Pular para o conteúdo

Assim Falava Zaratustra

Friedrich Nietzsche · Conversação com Os Reis I

Conversação com Os Reis I

Quase uma hora decorrera desde que Zaratustra andava caminhando pelas suas montanhas e bosques, quando de súbito viu um singular cortejo. Ao centro do caminho que ele queria seguir, adiantavam-se dois reis adornados de coroas e de púrpuras multicores como flamengos; diante deles ia um jumento carregado. “Que querem estes reis no meu reino?” — disso assombrado Zaratustra, e escondeu-se logo atrás de uma moita. Quando os reis estavam muito perto dele, acrescentou a meia voz como se falasse consigo mesmo: “Caso raro! raríssimo! Como compreender isto? Vejo dois reis... e um asno só!”

Nisto os dois reis pararam, sorriram e dirigiram o olhar para o lugar donde partira a voz; depois entreolharam-se: “estas coisas — manifestou o rei da direita — também se pensam lá entre nós, mas não se dizem”.

O rei da esquerda respondeu, encolhendo os ombros: “Deve ser algum cabreiro ou ermitão que tem vivido demais entre brenhas e árvores. Que a absoluta ausência da sociedade também prejudica os bons costumes”.

“Os bons costumes! — replicou o outro rei com enfado e amargura. — Pois de que nos queremos nós livrar senão dos “bons costumes” da nossa “boa sociedade?”

Antes viver com ermitões e pastores do que com a nossa plebe dourada, falsa e polida, embora se lhe chame a “boa sociedade”, embora se lhe chame “nobreza”.

Ali tudo é falso e corrompido, a começar pelo sangue, graças a estranhas e malignas enfermidades e a piores curandeiros.

O melhor para mim, e o que hoje prefiro, é um camponês sadio, tosco, astuto, tenaz e resistente: é hoje a espécie mais nobre.

O camponês é hoje o melhor; e a espécie camponesa devia ser soberana. Vivemos, porém, no reinado da populaça; já me não deixo ofuscar. Populaça quer dizer amontoado.

Amontoamento populaceiro: ali tudo está misturado: o santo e o bandido, o fidalgo e o judeu e todos os animais da arca de Noé.

Os bons costumes! Entre nós tudo é falso e corrupto! Já ninguém sabe reverenciar. Disso , justamente, é que nos devemos livrar. São sabujos importunos: douram as palmas.

O desgosto que me sufoca é termo-nos nós mesmos, reis, tornado falsos, e cobrimo-nos e disfarçamo-nos com o passado fausto dos nossos ascendentes: sermos medalhas para os mais tolos e os mais astutos e para todos os que hoje traficam com o poder!

Nós não somos os primeiros e necessitamos aparentar que somos: por fim cansamo-nos e fartamo-nos deste embuste.

Apartamo-nos da canalha, de todos esses moscões que vociferam e esperneiam, do cheiro dos mercieiros, da rixa, da ambição, e do hálito pestilento... Puf! nada de viver entre a canalha! nada de passar pelos primeiros entre a canalha!

Horror! horror! horror! Que valemos já nós outrosr reis?”

“Torna a afligir-te a tua estranha dolência — disse neste ponto o rei da esquerda; — tornam as tuas repugnâncias, pobre irmão! Já sabes, contudo, que alguémi nos escuta”.

Imediatamente Zaratustra, que fora todo olhos e ouvidos, se ergueu do esconderijo e dirigindo-se aos reis começou a dizer:

“Aquele que vos escuta, aquele que gosta de vos escutar, a vós, reis, chama-se Zaratustra.

Eu sou Zaratustra que um dia disse:

“Que importam já os reis?” Perdoai-me: mas rejubilei quando dissestes um para o outro: “Que valemos já nós outros, reis?”

Aqui, porém, estais no meu reino e sob o meu domínio: que podeis procurar no meu reino? Talvez, contudo encontrásseis no caminho o que eu procuro: eu procuro o homem superior”.

Ao ouvir isto os reis bateram no peito e disseram ao mesmo tempo: “Conheceste-nos”.

Com a espada dessa palavra cortas a mais profunda obscuridade dos nossos corações. Descobristes a nossa angústia; porque, olha, nós vamos em busca do homem superior — o homem superior a nós outros, conquanto sejamos reis. — Para ele trazemos este jumento. Que o homem mais alto deve ser também na terra o mais alto senhor.

Não há calamidade mais dura em todos os destinos humanos do que quando os poderosos da terra não são ao mesmo tempo os primeiros homens. Então tudo se torna falso e monstruoso, tudo anda ao invés.

E quando são os últimos, e antes animais do que homens, então sobe de preço a populaça, e pela continuação acaba por dizer: “Já vedes: só eu sou virtude!”

— “Que ouço?! — respondeu Zaratustra. — Que sabedoria em reis! Estou entusiasmado e já me apetece fazer sobre isto uns versos — talvez sejam uns versos que não possam servir para os ouvidos de toda a gente. — Já há muito que esqueci as considerações com as orelhas compridas. Vamos! Adiante!

(Mas nesse momento também o asno tomou a palavra: disse claramente e com mau intuito: I. A.).

Noutros tempos — creio que no ano um — disse Ébria a Sibila (sem ter provado vinho):

“Ai isto vai mal!

“Decadência! Decadência! Nunca o mundo caiu tão baixo!

“Roma degenerou em rameira e habitação de rameiras.

“O César de Roma degenerou em besta; até Deus tornou-se judeu!”

Os reis deleitaram-se com os versos de Zaratustra, e o da direita disse: “Zaratustra, como fizemos bem em nos pormos a caminho para te ver!

Que os teus inimigos mostraram-nos a tua imagem num espelho: vimos a estampa de um demônio de riso sarcástico: de forma que nos amedrontaste.

De que servia, porém? Sempre tomavas a penetrar com as tuas máximas nos nossos ouvidos e nos nossos corações. De forma que acabamos por dizer: que nos importa a cara dele?

É preciso ouvir aquele que ensina: “Deveis amar a paz como meios de novas guerras, e a breve paz mais do que a prolongada!”

Nunca ninguém pronunciou tão guerreiras palavras: “Que é que é bom? Bom é ser valente. A boa guerra santifica todas as coisas.

Ó! Zaratustra! A estas palavras ferveu nos nossos corpos o sangue dos nossos pais: foram como as palavras da primavera a tonéis de vinhos.

Quando as espadas se cruzavam como serpentes tintas de vermelho, os nossos pais amavam a vida; o sol da paz parecia-lhes brando e tíbio, mas a paz prolongada envergonhava-os.

Como os nossos pais suspiravam quando viam na parede espadas lustrosas e enxutas! Tinham sede de guerra, à semelhança dessas espadas. Que uma espada quer beber sangue e cintila com o seu ardente desejo”.

Quando os reis falaram tão calorosamente da felicidade de seus pais, Zaratustra sentiu grandes tentações de zombar daquele ardor: porque evidentemente eram reis muito pacíficos os que via diante de si, com seus velhos e finos semblantes. Dominou-se, porém. “Vamos! A caminho! — disse — Estais no caminho; lá em cima encontra-se a caverna de Zaratustra; e este dia deve ter uma grande tarde. Agora, porém, chama-me para longe de vós um grito de angústia.

A minha caverna ficará honrada se nela se sentarem reis e se dignarem esperar; verdade é que tereis que esperar muito!

Que importa? Onde se aprende hoje a esperar melhor do que nas cortes? E toda a virtude dos reis, a única que conservaram, não se chama saber esperar?”

Assim falava Zaratustra.

A Sanguessuga

Zaratustra continuou pensativo o seu caminho, descendo cada vez mais, atravessando bosques e passando por diante de lagoas; mas, como sucede a todos que meditam em coisas difíceis, pisou por equívoco um homem. Logo troaram aos seus ouvidos um grito de dor, duas pragas, e vinte injúrias terríveis; assustado, ergueu o bordão e bateu outra vez à pessoa pisada. No mesmo instante, porém, caiu em si, e no seu íntimo pôs-se a rir da loucura que perpetrara.

“Desculpa-me — disse ao homem que havia pisado, o qual se acabava de erguer colérico, para se tornar a sentar em seguida; — desculpa-me e ouve primeiro uma parábola.

Assim como um viandante, que sonha em coisas longínquas por um caminho solitário, tropeça por descuido com um cão que dormita, com um cão deitado ao sol, e ambos se erguem e se encaram repentinamente como mortais inimigos, mortalmente assustados, assim nos sucedeu a nós.

E, todavia... todavia... como faltou pouco para esse solitário e esse cão se afagarem! Não serão ambos solitários!”

“Quem quer que sejas — respondeu enfadado o pisado — ainda te aproximas muito de mim, não só com o pé, como com a tua parábola.

Olha para mim: acaso serei algum cão?” E dizendo isto ergueu-se, tirando do pântano o braço nu. Que ao princípio estava caído ao comprido, oculto e impossível de conhecer, com quem espreita a caça dos pântanos.

“Mas que estás fazendo? — exclamava Zaratustra assustado, porque lhe via correr muito sangue do braço nu. — Que te sucedeu? Mordeu-te algum bicho ruim, infeliz?”

O que sangrava ria, ainda cheio de cólera. “Que tens que ver com isto? — exclamou, querendo prosseguir o caminho. — Estou aqui nos meus domínios. Interrogue-me quem quiser, pois a um nécio é que eu não responderei!”

“Enganas-te — disse Zaratustra, retendo-o, cheio de compaixão — enganas-te: aqui não estás no teu reino, mas no meu, e aqui não deve suceder a ninguém desgraça alguma.

Chama-me sempre o que quiseres — eu sou o que devo ser. — A mim mesmo me chamo Zaratustra.

— Vamos! Lá em cima é o caminho que conduz à caverna de Zaratustra: não está muito longe.

Não queres vir ao meu albergue para curar as feridas?

Não foste feliz neste mundo, desditoso: primeiro mordeu-te o bicho; depois... pisou-te o homem!...”

Quando o homem ouviu, porém, o nome de Zaratustra, transformou-se. “Que me sucedeu? — exclamou. — Quem é que me preocupa ainda na vida senão este homem único, Zaratustra, é o único animal que bebe sangue, a sanguessuga?

Por causa da sanguessuga estava eu ali estendido, à beira do pântano, como um pescador; e já o meu braço estendido fora mordido dez vezes, quando se me pôs a morder o sangue outra sanguessuga mais bela, o próprio Zaratustra.

Ó! ventura! ó! portento! Bendito seja este dia que me trouxe a este pântano! Bendita seja a melhor ventura, a mais forte que vive hoje! Bendita seja a grande sanguessuga das consciências, Zaratustra!”

Assim falava o pisado, e Zaratustra rejubilou com as suas palavras e com a sua aparência fina e respeitosa. E, estendendo-lhe a mão, perguntou: “Quem és? Entre nós ficam muitas coisas por esclarecer e desabafar, mas já me parece nascer o dia puro e luminoso.”

“Eu sou o espírito consciencioso — respondeu o interrogado; e nas coisas do espírito é difícil alguém conduzir-se de forma mais rigorosa do que eu, exceto aquele de quem a aprendi, o próprio Zaratustra.

Antes não saber nada do que saber muitas coisas por metade! Antes ser louco por seu próprio critério, que sábio segundo a opinião dos outros! Eu por mim, vou ao fundo.

Que importa que seja pequeno ou grande, que se chame pântano ou céu? Um pedaço de terra do tamanho da mão me basta, contanto que seja verdadeiramente terra e solo!

Num pedaço de terra do tamanho da mão, pode uma pessoa ter-se de pé. No verdadeiro saber consciencioso nada há grande nem pequeno”.

“Então és talvez aquele que procura conhecer a sanguessuga? — perguntou Zaratustra.

Tu, o consciencioso, escutas a sanguessuga em busca dos seus últimos fundamentos?”

“Ó Zaratustra! — respondeu o pisado: — Isto seria uma monstruosidade! Como me atreveria a intentar semelhante coisa?

O que eu domino e conheço é o cérebro da sanguessuga: é esse o meu universo!

E é também um universo! Perdoa, porém, revelar-se-me aqui o orgulho, porque nesse domínio não tenho semelhante. Por isso disse:

“É este o meu domínio”.

Há quanto tempo persigo esta coisa única, o cérebro da sanguessuga, para que me não escape mais a verdade fugidia. É este o meu reino!

Por isso pus de lado tudo o mais; por isso, tudo o mais se me tornou indiferente; e contígua à minha ciência estende-se a minha negra ignorância.

A minha consciência intelectual exige-me que saiba uma coisa e ignore o restante: estou farto de todas as meia-inteligências, de todos os nebulosos, flutuantes e visionários.

Onde cessa a minha probidade sou cego e quero ser cego. Onde quero saber, todavia, também quero ser probo, isto é, duro, severo, estreito, cruel, implacável.

O que tu dissestes um dia, Zaratustra, “que a inteligência é a vida que esclarifica a própria vida” foi o que me conduziu e me atraiu à tua doutrina. E, na verdade, com o meu próprio sangue acrescentei a minha própria ciência.”

“Como salta à vista”, interrompeu Zaratustra; e o sangue continuava a correr do braço nu do consciencioso, porque se lhe tinham agarrado dez sanguessugas.

“Singular personagem, que ensinamento me dá este espetáculo, quer dizer, tu mesmo!

Eu talvez me não atrevesse a insinuar tudo isso nos teus rigorosos ouvidos.

Vamos! Separemo-nos aqui! Agradar-me-ia, porém, tornar a encontrar-te. Ali em cima está o caminho que conduz à minha caverna.

Lá deves ser esta noite bem-vindo entre os meus hóspedes.

Quereria também reparar, no teu corpo, o haver sido pisado por Zaratustra; nisso penso. Chama-me, porém, para longe de ti um grito de angústia”.

Assim falava Zaratustra.