparasse um caldo para ele, sem poupar gasto; depois de tê-lo provado, [237a] tolerou-o com dificuldade e o rejeitou cuspindo-o, e o cozinheiro disse-lhe: “Esse caldo deve ser comido por quem se exercitou à moda lacônica e se banhou no Eurotas[16]”[17].
§ 3
[3] Depois de beber com moderação nas sissítias, os lacedemônios partem sem tochas; pois não lhes é permitido ir nem por este nem por qualquer outro caminho com luz, para que se acostumem a caminhar na escuridão e à noite com ânimo e sem medo[18].
§ 4
[4] Aprendiam as letras por necessidade[19]; e promoviam o banimento dos outros conhecimentos, não mais dos homens que dos livros. E a educação deles estava voltada para ser bem comandado, perseverante nas atividades penosas e combater para vencer ou morrer[20].
§ 5
[5] [237b] E ainda passavam a vida sem quíton[21], recebiam um único manto para um ano inteiro, seus corpos eram sujos e, durante a maior parte do tempo, mantinham-se longe de banhos e unguentos[22].
§ 6
[6] E os jovens dormiam juntos por companhias e grupos de jovens em camas feitas com folhagens, que eles mesmos recolhiam e quebravam com as mãos as pontas do tálamo nascido às margens do Eurotas, sem o uso do ferro; e no inverno, colocavam embaixo de si as chamadas licófonas[23] e as misturavam com palha, porque se pensava que qualquer coisa vinda da floresta tinha capacidade térmica.
§ 7
[7] Era permitido amar a alma dos jovens sérios; mas era considerado vergonhoso ter relações sexuais entre eles, porque havia o amor pelo corpo, [237c] mas não pela alma; e quem fosse acusado de ter tido relações sexuais sob condição vergonhosa, perdia o direito à cidadania por toda vida[24].
§ 8
[8] Havia também o costume dos mais jovens serem interrogados pelos mais velhos sobre para onde eles estavam indo e com qual intenção, e quem não os respondesse ou tramasse pretextos recebia punição[25]; e se o mais velho que estivesse presente não punisse quem cometeu o erro era acusado junto com quem cometeu o erro sob a mesma penalidade; também quem se aborrecesse era punido, estaria em uma situação de grande desgraça.
§ 9
[9] Se alguém fosse surpreendido cometendo um erro, este devia andar em círculo em torno de um dos altares da cidade, enquanto entoava um canto de censura composto por ele mesmo; que não era nada além de reprovar a si mesmo[26].
§ 10
[10] [237d] Os jovens também deviam respeitar não somente os seus próprios pais e ser obedientes a eles, mas ter respeito para com todos os mais velhos, também ceder-lhes os caminhos, levantar-se dos assentos para dar-lhes lugar e ficar quietos quando eles estivessem presentes[27]. Por isso cada um deles comandava, não tal como em outras cidades, os seus próprios assuntos e os dos que estão próximos, para que tenham o máximo possível em comum e se preocupem com isso como se fossem seus próprios assuntos[28].
§ 11
[11] Quando um menino era castigado por alguém, se ao seu pai levasse a notícia, o pai teria vergonha de ouvir isso se não lhe reaplicasse outros golpes; pois sabia que a educação pátria não ordenaria nada de vergonhoso aos seus filhos[29].
§ 12
[12] [237e] E os jovens também roubam os alimentos que podem, aprendem com habilidade a atacar os que estão dormindo ou os que vigiam de modo negligente; e a punição para quem fosse capturado eram golpes de espada e a fome. Pois eles têm uma refeição escassa, para que se defendam durante uma necessidade e sejam obrigados a ser ousados e habilidosos[30].
§ 13
[13] E a atividade da sissítia, por causa disso, era escassa, a fim de que jamais se acostumassem a estar satisfeitos e que fossem capazes de suportar a fome; pois pensavam que assim seriam mais úteis na guerra, se fossem capazes, mesmo sem alimentação, de perseverar na fadiga, ser mais fortalecidos e frugais e se por durante muito tempo tivessem o mínimo de despesa; [237f] suportar a falta de alimento, usar qualquer coisa encontrada ao acaso como refeição, pensar que os corpos seriam mais saudáveis se crescessem recebendo uma alimentação frugal, porque consideravam que os corpos deveriam ser esguios e longilíneos, estendidos para o alto; e se tornar belo, pois os magros e os esguios podem obedecer o movimento das articulações, enquanto os que são mais alimentados, por causa do peso, têm resistência a isso[31].
§ 14
[14] [238a] E em nada se aplicavam com menos zelo que às melodias e aos cantos; isso é um aguilhão que desperta o ânimo e a inteligência, também suscita um impulso entusiástico e prático. E seu estilo era simples e austero; e nenhuma outra coisa continha além de elogios aos que viveram nobremente e morreram por Esparta, que eram felizes; e as censuras aos que tremiam no campo de batalha, que viviam uma vida de sofrimento e infelicidade; e declaração e exaltação da virtude conveniente para cada idade[32].
§ 15
[15] Então, há três coros para as três idades, que se apresentam juntos nas festas, o dos anciões começa com este canto: “Nós outrora fomos valorosos jovens!”[33] [238b] Depois, o que fala na sua vez para os homens maduros[34] diz: “E nós o somos: se quiseres, enxerga!” E o terceiro, o dos meninos:
“E nós seremos em muito melhores.”
§ 16
[16] E os ritmos estimulantes das marchas militares estavam voltados para a coragem, ousadia e desdém da morte[35], os que são utilizados nos coros e quando, com o aulo, avançavam contra os inimigos. Pois Licurgo[36] atrelou o amor à música ao exercício para a guerra, para que o excesso de hostilidade misturado à melodia tivesse concordância e harmonia; por isso também, o rei nas batalhas realizava antes um sacrifício em honra às Musas[37], a fim de que os combatentes tivessem ações dignas de discurso e de memória gloriosa[38].
§ 17
[17] [238c] E se alguém transgredisse algo da antiga música, isso não era permitido; embora Terpandro[39] fosse o mais antigo e o melhor dos citaredos de sua época, também um panegirista dos feitos heroicos, mesmo assim, os éforos o condenaram a pagar uma multa e levaram a sua cítara e a penduraram em um prego, porque estendeu uma única corda a mais em favor da variação do som; pois aprovavam somente as melodias mais simples. E quando Timóteo[40] estava competindo nas Carneias[41], um dos éforos, depois de ter pegado uma faca, perguntou-lhe de qual dos lados cortaria as excedentes das sete cordas.
§ 18
[18] [238d] E Licurgo retirou toda superstição dos rituais de enterramento, porque concordou que os cadáveres fossem enterrados na cidade e que as tumbas estivessem próximas dos templos. E também aboliu as impurezas, não permitiu que nada fosse enterrado com eles, mas que os corpos fossem trajados com uma veste vermelha e com folhas de oliveira, e prescreveu isso igualmente para todos. E retirou as inscrições das tumbas, exceto as de quem havia morrido na guerra, e as cerimônias enlutadas e as lamentações[42].
§ 19
[19] E não lhes era permitido viajar para fora da cidade, a fim de que não participassem dos costumes estrangeiros e de seus modos de vida sem instrução[43].
§ 20
[20] [238e] E também introduziu a xenelasia[44] para aqueles que a adentrassem não fossem professores de mal nenhum aos cidadãos[45].
§ 21
[21] Dentre os cidadãos, quem não tivesse se submetido à educação dos jovens não compartilhava dos direitos da cidade[46].
§ 22
[22] E alguns diziam que, dentre os estrangeiros, quem se submetesse a esse exercício da constituição, conforme a determinação de Licurgo, participava da parte estabelecida desde o princípio.
§ 23
[23] E não era permitido vender. O costume era utilizar os servos dos vizinhos como se fossem próprios, se um dia necessitassem, também os cães e os cavalos; se os seus déspotas[47] não precisassem deles; e ainda, no campo, se alguém tivesse a necessidade de algo que lhe faltasse, após abrir e retirar o que lhe conviesse de quem os possuía, lacrava os locais de armazenamento e o deixava[48].
§ 24
[24] [238f] Nas guerras trajavam roupas vermelhas; pois tanto eles pensavam que a cor era viril como que o aspecto sangrento da cor causava mais medo aos inexperientes; também que não era fácil de se descobrir entre os inimigos, caso um deles fosse ferido, mas que passava despercebido pela vantagem da semelhança da cor[49].
§ 25
[25] Quando vencem os inimigos por meio de um estratagema, sacrificam um boi para Ares[50]; e quando vem de uma batalha em campo aberto, um galo; porque estão acostumados a ser comandados não somente guerreiros, mas também estratégicos.
§ 26
[26] [239a] Às suas preces, acrescentavam a capacidade de sofrer uma injustiça.
§ 27
[27] E a prece deles era para que recebessem belas coisas por suas nobres ações, nada mais[51].
§ 28
[28] Eles veneravam Afrodite[52] Enóplia[53], e representavam todos os deuses femininos e masculinos com lanças, para que todos tivessem a virtude guerreira.
§ 29
[29] E os que costumam citar provérbios dizem: oferece a tua mão, quando o destino te chamar, porque necessitas invocar os deuses depois de empreender algo e fazê-lo, e não de outro modo[54].
§ 30
[30] Aos meninos, mostravam os hilotas embebedados para preveni-los sobre o excesso de vinho[55].
§ 31
[31] Eles não tinham o costume de bater às portas de entrada das casas, mas de gritar do lado de fora.
§ 32
[32] [239b] Não utilizavam raspadores de ferro, mas de caniços[56].
§ 33
[33] Não eram ouvintes das comédias e das tragédias, para que nem a sério nem por brincadeira eles ouvissem os que se contrapõem às leis.
§ 34
[34] Arquíloco[57], o poeta, quando chegou à Lacedemônia[58], nessa hora, eles o expulsaram[59], porque descobriram que ele havia composto que era melhor largar as armas que morrer: Com meu escudo, um saio se exalta, o que na
moita, arma perfeita, abandonei sem querer! Mas eu
mesmo escapei da morte no fim; pereça aquele escudo!
De novo obterei um não pior[60].
§ 35
[35] [239c] Os ritos sacrificiais eram comuns às jovens e aos jovens virgens[61].
§ 36
[36] Os éforos impuseram uma multa a Ciráfidas[62], porque foi lesado pelos inimigos.
§ 37
[37] Mataram um que trajava um manto grosseiro, porque colocou uma franja em seu manto[63].
§ 38
[38] Puniram um jovem adolescente que estava fora dos exercícios gímnicos, porque conhecia o caminho para Pilea[64].
§ 39
[39] Baniram Cefisofonte[65] porque ele disse que era capaz de falar o dia inteiro sobre o assunto que viesse, então lhe disseram que o bom contador de histórias deveria ter o discurso igual às suas ações.
§ 40
[40] Os meninos, entre eles, são golpeados com chicote o dia inteiro no templo de Ártemis[66] Órtia[67], muitas vezes até a morte, mas resistem alegres e exultantes até o fim, [239d] e competem pela vitória uns com os outros, vence quem dentre eles for mais golpeado por mais tempo; e quem se sobressai tem uma reputação muito boa. E a competição é chamada de flagelação[68]; e acontece a cada ano.
§ 41
[41] Uma coisa dentre as belas e felizes ações que Licurgo pensou foi proporcionar a abundância de tempo livre aos cidadãos[69]; pois não lhes era permitido em absoluto ter contato com o ofício[70] do trabalhador manual[71]; nem mesmo devia haver qualquer tipo de negociação lucrativa para a acumulação trabalhosa e sistemática, porque fez a riqueza algo que não se inveja nem se honra. E os hilotas trabalhavam a terra [239e] para eles e pagavam um tributo estabelecido desde o início. E, sob a pena de maldição, não era permitido dar-lhes um pagamento a mais, a fim de que os hilotas, na possibilidade de um ganho, trabalhassem com prazer e que eles não desejassem mais[72].
§ 42
[42][73] E proibiu que eles tivessem nautas e travassem batalhas navais; mais tarde, todavia, eles travaram batalhas navais, e depois de terem dominado o mar, eles retornaram à terra natal, porque viram que os costumes dos cidadãos foram corrompidos por elas. Mas mudaram de ideia novamente, como em todos os outros assuntos; de fato, quando o dinheiro foi acumulado pelos lacedemônios, os que o acumularam foram condenados à morte. Pois aos reis Alcâmenes[74] e Teopompo[75], foi-lhes dado o oráculo: O amor ao dinheiro destruirá Esparta! [239f] Mas mesmo assim, Lisandro[76] apoderou-se de muito ouro e prata dos atenienses e os trouxe para a cidade, e os lacedemônios o receberam e concederam honras a esse homem. Portanto, enquanto a cidade se serviu das leis de Licurgo e manteve os juramentos, foi a primeira cidade da Hélade porque tiveram uma boa ordem e uma reputação durante o tempo de quinhentos anos; mas, pouco a pouco, eles foram transgredindo as leis porque a ambição e o amor ao dinheiro entraram nela, [240a] também as disposições do poder começaram a se enfraquecer; e os seus aliados militares, por causa disso, foram hostis com eles. Mas, mesmo assim, depois da vitória[77] de Filipe[78] da Macedônia[79] em Queroneia[80], quando todos os helenos proclamaram que ele era seu comandante na terra e no mar, e durante o tempo de seu filho Alexandre[81], depois da ruína[82] de Tebas[83], os lacedemônios foram os únicos, − apesar de sua cidade estar sem muralhas, de serem muito poucos por suas contínuas guerras, de se tornarem muito mais fracos e fáceis de ser dominados, porque preservaram muito pouco de uns últimos lampejos da legislação de Licurgo −, [240b] que não realizaram expedições militares nem com eles, nem com os sucessivos reis macedônios, nem entraram na assembleia geral, nem lhes pagaram tributo; até o ponto em que não mais observavam por completo a legislação de Licurgo e foram tiranizados por seus próprios cidadãos, nem preservaram ainda a educação tradicional, e se tornaram semelhantes aos outros, afastaram-se da boa glória de antes e da liberdade de expressão e se colocaram em uma situação de escravidão, e agora, como os demais helenos, estão sob o domínio dos romanos[84].
Ὁ Διαφορεύς παρῆν
[10]: Texto Grego retirado de Plutarch. Moralia. Apophthegmata Laconica. vol. 2.1. Ed. W. Nachstädt. Leipzig: Teubner, 1971.
[11]: Habitantes de uma região localizada na Península do Peloponeso, onde estava situada a cidade de Esparta. Em geral, os autores gregos referem-se aos espartanos como lacedemônios, e a Esparta como sendo a Lacedemônia, ou ainda lacônios e Lacônia.
[12]: Refeições públicas, comuns aos homens e aos jovens cidadãos espartanos.
[13]: Plutarco reproduz essa anedota, com outras palavras, em Assuntos de banquetes, 697E, onde lemos: “ταύτῃ’ φασίν ‘οὐκ ἐξέρχεται λόγος”, isto é, “por ela”, dizem, “não sai uma palavra”, e na Vida de Licurgo, XII, 5, em que registra: “Διὰ τούτων,” φησίν, “ἔξω λόγος οὐκ ἐκπορεύεται.”, ou seja, “Através dessas”, dizem, “para fora, não sai uma palavra”.
[14]: Trata-se de Dionísio I (405 a.C. - 367 a.C.), que se tornou tirano de Siracusa em 405 a.C., quando da realização da primeira e vitoriosa guerra contra Cartago, cidade fundada pelos fenícios no Norte da África.
[15]: Maior ilha da região da Magna Grécia, fundada por Árquias de Corinto em 734 a.C. Sobre a sua fundação, consultar: Plutarco, Contos de Amor, 772E-773B.
[16]: Maior rio da Lacônia, corta o monte Taígeto e cruza a cidade de Esparta.
[17]: Na Vida de Licurgo, XII, 7, Plutarco registra um episódio semelhante, mas com um rei do Ponto, sem nomeá-lo, que comprou um cozinheiro lacedemônio, onde diz: “Ὦ βασιλεῦ, τοῦτον δεῖ τὸν ζωμὸν ἐν τῷ Εὐρώτᾳ λελουμένους ἐποψᾶσθαι.”, isto é, “Ó rei, esse caldo deve ser comido depois de ter se banhado no Eurotas”. O orador romano Cícero, em Tusculanas, V, 34, 98, conta este episódio com Dionísio, como Plutarco o faz aqui, e o registra assim: “ubi cum tyrannus cenavisset Dionysius, negavit se iure illo nigro, quod cenae caput erat, delectatum. Tum is qui illa coxerat: 'Minime mirum; condimenta enim defuerunt.' 'Quae tandem?' inquit ille. 'Labor in venatu, sudor, cursus ad Eurotam, fames, sitis; his enim rebus Lacedaemoniorum epulae condiuntur.'”, ou seja, “Quando o tirano Dionísio jantou lá uma vez, disse que não havia gostado nada daquele famoso caldo negro, que era o prato principal do jantar. Então, o cozinheiro que o havia preparado disse: “Não tem nada de diferente, faltaram-lhe os condimentos. “Quais então?”, ele perguntou. “A fadiga da caça, o suor, a corrida até o Eurotas; porque com esse tipo de coisa o prato é temperado pelos lacedemônios”. Outro autor que faz referência ao caldo negro é Estobeu em Florilégio, XXIX, 100.
[18]: Esta prática também é citada por Plutarco na Vida de Licurgo, XII, 4, e por Xenofonte em Constituição dos lacedemônios, V, 7. Este é o primeiro de uma série de episódios em que a coragem espartana é exaltada e posta como uma marca distintiva de Esparta. Sobre esse tema, há o minucioso artigo de Scott (2017).
[19]: Plutarco repete esta afirmação na Vida de Licurgo, XVI, 6. Em contraposição a este relato, em um dos seus discursos, Isócrates afirma que “οὐδὲ γράμματα μανθάνουσιν”, ou seja, que os lacedemônios “nem mesmo as letras aprendem”. Consultar: Isócrates, Panatenaico, 209, 3.
[20]: O mesmo raciocínio é apresentado na Vida de Licurgo, XVI, 7.
[21]: Trata-se de uma túnica de linho muito usada entre os atenienses.
[22]: Consultar a Vida de Licurgo, XVI, 5-6.
[23]: λυκόφων (lykóphōn) é o equivalente de έχινόπους (ekhinópous), um tipo de planta espinhosa ou irritadiça. Plutarco repete a seguinte parte deste dito: “ἐν δὲ τῷ χειμῶνι τοὺς λεγομένους λυκόφονας ὑπεβάλλοντο καὶ κατεμίγνυσαν ταῖς στιβάσι, θερμαντικὸν ἔχειν τι τῆς ὕλης δοκούσης” (Vida de Licurgo, XVI, 7). Liddell & Scott (1996) acrescentam que também pode ser derivado de λυκόφονος (lykóphοnos), que significa “assassinos de lobos” ou “matadores de lobos”. A partir disso, também podemos supor que se tratava uma planta venenosa que matava os lobos, que também seria uma proteção para eles.
[24]: Consultar Vida de Licurgo, XVII, 1-2 e Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, II, 12-14.
[25]: Pratica registrada também em Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, II, 10.
[26]: Ver Plutarco, Vida de Licurgo, XV, 3-4. Conforme Davies, os cidadãos espartanos deveriam se destacar por sua coragem e disciplina desde os primeiros anos de vida, a fim de que se tornassem exímios soldados e obtivessem destaque dentro de sua sociedade (2013, p. 266-267).
[27]: Heródoto registra este hábito, quando compara os lacedemônios aos egípcios: “Ainda acontece de os egípcios terem outro costume diferente dos helenos que somente os lacedemônios têm, que é o seguinte: os mais jovens, quando se encontram com os mais velhos que eles, retiram-se do caminho, desviam-se e se levantam do assento quando eles se aproximam.” (Histórias, II, 80).
[28]: Xenofonte registra o mesmo hábito em Constituição dos lacedemônios, II, 10.
[29]: Também em Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, VI, 2.
[30]: Ver o capítulo XVII da Vida de Licurgo, de Plutarco; Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, II, 6-9 e Isócrates, Panatenaico, 211-214.
[31]: Conferir Plutarco, Vida de Licurgo, XV, 3-4, Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, II, 5-6; Ateneu, Deipnosofistas, XII e Eliano, Várias histórias, XIV, 7.
[32]: Xenofonte também registra esse hábito em Constituição dos lacedemônios, II, 12-14.
[33]: Esta sequência de falas, que nos lembra um jogral, também é registrada por Plutarco na Vida de Licurgo, XXI, 2-4, e em seu tratado Do elogiar a si mesmo de modo irreprovável, 544E.
[34]: Consultar também Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, II, 10.
[35]: A respeito da morte neste tratado, consultar Scott (2015).
[36]: Legislador espartano (século VII a.C.), conhecido por ter implementado um conjunto de leis denominado Grande Retra, que os espartanos acreditavam terem sido ditadas pelo oráculo de Delfos. Para mais detalhes sobre o legislador e suas leis, consultar: Plutarco, Vida de Licurgo e Vida de Sólon, XVI, 2, e Xenofonte, Constituição dos lacedemônios.
[37]: As Musas eram filhas da deusa Mnemôsine (personificação da Memória) e de Zeus pai e trazem ora o epíteto de Piérides, ora de Helicônias. Elas eram em número nove; a saber: Calíope (poesia épica), Clio (história), Euterpe (lírica e música de flauta), Melpômene (tragédia), Terpsícore (dança), Érato (hinos e música para lira), Polímnia (cantos sacros), Talia (comedia) e Urânia (astronomia).
[38]: Este pensamento é vastamente difundido entre os autores que trataram de Esparta, ou de algum episódio que a envolva. Consultar Tucídides, História da guerra do Peloponeso, V, 70; Aristóteles, Política, 1340b20; Políbio, Histórias, IV, 20, e outros. Plutarco a reproduz em seu tratado Ditos dos lacedemônios, 210F e 221A e na Vida de Licurgo, XXI, 4.
[39]: Músico e poeta, século VII a.C., nasceu na cidade de Antissa, na ilha de Lesbos. De acordo com Plutarco, em seu tratado De música, 1132 C-D, Terpandro foi compositor de nomos para cítara, nos quais adaptou melodia a versos de Homero e os apresentou em concursos. Também criou melodias para o aulo e cantos de procissão. No entanto, a música de Terpandro era muito simples se comparada à época de Plutarco (1133B). O músico sagrou-se como o primeiro vencedor das Carneias, em 676 a.C.
[40]: Timóteo de Mileto, 450-360 a.C., trouxe inovações para o ditirambo e introduziu instrumentos com onze cordas em Esparta. O episódio do éforo com Timóteo é relatado também por Ateneu, Deipnosofistas, XI. Por sua vez, Pausânias relata que fora Timóteo que foi importunado por causa de sua cítara, não Terpandro, como lemos neste dito. Ver: Pausânias, Descrição da Hélade, XII, 10.
[41]: Em seu tratado Assuntos de banquetes, 717D, Plutarco diz que tanto Esparta como Atenas honravam o deus Apolo com festivais, esta com as Targélias e aquela com as Carneias. Tucídides, História da guerra do Peloponeso, V, 54 e 76, também faz referência às Carneias, assim como Eurípides, Alceste, vv. 445-450, onde o poeta conta que as Carneias tinham hinos sem lira, no mês carneu (julho-agosto), sob a lua cheia.
[42]: Plutarco conta que esses hábitos foram instituídos para que os jovens convivessem com a realidade da morte e assim não a temessem (Vida de Licurgo, XXVII, 1-4).
[43]: Plutarco repete esta ideia em Vida de Licurgo, XXVII, 6, igualmente na Vida de Ágis, X, 2, também Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, XIV, 4, antes Tucídides, História da guerra do Peloponeso, II, 39, e outros.
[44]: A ξενηλασία (xenēlasía) era a expulsão de estrangeiros. Sobre a xenelasia em Esparta, consulta Figueira (2003).
[45]: Consultar Vida de Licurgo, XXVII, 7.
[46]: Ver Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, III, 3.
[47]: δεσπότης (despotē*s*), ou déspota, não corresponde ao sentido que temos hoje. À época de Aristóteles, era o nome dado ao senhor de escravos. O relato de Heródoto lembra o dito pelo filosofo ateniense sobre o homem livre: “De modo que uns não sabem governar, mas ser governados por um poder semelhantes ao destinado aos escravos, e os outros não sabem ser governados por nenhum tipo de poder que ser governado por um poder despótico. Portanto, a cidade se torna um lugar de déspotas e de escravos, mas não um lugar de homens livres; uns homens são invejosos e outros são negligentes, o que se afasta muitíssimo da amizade e da comunidade política; pois a comunidade é um ato de amizade; pois os homens não querem compartilhar nem o caminho com os seus inimigos” (Aristóteles, Política, 1295b20-25).
[48]: Aristóteles registra, “na Lacedemônia, eles utilizam os escravos uns dos outros, como costumavam dizer que eram próprios, além dos cavalos, cães e os produtos agrícolas, quando necessitavam de provisões para viajar pelo seu território” (Política, 1263a35-39). Tal hábito também é relatado por Xenofonte em Constituição dos lacedemônios, VI, 3-4.
[49]: Consultar Xenofonte em Constituição dos lacedemônios, II, 3; Valério Máximo, Feitos e ditos memoráveis, II, 6, 12 e Eliano, Várias histórias, VI, 6.
[50]: Filho de Zeus e de Hera, pertence à segunda geração dos deuses olímpicos, considerado o deus da guerra, do combate. Sobre a origem de Ares, consultar Hesíodo, Teogonia, vv. 921-922.
[51]: Plutarco faz referência ao dito por Platão em seu diálogo Alcibíades, 148c.
[52]: Deusa do amor, filha de Urano, nascida dos órgãos sexuais de seu pai, cortados por Crono, que caíram nas ondas do mar e que, em suas espumas, geraram Afrodite. Nas águas do mar, a deusa foi levada à ilha de Citera e, em seguida, a Cipro, hoje chamada Chipre.
[53]: Pausânias, em sua descrição da Lacônia, afirma que havia uma colina na qual foi construída um pequeno templo no topo, onde estava localizada “a imagem de Afrodite armada talhada na madeira” (Ἀφροδίτης ξόανον ὡπλισμένης) (Descrição da Hélade, III, 15, 1). E mais adiante, afirma que a imagem “tinha na cabeça um elmo e nas mãos uma lança e um arco” (ἔχει δὲ ἐπὶ τῇ κεφαλῇ κράνος, λόγχην δὲ ἐν ταῖς χερσὶ καὶ τόξον) (Descrição da Hélade, III, 19, 1).
[54]: Provérbio contido também na Fábula n. 20, de Bábrio.
[55]: Plutarco registra esse hábito ainda na Vida de Licurgo, XXVIII, 8 e Vida de Demétrio, I, 5.
[56]: Ver também Teofrasto, História das plantas, IV, 12 e Plínio, História natural, XVI, 66.
[57]: Poeta heleno do século VII a.C., nascido na ilha de Paros. Segundo a tradição, era filho de uma escrava e, por limitação econômica, migrou para Tasos, onde foi soldado mercenário e apaixonado por Neobule, filha de Licambes. A poesia iâmbica e seus hinos tornaram Arquíloco famoso, mas deles nos restaram apenas fragmentos.
[58]: Região localizada na Península do Peloponeso.
[59]: Sobre a expulsão de estrangeiros, existem diversos relatos, como os de Aristófanes, Aves, v. 1012; Platão, Protágoras, 342c; Xenofonte, Constituição dos lacedemônios, XIV, 4 e Eliano, Várias histórias, XIII, 16.
[60]: O terceiro verso apresenta diferenças que não constam na tradição escrita, sobre esse debate, consultar Corrêa (1998, p. 112-113) e Silva (2013, p. 71-72).
[61]: Consultar Plutarco, Vida de Licurgo, XIV, 4.
[62]: Na Vida de Lisandro, Plutarco afirma que Ciráfidas, segundo Teopompo, propôs que não se recebesse moedas de ouro ou prata em Esparta, que somente utilizassem o ferro temperado corrente na cidade, ou o bronze, que era menos usado (Vida de Lisandro, XVVII, 3-4).
[63]: Este dito não encontra paralelo nos relatos que nos chegaram sobre Esparta.
[64]: Não se sabe ao certo a qual caminho Plutarco se refere, talvez se trate de uma expressão que indique a passagem por determinado local reservado aos homens adultos.
[65]: Não dispomos de mais informações sobre essa personagem.
[66]: Filha de Zeus e Leto, irmã gêmea de Apolo, era conhecida como a deusa da caça e protetora do parto. Apolo era representado com as armas douradas, associado ao Sol, já a deusa, com armas argênteas, associada à Lua. Consultar: Hino homérico a Ártemis e Hino homérico a Apolo.
[67]: Epíteto da deusa Ártemis cultuada em Esparta, que significa “ereta”, “alta”, adjetivos que convém à deusa e à cultura guerreira dos espartanos.
[68]: A flagelação espartana é também registrada por Plutarco em Vida de Licurgo, XVIII, 2 e Vida de Aristides, XVII, 10. Igualmente Pausânias o fez em sua Descrição da Hélade, III, 16, 10 e, mais tarde, Cícero registrará em Tusculanas, II, 14, 34 e Filóstrato o fará em Vida de Apolônio de Tiana, VI, 20.
[69]: Plutarco coloca entre as determinações de Licurgo um pensamento que é desenvolvido por Aristóteles no século IV a.C. O cidadão aristotélico é o homem com tempo livre para filosofar e que recebe a educação para desenvolver o conhecimento como o pensamento filosófico, excluindo as mulheres e os que nasceram para ser governados, como os escravos. E a questão do tempo livre, ou do ócio, é assim sintetizada por Aristóteles: “E o tempo livre parece que tem em si mesmo prazer, felicidade e uma vida bem aventurada. E isso não existe entre os que trabalham, mas entre os que têm tempo livre; porque alguém que está dentre os trabalhadores trabalha por um fim que não se sustenta, enquanto a felicidade é um fim, a qual todos pensam que não está em companhia da dor, mas do prazer” (Política, 1338a3-6).
[70]: τέχνης (tékhēs), que significa “arte”, aqui foi traduzido por “ofício” para não gerar a seguinte dualidade na tradução: “não tocar na arte do trabalhador manual”, o que levaria a crer que não usufruíssem dessa arte por meio de taças, armas e outros objetos.
[71]: Heródoto encontrou semelhante prática entre os egípcios e assim a analisa: “Portanto, se os helenos aprenderam isso com os egípcios, não posso emitir um julgamento com exatidão, olhando para os trácios, os citas, os persas e os lídios, e quase todos os bárbaros os mais desprestigiados dos demais cidadãos são os que aprendem as artes manuais e os antepassados desses, enquanto os que estão livres das atividades manuais são considerados nobres e, principalmente, os que se dedicam aos assuntos da guerra. Então todos os helenos que aprenderam isso, principalmente os lacedemônios, mas os coríntios desaprovam menos aqueles que exercem atividades manuais” (Histórias, II, 167).
[72]: Plutarco também registra esse episódio na Vida de Licurgo, XXIV, 2 e na Vida de Agesilau, XXVI, 4.
[73]: Este dito, na verdade, parece um breve resumo da história de Esparta, pois traça a trajetória da cidade da época de Licurgo até a dominação romana.
[74]: Rei espartano da Casa dos Ágidas, século VIII a.C., foi comandante do exército espartano na Primeira Guerra da Messênia, ao lado do rei Teopompo.
[75]: Rei espartano da Casa dos Euripôntidas, 720-675 a.C., foi comandante e mentor da Primeira Guerra da Messênia.
[76]: Estratego e navarca espartano (séculos V a.C.-IV a.C.), morto em Haliarto em 395 a.C. Lisandro alcançou grande prestígio após inúmeras batalhas vencidas, em especial, contra Atenas em 404 a.C., na conhecida Guerra do Peloponeso. Logo em 403 a.C., Lisandro propôs, sem êxito, aos espartanos que as realezas passassem a ser elegíveis. No entanto, os planos de Lisandro de alcançar o poder real se concretizaram em 399 a.C., mas de forma indireta, quando conseguiu nomear Agesilau rei de Esparta. Para mais detalhes sobre o episódio, consultar: Plutarco, Vida de Agesilau, e Xenofonte, Agesilau.
[77]: Batalha ocorrida em 338 a.C.
[78]: Filipe II da Macedônia (século IV a.C.), pai de Alexandre, o Grande.
[79]: Região situada ao noroeste da Hélade.
[80]: Cidade natal de Plutarco, localizada na Béocia, região norte da Hélade.
[81]: Alexandre, o Grande, 330-323 a.C., rei da Macedônia, 336-323 a.C. e da Pérsia, 330-323 a.C.
[82]: Ocorrida em 335 a.C.
[83]: Cidade localizada na região norte da Hélade, capital da Beócia.
[84]: Vemos aqui uma tentativa de Plutarco de explicar como uma cidade tão famosa por suas virtudes militares pode se tornar um território dominado pelos romanos. Convém notar que Plutarco mostra que nem mesmo o Império Macedônio foi capaz de dominar Esparta, por conta de ser ainda um pouco influenciada pelas leis de Licurgo, que já não existiam mais à época romana, o que explicaria a submissão espartana. Este parágrafo também pode estar relacionado ao dito por Plutarco na Vida de Lisandro, XVII, 6, onde afirma que registrou em outro local uma crítica à entrada do dinheiro e da paixão que despertou entre os espartanos, como vimos na Introdução desta tradução.