Teeteto — [263] Farei o que puder.
Estrangeiro — Teeteto está sentado. Não é longa, pois não?
Teeteto — Não; é bem razoável.
Estrangeiro — Cabe a ti, agora, dizer a quem se refere a sentença e de que se trata.
Teeteto — Evidentemente, fala de mim e se refere a mim mesmo.
Estrangeiro — E esta outra?
Teeteto — Qual?
Estrangeiro — Teeteto, com quem converso neste momento, voa.
Teeteto — Desta, também, outra coisa não se poderá dizer, se não for que fala também de mim e a meu respeito.
Estrangeiro — Porém já dissemos que toda sentença terá de ser, por força, de uma certa natureza.
Teeteto — Sim.
Estrangeiro — E como diremos que seja a natureza de cada uma dessas sentenças?
Teeteto — Uma delas, de algum modo, é falsa; a outra, verdadeira.
Estrangeiro — Das duas, a verdadeira diz de ti as coisas como realmente são.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — E a falsa, diferentes da realidade.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — Logo, fala de coisas não existentes ti como se existissem?
Teeteto — Quase.
Estrangeiro — A saber, como existentes, porém diferentes das que existem com relação à tua pessoa, pois já dissemos que com relação a cada coisa há muitos seres e muitos não-seres.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — Quanto à segunda sentença que formulei a teu respeito, de acordo com a definição apresentada antes, para começar, é de toda a necessidade que seja concisa.
Teeteto — De fato, esse ponto já ficou assentado.
Estrangeiro — Depois, que se refira a alguém.
Teeteto — Sem dúvida.
Estrangeiro — E que se não se referir a ti, não se referirá a mais ninguém.
Teeteto — Como não?
Estrangeiro — Se não se referisse a ninguém, de jeito nenhum poderia ser sentença, pois já mostramos não ser possível discurso de nada.
Teeteto — Certíssimo.
Estrangeiro — Assim, quando se fala a teu respeito, porém tratando de coisas outras como sendo as mesmas e do que não é como sendo, semelhante combinação, ao que parece, de substantivos e de verbos é, de fato e verdadeiramente, um falso discurso.
Teeteto — Muitíssimo certo.
XLVII XLVII — Estrangeiro — Mas como! Pensamento, opinião e imaginação: não é evidente, de início, que todos esses gêneros ocorrem em nossa alma como verdadeiros e como falsos?
Teeteto — De que jeito?
Estrangeiro — É o que perceberás facilmente, logo que determinares o que todos eles [263e] são e em uns que diferem uns dos outros.
Teeteto — Basta que te expliques melhor.
Estrangeiro — Ora bem, pensamento e discurso são uma e a mesma coisa, com diferença de que o diálogo interior da alma consigo mesma que se processa em silêncio recebeu o nome de pensamento.
Teeteto — Perfeitamente.
Estrangeiro — E a corrente que sai dela, pela boca, por meio de sons, recebe o nome de discurso.
Teeteto — Certo.
Estrangeiro — Como também sabemos que no discurso há o seguinte.
Teeteto — Que será?
Estrangeiro — Afirmação e negação.
Teeteto — Sabemos, realmente.