Contra os Sofistas
[1] Se todos aqueles que intentam educar quisessem dizer a verdade, ao invés de fazer maiores promessas do que as que podem cumprir, não seriam difamados pelos cidadãos comuns. Ao contrário, aqueles que têm a imensa ousadia de se vangloriar disso irrefletidamente, fizeram com que parecessem melhor deliberar os que preferem ser indolentes do que aqueles que se dedicam à filosofia[2].
Ora, primeiramente, quem não odiaria e ao mesmo tempo desprezaria, os que se dedicam à erística[3], os quais fingem buscar a verdade, mas, já no início dos seus ensinamentos, intentam dizer mentiras? [2] Pois creio ser a todos evidente que não é próprio da natureza humana saber de antemão a respeito do futuro, mas estamos de tal modo privados dessa capacidade de conhecimento, que Homero, o sábio de maior reputação, fez com que até mesmo os deuses deliberassem sobre os eventos vindouros[4], ainda que não conhecesse o pensamento deles, mas querendo nos demonstrar que isso é impossível aos homens[5]. [3] De fato, esses homens chegaram a tamanha ousadia a ponto de tentar persuadir os mais jovens de que, se com eles conviverem, saberão fazer aquilo que é devido e se tornarão venturosos por meio desse conhecimento[6]. Além disso, ainda que se portem como professores e autoridades de dons tão preciosos, não se envergonham de cobrar três ou quatro minas por isso[7]! [4] Todavia, se eles vendessem qualquer outro bem[8] por um preço muito inferior a seu valor, não discordariam de que não estariam em seu juízo perfeito; por outro lado, apesar de estimarem tão pouco toda a virtude e felicidade, consideram-se dignos, como se fossem inteligentes[9], de se tornarem professores dos outros. Ademais, afirmam que não precisam de dinheiro, embora chamem de riqueza uma pequena soma de prata ou de ouro; no entanto, aspirando a um pequeno lucro, só não prometem tornar seus alunos[10] imortais. [5] E o mais ridículo de tudo isso é que, de quem é preciso receber um pagamento, aos quais pretendem transmitir a justiça, não lhes dão crédito, enquanto de quem jamais foram professores, exigem as mesmas quantias cobradas de seus discípulos, aconselhando-os em benefício de sua segurança, porém agindo contrariamente àquilo que ensinam. [6] Ora, àqueles que ensinam qualquer outra disciplina, convém pormenorizar a respeito daquilo que está em debate, pois nada impede quem é prodigioso em outras disciplinas de ser desonesto em seus contratos. No entanto, como não seria ilógico que quem produz a virtude e a temperança não confie, sobretudo, em seus discípulos[11]? Pois, sendo eles realmente bons, nobres e justos para com os demais, não enganarão de modo algum os indivíduos em razão dos quais se tornaram exatamente o que são.
[7] Portanto, quando homens comuns, após terem refletido sobre todas essas questões, observam que aqueles que ensinam a sabedoria e transmitem a felicidade carecem de muitas coisas e cobram de seus discípulos uma pequena quantia em dinheiro, e que buscam contradições nos discursos, mas descuidam delas nas ações; e, ainda, [8] que pretendem saber sobre o futuro, mas acerca do presente não são capazes de dizer nem aconselhar o que é preciso fazer; e que são mais coerentes e mais corretos os que fazem uso das opiniões do que aqueles que apregoam deter o conhecimento;[12] naturalmente, penso eu, eles desprezam e consideram que ocupações desse tipo são tagarelice e conversa fiada, e não zelo com a alma.
[9] Não somente esses, mas também os que prometem ensinar discursos políticos[13] merecem ser censurados, pois também não têm compromisso algum com a verdade. Acreditam que sua arte consiste em agregar o maior número de pessoas possível e delas conseguir receber algum lucro, mediante ínfima remuneração e grandiosos ensinamentos. Comportam-se de maneira tão estúpida, pensando que os demais também o fazem, que, embora escrevam discursos piores do que aqueles improvisados por leigos no assunto, prometem mesmo assim tornar seus alunos oradores tais como eles, de modo que nenhuma possibilidade lhes escape nos casos em questão. [10] E, dessa capacidade, nenhum mérito atribuem às experiências nem ao talento do discípulo[14], mas dizem ser capazes de transmitir o conhecimento dos discursos da mesma forma que o da gramática[15]. Eles não examinam cada um minuciosamente, considerando que serão admirados por causa dos exageros de suas promessas, e que o ensinamento dos discursos parecerá de maior valia. Não percebem que quem torna as artes grandiosas não são aqueles que ousam se vangloriar dessas promessas, mas sim quem for capaz de descobrir tudo quanto há em cada arte.
[11] Eu antes preferiria que a filosofia tivesse tamanho poder quanto eles afirmam a ter uma enorme quantia em dinheiro, pois provavelmente nós não teríamos sido tão renegados, nem teríamos aproveitado uma parte insignificante dela[16]. Todavia, visto que não é desse modo que ocorre, eu gostaria de cessar o discurso dos que proferem tais asneiras, pois vejo que as difamações surgem não somente contra quem comete erros, mas que são também caluniados todos os demais que dedicam seu tempo a essa ocupação[17].
[12] Admiro-me quando os vejo considerarem-se dignos de possuir discípulos, não percebendo que tomam como modelo de prática criativa uma arte ordenada[18]. Pois quem não sabe, com exceção deles, que aquilo que se refere à gramática é estável e permanece o mesmo, de modo que seguimos usando as mesmas regras sempre com relação às mesmas coisas, enquanto ocorre totalmente o contrário com aquilo que se refere aos discursos[19]? Pois o que é proferido por alguém não é igualmente útil para quem venha a falar em seguida, mas parece ser o mais artístico aquele que falar com propriedade dos assuntos em questão e for capaz de descobrir outras coisas diferentes daquelas usadas pelos demais. [13] E este é o maior sinal da diferença entre as duas artes: não é possível existir belos discursos sem que eles compartilhem daquilo que é oportuno, conveniente e inovador, ao passo que a gramática não precisa de nada disso. Logo, seria muito mais justo que aqueles que se valem de tais modelos pagassem ao invés de receber dinheiro, porque eles intentam educar os demais, quando na verdade carecem de um cuidado maior.
[14] No entanto, se é preciso não somente acusar os outros, mas também expor a minha própria reflexão, creio que todos os homens sensatos concordariam comigo que muitos dos que se dedicaram à filosofia continuaram sendo homens comuns, ao passo que alguns outros, mesmo sem jamais terem convivido com os sofistas, tornaram-se prodigiosos no discurso e na prática política. Pois a competência discursiva e de todos os outros ofícios se manifesta naqueles que possuem talento natural e praticam a experiência adquirida[20], [15] enquanto a educação[21] os torna mais habilidosos e mais engenhosos na atividade investigativa, pois, quando quer que se encontrem errantes em determinadas situações, ela os ensina a prontamente recuperar aquelas qualidades;[22] por outro lado, com relação aos que possuem um talento inferior, ela não poderia torná-los bons competidores[23] ou compositores de discursos[24], embora pudesse fazê-los progredir e torná-los homens mais inteligentes em muitos assuntos[25].
[16] Já que cheguei até esse ponto, quero falar sobre o tema de maneira ainda mais clara. Afirmo, então, que adquirir o conhecimento dos elementos[26] a partir dos quais proferimos e compomos todos os discursos não é tarefa das mais difíceis em absoluto, desde que o sujeito se entregue não para os que fazem promessas com facilidade, mas para aqueles que conhecem alguma coisa a esse respeito[27]. Todavia, escolher os devidos procedimentos para cada assunto; misturá-los uns aos outros e ordená-los sob um determinado critério; não se equivocar quanto às situações oportunas para usá-los; ornar convenientemente o discurso inteiro com raciocínios lógicos;[28] e proferi-lo melodicamente com palavras bem ritmadas; [17] são esses os pressupostos que precisam de muito empenho e que são tarefa para uma alma viril e opinativa[29]. Ao discípulo, por sua vez, além de possuir o devido talento natural, cabe aprender os procedimentos discursivos e exercitar seu uso[30], enquanto o professor deve ser capaz de explicar com precisão de modo a não deixar de lado nada do que pode ser ensinado, [18] e, por fim, de mostrar-se de tal forma como modelo, que os discípulos, os quais são moldados por ele e possuem a capacidade de imitá-lo, pareçam prontamente mais exuberantes e mais graciosos do que os outros quando discursam. Quando tudo isso confluir, aqueles que se dedicam à filosofia alcançarão a perfeição; porém, se algo do que foi elencado for preterido, os discípulos permanecerão necessariamente inferiores nessa disciplina.
[19] Portanto, dos sofistas que recentemente surgiram e ultimamente têm se dado às charlatanices[31], não obstante hoje cometam exageros, bem sei que todos se inclinarão a essa proposta. Os demais são aqueles que vieram antes de nós e que tiveram a soberba de escrever as chamadas Artes[32], os quais não devemos permitir que fiquem impunes! Eles prometeram ensinar a discursar no tribunal, selecionando as expressões mais grotescas[33], uma prática comum a homens maliciosos, mas não aos defensores desse tipo de educação. [20] Essa disciplina, enquanto ensinável, não pode ser mais útil para os discursos judiciários do que para todos os demais. E eles se tornaram piores do que aqueles que se dedicam à erística:[34] estes, apesar de debater ninharias, temas que podem ser absolutamente maléficos a quem persistir com essas práticas, prometeram, ao menos, a virtude e a temperança acerca de tais assuntos; aqueles, ao contrário, ainda que tenham exortado os discípulos aos discursos políticos, negligenciaram todos os benefícios inerentes ao gênero, portando-se como professores de intromissão e prepotência[35].
[21] Ademais, os que anseiam por obedecer aos preceitos desta filosofia tirariam proveito muito mais rapidamente com relação à idoneidade do que com relação à eloquência[36]. E que ninguém pense que eu afirmo que a justiça pode ser ensinada[37]! Pois considero em absoluto que não há nenhuma espécie de arte que seria capaz de infundir temperança e justiça em quem é por natureza vil com relação à virtude. Penso, porém, que o empenho nos discursos políticos poderia sobretudo instruí-los e ampará-los.
[22] Portanto, para que não pareça que estou massacrando as promessas dos outros e afirmando mais do que me é possível, creio que eu também poderia esclarecer com facilidade aos demais as razões pelas quais eu mesmo estou convencido de que elas assim são[38].
[2]: O termo é fundamental para a compreensão e definição do pensamento isocrático, sobretudo por conta de sua rivalidade com Platão, na disputa que ambos travaram pelo termo. Traduções mais obsoletas dos discursos de Isócrates, seguindo um viés notavelmente platônico, vertem o termo φιλοσοφία, por vezes, em “retórica” (NORLIN, 1929). Sempre que o termo ocorre no autor, porém, não devemos ter em mente nem a ῥητορική (provavelmente) cunhada por Platão em seu diálogo Górgias 448d9 (SCHIAPPA, 1990), nem aquela filosofia entendida como método de conhecimento que nos foi legada pela tradição platônico-aristotélica, mas genericamente como “conhecimento”, “cultura”, “estudo”, “intelectualidade”, ou, mais especificamente, como “educação pelos discursos”. Cf. ISÓCRATES, Antídose 167-214.
[3]: I. e., às disputas verbais dialógicas. Referência à primeira classe de sofistas criticada pelo autor, os erísticos, homens afeitos a discussões em vista da refutação do interlocutor e, por conseguinte, da vitória em um debate. Em Isócrates, os erísticos em nada se diferenciam dos dialéticos (Cf. Antídose 84, 266 e 271 e TOO, 2008, p. 219-20). Platão discute diversos tipos de erísticos em seu diálogo Sofista 225a-226e, e dedica o Eutidemo a uma sátira da pretensa “sabedoria erística” das personagens Eutidemo e Dionisodoro. Cf. MIRHADY & TOO, 2000, p. 62. Tais erísticos podem provavelmente ser Antístenes, Euclides e aqueles da escola de Mégara, aludida também no proêmio do Elogio de Helena do próprio Isócrates. Cf. JEBB, 1876, p. 130-1.
[4]: HOMERO, Ilíada, XVI, 431ss. e 652ss; XXII, 168ss.
[5]: O argumento aqui presente é o de que, se nem mesmo os próprios deuses possuem o conhecimento sobre o futuro, uma vez que, segundo Homero, eles precisam deliberar a seu respeito, muito mais distante, portanto, estão os homens de adquirir esse conhecimento. Aristóteles também faz uso desse argumento na Retórica (1397b12-3), quando elenca o quarto lugar-comum dos entimemas demonstrativos: ἄλλος ἐκ τοῦ μᾶλλον καὶ ἧττον, οἷον “εἰ μηδ' οἱ θεοὶ πάντα ἴσασιν, σχολῇ οἵ γε ἄνθρωποι” (“Outro lugar-comum é o do ‘mais e menos’: por exemplo, ‘se nem mesmo os deuses sabem tudo, menos ainda os homens’”). – Todas as traduções de autores gregos nas notas são de minha própria autoria.
[6]: Possível alusão a filósofos socráticos. Cf. JEBB, 1876, p. 131.
[7]: Uma mina, moeda então corrente, valia cem dracmas. Cf. FLACELIÈRE, 1961, p. 82. A crítica isocrática neste passo reside numa espécie de paradoxo por parte dos erísticos, i.e., eles então cobrariam um valor muito baixo para ensinar um conhecimento supostamente muito valioso.
[8]: O termo κτῆμα não designa somente um objeto material (i.e., uma posse, uma riqueza), mas também uma aquisição de ordem intelectual. Cf. TUCÍDIDES, I, 22, 4 e FLACELIÈRE, 1961, p. 83.
[9]: O termo νοῦς pode possuir diversos significados desde Homero, como “mente”, “alma”, coração”, “prudência”, “inteligência”. A crítica presente nessa passagem é a de que, segundo Isócrates, eles de fato não possuem inteligência para dotar seus alunos de tamanha capacidade.
[10]: O particípio συνόντες designa, mais especificamente, “aqueles que convivem e estão juntos”.
[11]: O mesmo tópico é retomado por Platão no diálogo Górgias 519c-d e 460e.
[12]: O debate sobre o uso da δόξα (“opinião”) versus a aquisição de ἐπιστήμη (“conhecimento”) é certamente um dos pontos centrais de divergência entre Platão e Isócrates. Para o primeiro a δόξα está no âmbito da aparência, sem valor real epistêmico (ἐπιστήμη). Cf. Platão, Fedro 248b-c e 262c. Para o segundo, ao contrário, a moral e a política estão confinadas tão somente ao âmbito da “opinião” – δόξα –, na medida em que não há possibilidade de aquisição de conhecimento relativo ao domínio das ações práticas e, sobretudo, políticas. Segundo Isócrates, é muito mais importante saber opinar nos assuntos de real e importante valor do que adquirir um determinado conhecimento que não possui utilidade alguma. Cf. Isócrates, Elogio de Helena 5, Panegírico 184 e 262 e Para Felipe 9, além do parágrafo 21 deste mesmo Contra os Sofistas. Numa das passagens mais célebres de sua obra, o autor deixa clara a sua posição relativa ao debate: Ἁπλῶς δέ πως τυγχάνω γιγνώσκων περὶ αὐτῶν. Ἐπειδὴ γὰρ οὐκ ἔνεστιν ἐν τῇ φύσει τῇ τῶν ἀνθρώπων ἐπιστήμην λαβεῖν, ἣν ἔχοντες ἂν εἰδεῖμεν ὅ τι πρακτέον ἢ λεκτέον ἐστὶν, ἐκ τῶν λοιπῶν σοφοὺς μὲν νομίζω τοὺς ταῖς δόξαις ἐπιτυγχάνειν ὡς ἐπὶ τὸ πολὺ τοῦ βελτίστου δυναμένους, φιλοσόφους δὲ τοὺς ἐν τούτοις διατρίβοντας, ἐξ ὧν τάχιστα λήψονται τὴν τοιαύτην φρόνησιν. (Isócrates, Antídose 271; grifos nossos). “Minha opinião a esse respeito é muito simples. Uma vez que não é possível à natureza humana adquirir o conhecimento por meio do qual saberíamos o que se deve fazer ou dizer, só me resta considerar sábios, por um lado, aqueles homens que são capazes de, através de opiniões, descobrir na maior parte dos casos aquilo que é melhor, e filósofos, por outro lado, aqueles que se ocupam com aquilo por meio do que adquirirão tal tipo de inteligência o mais rápido possível.”
[13]: A partir desse parágrafo, Isócrates passa a criticar uma segunda classe de sofistas, a dos professores de oratória deliberativa (πολιτικοὺς λόγους). A menção a esses sofistas aparece também em outros discursos, como o Para Nícocles 51 e o Antídose 260.
[14]: Primeira menção de Isócrates ao trinômio “experiência, natureza e conhecimento” (na ordem e com os termos que aqui aparece), o qual será mais adiante explorado enquanto base para sua filosofia. A crítica aqui consiste no fato de que tais sofistas negligenciam a experiência e o talento (οὔτε ταῖς ἐμπειρίαις οὔτε τῇ φύσει) dos discípulos no processo de ensino e aprendizagem oratória.
[15]: I.e., das “letras” (γράμματα).
[16]: Cf. nota 2.
[17]: I.e, à filosofia. Cf. Antídose 168.
[18]: Cf. PLATÃO, Protágoras 326d e ARISTÓTELES, Refutações Sofísticas 183b.
[19]: I.e., aquilo que se refere à gramática está relacionado sempre a regras fixas e estanques. Os discursos (λόγοι), por outro lado, referem-se ao uso pragmático e público dessas letras, num trabalho de esforço criativo, técnico, artístico e dinâmico da língua.
[20]: Isócrates cita esse parágrafo integralmente em seu discurso Para Felipe 194. O autor defende aqui que, ainda que não tenham aprendido o conhecimento dos discursos com os sofistas, muitos alunos tornam-se aptos para a vida política quando possuem, por natureza, habilidade para compor discursos. O trinômio já mencionado é aqui retomado: natureza, conhecimento e prática.
[21]: É possível afirmar que, quando Isócrates se vale do termo παίδευσις, ele de algum modo é equivalente ao que o próprio autor já havia declarado como φιλοσοφία. Cf. FLACELIÈRE, 1961, p. 88.
[22]: Uma ideia similar está presente no início da Retórica de Aristóteles. Cf. MIRHADY & TOO, 2000, p. 64.
[23]: O discurso de Cleão, em Tucídides (III, 37-8), refere-se ao debate verbal como uma competição, uma disputa entre dois interlocutores (ἀγωνιστής).
[24]: Essa expressão (λόγων ποιητὰς) ocorre também no Contra os Sofistas de Alcidamante (I, 4).
[25]: Isócrates reforça que ainda que o aluno não possua uma natureza propensa à arte dos discursos, a educação que propicie o conhecimento e a prática podem fazê-los homens mais inteligentes.
[26]: O campo semântico do termo ἰδέα em Isócrates é amplo, mas sempre em contextos metadiscursivos: “as formas de discurso”, i.e., “os gêneros”, “as figuras”, “os ornamentos”, “os elementos”, “os tipos”, “as classes”, e, especialmente nesta passagem, os “elementos” ou “procedimentos” discursivos, em sentido genérico, referindo-se tanto a gêneros ou ornamentos de que a composição prosaica pode se valer.
[27]: Cf. Elogio de Helena 11, e o questionamento de Sócrates para o jovem Hipócrates, antes que este entregue sua alma aos cuidados de Protágoras (PLATÃO, Protágoras 311a-b).
[28]: Na Retórica de Aristóteles, os “entimemas” (ἐνθυμήματα) são definidos tradicionalmente como “silogismos retóricos”.
[29]: Cf. PLATÃO, Górgias 463a6-8. Nessa passagem, Platão pode estar ridicularizando Isócrates, não aceitando que a retórica seja arte justamente pelos mesmos termos presentes nesse passo do Contra os Sofistas. Sócrates afirma que a retórica só necessita de uma alma hábil em conjecturas (i.e., do campo da δόξα), viril, e que, por natureza seja prodigiosa em lidar com os homens. (Δοκεῖ τοίνυν μοι, ὦ Γοργία, εἶναί τι ἐπιτήδευμα τεχνικὸν μὲν οὔ, ψυχῆς δὲ στοχαστικῆς καὶ ἀνδρείας καὶ φύσει δεινῆς προσομιλεῖν τοῖς ἀνθρώποις·).
[30]: Novamente o autor descreve aqui o trinômio basilar para sua paideia: natureza, educação e experiência. Cf. ISÓCRATES, Antídose, 186-191.
[31]: ἀλαζονεία. O verbo de mesma raiz já havia aparecido no primeiro parágrafo (ἀλαζονεύεσθαι), “vangloriar-se”.
[32]: Tais Artes (τέχναι) são antigos “manuais de retórica”, compostos pelos antigos sofistas do século V a. C. Aristóteles (Retórica I.1 1354b24) também critica as chamadas Artes por concentrarem-se apenas sobre o discurso forense. A partir dos trabalhos de Thomas Cole (1991) e Edward Schiappa (1999), passou-se a considerar que essas antigas τέχναι consistem na verdade em seleções de discursos modelares com finalidade epidítico-demonstrativa, deixando de lado a noção de “manuais teóricos” até então aceita pela crítica. Os primeiros escritores das Artes são Córax de Siracusa e seu pupilo Tísias. Especula-se que sofistas como Antifonte, Górgias, Trasímaco e Polo, mais próximos historicamente de Isócrates, também tenham composto τέχναι do gênero. Cf. JEBB, 1876, p. 132-3.
[33]: Talvez Isócrates possa ter em mente os termos criticados por Platão no Fedro 266e-267a. Cf. MIRHADY & TOO, 2000, p. 65.
[34]: Isócrates retoma os sofistas erísticos – criticados dos parágrafos 1 a 8 – para compará-los aqui aos autores de tais Artes.
[35]: Mesma crítica presente em Aristóteles, Retórica 1368b-1369b.
[36]: Essa proposição, de certo modo categórica, revela decisivamente a maior preocupação de Isócrates, i.e, a questão moral envolvida no processo pedagógico. Ao longo do Contra os Sofistas, o autor nos advertiu que seu método de ensino é diferente daquele proposto pelos sofistas criticados por ele, definido sua paideia, enfim, como “filosofia”. Isócrates, portanto, não se propõe a ensinar somente uma correta prática de discursos em sentido técnico, em resposta aos sofistas que ensinam os discursos políticos – criticados entre os parágrafos 9 e 14 – , mas sobretudo a aprimorar moralmente o discípulo, em resposta aos que se dedicam às disputas verbais – os erísticos censurados entre os parágrafos 1 e 8, os quais não estão comprometidos com a verdade e visam apenas a vitória em um debate. É nesse sentido que o autor contrasta os termos ἐπιείκεια (“idoneidade”) e ῥητορεία (“eloquência”), demonstrando que sua maior preocupação educacional reside antes na moral envolvida na prática oratória do que em seus aspectos pragmáticos. Vale salientar que ῥητορεία é aqui um termo genérico, o qual se refere às habilidades técnicas oratórias do cidadão que bem discursa em público, e não deve ser confundido com a ῥητορική possivelmente cunhada por Platão no diálogo Górgias para se referir a uma específica disciplina ensinada pelos sofistas. Cf. SCHIAPPA, 1999, p. 155-61.
[37]: A questão sobre a possibilidade de ensino de δικαιοσύνη (“justiça”) aparece muitas vezes em Platão. Cf. sobretudo o diálogo Protágoras (328d) e o Mênon. A posição de Isócrates quanto ao problema é mais clara no discurso Antídose 271. Cf. nota 12.
[38]: O discurso termina de maneira brusca, e seus manuscritos e edições sugerem que o texto de que dispomos seja fragmentário, i.e., com a provável perda do restante dele a partir daí. Cf. DRERUP, 1906, p. 65. Nesse sentido, conjectura-se que o Contra os Sofistas possivelmente não acabasse nesse ponto, pois Isócrates parece introduzir uma nova parte do discurso e que, em seguida, explanaria melhor a respeito de sua própria paideia (“...creio que eu também poderia esclarecer com facilidade aos demais as razões...”;...ῥᾳδίως οἶμαι καὶ τοῖς ἄλλοις φανερὸν καταστήσειν.), abandonando o tom crítico inicial, conforme sugere a sentença introduzida pela expressão “Ἵνα δὲ μὴ δοκῶ” no início do parágrafo. Cf. o uso da mesma fórmula no Elogio de Helena 15 e no Evágoras 9, momentos em que Isócrates também transita, justamente no fim do proêmio, da invectiva para o encômio. Por outro lado, visto que o Contra os Sofistas é quase sempre definido como uma espécie de “manifesto”, talvez com o objetivo de trazer jovens discípulos para sua (nova) escola, Isócrates pode ter de fato concluído aqui o discurso, deixando em suspenso os pormenores de sua filosofia, talvez para, a partir daí, expor oralmente seus ensinamentos em suas “aulas”. Cf. TOO, 1995, p. 151-99, e CAHN, 1989, p. 121-144.